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Primeiro comem as crianças, depois comem os pais

por João Miguel Tavares, em 21.10.14

Embora eu já tenha tido épocas com jantares agradáveis, a actual fase dos miúdos tem transformado as nossas refeições nocturnas num compêndio de resmungos, gritos e birras, que me anda a irritar sobremaneira. Não só tem sido altamente complicado conversarmos uns com os outros, como eu passo a refeição inteira a dizer "come!", "cala-te!", "fala um de cada vez!", "estás-te a sujar!", "como é possível que a colher tenha caído outra vez para o chão?!?", "sim, tens de comer as ervilhas!", "não, não podes comer gelado!", num tal frenesim de berraria que me apetece passar directamente da mesa para a cama.

 

Então, dei por mim a pensar no saudoso tempo em que os miúdos comiam primeiro e os pais jantavam depois - pensamento que desconfio ser muito politicamente incorrecto, mais típico de um tempo em que eram as criadas que alimentavam as crianças na cozinha para depois servirem os patrões na sala. Não é a esse tempo que quero voltar, obviamente, mas tenho conversado com a Teresa (sem sucesso) acerca da hipótese de durante a semana eles comerem antes de nós, para tudo ser mais rápido e para que consigamos ter ali cerca de uma hora, uma hora e meia, antes de os miúdos irem para a cama, de algum tempo de qualidade. A ideia era conseguirmos conversar sobre outra coisa que não regras para estar à mesa, ou para simplesmente vermos um filme em família.

 

Talheres misturados com a conversa não está a resultar, porque eles são muitos e estão em idades muito diferentes. O ritmo de chegar a casa, dar banho, ter um jantar aos gritos e enfiá-los na cama é um concentrado de stress que não se aconselha a ninguém. Claro que eu conheço toda a bela mitologia do jantar em família, só que as refeições na minha casa não andam nada parecidas com as dos filmes de Hollywood. Em vez de tempo de qualidade, andamos a ter tempo de irritabilidade.

 

Daí me ter lembrado de vir para aqui perguntar: há alguém por aí que jante, por opção, separado dos miúdos? E resulta? E aquelas famílias que jantam juntas durante a semana, estão na posse de algum segredo para terem uma refeição calma, sem que nunca vos apeteça enfiar um garfo na língua do puto de seis anos?

 

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publicado às 10:32


Um marido obcecado pelo futebol

por João Miguel Tavares, em 21.10.14

Uma excelente piada, recebida logo pela manhã. E particularmente adequada em mais um dia de Liga dos Campeões:

 

- Amor, acho que andas meio obcecado com o futebol... Fazes-me falta.
 
- Falta? Eu nem te toquei.
 
 
Ah, ah, ah. Muito bom. Adoro.
 
 

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publicado às 10:01


O amor seria menos intenso se não tivéssemos filhos? #3

por João Miguel Tavares, em 20.10.14

E depois de um longo intervalo para falar de métodos naturais, preservativos e , eis a prometida conclusão da resposta à leitora Ines (partes anteriores aqui e aqui), acerca da minha relação com a paternidade. A última questão por ela colocada era esta:

 

Teve filhos só porque a Teresa queria? E vive uma vida completamente contrariado? Vezes quatro?

 

E, de certa maneira, quase não precisava de responder, porque a Mara se encarregou de o fazer num dos comentários, contando a sua própria história de vida:

 

Quando conheci o meu marido disse-lhe logo que queria ter filhos cedo (bem antes dos 30) e que queria ter "muitos" (sendo que muitos era, no mínimo, três). Ele nunca quis especialmente ter filhos. Sempre disse, como o João, que é muito feliz apenas com livros, música e internet. Curiosamente, eu também, mas sempre senti que viveria uma vida incompleta se não tivesse filhos.

 

Por isso, na realidade, ele teve filhos porque eu quis. E teve quatro! Adora-os de paixão, mas sei que concordou com tê-los, antes de mais nada, para me fazer feliz a mim. Por isso, cada um deles é uma prova de amor.


Não percebo a dificuldade em compreender isto, que acho que é o que o João também tem dito nos últimos posts. Quando se ama, faz-se cedências em nome do outro. Da vida do outro, da sua felicidade. Eu também não vivo na cidade que escolheria sozinha, nem na casa com quintal nos arredores que adoraria, porque sei que ele é mais feliz num apartamento central, com café e quiosque ao virar da esquina. A vida que construímos a dois não pode ser igual à que teríamos sozinhos. Por isso agora somos 6, e somos muito felizes. Daqui a uns anos seremos outra vez só dois, e ainda teremos várias décadas para gozar isso.

 

É muito isso, e fico feliz por alguém o perceber. Embora eu e a Teresa sempre tevéssemos dito, deste o princípio da nossa relação, que queríamos ter três filhos, eu sempre achei que não era uma daquelas conversas para levar demasiado a sério. Eu, porque se não os tivesse não os tinha; ela, porque se não fossem três eram quatro. Já perceberam quem ganhou, claro.

 

Eu não tive filhos só porque a Teresa os queria. Mas acabei por os ir tendo porque a Teresa os foi querendo e eu nunca quis não os ter. É uma daquelas atitudes de passividade activa muito típicas dos homens. Não estava contra. Nem a favor. Votava em branco - e fui acatando as decisões do governo caseiro, mesmo que o governo caseiro argumente que nunca quis decidir nada e que as coisas foram simplesmente acontecendo.

 

Quanto a levar uma vida completamente contrariado, questão sempre sensível e complexa, isso é capaz de ter um certo fundo de verdade, desde que retiremos o "completamente". Eu sou um grande fã do "Estou Além" do António Variações:

 

 

Isto sou eu. Na verdade, somos quase todos nós:

 

Esta insatisfação

Não consigo compreender

Sempre esta sensação

Que estou a perder

Tenho pressa de sair

Quero sentir ao chegar

Vontade de partir

P'ra outro lugar

 

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar

Porque até aqui eu só

 

Estou bem

Aonde não estou

Porque eu só quero ir

Aonde eu não vou

Porque eu só estou bem

Aonde não estou

 

E já que estamos em maré musical, levem também com uma das mais belas canções da história da música portuguesa. Chama-se "Inquietação", é de José Mário Branco, e também me parece perfeita neste contexto:

 

 

Isto sou eu. Na verdade, somos quase todos nós:

 

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda

 

Cá dentro inquietação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Mas sei

É que não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer

Qualquer coisa que eu devia resolver

Porquê, não sei

Mas sei

Que essa coisa é que é linda.

 

O facto de eu me considerar uma pessoa muito feliz e com imensa sorte não significa que seja uma pessoa satisfeita ou completamente realizada. Tenho a certeza que a excelentíssima esposa sente o mesmo, ainda que possa ter mais dificuldades em admiti-lo. E por isso, quando os filhos ocupam uma fatia tão grande das nossas vidas, é normal que sintamos que a inquietação e a vontade de estar além esteja intimamente ligada a eles.

 

Eu acho que vivemos tempos desequilibrados, em que estamos todos a viver demasiado em função dos miúdos - o que potencia a angústia nos momentos de cansaço. Mas, para voltar à questão inicial que deu origem a esta sequência de posts, os meus filhos são o fruto de um amor, e não os consigo conceber sem a Teresa. Sinto de tal forma essa comunhão que detesto quando na escola lhes chamam Carolina Tavares ou Tomás Tavares. Não, não, não. É Carolina Mendonça Tavares e Tomás Mendonça Tavares. Sem nós - eu, ela, os dois - eles não existiam. E sem a Teresa nada disto faria sentido.

 

E para não acabar em tom demasiado melancólico, aqui vai uma samba de Zeca Pagodinho, num resumo perfeito da atitude que desejo ter perante a vida. No final do dia, quero acreditar que tudo se resume a isto, até porque o sotaque brasileiro vem sempre com um suplemento festivo que nos faz muito bem à alma. Chama-se "Deixa a Vida Me Levar":

 

 

Nisto acredito eu. Na verdade, nisto acreditamos quase todos nós:

 

Só posso levantar as mãos pro céu

Agradecer e ser fiel

Ao destino que Deus me deu

Se não tenho tudo que preciso

Com o que tenho, vivo

De mansinho lá vou eu

 

Se a coisa não sai do jeito que eu quero

Também não me desespero

O negócio é deixar rolar

E aos trancos e barrancos, lá vou eu!

E sou feliz e agradeço

Por tudo que Deus me deu

 

E deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Sou feliz e agradeço

Por tudo que Deus me deu

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publicado às 10:30


Menu da semana (sem teologia à mistura)

por João Miguel Tavares, em 20.10.14

Bom, acho que a maior parte dos leitores já encheu a barriga de discussões teológicas na semana passada, e vou poupá-los a nova dose. Houve gente que me deixou perguntas muito interessantes nas caixas de comentários, às quais gostaria de responder, mas permitam-me agora fazer um período sabático em termos de debate religioso, até porque esse nunca foi o tema do PD4.

 

Chamo apenas a atenção para dois textos que a Maria João Marques escreveu sobre o tema no blogue O Insurgente (aqui e aqui), que têm tanto mais graça quanto nós fomos colegas de CPM nos idos de 2001, nos tempos em que ambos frequentávamos o CUPAV, ali no Lumiar. Éramos jovens, solteiros, loucos e sem filhos - mas hoje em dia estamos todos muito mais giros e interessantes.

 

Já de seguida, há uma prometida conclusão a uma conversa que ficou a meio. Ela ainda virá em tom melancólico, porque está escrita desde a semana passada, faltando-lhe aquele humor que alguns leitores já reclamam. Peço desculpa por isso e prometo ir tentar amanhã vasculhar álbuns de casamentos russos, para desanuviar. Afinal, todos nós sentimos saudades disto:

 

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publicado às 09:48


Sobre a agressividade

por João Miguel Tavares, em 17.10.14

Deixem-me só dizer uma palavrinha sobre a agressividade argumentativa e a forma como eu a encaro, já que hoje a Teresa Power e o João Miranda Santos voltaram a queixar-se disso.

 

Escreveu a Teresa:

 

Enquanto se ler o meu primeiro comentário como se fosse um post, e não se ler como comentário a um post, e portanto intimamente relacionado com um post, post esse que ridicularizava a posição da Igreja e a posição dos pobres católicos (um em cada dez) que a seguia, então faz sentido apelidar-me de todos os nomes que me chamaram até agora. Mas eu escrevi na sequência de um post bastante agressivo, e portanto procurei explicar, em termos propositadamente agressivos também, porque é a posição da igreja tão séria neste assunto. Enfim, podem continuar a atacar e a deixar impune quem fala com tanta ligeireza destas coisas. Não há problema!

 

Concordou o João:

 

Nisto tenho mesmo de concordar e apoiar a Teresa Power, a agressividade começou e está bem patente na forma como o JMT falou da Humanae Vitae e dos católicos que a seguem. Nós reagimos, com certeza, acho que temos o direito de sair em defesa da nossa "família"!

 

Passemos por cima do facto de eu achar que a minha "família" é a mesma que a do João, e recuperemos os meus argumentos do post inicial, que deu origem a este muito útil e instrutivo debate:

 

Mesmo os católicos ignoram olimpicamente as directrizes da Igreja em relação aos anticoncepcionais, e eu não tenho dúvidas em classificar a famosa encíclica Humanae Vitae (1968) e a sua visão da regulação da natalidade como um momento muito infeliz na história da Igreja. Espero que essa visão venha a mudar brevemente, porque nove em dez católicos não conseguem sequer perceber - porque, simplesmente, não se percebe - por que raio a utilização de um preservativo interfere na sua relação com Deus.

 

Foi este parágrafo, apelidado de "bastante agressivo", que deu origem a um comentário, que ela própria também já classificou como "em termos propositadamente agressivos", da Teresa Power, cuja primeira frase era:

 

Podes usar as pílulas e os preservativos que quiseres, desde que não estejas a chamar à tua relação um espelho da relação entre Cristo e a Igreja, ou seja, um sacramento.

 

Neste post, eu chamei a esta frase uma entrada "a pés juntos". Mas acrescentei: "eu não sou queixinhas".

 

E não sou mesmo queixinhas, por uma razão muito simples: eu ganho a minha vida a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, e nunca o fiz, nem aqui nem nos jornais, com paninhos quentes e mãos de veludo. Adoro debates, contra-argumentos, contraditórios, sempre gostei, desde criança. Da mesma forma que correr me faz bem ao corpo, discutir faz-me bem à cabeça.

 

Por isso, tenho uma enorme tolerância em relação a posts que discordam de mim, modero os comentários ao mínimo e adoro debates musculados - eles são uma tradução desse extraordinário bem chamado liberdade de expressão.

 

Em momento algum eu me senti ofendido com as observações da Teresa Power ou do João Miranda Santos. Mas agradecia, por amor de Deus, porque não acho que seja pedir muito, que subitamente não me transformem a mim no ofensor dos católicos que praticam os métodos naturais, ok?

 

Caro João: em momento algum eu fui agressivo para com os católicos que recusam a contracepção. Dizer que que nove em dez católicos não percebem por que raio a utilização de um preservativo interfere na sua relação com Deus, e que eu não atinjo os argumentos que defendem essa posição, não significa que quem utiliza os métodos naturais mereça alguma crítica da minha parte por essa prática.

 

A diferença entre nós é muito simples: eu acho que a questão da contracepção está fora da revelação bíblica e acho que tem tanta importância na minha relação com Deus como eu comer à mesa com pratos do IKEA ou da Vista Alegre. O João acha que a minha concepção de contracepção diminui, efectivamente, a perfeição da minha relação com Deus.

 

Embora muitas críticas à vossa intolerância me pareçam descabidas, e daí ter dado voz às queixas da Teresa, elas são compreensíveis dentro de uma mera perspectiva lógica, que podemos resumir desta forma: eu não acho (de um modo geral) que quem utiliza os métodos naturais seja prejudicado na sua relação com Deus, você acha (de um modo geral) que quem não utiliza os métodos naturais é prejudicado na sua relação com Deus. Portanto, é óbvio que a sua posição é mais limitadora de um determinado agir - daí alguns lhe chamarem, ainda que abusivamente, intolerância. Não é difícil perceber isso.

 

Tal como não é difícil, cara Teresa, perceber porque é que tanta gente te achou mais agressiva do que eu. Também é muito simples: eu fiz uma crítica abstracta à Igreja - ou, para ser mais correcto, à posição oficial do Vaticano sobre esta matéria, porque como dirás tu, e bem, Igreja somos todos nós - e tu rebateste-a com uma crítica concreta à minha relação, dizendo que não lhe posso chamar "um sacramento". Foi isso que chocou muitas pessoas, que obviamente sentem que existem diferenças entre o geral e o particular.

 

Como já disse anteriormente, eu sou muito, muito difícil de ofender. Sempre fugi a sete pés de pessoas susceptíveis, daquelas junto às quais temos de andar cuidadosamente a policiar as palavras, a ver se não amuam. Mais do que isso: sem esperar que qualquer um de nós mudasse a sua posição inicial, como referi aqui, o teu comentário musculado permitiu um debate que me pareceu frutuoso para muita gente e deu-me oportunidade para eu falar da minha própria fé, uma promessa antiga mas sempre adiada. Agradeço-te por isso.

 

Peço, contudo, tanto ao João como à Teresa, que de repente não tomem para vocês um papel de perseguidos e de ofendidos. Diante daquilo que aqui foi dito, parece-me uma posição francamente deslocada.

 

Num outro comentário, a Guida utilizou uma expressão que me parece de um acantonamento impróprio do espírito do catolicismo. Escreveu ela:

 

Só deve seguir as orientações da Igreja quem está dentro dela, pelo que não entendo porque é que tanta gente que se diz ateia está preocupada e até indignada com o que a Igreja pensa sobre o assunto...

 

Lamento, Guida, mas não posso estar mais em desacordo. A Igreja tem uma vocação universal e não pretendeu nunca falar apenas para dentro dela. Despachar as críticas aos métodos naturais com um "mas o que é que vocês têm a ver com isso se não pertencem à Igreja?" não é apenas um afastamento em relação a um espírito missionário que se recusa a pregar apenas para os convertidos - é, também, um caminho muitíssimo perigoso para trilhar. Será que utilizarias esse argumento, por exemplo, em relação ao aborto? Parece-me evidente que não.

 

As pessoas aderem ou não aderem àquilo que defendemos, mas os argumentos não têm de ser debatidos apenas por membros do clube.

 

E se eu escrevi ainda mais este post, que já não planeava escrever, é porque, aos poucos, me foi ficando uma certa sensação de defesa do meu quadrado - se estão de fora, não se metam; se o ambiente está muito agressivo, então não quero estar aqui.

 

Os primeiros apóstolos morreram crucificados, apedrejados, queimados. Será que hoje em dia, nós, católicos, para defendermos as nossas convicções, já nem sequer aguentamos comentários discordantes ou mais ou menos desagradáveis nas redes sociais? Se assim for, eu diria, muito sinceramente, que alguma coisa de fundamental se perdeu pelo caminho.

 

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publicado às 15:11


Deus e o planeamento familiar

por Teresa Mendonça, em 17.10.14

Depois de me dar conta da cavalgada retórica e espiritual a que se assistiu neste blogue no dia de ontem, não podia deixar de vir aqui dar a minha opinião como segunda metade do casal cuja compostura sacramental foi posta em causa. Antes de mais, deixem-me dizer-vos que tenho pena de não ter pedalada para acompanhar o decorrer das discussões interessantes que se geram neste blogue. Imagino até que por vezes pareça leviano deixar de o fazer. Mas a minha vida profissional não me permite andar a tratar da vida das pessoas com os neurónios cansados por noitadas ao computador, descontando as que por obrigações familiares e profissionais me são impostas.

 

Contudo, tenho algumas coisas a dizer. Comecemos pelos métodos anticonceptivos naturais, que foram aqui ridicularizados e elogiados. Factos são factos, e nem sempre o que anda na boca de toda a gente é verdade. Há vários métodos chamados naturais, com eficácias muito diferentes. O método da ovulação Billings (lamento contrariar a maioria das pessoas) é tão eficaz na prevenção de uma gravidez como a pílula, desde que seja escrupulosamente cumprido e em mulheres em que possa ser aplicado.

 

Isto é válido para a grande maioria das mulheres que têm ciclos "irregulares" e até para pessoas iletradas ou cegas. Há estudos fidedignos, controlados pela World Health Organisation, que assim o confirmam. E é preciso entender que este método não serve só para evitar uma gravidez, mas também para ajudar mulheres a engravidar e a cuidar da sua saúde ginecológica e endocrinológica. Acho, muito sinceramente, que deveria ser ensinado nas escolas para que todas as meninas pudessem entender melhor os seus ritmos fisiológicos e identificar sinais de alarme na sua saúde futura.

 

Dito isto, urge explicar então o grande busílis do método - as regras altamente rigorosas que é preciso cumprir se o queremos usar para prevenir uma gravidez. Em traços muito grosseiros:

 

1) Não pode haver actividade sexual nos dias de maior fluxo menstrual.

 

2) Desde a menstruação até à identificação do "pico de fertilidade" (que precede em menos de 24 horas a ovulação) a actividade sexual tem que ser praticada em dias alternados, para o sémen não mascarar as características do muco.

 

3) Depois do pico identificado devem ser cumpridos três dias de abstinência.

 

4) A partir do quarto dia até ao próximo fluxo menstrual não há qualquer restrição na actividade sexual.

 

Pessoalmente, acho óptimo que haja imensos casais felizes que conseguem controlar a sua fertilidade com este método e parece-me completamente lógico que ele (e não o dos calendários ou das temperaturas isoladamente) faça parte da orientação da Igreja para a vida sexual dos casais católicos. Mas falo em orientação. Não em imposição.

 

Isto porque há imensos casos em que este método não pode ser aplicado eficaz e salutarmente por múltiplas e variadas razões. É bem verdade que a grande maioria das pessoas usa a desculpa dos ciclos irregulares para nem sequer tentar. É bem verdade que é muito mais fácil tomar um comprimido ou levar uma injecção mensalmente para conseguir viver uma vida sexual descontraída. É bem verdade que o valor da renúncia não é universal.

 

Mas não vejo como a Igreja deva impor (para dar dois ou três exemplos) a um casal que está a viver o drama de um cancro na sua vida, em que um deles está a fazer quimioterapia ou algum medicamento teratogénico e que por isso não pode engravidar, que não pode manter a vida sexual que a sua reduzida líbido lhe permitir e que tão bem lhe fará ao corpo e à alma. Nem como um casal que trabalha por turnos e que raramente se encontra entre os lençóis deva sentir o peso de estar a cometer um pecado quando o cansaço e o horário lhes permite fazer amor. Nem como pessoas que vivem em contextos sociais complicados, com dificuldades em entender a mensagem que lhes é transmitida, não poderão controlar a sua própria fecundidade sob pena de não serem aceites pela sua comunidade. Para mim, não é nada disto que o Deus Amor quer.

 

É claro que a pílula é um medicamento, e como tal serve, para além de anticonceptivo, para tratar muitas mulheres. É claro que não deve ser tomada por períodos muito longos e se isso acontece em geral está errada a abordagem médica subjacente. É claro que os efeitos secundários devem ser ponderados e evitados/ tratados. Mas há muitas situações, sim, em que a toma da pílula é recomendável.

 

Falou-se aqui de preservativos e como eles podem não ser um método eficaz em determinados contextos para evitar DSTs. Claro que sim. Nunca me esqueço, quando estive a trabalhar em Cabo Verde depois de acabar o curso de Medicina, de me aparecer na Delegacia de Saúde um homem zangado por ter feito como lhe recomendaram, usando o preservativo sempre que teve relações, e estar novamente com gonorreia. Foi uma situação anedótica: o homem vinha com o preservativo no dedo, e fora assim que o tinha usado durante as relações sexuais, tal como a higienista lhe tinha explicado.

 

Há muita dificuldade em transmitir informação por múltiplas e variadas razões, mas a utilização do preservativo já evitou incontáveis mortes por doença e há situações em que não existe alternativa. E a Igreja deve carimbar de pecador esses homens? Por favor. É claro que ainda temos muito caminho a percorrer até que cada pessoa neste mundo possa escolher responsável e livremente a sua vida sexual e a sua fertilidade, mas devemos dar um passo de cada vez, protegendo sempre (e para mim incondicionalmente) a vida humana.

 

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publicado às 06:39
editado por João Miguel Tavares às 15:09


Sobre a tolerância

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

A Teresa Power faz uma observação pertinente sobre a tolerância nos comentários a este post:

 

João, um pequeno - mas importante - comentário sobre algo que me está a irritar: o tema da tolerância. Se um ateu ou um "católico ateu" diz algumas coisas com tom de certeza e, como tu próprio bem sabes, sem qualquer intenção de mudar de ideias, ninguém lhe chama intolerante. Se um católico "conservador" ou lá o que isso seja diz de sua justiça no mesmo tom, já é considerado intolerante.

 

Queria apenas esclarecer isto: a intolerância ou a tolerância testam-se na vida, e se alguém aí me viu alguma vez com atitudes intolerantes, então tem toda a razão em afirmar que o sou. Até lá, não dei a ninguém o direito de me chamar intolerante. Sou muito segura das minhas ideias e muito convencida da minha verdade? Sim, sou, de algumas, que outras estão em contínua mudança e, como já afirmei aqui, o que penso hoje não pensei sempre, o que faço hoje não fiz sempre. Mudo de opinião muitas e muitas vezes na minha vida, graças a Deus. Mas não sou intolerante.

 

Nunca julgaria ninguém pelo tipo de método que utiliza - aliás, nunca o perguntei a ninguém, nem diretamente, nem indiretamente - e nunca julgaria ninguém pela sua religião ou outra opção de vida. Como sabes, os retiros que organizo estão abertos a ateus e a pessoas de outros credos, e os meus amigos contam-se entre todos estes. Haja paciência!

 

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publicado às 21:09


O meu catolicismo (e os argumentos de autoridade)

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

Nos comentários a este post, o João Miranda Santos levanta mais uma série que questões que merecem uma explicação da minha parte. Eis a segunda metade da sua argumentação:

 

É verdade que não sei muito a respeito da vida religiosa do JMT (prometeu falar disso mas ainda não chegou a hora), mas pelo menos já sei que para si rezar sempre foi embater no silêncio, e que a sua fé tem a espessura de um fio de cabelo. Também não percebi se se identificou aqui como católico progressista (seja lá isso o que for), o que implicava assumir-se como católico.

Ora, os católicos acreditam que quando um sucessor de Pedro se pronuncia numa encíclica, o que ali se diz é mais do que uma conversa de café, é mais do que um qualquer comentário a um jogo de futebol. Por isso eu entendo que o facto de o JMT classificar a Humanae Vitae como um momento muito infeliz da história da Igreja é de uma grande arrogância, se se assumir como católico. Se não se assumir, então é jogar completamente fora de campo...

O JMT tem direito à sua opinião e às suas convicções, claro que sim. Mas quando se trata de atirar por terra uma encíclica, e ainda para mais quando se reconhece a delicadeza da sua fé e a dificuldade da oração (presumindo que isto signifique dificuldade na relação com Deus), acho que a Igreja, com a qual já tem uma longa relação, lhe merecia mais prudência. Isto sem por em causa a seriedade e o quanto já pensou sobre o tema.

Ou seja, sem o querer ofender, neste campo eu não olho da mesma forma para uma discordância sua como olharia se fosse da Teresa Power (só para usar um exemplo próximo e que o JMT conhece o suficiente para perceber a diferença a que me refiro), na prática é como se não tivessem a mesma "informação".

 

Muito brevemente: a minha relação com a fé sempre foi conturbada. Não tive propriamente uma educação católica, os meus pais não eram católicos praticantes na minha juventude, e devo ter tido para aí uma ou duas aulas de catequese. Mas o tema de Deus sempre me interessou, desde muito cedo, e discuti-o com fervor a partir dos meus 13 anos. Nessa altura eu afirmava-me como ateu, e suponho que ainda hoje me considere estruturalmente como tal, no sentido em que sou como Tomé mas não tenho um mão furada onde meter o dedo.

 

A partir do nono ou décimo ano tive um professor de moral que me marcou muito, passei a ler bastante sobre temas religiosos, descobri Taizé, que continua a ser uma referência espiritual para mim, envolvi-me em grupos de jovens, aprendi a tocar guitarra, comecei a participar nos Convívios Fraternos por causa de um padre de Proença-a-Nova que é muito importante nas nossas vida (na minha, na da Teresa e também na da Teresa Power), e aos poucos iniciou-se um processo de conversão. Fiz a primeira comunhão e o crisma já adulto, comecei a dar testemunho nos Convívios, construímos uma CVX (um grupo de reflexão que segue a espiritualidade inaciana) em Lisboa.

 

As dúvidas regressaram pouco tempo depois de começar a trabalhar - na verdade, nunca deixaram de lá estar. Abandonei os Convívios, porque me sentia hipócrita a apelar à conversão de outros quando a minha própria fé não tinha a convicção que eu julgava necessária para isso. Com o final da CVX deixei de ter uma comunidade de reflexão, e o final do papado de João Paulo II, mais os subsequentes escândalos de pedofilia, foram também pondo em causa a minha relação com a Igreja, da qual me fui sentindo cada vez mais afastado.

 

No entanto, o fascínio pelos Evangelhos sempre permaneceu intocado, desde o primeiro dia. Na verdade, é um fascínio sempre renovado, e acho que o nascimento dos filhos também ajudou a isso. A minha primeira aproximação à fé foi feita pelo lado da estética - aquilo era tão belo que deveria ter alguma verdade. Mas, com o envelhecimento e a paternidade, a dimensão ética tem vindo a ganhar peso - há ali tanta bondade que aquilo deve ter alguma verdade.

 

Mesmo que as dúvidas nunca diminuam, e a existência de um Ser Superior me pareça frequentemente inconcebível, desconfio que eu vá passar a vida toda neste bailado de aproximação e afastamento. Um bailado que é próprio de quem procura ser fiel a si próprio e à sua consciência, que lhe diz "Ele não existe", mas eternamente fascinado, como as mariposas (e as melgas), por uma misteriosa luz que lhe diz "anda cá".

 

Já me auto-intitulei, meio a sério, meio a brincar, como um "católico ateu". Depois descobri que Graham Greene chamou-se exactamente o mesmo a si próprio. O que significa que estou em excelente companhia. 

 

Assim sendo, e voltando ao comentário do João Miranda Santos, mesmo imerso na minha titubeante fé, sempre senti a Igreja como minha, e entre os numerosos defeitos da Igreja Católica há esta extraordinária qualidade: na prática, ela é um lugar de acolhimento, e não de expulsão. Os seus braços estão lá para abraçar, e não para empurrar - e graças a Deus hoje em dia está lá um papa que diz isso mesmo.

 

Daí eu nunca questionar a minha legitimidade para opinar sobre teologia ou encíclicas. Para mais estando a falar de uma religião que se formou, e propagou, junto dos gentios. Para mais estando a falar de um homem que disse ao ladrão que tinha ao seu lado, momentos antes de expirar, "ainda hoje estarás comigo no Paraíso" - o que significa que há a esperança da redenção até ao último suspiro. Para mais estando a falar de um homem, filho de Deus, que gritou na cruz: "meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", o que ainda hoje me comove e me fortalece - se ele próprio sentiu o abandono e ficou, por que não hei-de eu senti-lo e ficar?

 

Por isso, vou ficando.

 

E por isso, também, vou opinando. Quando o João diz que "os católicos acreditam que quando um sucessor de Pedro se pronuncia numa encíclica, o que ali se diz é mais do que uma conversa de café", eu faço notar que, para mim, a Humanae Vitae é muito mais do que uma conversa de café, e nunca a tratei como tal. Se fosse apenas conversa de café ela não seria tão grave.

 

O que já me parece indefensável é esta conclusão: "classificar a Humanae Vitae como um momento muito infeliz da história da Igreja é de uma grande arrogância, se se assumir como católico". Certamente que o João não precisa que eu lhe comece a fazer uma lista das coisas que foram defendidas em documentos ao longo da história da Igreja, e que nós hoje consideramos uma barbaridade, pois não? Se a encíclica tiver 200 anos podemos dizer "realmente, que estupidez!", mas se tiver 45 anos já não?

 

Aquilo que não é nada católico, e muitas vezes os católicos parecem esquecer-se disso, é colocar os textos do Vaticano ao nível da Bíblia, numa quase equivalência sagrada. Do género: "se acreditas nisto, então obviamente também tens de acreditar naquilo". Não, não tenho. É por isso que a Bíblia permanece como está há tantos séculos e os catecismos vão mudando de tempos a tempos.

 

Qualquer encíclica deve ser olhada com a mesma seriedade com que foi escrita, certamente, mas não devemos fazer dela um bezerro de ouro, ou forçar a nossa consciência e a nossa inteligência a aderir a um documento que, para nós, não faz qualquer sentido. O papa não é Deus, e os últimos papas até têm tido a simpatia de não invocar o problemático dom da infalibilidade.

 

É evidente que o João tem todo o direito de não olhar da mesma forma para uma discordância minha como olharia "se fosse da Teresa Power". Se se sente mais identificado com o que ela escreve, isso faz todo o sentido. O que não faz sentido, a meu ver, é sugerir a ideia de que sobre este assunto os meus argumentos valem pouco porque não sou católico (ou sou um pobre católico, vá). Em primeiro lugar, porque a Igreja tem uma ambição universal - ela fala para todos, e não para uma seita de fiéis. E, em segundo lugar, porque a qualidade dos argumentos deve valer por si, e não por quem os profere.

 

Quando assim não é, a esses argumentos chamam-se "argumentos de autoridade". E os argumentos de autoridade não costumam valer grande coisa. Nem dentro da Igreja Católica, nem fora dela.

 

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publicado às 15:25


Sobre os métodos naturais #2

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

Bom, vamos cá ver se me despacho com este post, porque eu não consigo escrever tão depressa quanto as novas questões que vão surgindo e me dão vontade de contra-argumentar.

 

Os argumentos da Teresa, já citados aqui, vão a itálico e a negro, e aquilo que eu tenho para dizer vai a redondo.

 

Podes usar as pílulas e os preservativos que quiseres, desde que não estejas a chamar à tua relação um espelho da relação entre Cristo e a Igreja, ou seja, um sacramento.

 

Esta é uma entrada da Teresa a pé juntos, mas eu não sou queixinhas. A única coisa que posso garantir é que tenho infinitas falhas no meu casamento, bem mais graves do que o uso de preservativos, até porque nem os uso. Se o espelho está partido, e muitas vezes cai, parte-se, e volta-se a colar, duvido que seja por causa das minhas actividades entre lençóis. Esse é o primeiro problema grave desta questão, que marcou estupidamente a história da Igreja durante toda a metade do século XX: uma obsessão com a moral sexual que a desviou de tanta, mas tanta, coisa mais importante. O papa Francisco parece estar finalmente a corrigir isso e a recentrar prioridades. Abençoado seja ele.

 

Na sua belíssima encíclica, que classificaste de infeliz, a Igreja condena a contraceção porque ela afasta o amor humano da "imagem e semelhança" do amor divino, que é um amor sem limite, abundante, aberto à vida, verdadeiro. Um católico, ao "casar pela Igreja", isto é, ao receber o sacramento, recebe também a responsabilidade de tornar a sua relação semelhante à relação esponsal entre Cristo e a Igreja. O amor de Cristo não é nunca um amor contraceptivo. Não há volta a dar!

 

Segundo problema: eu não quero entrar nas questões teológicas acerca da "relação semelhante à relação esponsal entre Cristo e a Igreja" porque se trata, no meu entender, da mera construção de uma arquitectura argumentativa em cima de um preconceito. Pecado, aliás, que atravessa a Igreja ao longo de séculos. Tipo: "eu acho mal o uso de contraceptivos (até porque o sexo nunca foi coisa bem vista, como é óbvio), agora deixa-me cá encontrar um argumentação que justifique isto".

 

Aos meus olhos, a Humanae Vitae tem essa atitude, do princípio ao fim, daí a ter considerado um momento muito infeliz na história da Igreja - é uma encíclica que tenta justificar um preconceito com uma argumentação com base na Lei Natural, que é aquela coisa que dá absolutamente para tudo. Desde que espremas um bocado a Lei Natural, ela confessa o que quiseres. Afinal, os contraceptivos são uma consequência dessa maravilha natural que é o cérebro humano, que Deus Nosso Senhor nos convida a usar. E os preservativos, quando eram feitos de pele de carneiro, eram super-naturais. Na verdade, não tem fim o cortejo de barbaridades que ao longo da História se apoiou em cima do argumento da "Lei Natural".

 

Mas olhemos mais em detalhe para a encíclica. A Humanae Vitae deriva do velho ensinamento que "qualquer acto matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida", não cabendo ao homem separar o "significado unitivo" do "significado criador". E quando nós perguntamos: porquê? A resposta é: "porque está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da Vida". Que é uma espécide de "porque sim". Porque Deus assim ordena. Mas eu, que sou teimoso, gosto de compreender aquilo que Deus me ordena. Porque, em geral, não tenho quaisquer problemas de compreensão com aquilo que me é ensinado nos Evangelhos. Apenas como algumas coisas que me são ensinadas no Catecismo.

 

O resultado deste posicionamento unitivo-criador é que a Igreja não se limitou a condenar os contraceptivos na encíclica. As notas pastorais dela derivadas condenam também a fecundação in vitro, e não só por se desperdiçarem potencialmente vidas já geradas (uma preocupação legítima). Tal como condena a laqueação de trompas em qualquer caso, mesmo que uma mulher tenha feito várias cesarianas e uma próxima a coloque em risco de vida. Porque Deus lá sabe o que é melhor para nós.

 

Só que, ao mesmo tempo, como nenhuma espécie de planeamento era impensável em 1968, permite os "métodos naturais", aos quais o Carlos Duarte já chamou nos comentários, e muito bem, uma "batota canonicamente legalizada". Porque a única diferença entre uns métodos e outros é, precisamente, serem "naturais" e convidarem à "castidade". Ora, se há coisa a que um pai de quatro (já para não falar de seis ou sete) não precisa de ser convidado é a praticar a castidade - com a falta de tempo, o stress e o cansaço não fazemos nós outra coisa, não é?   

 

E deixa-me dizer-te, para encerrar o comentário - não comentarei mais sobre este tema - que mesmo que a Igreja dissesse outra coisa, eu nunca voltaria atrás na minha decisão de não tomar medicação para fazer amor.

 

Mas ninguém te pede para voltares atrás. Para mim, é como a castidade dos padres: deveria ser uma opção. Daí eu falar num post anterior "que a Igreja deve reduzir as suas imposições àquilo que é o centro irredutível da fé cristã". Naquilo que não é absolutamente central e não tem uma deriva óbvia dos Evangelhos, como é manifestamente o caso, a atitude da Igreja deveria ser de convite, e não de imposição. Tu podes convidar as pessoas a utilizar os métodos naturais, por entenderes que esse é um caminho mais perfeito, mas não deves condená-las por não o fazerem.

 

Ou seja, eu não tenho qualquer problema com quem utiliza os métodos naturais, se isso os faz mais feliz na sua cama e realizados na sua fé. Mas tenho tudo contra dizerem a um católico que ele não pode chamar ao seu casamento um sacramento só porque utiliza a pílula ou o preservativo. Sorry.

 

Acho triste um marido permitir à sua esposa tomar medicamentos - a pílula é um medicamento, sabias? - para que ela esteja sempre disponível para o sexo. O ciclo natural da mulher é uma das maiores maravilhas da natureza, e conhecê-lo e respeitá-lo em casal é uma das grandes graças que nós tivemos desde que nos casámos.

 

Aqui parece-me que cais no velho preconceito de colocares o marido na posição de quem quer sempre o truca-truca e a mulher na posição do "ok, se tu queres, lá tem de ser". Admito perfeitamente que possa ter sido uma formulação que te saiu mal. Só que, infelizmente, é uma formulação derivada da própria encíclica, que tem passagens como esta: "É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amanda." É esta a linguagem empoeirada que tu chamas "belíssima", Teresa?

 

Mais: penso que, 46 anos depois da Humanae Vitae, podemos dizer que o papa Paulo VI se enganou rendondamente: a pílula fez muito mais pela libertação sexual das mulheres - ou, se quiseres, pela sua "licenciosidade" - do que pela libertação sexual dos homens, que sempre estiveram, aliás, bastante libertos.

 

A fertilidade feminina não é uma doença, não precisamos de medicação para viver uma vida sexual plena e feliz. Planeando naturalmente a nossa família, os dias deixam de ser todos iguais... Graças a Deus, a minha vida sexual é plena e abundante, os meus filhos também são numerosos, mas ainda não engravidei sem o desejar.

 

O argumento farmacêutico, de que isto é tudo um complô da indústria, não vou sequer rebater. Mas noto que o preservativo não é um medicamento, e portanto se o problema fosse a medicação, ele tornar-se-ia legítimo. Não é isso que tu defendes. Quanto a nunca teres engravidado sem desejares, fico muito feliz por isso. Como bem sabes, milhões de mulheres em todo o mundo não podem dizer o mesmo. Mas também não vale a pena entrarmos aqui na questão de saber quantos abortos poderiam ter sido evitados se os ensinamentos da Igreja fossem outros.

 

Embora a Igreja ensine que há males menores que devem ser tolerados para evitar males maiores, o importante neste tema é que eu, e milhões de pessoas como eu, por mais que abram o seu coração e tentem estudar os argumentos da Igreja, não encontram a menor lógica na sua posição em relação aos métodos contraceptivos. Não se trata de ser um mal menor. Trata-se de não ser um mal. E de, muitas vezes, ser até um bem.

 

 

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publicado às 11:01


"Tu não sabes qual o caminho do vento"

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

Eu bem disse que haveria de chegar o dia em que falaria de Deus e de fé. A Teresa Power está justamente aborrecida por alguns comentários, que atingiram níveis de intolerância que eu não gosto de ver praticados neste blogue. O PD4 sempre se orgulhou de não ter moderação (embora já o tenha tido de moderar a espaços, porque de vez em quando passam por cá uns malucos - como em todo o lado, suponho eu) e gostaria que continuasse assim. Por isso, peço a todos que discutam com músculo e entusiasmo, mas também com moderação e bom-senso.

 

Esta discussão sobre métodos naturais versus métodos artificiais não serve para convencer a Teresa, ou o João, ou eu próprio, ou o Carlos Duarte, a mudar de opinião. Todos nós já pensámos abundamente sobre este tema. Mas as discussões fortalecem os argumentos e convidam a uma reflexão conjunta, porque se nós já pensámos sobre isto, há muita gente que nunca pensou. Também já há alguns exemplos desses nas caixas de comentários, e portanto esta troca de argumentos já serviu para alguma coisa.

 

Diz a Teresa Power:

 

Na verdade, JMT, enquanto as questões da fé não forem travadas na intimidade da oração, como referiu o João Miranda, não as iremos nunca compreender. A Deus chega-se pelo coração, e só depois de se chegar pelo coração, se "entende" pela razão. Toda esta argumentação é inútil, perfeita perda de tempo - a não ser, e é isso que me mantém aqui, que ajude alguém a abrir o coração...

 

Mais uma vez (voltamos a concordar para a semana, ok, Teresa?) não posso estar mais em desacordo. Como bem ensina a tradição, os caminhos do senhor são misteriosos, e aquilo que não falta ao longo da História são pessoas que chegaram a Deus de forma inteiramente racional. Primeiro entrou pela cabeça, e só depois foi ao coração. Eu sei, obviamente, que não é esse o carisma da Teresa, mas uma das grandes qualidades de Deus é não caber nas caixinhas que insistimos em criar para Ele. Não há um só caminho. Nunca houve um só caminho.

 

Deixem-me citar o belíssimo Eclesiastes, e rezar com Salomão, na tradução de João Ferreira de Almeida:

 

Assim com tu não sabes qual o caminho do vento,

nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida,

assim, também, não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.

 

Pela manhã, semeia a tua semente,

e à tarde, não retires a tua mão,

porque tu não sabes qual prosperará:

se esta, se aquela,

ou se ambas serão boas.

 

Eu acho que é isto que todos estamos a fazer, Teresa. Cada um está a semear a sua semente com o coração aberto, e não há porque retirar a mão só porque certos terrenos nos parecem demasiado duros.

 

A minha argumentação virá (finalmente!) a seguir.

 

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publicado às 10:20


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