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Porque é que o mundo é uma coisa complicada 1

por João Miguel Tavares, em 22.05.13
Devo dizer-vos que fiquei impressionado com a quantidade de comentários ao meu post burguês, mas suponho que quando raspamos um bocadinho o verniz social tudo se resume às velhas dicotomias medievais, porque elas são essenciais para a nossa limitada cabecinha funcionar: bom/mau, feio/bonito, verdadeiro/falso, e se calhar em tempos de economês suponho que lhe possamos acrescentar o rico/pobre.

Mas se trouxe esse assunto para aqui é porque eu também sou sensível a ele, e hoje em dia não há acusação que faça mais recorrentemente à Carolina do que ela estar a transformar-se numa menina queque, em que acha que tudo lhe cai do céu. Eu e a Teresa somos ambos filhos da típica classe média de funcionários públicos do interior de Portugal, o que significa que nunca nos faltou nada, mas também nunca tivemos nada em excesso, julgo eu. Aquilo que de mais precioso os nossos pais no deram foi a nossa educação, e felizmente eu e a Teresa saímo-nos bem. Somando isso à melhoria geral do nível de vida até à crise, isso significa que os nossos filhos têm hoje acesso a milhentas coisas que nós nunca tivemos.

Se eles entram numa livraria compram um livro. Se eles vão comigo ao quiosque comprar jornais recebem três ou quatro carteiras de cromos. Se eu passo pelo El Corte Inglés para comprar uma prenda para o aniversário de um amiguinho e vejo uma coisa de que eles também vão gostar, sou capaz de trazer uma coisinha para cada um e inventar uma razão qualquer para lhes oferecer (porque estiveram em casa com febre, porque tiveram um Satisfaz Muito Bem num teste, sei lá eu).

Isso significa que aquilo que para mim era altamente negociado com os meus pais - por exemplo, uma prenda fora da época de Natal ou de um dia de anos -, para eles é um dado adquirido. Na minha vida, só me lembro de ter completado uma caderneta de cromos (da Abelha Maia) - eles já completaram 15 ou 20, e nem sequer parecem ligar-lhes por aí além. Ou seja, tudo é mais fácil para eles, embora, paradoxalmente, isso tenha um enorme vantagem: são mais desligados das coisas do que eu era. Como tinha muito menos quando era pequeno, para mim emprestar um livro a um miúdo ou um brinquedo era assim como arrancarem-me as unhas a sangue frio. Ainda hoje me custa emprestar um livro ou um disco de que gosto muito a alguém (também porque nesta terra as pessoas, em geral, não têm o menor cuidado em devolver as coisas dos outros). As crianças cá de casa não, felizmente - estendem as coisas e está a andar.

Dito isto, assusta-me muito a facilidade com que os meus filhos se arrogam no direito de pedir isto e aquilo. E tenho medo sobretudo que a Carolina, que é mais velha e tem uma certa tendência para o show-off e para mandar nos outros, comece a ter excesso de orgulho naquilo que tem e na família mais ou menos conhecida. Se um dia eu descubro que ela usa isso como argumento para se impor socialmente, estaria capaz de a pendurar do estendal pelos cabelos. Nesse sentido, ela precisa de começar rapidamente a compreender o que são as dificuldades, a pobreza e a solidão - não no sentido de saber que existem, mas no sentido de perceber realmente o que são - para começar a dar valor àquilo que tem. Chama-se a isso acção social, e acho extremamente importante que ela o faça.

Em relação a este blogue e à crítica clássica da exibição da riqueza em tempos de pobreza, também queria acrescentar mais um par de coisas, mas este post já vai longo, e portanto, um novo post há-de surgir sobre esse assunto, entre hoje à noite e amanhã. Mas até lá espero que os leitores mais ou menos burgueses deste blogue digam coisas.


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publicado às 11:23


23 comentários

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De Anónimo a 23.05.2013 às 23:35

João,concordo consigo em todos os post que escreveu.
Também eu venho de uma família classe media,nunca me faltou nada mas não tinha excesso, também eu tenho um filho com 10 a quem se eu poder dou, mas também lhe expliquei que nem todos os meninos podem ter o que ele tem, alias ele sabe disso pois é um escuteiro e como escuteiro a secção dele tem feito recolha de brinquedos no Natal e ele foi a um bairro de lata( sim ainda alguns na nossa cidade de Lisboa) fazer a distribuição desses mesmo brinquedo tinha 7 anos quando isso aconteceu, veio impressionado, mas fez-lhe bem, hoje com 10 anos é o primeiro a fazer a suas doações de brinquedos, sabe que só se dá o que esta em condições pois se não serve para ele brincar também não serve para os outros meninos, Posso dizer que tenho muito orgulho no meu piqueno. Mas isso deve-se também a nossa educação, por isso João os seus filhos vão ter no mínimo as mesmas atitudes que o João tem e a Teresa, pois as crianças seguem os exemplos que tem em casa.
Podem acusar-me de ser burguesa, mas sou apenas um mãe que gosta de dar ao filho um pouco mais do que teve e isso não é crime. Além do mais o meu filho sabe que se eu não tiver não há, mas se eu poder e ele merecer posso afirmar que tem prendinha garantida.
Continue com o seu blog que é uma lufada de ar fresco, opiniões são só isso opiniões que podem ou não ser úteis, o importante mesmo é a nossa família.
kikas
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De Mags a 23.05.2013 às 19:49

Apesar de não sentirmos por aí além a crise lá em casa, eu digo imensas vezes que não ao meu filho mais velho - 3 anos. Aliás, ele hoje em dia já não diz - quero isto ou aquilo. Pergunta se podemos comprar isto ou aquilo. Nunca me fez uma cena num local público por querer alguma coisa. Pergunta se podemos comprar, quase invariavelmente respondo que não, por uma questão de princípio, para não o habituar a que basta pedir e algo aparece.
Mas hoje em dia comecei a incutir-lhe algumas noções do que custam as coisas, precisamente por de vez em quando, quando alguma coisa se estraga a resposta é -não faz mal, compra-se outro. Tento impedi-lo que gastar rios de água ou de pasta para lavar os dentes. Ainda no outro dia bebeu um frasco inteiro de soro fisiológico e disse-lhe que tínhamos de ir buscar moedas ao mealheiro dele para comprar outro, para ver se ele percebia que ter coisas custa. Tem de ser pequenas coisas - tem 3 anos.
Mas espero sinceramente que perceba que, independentemente daquilo que podemos ter, devemos usar/ter apenas aquilo de que precisamos, com um ou outro mimo extra.
A frugalidade, mesmo na alimentação existe lá em casa - não há sumos, refrigerantes, snacks e afins. Quase só em dias de festa é que há certas coisas.
E nem por isso noto que seja mais apegado às coisas - pelo contrário. Sempre partilhou as suas coisas com os outros, porque também gosta quando partilham com ele.
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De João Miguel Tavares a 23.05.2013 às 14:39

Acho que apaguei sem querer um comentário da 3Picuinhas a este post. As minhas desculpas à autora. Aqui está ele:

Na época das "vacas gordas" eduquei as crias nesse sentido. Agora, que o rendimento caiu a pique, que a crise é mais um habitante lá de casa, dou graças aos santinhos. Temos dinheiro à conta (mesmo à conta) e não há dramas porque todos sabemos que se gasta apenas o que se tem, e se se tem um bocadinho mais se divide, e que se compram os "extras" apenas em alturas especiais. Fui educada assim, educo assim, espero que as minhas filhas façam o mesmo. E se formos muitos, mas mesmo muitos a educar assim, há a hipótese de um dia este país ficar um bocadinho melhor :)
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De Fernanda Claudio a 23.05.2013 às 13:50

Eu concordo em absoluto com este post e tanto eu como o meu marido fazemos questão de lembrar ao nosso filho mais velho (5 anos) o que custa trabalhar para lhe poder comprar aquelas chuteiras de que gosta, iguais às do Cardozo :) ou a mensalidade da escolinha de futebol que ele tanto adora. Quando vem de lá uma frase tipo: eu não gosto disto ou aquilo, faço questão de lhe dizer que existem muitos meninos que não têm nem metade do que ele tem e por isso nem quero ouvir queixas! Acho que tem surtido efeito pois ultimamente pergunta-me sempre "Quantos Euros custa?" quando falamos em comprar qualquer coisa que ele precisa ou a irmã, e também percebe que quando os pais não conseguem estar presentes em algumas actividades escolares, é porque temos de trabalhar para termos dinheiro para lhe comprarmos a comida, a roupa e todos os mimos de que ele gosta, e supreendentemente (ou não) ele entende e não fica minimamente triste. Acho que a isto se chama, educar para a vida e para a realidade em que vivemos. Adoro o vosso blog!! Beijinhos para todos
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De Divagações de uma Açoreana a 23.05.2013 às 13:41

Olá João. Como o compreendo.
Acontece o mesmo com o meu filho mais velho ( 5 anos ) toma tudo por garantido e não tem o mínimo de brio com as suas coisas. Se se partem e eu começo com a " cantiga do sermão " lá me diz ele: " Não faz mal mãe, depois compramos outro. " E é assim. Para tudo tem bom remédio e uma resposta na ponta da língua. Mas isso leva-me a pensar se a culpa não será minha? Se não estarei a estragar o meu filho com mimos ? E que depois ele se torne num adulto frustrado quando não conseguir as coisas que deseja tão facilmente.
Estou seriamente a pensar não fazer o mesmo com o meu filho mais novo ( 15 meses ) e aprender mais vezes a dizer a palavra NÃO. Mesmo que isso implique choros de bradar aos céus e birras de " atirar " para o chão em locais públicos.


Parabéns pela família, e não ligue a comentários menos bons.
Infelizmente esses vão sempre ser uma realidade, a quem decide ter um blogue como o vosso.
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De Anónimo a 23.05.2013 às 11:55

Olá João e Teresa.
Sou leitora assídua deste blog, e aproveito para vos congratular, não só pela vossa família fantástica, mas sobretudo pela coragem e originalidade com que partilham as vossas aventuras, conquistas, dramas, peripécias, desabafos, sempre com um toque de sarcasmo e com um sentido de humor que nos deixa, a nós leitores, logo bem bem dispostos!
acho que estas opiniões, aliás, julgamentos, sobre "exibição de riqueza em altura de crise" é no minimo absurda. Confunde-se, hoje em dia liberdade de expressão, com liberdade de julgamento sobre tudo o que mexe! Não acho normal que vos apelidem de burgueses, que considerem a vossa vida uma afronta para quem não tem nada. Quem tem capacidade de interpretação - que é o que falta a muita gente pro aí, que opina sobre tudo e todos - sabe que vocês são pessoas TRABALHADORAS, esforçadas, empenhadas em dar a melhor educação possível aos vossos filhos. E defina-se EDUCAÇÃO, não por bens materiais, mas sim por valores, por momentos em família, por partilha.
Agora ninguem tem direito a passar fins de semana fora, ninguem tem direito a comprar presentes aos filhos, ninguem tem direito a ir jantar fora, ninguem tem direito a passar uma noite num hotel que é logo apelidado de burguês!! Porra!!
Afronta seria se andassem para aqui a exibir frotas de automoveis de luxo, a exibir avisões privados, a exibir relogios, roupa, sapatos de marcas aberrantemente cáras... afronta era se recebessem ordenados escandalosamente altos para desempenhar cargos de meia tijela...isso sim é uma afronta e isso sim SE PASSA NESTA SOCIEDADE, NESTE PAÍS DE POUCAS VERGONHAS, ONDE HÁ GESTORES DE EMPRESAS PUBLICAS A GANHAR ORDENADOS ESCANDALOSOS, ONDE HÁ INCOMPETENTES A SEREM TRANSPORTADOS DE MOTORISTA, A SEREM TRATADOS POR DOUTORES QUANDO NÃO O SÃO...isso sim, meus caros é uma afronta.
Ver uma familia feliz, unida, e que até tem possibilidades economicas para poder cometer alguns "luxos" de vez em quando, É BOM SINAL, É SINAL QUE NÃO EXISTEM SÓ PESSOAS NA MISÉRIA, EM SOFRIMENTO, TAMBÉM EXISTEM FAMILIAS QUE CONSEGUEM SER FELIZES. E QUE HAJA MUITAS MAIS POR AÍ.

Com todo o meu respeito a quem sofre, a quem batalha diariamente pela sobrivencia.

Um beijinho à familia toda,
Margarida Machado
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De Ana a 23.05.2013 às 10:59

Não tenho hábito comentar mas hoje decidi-me.

Partilho a suas "angústias" mas por outro lado penso se será justo/educativo partilhar muito seriamente com a minha filha as contas para pagar, a necessidade de fazer "esticar" o salário cada vez mais curto... não será obrigá-la acrescer demasiado??

Quanto às coisas que eles têm... elas existem e estão mesmo à frente dos seus olhos/desejos...nós, eu pelo menos que cresci numa ladeia rural, não tínhamos grande oferta...lembra-se de ir ao supermercado e existir apenas uma/duas marcas de sabonete??? Agora a dificuldade é ainda encontrar sabonete no meio de uma gama muito mais chique de produtos para a limpeza pessoal :)

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De Anónimo a 23.05.2013 às 08:45

Caro João,

Não sou mãe mas sou tia e sei do que fala. Apesar de ter nascido em 87 e de os meus pais me terem dado sempre tudo, penso que cresci consciente do sofrimento alheio. Posso também dizer que na minha escola as criânças com pais mais severos eram sempre menos generosas e em certos sentidos mais "matrealistas". Como tinham pouco queriam sempre proteger as coisas e tinham medo de emprestar. Contudo a verdade é que tendo crescido assim posso dizer que o mais difícil foi aprender a viver com pouco assim que saí de casa. Saí relativamente cedo para ir estudar para Inglaterra e quando voltei fui viver sózinha. Foram tempos complicados porque não tinha sido habituada a passar por privações de espécie nenhuma. Contudo a minha educação "kicked in" e todos os sermões lá em casa fizeram o que tinham a fazer. Se tinha pouca coisa, também tinha alguma vergonha na cara de pedir ainda mais aos pais que já me tinham preparado para a vida. E o que eles fizeram de melhor foi preparemrem-me para ser emocionalmente independente. Foi só começar que foi difícil, depois habituei-me. Vejo o mesmo a acontecer com os meus sobrinhos e espero que para eles esta mudança de vida seja menos radical.
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De Anónimo a 22.05.2013 às 17:32

Parece-me que cá em casa existe uma família "burguesa" que com 3 filhos com idades parecidas aos seus passa pelas mesmas angustias que o João. A minha mais velha, com 7 anos sempre que o pai viaja, e agora viaja mto pq ponderamos mudarnos para o Brasil, a trabalho, a primeira coisa que questiona são que presents vai ganhar. Sinto a mesma necessidade de lhe dar doses de humildade e de lhe mostrar o quão afortunados são por terem tudo o que querem, passe por um chocolate, uns ténis xpto, o jogo Y ou a viajem que fazemos fora a todos os anos.
Aqui a crise também se sente, mas não fizemos assim tantos cortes quanto isso, e sei que não somos exemplo, porque olhamos para o lado e vemos como a maioria das famílias luta com as mais diversas dificuldades.
Mas se me sinto mal por ter o que tenho, não, não me sinto. Tudo o que ganho sai do trabalho, do esforço, de horas roubadas ao sono e de muito empenho.
Houve tempos em que me sentia mal por poder ir de férias de inverno, por poder ir para o estrangeiro todos os anos, por continuar a comer for a todo o santo fim de semana...Compreendi que terei sempre quem me condene por isso, mas eu não sou culpada das dificuldades dos outros, nem ando ai de bandeira em riste a mostrar o que tenho.
Marta Carlos
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De Rui Ribeiro a 22.05.2013 às 17:32

Há que ter em atenção que os "leitores parvos", como foram apelidados, são extremamente importante e úteis!

Vou dar o meu ponto de vista, o blog calmo e sereno, até que um dos leitores citados "posta" algo, e surgiu uma bela troca de mensagens/ideias, que levou o João a criar não um, mas dois post's sobre o tema !

Mesmo concordando com o ponto de vista do João, são essas ideias totalmente opostas que vão alargando conversas e mantendo os "leitores não parvos" (se é que me permitem catalogar assim os leitores) atentos ao que se vai escrevendo (falo por mim, que subscrevi o post para receber mensagem sempre que algo novo aparecia).

Penso que todos temos o direito a respirar, e vou dizer algo capaz de colocar o Salazar a dar uma cambalhota no túmulo, assim como o direito a opinar!

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