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Ainda sobre bater (ou não bater) nas crianças

por João Miguel Tavares, em 11.10.13

Este post foi o mais comentado de sempre na história do Pais de Quatro, e ele continua a dar que falar. Esta tarde a Sofia Silva deixou um comentário muito giro, visto da perspectiva de uma filha, que eu resgato à caixa de comentários para todos poderem ler no corpo do blogue. Aqui vai ele:

 

Já vi aqui muitas opiniões de pais, e muito bem, mas ainda não vi nenhuma opinião de filhos. Eu não sou mãe mas sou filha. Até à adolescência sempre fui uma miúda difícil, com a mania de que sabia tudo, respondona, muito desobediente (porque achava sempre que sabia melhor) e, segundo os meus pais, com muita imaginação para fazer asneiras. Apanhei muitas sapatadas e todas merecidas. Umas dadas no momento certo, outras num momento em que a minha mãe ou o meu pais (que estavam divorciados e portanto em casas diferentes) já estavam "cegos". Sim, porque alguns míudos tiram-nos do sério! Eu já passei por isso sem ser mãe, por isso posso simplesmente virar as costas e os pais que resolvam. Mas não é fácil para os pais. Vejo isso até nos filhos da minha melhor amiga, que são uns amores, bem educados, mas às vezes "passam-se".


Agora olho para trás (não passou assim tanto tempo) e entendo perfeitamente as atitudes da minha mãe e do meu pai. É graças às chineladas no rabo e algumas com colher de pau, porque os tirava mesmo do sério, que sou aquilo que sou hoje. Uma adulta responsável, com valores, bem formada. Em pequena era mesmo muito mazinha. A verdade é que os miúdos não são todos os iguais e acho que isso é um ponto fundamental também. Estou muito grata aos meus pais por aquilo que sou hoje, sapatadas incluídas. Se eles podiam ter agido de outra forma mais pedagógica? Se calhar podiam, mas os pais também não são perfeitos e claro que uma asneira a um sábado não tinha as mesmas consequências que uma asneira à terça à noite, por exemplo. O cansaço e o stress também condicionam as reacções dos pais.


E acho que TODAS as crianças que forem bem educadas vão entender TODAS as sapatadas que levaram, como eu as entendo. E concordo totalmente com o autor, se houver quem consiga educar bem um filho com outros recursos, melhor, mas nenhuma criança fica traumatizada por apanhar de vez quando. (Claro que não me refiro a situações de violência doméstica, isso é um caso à parte.) E já agora, no Verão costumava passar longas temporadas na aldeia com os meus tios e avó enquanto os meus pais trabalhavam. Estes nunca me bateram mas castigavam, e recordo uma sensação de injustiça muito grande relativamente à dimensão de certos castigos (uma semana sem desenhos animados, uma semana sem gelados, não ir a festas com os meus primos...) que nunca senti relativamente às palmadas.



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publicado às 17:55


11 comentários

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De Raquel a 06.02.2015 às 12:53

Olá Teresa,
Concordo plenamente com o seu post.
Em miúda também levei bastante com o chinelo da minha mãe ( que era daqueles de quarto em sola de couro) e não morri. Aprendi a ser responsável e adulta.
Acho que um bom chinelo tirado do pé no momento certo faz milagres. Não sou mãe mas sou tia, e o meu sobrinho me várias ocasiões já me viu de chinelo na mão, passada com ele.

Raquel
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De Maria João a 15.10.2013 às 09:12

JMT, todos os comentários aqui deixados embora sejam de pais e mães, também o são enquanto filhos e filhas que foram, na sua maioria, educados à "boa" maneira antiga. A diferença é que uns continuam a reproduzir o modelo a que foram sujeitos em crianças sem o questionar (e por isso as imagens que coloca a ilustrar esta discussão de ideias são todas imagens que reportam aos anos 50 e poderiam perfeitamente ser o meu pai ou o seu), outros evoluíram nesse sentido e perceberam que hoje em dia (depois de todos os progressos que há fizemos no que diz respeito à forma como vemos a condição humana) já não faz sentido continuar com esse modelo de disciplina (os meios não justificam os fins). O problema reside exatamente no facto de muitos de nós termos sido educados à palmada, ou seja, não conseguimos (ou é-nos mais difícil) aceitar que outros métodos possam ter os mesmos resultados. Por isso é que se chama ciclo vicioso e por isso é tão difícil de quebrar.
Eu também fui educada à palmada, não fiquei traumatizada por isso e entendo que os meus pais naquele tempo faziam o melhor que sabiam. No entanto, hoje temos mais informação, mais ferramentas ao nosso dispor, ou seja, temos obrigação de sermos melhores a esse nível. Só não somos porque nos é mais confortável reproduzir um modelo que connosco terá funcionado o que nos dá uma pretensa segurança enquanto pais, em vez de parar para pensar, perder tempo para encontrar outras estratégias que achamos que podem não resultar.
Mais uma vez volto a lembrar que ausência de castigo físico não significa ausência de disciplina nem é sinónimo de violência psicológica.
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De Ana Oliveira a 10.11.2013 às 03:45

Tal e qual!!!
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De emília silva a 13.10.2013 às 15:30

Creio que fiz o comentário no sítio errado.
Agora no sítio certo.
O bater em crianças não é uma forma de educar, apenas passamos a ideia que o mais forte pode através da agressão física impor a sua vontade. As crianças tiram-nos a paciência, aprende-se a contar até dez ou então manifesta-mos os nossos sentimentos e diz-se "estou a zangar-me"; "não gosto do que estás a fazer". A contenção física (não é bater é conter) só em caso de a criança estar a pôr-se em perigo ou de estar a pôr outros em perigo. Lamento mas não posso branquear uma situação em que o adulto perde o controle dessa maneira. Educar também é dar o exemplo e a agressão física não é uma maneira de resolver conflitos.
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De Ana Maria a 12.10.2013 às 20:18

A minha filha tem três anos e até agora nunca lhe bati. Nem nunca lhe gritei. Quando faz asneiras, é repreendida com palavras firmes mas sem gritos, e ela sabe que fez asneira. Não lhe permito que cuspa a comida ou a atire para o chão, não lhe admito que esboce sequer um sinal de que me vai bater, e não deixo (repreendendo) que fale mais do que eu.
Nunca lhe bati, porque nunca foi preciso: temos controlado e corrigido os comportamentos desta forma. Mas não digo que um dia não o faça.
Neste campo das palmadas - e na MINHA opinião - o problema é considerar-se a palmada ou repreensão física como um cenário de extremos: de um lado, estão os que defendem que quem bate ou dá palmada é violento ou está a dar início a uma vida de traumas; do outro, os que acham que ninguém morre por levar uma ou outra palmada de vez em quando (um pouco semelhante à questão da amamentação ou das mães que optam por o ser a tempo inteiro, que ou é sinal de retrocesso nos direitos e liberdades ou é sinal de amor mais que muito e espírito de sacrifício e etc etc)
É isto que, na minha opinião, alimenta a discussão e cria tantas questões.
Pela minha parte, continuarei neste modelo "não palmada, não grito", enquanto for possível. Se conseguir chegar neste modelo até aos 20 anos dela, melhor :)
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De Helena Araujo a 12.10.2013 às 10:03

Se é para ouvir o que as crianças dizem, aqui vai o meu contributo, de casos a que assisti pessoalmente (mas nem todos são meus filhos):
1. Aos dois ou três anos: "Que é que fizeste? Magoaste-me! Tu não me podes magoar!"
2. Aos cinco anos: "Se me podes bater, também te posso bater."
(agradeço que me expliquem como dizer a uma criança, de modo que ela possa compreender, que os pais podem bater, mas as crianças não.)
3. Aos seis anos, ao ver um filme sobre violência doméstica em que a câmara filma à altura dos olhos de uma criança, mostrando um adulto enorme e com ar zangado que se inclina ameaçadoramente para nós, já a descer a mão para dar a palmada: "isto é como cá em casa."
4. Aos treze anos, uma excelente aluna de judo, quando a mãe lhe deu uma bofetada, agarrou os pulsos da mãe e disse-lhe nos olhos: "De hoje em diante, só me bates se eu deixar."
5. Quem nunca viu uma criança a encolher-se toda quando o pai ou a mãe fazem inadvertidamente um movimento mais brusco com a mão?

Ao ler o testemunho da Sofia Silva perguntei-me várias vezes "mas porquê?"
Porque é que a Sofia Silva precisava de fazer tantas asneiras? Porque é que precisava de ser respondona?
Parece-me que perguntar-se "porque é que a criança precisa de fazer isto" é meio caminho andado para encontrar uma solução que a ajude a crescer bem, em vez do pequeno descarrilamento que é a palmada.
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De Ana Oliveira a 11.10.2013 às 20:03

Como é que que não há de ser a publicação mais comentada de todos os tempos, se mexe com o que de mais íntimo e profundo que há em nós? A nossa identidade, a nossa corporeidade..?!

Eu também com levei com o chinelo e com a colher de pau, bastante. E mais ou menos pelos mesmos motivos que a menina que escreveu o comentário. Eu também acho que sou uma pessoa educada, bem formada, respeitadora e muito preocupada com o meu semelhante. Quem sou devo-o, em primeiro lugar, aos meus pais. Estou-lhes muito grata. É verdade, revejo-me bastante no texto que partilha. Ao ponto de me arrepiar.

Há, porém uma "pequena" diferença.

Eu sou quem sou APESAR das palmadas que levei, não por causa delas. Felizmente...

Recomendo: http://cirandamaterna.blogspot.pt/2013/08/por-que-batemos-em-nossos-filhos-por.html



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De blog Profissão Mãe a 15.10.2013 às 02:16

Concordo consigo...mas não percebi se achou correcto as chineladas, que levou?
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De Ana Oliveira a 10.11.2013 às 03:50

A única coisa que aprendi com as chineladas que levei, foi que não se aprende NADA (de bom) a levar chineladas. Não guardo rancor aos meus pais. Mas não, não foi (e não é) correto (nem útil nem necessário) bater numa criança. Isso eu aprendi com a minha experiência. Lamento que haja filhos-pais que não o tenham percebido e mantenham, até com orgulho,o modelo... :(
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De Carla Pinto Coelho a 11.10.2013 às 19:06

Em casa também éramos 4 (: e muitas vezes levávamos a mãe ao desespero, também por causa das diferenças de idades, mas há uma decisão que muito lhe agradeço: nunca ter autorizado a professora da primária a castigar-nos. As palmadas dava-as ela, não a professora, e eu preferia muito mais levá-las da minha mãe do que ser o saco das frustração da senhora professora.
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De blog Profissão Mãe a 15.10.2013 às 02:18

Carla o pior é que os professores queixam-se e em grande parte além de não resolverem situações ainda as agravam...

Se este ano a professora do meu filho cont. a bater nos colegas dele, farei queixa no ministério...

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