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Sobre bater (ou não bater) nas crianças #4

por João Miguel Tavares, em 15.10.13

Não há dúvida que o tema do bater/não bater é um daqueles que anima qualquer debate, e podemos ir voltando a ele de três em três meses só para saber como param as modas. Ainda assim, numerosas reacções ao meu post anterior obrigam-me a voltar ao tema, só para esclarecer alguns pontos.

 

1. Definição de bater: quando eu falo em bater, refiro-me a uma nalgada, ok? Uma palmada no rabo, cujos efeitos costumam ser piores na minha mão do que nos seus glúteos. Cá em casa não há tareias à moda antiga, nem cintos, nem colheres de pau. A ideia não é magoá-los e recuso a equivalência entre punição e agressão. A agressão tem por objetivo molestar ou neutralizar alguém. A palmada tem por objectivo educar através do estabelecimento de limites que são ultrapassados por uma criança que sabe perfeitamente que não se pode comportar assim. Um dos leitores do blogue (ver comentário de Rui a 14.10.2013 às 22:43) comentou que o seu pai lhe bateu tanto que ficou com uma lesão na retina para sempre. Por amor de Deus - não é disso que estamos a falar.

 

2. Esta parte do "não é disso que estamos a falar" é extremamente importante, porque em quase nenhum assunto, e certamente que não quando se fala de educação, é prudente estabelecer fronteiras fundamentalistas que dizem assim: bater é bater, uma palmada é uma palmada, e é sempre uma forma de violência física, e traduz sempre um descontrolo dos pais. Não é verdade. Este síndroma de índio e cowboy, chamemos-lhe assim, insiste em ver o mundo a preto e branco, quando ele é composto por uma infinita gama de cinzentos. Ver o mundo a preto e branco pode ser muito cómodo, porque é mais fácil termos soluções imediatas e respostas automáticas para todos os problemas da nossa existência (não se bate e pronto), mas simplesmente não me parece que seja assim que as coisas funcionam.

 

3. Eu já disse isto uma vez, mas repito: quem consegue educar exemplarmente uma criança sem nunca levantar a mão tem a minha mais profunda admiração. Obtendo exactamente os mesmos efeitos, claro que é preferível não bater a bater. Curiosamente, não tanto por causa do filho, mas sobretudo por causa do pai, que se for uma pessoa equilibrada não tem certamente prazer nenhum em distribuir palmadas. O que eu digo, da minha experiência, é que uma palmada na hora certa (e isto dependendo do filho, atenção, há quem não precise) sempre me pareceu um método eficaz e, a maior parte das vezes, inevitável para resolver certos conflitos que de outra forma se eternizariam.

 

4. Ontem, no Facebook, alguém argumentava comigo: "Não sei como é que ainda se defende isto! Também bate nos seus colegas no trabalho? Na recepcionista dos CTT?" Eu respondi: "A educação dos meus colegas de trabalho e da recepcionista dos CTT não é responsabilidade minha. E também não 'bato em crianças'. Bato de vez em quando nos meus filhos, o que é um bocadinho diferente, geralmente ali entre os 3 e os 6 anos, mais coisa menos coisa, quando estão mais rebeldes e ainda não percebem a racionalidade de certos argumentos. A partir daí, não digo que não ao tau-tau, mas só entre adultos responsáveis e com consentimento mútuo." Esta questão é importante, porque convém lembrar que há um tempo para tudo. A minha filha Carolina tem nove anos e anda a ficar super-chata. Mas ponham super-chata nisso - é a adolescência a chegar em força. Desafia os pais, é irritante para com os irmãos, tem a mania que é esperta. Enfim, um clássico. Vontade de lhe bater, às vezes, é coisa que não me falta. Simplesmente, passou a idade. Já percebe argumentos racionais. Compreende o efeito de certos castigos. Bater-lhe para quê?

 

5. Sobre os pais passarem-se da cabeça: sim, é verdade, às vezes os pais passam-se da cabeça. Eu passei-me demasiadas vezes, sobretudo há uns anos, quando levava dias e dias sem dormir. Passarmo-nos da cabeça nunca é bom. Mas é humano. E também é extremamente humano que os nossos filhos vejam isso. Essa ideia de que o super-pai ou a super-mãe é aquele que mantém uma postura esfíngica e nunca perde a paciência é uma bela treta. É por isso que todos os pais odeiam os pais do Ruca - porque ninguém é assim. Aquilo é uma fraude. Em vez de fingir falsas perfeições, podemos sempre pedir-lhes desculpas se perdermos a cabeça injustamente. Ou então, quando são eles os responsáveis directos pelo nosso passanço, podemos sempre explicar-lhes a seguir que as suas acções têm consequências e que ninguém é de ferro. O papá ou a mamã não são Mr. e Mrs. Perfect - são apenas pessoas que os amam mas que nem sempre aguentam toda a m**** que lhes atiram para cima.

 

6. Ainda há mais para dizer sobre este assunto. Mas fica para o próximo post.


 

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publicado às 11:00


23 comentários

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De Agostinho Madureira a 23.05.2016 às 16:54

Apesar de eu ter 2 filhos maravilhosos, um deles o melhor aluno da escola na primária, o melhor aluno da escola no segundo ciclo e o melhor aluno da escola no secundário - posso provar, concordo que existe uma idade onde a palmada funciona. Faz-me confusão ver crianças a vir para o mundo sem qualquer noção dos limites. Há horas para brincar, dormir, comer, tomar banho, etc. Respeitar os outros é essencial para ter uma vida sossegada, pacata. Há crianças a bater nos pais e estes acham piada por ser o "menino/a"... Há pais a ralhar o dia todo e "os meninos/as" a fazer troça das repreensões verbais. Dei poucas palmadas, pois tenho uns filhos dos quais não me posso queixar, no entanto, quando foram dadas surtiram efeito e estou muito contente por ver o que os meus filhos são hoje. Respeitam-me e amam-me, assim como os respeito e amo mais que tudo na vida. Amar/educar não é só dar beijinhos e festinhas.

Um abraço ao João Miguel Tavares
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De Inês Roseta a 16.10.2013 às 22:42

Boa noite,
Gostei imenso do seu post e subscrevo integralmente, também tenho 5 filhos. É muito mais difícil dar uma palmada aos filhos e ter paciência para os educar do que passar a vida a deixá-los mais tempo na escola, mais tempo em casa do avós, mais tempo em actividades , tudo porque não se tem qualquer tipo de controlo sobre eles. Posso dizer que tenho 5 filhos felizes, e todos eles levaram, levam e levarão se ainda precisarem palmadas. (15, 10, 8, 6 e 3 anos)
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De Sofia a 19.10.2013 às 20:38

Então experimente juntar o não os deixar imenso tempo na escola, nem nos avós, etc., com tentar ter o auto-controle de não bater, nem berrar, e vai ver que se vai sentir ainda melhor!
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De sofia a 16.10.2013 às 14:51

Acho que o bater ou gritar muito/alto, devem ser mesmo evitados . Também fui aprendendo a controlar esses instintos e actualmente consigo conter-me muito mais. Sinto-me muito melhor ao agir assim, sei que estou a dar um exemplo muito melhor ao meu filho.
Para mim aprender um maior auto-controle foi mais uma das vantagens da parentalidade e discordo do argumento de quem bate ou grita muito/alto ao dizer que estão a mostrar aos filhos que não são perfeitos. Ninguém é perfeito, é verdade, mas devemos é dar o exemplo aos filhos de que tentamos ser seres humanos melhores.
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De Helena a 16.10.2013 às 11:23

Concordo! Bater não é espancar e uma palmada no rabo, às vezes, faz milagres. Se for necessário, até o levanto para lhe aplicar a dita palmada.
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De Catarina F a 15.10.2013 às 17:46

Depois de ter lido vários posts , todos contra as palmadas, digo eu, porque ninguém quer andar a dar palmadas aos filhos só porque "sim". Pergunto:
E se a própria criança fica mais melindrada, com o castigo "politicamente correcto" de ir para o quarto pensar no que fez, do que com a palmada dada depois da asneira feita?
Tal como foi já dito cada criança é um caso único, e acrescento que cada situação exige medidas diferentes. Pode ser tão violento para uma criança estar de castigo "os minutos iguais á idade da criança", no quarto sozinho, como a tal palmada dada no momento certo. Tenho um filho de 3 anos ao qual infelizmente já tive de dar "uma palmadinha"...ele ficou muito mais aflito quando ficou os 3 minutos sozinho no quarto. Educar não é uma ciência é uma prova de amor.
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De Inês Dunas a 15.10.2013 às 17:38

Compreendo a posição defendida, sei que existe diferença óbvia e muito importante, entre dar uma palmada no rabo e espancar, mas ainda assim e havendo de facto muitas formas de violência no dia a dia que não incluem dar palmadas e são às vezes bem mais agressivas e traumatizantes (e sim, não somos perfeitos e "passamos-nos dos carretos às vezes) para os pequenos. Acho que bater (pouco ou muito) não deve ser a solução, nem uma resposta sábia na forma de educar, "domesticar" ou sociabilizar uma criança, porque comportamento gera comportamento e o limite deve existir para ambos os lados...
Há tempos escrevi a minha opinião a este assunto aqui:

http://peradoceerija.blogspot.pt/2013/09/educar-com-educacao.html

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De M.Sousa a 15.10.2013 às 17:26

Bom... bater ou não...
Quando era pequeno levei, palmadas... no rabo. Ocasionalmente um estalo moderado. Nunca houve exageros e como tal, acho que as mereci todas, ou quase (na altura não achava nada disso).
Não acho que tenha sido mal educado, antes pelo contrário.
Quando cresci e tive o meu rebento, optei por tentar educar sem "violência", sem bater... vá. Não porque tenha sido essa a minha sina quando criança, mas porque (convenhamos) nos dias de hoje toda a gente olha de lado para quem bate nas crianças.
Percebi que isso se pode fazer com algumas crianças, os chamados "morcões" que fazem tudo que os pais dizem à primeira. Sim... há desses!!!
Depois existem os terroristas... que por muita educação que se lhe dê, eles são (e serão) sempre do contra, até que uma palmada lhe termine com o fundamentalismo ocasional. Só assim... só recorrendo ao "vou contar até 3... 1-2-3!!" e quando esse ultimato falha, a palmada tem de acontecer, porque os miúdos não são todos iguais.. e há os que desafiam sempre a autoridade dos pais. E não tem nada a ver com a educação dada, é interior deles. E portanto... quando assim é... nunca ninguém morreu com uma palmada no rabo.
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De Susana Mendes a 15.10.2013 às 17:02

Acabei de ler o seu post e subscrevo-o! Encontrei-o (o post) por acaso mas era seguidora das suas crónicas na revista de domingo do CM. Passámos de uma época em que apanhávamos por tudo e por nada e em que as crianças estavam no fim da pirâmide, para o exagero oposto em que uma pessoa normal diz que de vez em quando assenta uma palmada "bem dada" no rabiosque do filho e é crucificada em praça pública....SIM...pessoa normal! porque os que nunca o fizeram ou não o admitem, ou não são normais ou não sabem serem pais!(o João Tavares não o pode dizer mas eu posso).

Mas conheço pessoas que QUASE o conseguiram! a minha irmã conseguiu até aos 12 anos da minha sobrinha mais velha e depois passou-se e lá vai desta....
Os meus filhos (sim, porque eu falo com conhecimento de causa!) têm 4 e 8 anos, rapaz/rapariga e na maioria dos dias acordam a implicar um com o outro, chamam nomes, pontapés, choro, queixas....a certa altura, lá vai desta!No rabo de um e de outro, imdependentemente de quem começou....Não são anjos, mas também não nos envergonham (muito!!!) e sinceramente acho que tem resultado muito bem.
Existe um q.b. para tudo! 50% de conversa+ 50% de um aquecer de mãos, que doi mais aos pais que a ele, mas serve para estabelecer limites, entre o ser adulto e o ser criança/filho! Só não concordo com o limite dos 9 anos, eles querem ser já adolescentes, mas não são! São CRIANÇAS! e os pais de hoje em dia deviam deixá-los ser crianças.
Sem querer ser presunçosa, é a falta destes limites e o reconhecimento - por parte dos pais - que são humanos e ninguém nasce com o mestrado de educação parental, nem ninguém é melhor ou pior pai por dar um estalito no rabiosque, que falta na nossa sociedade, atualmente e aos criarmos os nossos filhos de igual para igual, estamos, talvez, a criar verdadeiros "monstros" que não conhecerão os limites e o respeito mútuo entre seres humanos, que podem tudo, que nada tem consequências e que tudo se consegue sem grande esforço....afinal é o que eles têm agora, porquê será diferente?
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De Ana a 15.10.2013 às 16:55

Tenho lido o seus post's sobre a temática....como mãe tenho os meus limites e tento fazer com que as minhas filhas percebam isso, sou humana, sou mãe, não sou super-herói, arrependo-me algumas vezes, converso, peço desculpa quando necessário, mas por vezes dou por mim a subir o decibel, ou a dar uma palmada...sinto-me culpada em alguns momentos, dói mais em mim em outros momentos, mas não há livro de instruções...
Mas vi a reportagem da TVI com o Psicólogo Clinico Quintino Aires e penso que é bastante esclarecedora..
Fica o link
http://www.tvi.iol.pt/videos/13795368

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De Alice Gomes a 15.10.2013 às 16:42

Concordo plenamente c tdo o q disse neste post e como já foi aqui dito subscrevo GRAÇAS A DEUS POR ESTE TEMA POIS ASSIM N ME FICO A SENTIR A PIOR MAẼ DO MUNDO lol. obviamente q n é espancar, é uma palmada no rabo, esta malta só pq s falar em bater já é tareias de meia hora. N, n é isso e (infelizmente) às vezes há crianças q necessitam d ser chamadas à razão d outra maneira. Ningém é perfeito, nem pais nem filhos e nós só temos q fazer o melhor q conseguimos para os educar e para os tornar Homens/Mulheres c letra maiúscula. Os pais do Ruca são uma treta, já se virem o Shin-shan vêm o q é ser realmente pai ou mãe da vida real (sem deixar aqueles galos na cabeça da criança e nada de carolos LOLOLOL).

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