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Sobre bater (ou não bater) nas crianças #5

por João Miguel Tavares, em 15.10.13

O André do blogue À Paisana, escreveu um longo post, que vale muito a pena ler, sobre o tema das palmadas, respondendo aos meus argumentos. Eis o início do seu texto:

 

O João Miguel Tavares (JMT) resolveu voltar ao tema de bater (ou não bater) nas crianças, um clássico de audiências (imagino eu) e polarização de opiniões. Um daqueles temas recorrentes na web parental, que, infelizmente, resvala quase sempre para a opinião defensiva do “estás a dizer que sou mau pai?” (não), e argumentos do género “eu levei quando era pequeno e estou óptimo” (tens a certeza?).

 

O problema está muitas vezes relacionado com a forma de enquadrar a questão. E, embora tenha o JMT como um tipo culto, bem-humorado e inteligente, se há questão que ele gosta de desenquadrar é esta questão do bater nos filhos. Não me interessa saber se o JMT é bom ou mau pai, mas sim questionar o modo como defende que “[bater é] uma ferramenta educativa essencial”, um argumento que baseia numa mistura de experiência própria com uma série de postulados questionáveis sobre o facto do homem ser um animal “em processo de domesticação”.

 

Como disse, leiam por favor o post todo, que está argumentado de forma inteligente. Eu queria apenas comentar dois aspectos da sua argumentação.

 

Um aspecto é aquilo que o André classifica como "postulados questionáveis" sobre o facto de uma criança ser um "animal em processo de domesticação". De facto, eu referi que educar é também domesticar, um verbo propositadamente forte, para tentar sublinhar o quanto daquilo a que chamamos educação é um processo não-natural de imposição de regras. Tirando o peso próprio da palavra, não vejo o que seja questionável nisto: não há nada de natural em comer com um garfo na mão esquerda e uma faca na mão direita, em estar à mesa de costas direitas ou em dizer "bom dia" ao vizinho da frente. Quem não lhe quiser chamar "domesticação", que é uma provocação assumida, chame-lhe "socialização". Mas, por favor, não nos façamos de sonsos: toda a educação é uma forma de violência, no sentido em que impõe regras às crianças. Aprender o alfabeto é uma violência. Aprender a tabuada é uma violência. A maior parte das vezes é irritante, eles não gostam, lutam contra isso, gostavam de passar o dia inteiro a jogar à bola ou ao computador. Nós obrigamos os nossos filhos a fazer um milhão de coisas contra a sua vontade. E é nesse sentido que uma palmada no rabo me parece estar longe de ser a maior violência que lhes infligimos ao longo de uma vida.

 

Então se eu for tão picuinhas no uso da palavra "violência" como aqueles que usam a palavra "violência" para classificar uma palmada, então a violência não acaba. Se eu tiver uma discussão com a mãe à frente deles (às vezes acontece), é uma violência. Cada vez que eu digo "desaparece daqui que eu estou a trabalhar", é uma violência. Quando eu lhes tiro o canal dos desenhos animados para ver a bola, é uma violência. E se eu me divorciasse e saísse de casa, parece-vos que isso seria uma violência? Eis uma pergunta para os fundamentalistas que acham que toda a violência física sobre crianças deveria ser proibida por lei: será que existindo filhos o divórcio também deveria ser punido por lei, ou parece-vos que é menos violento do que uma palmada no rabo?

 

Moral da história: nós não vivemos no universo do Ruca e dos filmes da Disney, e querer transformar os nossos filhos em pequenas flores de estufa, esquecendo que a vida é feita de frustrações, erros e falhanços, é um tremendo erro. E, sobretudo, é uma hipocrisia fingir que as maiores violências não são a nível físico mas sim a nível psicológico, e que certos castigos muito friamente elaborados podem ser infinitamente mais violentos do que uma palmada na hora certa.

 

O segundo aspecto da argumentação do André que eu queria comentar tem a ver com esta frase sua: 

 

O texto acaba em tom conciliatório, a apelar ao ecumenismo punitivo, dizendo que haverá tantas perspectivas válidas como o tipo de crianças diferentes. Crianças que crescem bem sem palmadas, crianças que precisam de palmadas. E, imaginamos, que nesse campo nada bate a infinita sabedoria dos pais. Há um dia em que o progenitor descobre – aliás, sabe – que este só lá vai à palmada. O outro não precisa, que é calminho. É a infabilidade do Papá.

 

É exactamente isso, André: é a infabilidade do Papá. Gosto muito do conceito. Não porque ele corresponda a uma realidade efectiva, porque não há obviamente papás infalíveis, mas porque é um bom conceito operativo, na medida em que as crianças têm de sentir que os pais são a coisa mais infalível que têm por perto - é exactamente isso que lhes dá segurança. Num mundo tão relativizado, o que os miúdos certamente não precisam é de papás inseguros, a vigiar cada um dos seus gestos, ou a consultar manuais de psicologia de cada vez que têm de tomar uma decisão difícil em relação aos filhos: "Aguenta só aí um bocadinho essa birra que eu vou ali à biblioteca consultar o manual do doutor Spock para saber o que devo fazer e volto já."

 

Significa isto que devamos ignorar o que se aprendeu ao longo dos séculos? Claro que não. Mas convém modestamente recordar o quão recente é essa coisa da pediatria e dos cuidados infantis, e o quanto as ciências educativas têm mudado ao longo dos anos. E, no entanto, há milhões e milhões de crianças sapiens sapiens a serem criadas há 200 mil anos - sem manuais por perto. É evidente que não estou aqui a fazer a apologia da ignorância. Estou apenas a tentar dar algum conforto a tantos pais que fazem da educação dos filhos um bicho de sete cabeças.

 

Portanto, André, é mesmo isso, com as devidas excepções (porque há sempre excepções), "nada bate a infinita sabedoria dos pais". Esse parece-me, aliás, um excelente lema para todos nós. 



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publicado às 11:54


21 comentários

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De Ana Oliveira a 10.11.2013 às 04:06

Gosto muito do cartoon escolhido. Deixa a insinuação de que se o senhor ficar com o garoto apenas um dia já lhe vai apetecer bater-lhe/ou dar-lhe uma palmada/ou sacudir o pó oi o que lhe queiram chamar. É que um dia não chega para educar uma criança, mas chega para perdeg a paciência. É isso que me arrepia... Quantas das vezes a dita palmada se dá porque se perde a paciência (se "descarrila", como diz a Helena) e não porque se vai muito racionalmente puxar da "ferramenta essencial da educação"?... Pois.
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De Helena Araujo a 18.10.2013 às 11:24

Decididamente: o João Miguel Tavares e eu não vivemos no mesmo mundo.
Aquela lista de casos de violência, por exemplo. Ensinar o alfabeto é uma violência? Curioso: para os meus filhos foi uma fantástica conquista de novos mundos. Eles imploravam para eu os deixar ir à escola, apesar de estarem na cama a arder em febre.
O mesmo se diga para comer de garfo e faca - começaram muito cedo, e tinham orgulho em comer como os grandes. Sentiam-se importantes.
Sobre o resto, parece-me que não vale a pena continuar a debater, porque não leva a lado nenhum.
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De João Miguel Tavares a 18.10.2013 às 12:03

Isso só prova que a Helena é muito melhor mãe do que eu sou pai. É uma coisa que não me custa nada a admitir, como se comprova pelos meus textos. Estou longe de me considerar um pai exemplar, e por isso, infelizmente, nunca consegui que toda a aprendizagem fosse um prazer para os meus filhos. Longe disso.
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De Helena Araujo a 18.10.2013 às 12:44

Não sei se sou melhor. Sei que há uma diferença fundamental entre nós: eu não procuro desculpar os erros que cometo e, mais grave ainda, transformá-los numa regra universal do agir.

(também deixei que a mão me escorregasse - mas sei que isso não é caminho, é um passo em falso)
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De João Miguel Tavares a 18.10.2013 às 13:04

A "regra universal do agir" é injusto em relação ao que tenho argumentado. Estou farto de dizer que acho que não há fórmulas universalizáveis nesta matéria.
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De Helena Araujo a 18.10.2013 às 13:38

Para mim, há uma fórmula universalizável: bater é um erro. Não é um erro de dar cadeia, mas é um erro. O João já lhe chamou, se não me engano, "instrumento essencial da educação".

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De João Miguel Tavares a 18.10.2013 às 13:40

Ferramenta. Para mim.
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De Anónimo a 16.10.2013 às 21:16

Um artigo muito interessante. Na minha modesta opinião, (que levei muita pancada), a violência psicológica é muito mais marcante do que a física (moderada claro), e em termos de evolução saudável da criança penso que o pior de tudo é mesmo a ausência, a falta de tempo, a indisponibilidade para brincar, rir e chorar, ajudar e pacientemente ensinar. Isso sim ir-se-á refletir lá mais para a frente.
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De André a 16.10.2013 às 13:09

Só um apontamento em relação aos "postulados questionáveis". Não gosto, geralmente, das comparações entre humanos e animais em assuntos com repercussões na esfera moral, e que vão sempre dar a argumentos fáceis de "na natureza não é assim" (muito frequentes em discussões sobre homossexualidade, etc.). Ainda assim, neste caso, o postulado ainda é mais questionável porque encontras imensas "regras", "processos de socialização" e até educação, no reino animal, sobretudo em mamíferos. Portanto podemos dizer que sim, socializar e educar são aspectos "naturais" na nossa biologia, e mecanismos evolucionários benéficos para a nossa sobrevivência. Há teorias que dizem que desenvolvemos mecanismos de socialização porque essa é uma característica que potencia a nossa sobrevivência, daí estar enraizada na nossa biologia.

Os próprios animais gostam de regras, e são mais felizes quando estas estão bem claras (os cães são um óptimo exemplo).

Podes dizer que não há nada de natural em comer com garfo, mas é "natural" ver animais a usar ferramentas (ainda que muito rudimentares) e a ensinar crias quais os limites dos seus comportamentos. A própria propensão dos animais (e humanos) para a aprendizagem nos primeiros anos de vida, denota exactamente o quão natural (e biológico) são estes processos.

Se o próximo argumento é "mas então, os próprios animais usam a violência para 'educar", é aí que nós se calhar já conseguimos fazer melhor.
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De João Miguel Tavares a 16.10.2013 às 14:52

Certo, André. Visto desta perspectiva, parece-me um argumento bem razoável.
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De Joana Pica a 16.10.2013 às 13:08

Uma abordagem de psicóloga e mãe aqui: http://maegyver.blogspot.pt/2013/03/mae-psicologa-palmada-pedagogica.html

Vale a pena ler.
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De catarina a 16.10.2013 às 11:55

Olhe, JMT, tenho 3 filhos.... o que, tal como a si, já me dá alguma alavancagem estatística para refletir sobre estes temas.
Não podia estar mais de acordo com a sua opinião, que estou certa não quer transformar em teoria. Nada contra uma boa teoria, mas tenho para mim que criar um filho, não cabe nos espartilhos metodológicos das boas teorias! E o que eu gosto de uma boa teoria...
O 1º, agora com 7 anos, levou umas boas palmadas!
O 2º, agora com 5 anos, levou umas boas palmadas!
O 3º nunca levou uma palmada..... porque tem 6 meses! Certos estamos, nós pais, que será criado da mesma maneira e por isso DUVIDO que não as vá levar!
O 1º já ouve, conversa, reflete, pensa pela sua cabeça e por isso deixou de apanhar palmadas há um par de anos....
O 2º está nesse processo.... mas ainda não se pode considerar "livre".
É curioso que os meus filhos nunca se zangaram connosco por levarem uma palmada (e palmadas não são surras!). Zangam-se por sermos injustos com eles (às vezes acontece!), por não os ouvirmos, por não lhes darmos atenção, por não os termos conseguido ir buscar à escola mais cedo num dia em que achámos que conseguiríamos.
A palmada é um castigo que funciona em momentos em que estão descontrolados. Em que não ouvem ninguém. Em que precisam de um "choque" que lhes permita parar, para depois recomeçar.
A palmada resolve tudo? Naaaaaaa. Isso é que era bom! A palmada é só um detalhe numa forma de perspetivar a forma como se quer criar os filhos. Dei palmadas que não devia ter dado? Dei! Arrependi-me? Sim! Pedi desculpa? Pedi! Os meus filhos desculparam? Logo!
Só quem cria os filhos com muito AMOR e ciente de que não coloca NADA acima dos filhos, se permite aplicar uma boa palmada sem ficar com minhoquinhas na cabeça! O rácio palmada/beijo, lá por casa, deixa a palmada ao nível do irrisório!
Termino como comecei: isto não é uma teoria. É a vida!
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De emilia silva a 15.10.2013 às 17:24

Venho acrescentar que sei de muitas famílias saudáveis com jovens educados onde acontece o episódio das palmadas. Mas não acredito que a educação tenha resultados das palmadas mas sim de muitas outras qualidades que a família tem, sendo a mais importante o infinito amor que os pais tem pelos filhos e que acaba sempre por ser retribuído.
Obrigada pela atenção.
e.
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De emilia silva a 15.10.2013 às 16:32

Tenho filha de 13 anos, foi educada sem palmadas, até agora não me dei mal...
e sou professora (30 anos de serviço) em zona problemática...
posso garantir que uma conversa é na maioria das vezes o início de uma melhoria de comportamento mas as palavras violentas ou o sarcasmo ou a piadinha nunca melhoram um comportamento, antes pelo contrário.
Estou farta de ver violência entre meninos... entre adolescentes. Mesmo em situação de namoro acontecem situações de violência... deve de ser da época em que vivemos.
e.
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De João a 15.10.2013 às 16:09

Violência extrema na infância:

Atirei o pau ao gato -to-to,
Mas o gato -to-to,
não morreu -eu -eu

(e vai por ai)

Agora a sério :)
Se olharmos para a natureza, - sim porque comentários inteligentes e cheios de palavras eruditas não vos fazem (e perdoem-me os mais sensíveis) menos animais do que um cão ou uma barata - as estratégias evolutivas de cada espécie são tão variadas e brutais que assustariam quer os "violentos" apologistas da palmada quer os "Hippies" do paz e amor. Em todas elas o elo comum é a sobrevivência e prolongamento da espécie. E não é isso que afinal educar é? Garantir que a vossa prol tenha as melhores ferramentas (educativas, sociais, etc) para sobreviver neste mundo que nós criamos e continuamente vamos reinventando? Assim JMT e André concordo com o termo infalibilidade do Papá! Agora este termo põe os papás em xeque... estarão todos os meus amigos que lêem este blog e têm filhos (ou pensam ter) preparados para por em prática este termo? Têm vocês o conhecimento sobre este mundo (e a sua evolução) para poderem dar aos vossos filhos as ferramentas necessárias para a sua boa adaptação a este "paraíso na terra" que criamos para eles? Eu sinceramente olhava para dentro preocupava-me antes com isso... depois disto as palmadas vão parecer um pouco menos significantes.
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De Fernando Esteves a 15.10.2013 às 14:59

http://fernandoesteves.com/blogue/2013/10/devemos-ou-nao-partir-a-boca-aos-nossos-filhos-quando-se-portam-mal/

A minha contribuição para o debate. Para quem não quiser ler o post, que admito ser extremamente longo, enfadonho e mal escrito, a tese é: bater é bom, sim senhor.

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Onde o pai fala de assuntos sérios



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