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Um post para a Teresa Muge

por João Miguel Tavares, em 21.10.13

Quem tem vindo a acompanhar este blogue e a argumentação e contra-argumentação da palmada certamente já se terá deparado com os comentários da Teresa Muge. Mesmo estando nós em lados palmadisticamente opostos, os seus textos são óptimos, bem argumentados e percebe-se perfeitamente que ela sabe do que está a falar. Mas, além disso, a Teresa tem um apelido pouco comum, daí eu lhe ter perguntado se ela era irmã da cantora Amélia Muge. Nos comentários deste post, ela respondeu-me:


Quanto à Amélia: ya, é minha mana; esteja à vontade em gostar ou não do trabalho dela; fico danada consigo se não gostar, mas aguento e respeito!

 

Ora, isto só prova quanto o mundo é pequeno. Não sei se a Teresa Muge sabe, mas além de eu ser pai de quatro escrevi muitos anos sobre música, primeiro no Diário de Notícias e depois na Time Out, em particular sobre fado, música brasileira e música popular portuguesa. Eu comecei a estagiar no DN em 1998, e quando acabei o estágio curricular de três meses, ainda antes da minha entrada para os quadros do jornal, fiquei a trabalhar no suplemento de música do jornal, o DN Mais, que tinha umas famosas páginas amarelas. Pois bem: o meu primeiro trabalho remunerado foi uma entrevista (e crítica) à Amélia Muge a propósito do seu terceiro álbum, Taco a Taco. Eu já nessa altura adorava a Amélia, e aquele momento foi para mim tão simbolicamente importante que durante anos e anos a password do meu computador do DN foi... "muge". 

 

A minha paixão pela música da irmã da Teresa, que se mantém intocada, aconteceu alguns anos antes disso, em 1992, quando li um texto entusiástico saído no Público (penso que era assinado pelo Nuno Pacheco) sobre um novo disco chamado Múgica. O Múgica foi lançado por uma cooperativa de música onde estava o José Mário Branco, chamada UPAV, que não resistiu muitos anos. Este foi um dos primeiros discos editado pela UPAV e está hoje esgotadíssimo, mas eu guardo um precioso exemplar cá em casa. A Amélia já mostrava aí aquilo que para mim ela continua a ser: a única verdadeira herdeira do espírito de José Afonso, pela inventividade da sua linguagem, pelas influências de África e pela absoluta resistência a qualquer forma de domesticação musical.

 

Ora, entre o reportório de Múgica, há um belíssimo tema, um dos meus favoritos do disco, chamado Em Mértola, composto por uma tal... Teresa Muge.

 

Mas há mais.

 

Foi nesse mesmo ano de 1992 que eu comecei a namorar com a Teresa - a minha, a Mendonça, não a Muge. Só que ambas as Teresas têm esta coisa em comum: nasceram em Moçambique. A minha Teresa nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo), e a sua família sempre foi muito dada à música (todos os seus seis filhos estudaram no Conservatório). Quando um dia eu falei da Amélia Muge aos pais da Teresa, já nem sei porquê, eles disseram-me que chegaram a conhecê-la em Lourenço Marques, onde as jovens irmãs Muge (a Amélia e a Teresa) formavam um dueto e gozavam já de bastante fama. Eu não fazia ideia disso, mas aqui está a capa deste disco a prová-lo:

 

 EP saído em 1971. A Teresa é a da esquerda, a Amélia a da direita

 

Mais tarde, em 1994, a Amélia Muge lançou aquele que continua ainda hoje a ser para mim um dos melhores álbuns da história da música portuguesa: Todos os Dias. E esse disco foi precedido por um concerto no Instituto Franco-Português que continua ainda hoje a ser para mim um dos melhores concertos que vi na vida (e olhem que vi muitos). Se a memória não me trai - isto já aconteceu há 20 anos -, a Teresa Muge cantava nesse concerto o tema O Pastorinho, em dueto com a Amélia.

 

Não sei quantas vezes eu ouvi Todos os Dias no meu discman a caminho de Portalegre, num tempo em que eu estudava em Lisboa e as viagens de autocarro chegavam a demorar dez horas em dias de muito trânsito. Mas foram com certeza muitas centenas. Poderia falar demoradamente de cada tema desse disco, mas para o caso interessa apenas O Pastorinho, um dueto maravilhoso a cappella das irmãs Muge que encerra o disco, espécie de música infantil no melhor sentido da palavra, que eu sempre sonhei cantar com a minha Teresa.

 

Há muitos, muitos anos, ainda antes de sermos casados, a Teresa até chegou a tirar de ouvido a melodia e a pô-la em pauta. Mas o dueto, dada a minha triste falta de talento musical, nunca aconteceu. Este fim-de-semana, contudo, depois da confirmação da Teresa enquanto irmã da Amélia, fui à procura da pauta no meio de uns caixotes. E encontrei-a! Cá está ela:

 

 

E já que tínhamos a pauta e a confirmação, achámos que não era tarde nem era cedo: este fim-de-semana iríamos cantor O Pastorinho em família, para oferecer à Teresa Muge! Já que ela e a sua irmã nos tinham proporcionado tantas alegrias, o mínimo que podíamos fazer era destruir em sua homenagem uma das músicas mais belas que haviam cantado juntas.

 

E pronto, cá vai ela. Isto foi gravado ontem à noite, depois de uns ensaios muito periclitantes, como se vai poder constatar. Não deu para múltiplos takes, porque o pessoal tinha de ir rapidamente para a cama (como se vê, já está toda a gente de pijama). A Teresa é aquela senhora que está a cantar muito bem e muito afinada, acompanhada pela nossa filha Carolina, que não sei porquê decidiu fazer uma coreografia inédita durante a música. O Gui estava incrível como só ele e fazia as vozes que bem entendia. A Ritinha fez os "ésses" das abelhas (se vocês virem o vídeo vão perceber). Eu desafinei, como é hábito, sobretudo na horrível parte final quando subitamente reparei que a abelha Rita começou a querer dar ferroadas no booklet do Todos os Dias. A minha performance é tanto mais lamentável quanto me coube defender a voz da Teresa Muge - peço antecipadamente perdão por isso. E, por fim, uma referência ao grande Tomás Mendonça Tavares, que não aparece no vídeo apenas por uma razão: é ele quem o está a gravar, com grande profissionalismo.

 

E agora é que é, aqui vai (ponham muito baixinho e fechem ligeiramente os ouvidos), com um grande, grande beijinho para as irmãs Teresa e Amélia Muge:

 

 

PS -Já agora, para que se perceba que a música original é mesmo muito, muito bonita (o que, vá lá saber-se porquê, não se consegue perceber assim muito bem pelo vídeo acima), aqui fica a maravilhosa versão do álbum Todos os Dias:

 

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publicado às 11:01


28 comentários

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De Teresa Muge a 21.06.2017 às 10:39

Já lá vão quatro anos, mas a minha sobrinha Cristiana gosta de ir ao baú tirar a poeira dos tesourinhos contentes ou felizentes que pertencem a toda a família e lá encontrou este. Enviou-mo e então eu dei por ela: tinha ficado de dar resposta à altura à performance familiar a cantar O Pastorinho e eu, que não sou política, ultrapassei o medidor de promessas por cumprir em vários graus (uma vergonha), pelo que aceito que, se for a votos, me mandem dar uma curva. Agora os baixinhos - pelo menos os primeiros três - já começaram a olhar para baixo... não? Talvez a Ritinha ainda aprecie a coisa e os pais também! Então aqui fica outra versão do tal pastor do grupo Moçoilas, que foi durante vinte e tal anos um dos meus projectos de vida e que acabou o ano passado de forma um bocado ... feia, digamos (facebook: há duas páginas Moçoilas - uma é a reconstrução de memórias sobre o chão criativo do grupo, que estou com caaaalllllma a desenvolver; a outra era a página do grupo que foram (página e o próprio grupo) tomados de assalto pelo trio que se apropriou indevidamente de todo o nome, imagem, reportório... património, completamente à má fila. Um desgosto para mim. Mas pronto: aqui fica o Pastorinho cantado pelas Moçoilas:

https://www.facebook.com/tugemuge/videos/702230116608099/

Abraços grandes e muitos jinhosssss a todos!
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De maria a 26.03.2014 às 21:20

Tive o privilégio de ouvir as "irmãs Muge" em Moçambique e encontrar-me em alguns espaços geográficos frequentados por elas...e gosto muito do trabalho da Amélia e a Teresa também já ouvi por aqui no grupo "Moçoilas"...vá lá Teresa a tua voz lindíssima também...
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De Íria Roriz Madeira a 29.10.2013 às 14:56

Caro João Miguel Tavares,

em primeiro lugar, uma vez que é o meu primeiro comentário a um post seu ou deste blog preciso congratulá-lo pela boa disposição e por trazer um pedacinho de graça e normalidade às dores das famílias, inspirando por outro lado como se pode chegar a uma família numerosa bem-disposta e saudável (também sonho com uma família grande).
Sigo este blog com alguma regularidade e actualizo a minha cultura política através do 'Governo Sombra', é absolutamente delicioso ler/ouvir as suas opiniões, mesmo quando não me revejo nelas completamente.
Não costumo fazer comentários a blogs, mas depois de ouvir esta canção e a vossa versão (que esperava tão pior pelos avisos do post, que bem que canta a Teresa! E a Carolina!) tive de a colocar para a minha filha de 2 meses ouvir :) -adorou, diga-se. E depois de um silêncio de 2 meses em que não consegui ouvir nenhuma música com ela e mal cantar, restos de quaisquer angústias pós-parturianas, foi a primeira vez que me apeteceu voltar ao prazer dos acordes... Linda, a música. Muito especial mesmo.
Obrigada sincero por este momento.
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De Tiago Goncalves a 23.10.2013 às 17:15

E no mundo umas coisas levam a outras, e a outras, e a outras... Eu conheci a Amélia Muge muito mais tarde. Por alturas do Não Sou Daqui, precisamente por causa de um texto "inestimável" do João no tal suplemento das páginas amarelas. Desde aí ouvi e arranjei todos os discos, menos o esgotadíssimo Múgica (e bem que eu o procurei). O vídeo é adorável. Parabéns.
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De João Miguel Tavares a 23.10.2013 às 17:36

Ena, Tiago. Eras tu que lias aquilo, então?
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De Tiago Gonçalves a 23.10.2013 às 19:04

Era, era. Ainda tenho lá em casa todos os suplementos guardados. Quase que podia também fazer o meu "post para o João Miguel Tavares".
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De João Miguel Tavares a 23.10.2013 às 19:15

Fico ansiosamente à espera disso.
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De carla antunes a 22.10.2013 às 16:52

Como é que vocês têm tempo para isto? Hum?
Eu só tenho um Tiago em casa e enquanto carrego no «record» já a criança está no wc a brincar com o/a piaçaba!
Achei lindo.
Não conhecia as manas mas vou investigar. Parece-me muito bem. Lindo mesmo.
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De Joana Mendonca a 22.10.2013 às 15:26

Muito lindo! Cantar em grupo é das melhores coisas que há!
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De Teresa Muge a 22.10.2013 às 01:18

Uiii! E agora o que é que eu digo? Ó pá! A vossa interpretação do Pastorinho é originalíssima, muito muito boa, cada um com o seu contributo criativo certíssimo, incluindo o realizador do vídeo! Queria inventar palavras para não ter de dizer aqueles "adorei" que levantam mais pó que outra coisa... Sei lá... Olhem: podem adoptar-se famílias inteiras? É que isto é muito mais que uma prenda, isto é um festival de afectos! Deixaram-me de pantanas! ― Teresa: ainda ontem andei a apanhar chuva na cabeça para grande admiração das gentes de S. Brás de Alportel; estava quentinha e levou-me por momentos para um espaço-tempo onde eu era muito mais competente do que agora; ser de moçambique, é, antes de mais, isto mesmo: chuva na cabeça, garganta afinadíssima, timbre de voz muito bonito e bem explorado e, claro, cantar em qualquer lugar; gostei mesmo, incluindo da partitura! ― João Miguel: não sabia mesmo do seu gosto pelas coisas da Amélia; eu também gosto e acho que não é apenas por ser suspeita; não notei nenhum desafinanço... pareceu-me mais ser exigência do arranjo! E olhe que a sua coreografia com a ET mais piquenina é coisa para Óscar! ― Carolina: não acho que tenhas feito apenas uma coreografia inédita; foste capaz de algo muito difícil: improvisar (isto é coisa só para tipos como o Bobby Mcferrin - conheces? Pede ao pai para ver, é porreiro!); gostei particularmente do modo como integraste o cabelo na dança! É de considerar um aprofundamento destas habilidades, minha querida! ― Gui: fantástica a forma como foste inventando uma melodia que andava por ali pelo meio a ligar aquelas outras duas malucas; elas parece que nunca se encontram e, quando isso acontece, pronto, lá vai outra vez cada uma a escorregar para seu lado! E tu, corajosamente, a manteres a ligação entre as duas! Gostei! Gostei mesmo e ainda estou para saber como é que o conseguiste fazer! ― Ritinha: olá! Isso é tudo entusiasmo e alegria? Eu também gosto do barulhinho das abelhas aos ésses - zzzzz - e calhou muito bem andares ali pelo ar...; quanto às ferroadas diz ao pai que a mim me divertiu, mesmo estando em risco o tal livrinho; coisas da vida, moça! ― Tomás: o cavalheiro permita que lhe expresse a mais profunda admiração pelo brilhantismo com que realizou este vídeo familiar, bem como pelo discernimento (vai ver ao dicionário) e humildade necessária para perceber que não tinha de mostrar aqui a sua cara! Não é como certos realizadores vaidosos (Hitchcock no caso - pergunta aos pais) que têm a mania de aparecer em todos os seus filmes! Muitos parabéns!
O 45 rotações é daquelas coisas... a nossa vida passou por aí e ainda bem; os meus filhos costumam divulgá-lo entre os amigos e fartam-se de gozar comigo. Já lhes prometi quatro chapadões mas eles dizem que nem para mata moscas eu sirvo (tal é a falta de respeito)!
Bom: e agora? Vou magicar qq coisa que vos deixe tão atordoados quanto eu fiquei! No fundo, não passo de uma pessoa terrivelmente vingativa! Um grande abraço para todos em especial (os grandes q me desculpem) para os ETs.

Teresa Muge

PS: 'lados palmadisticamente opostos': será mesmo?
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De João Miguel Tavares a 22.10.2013 às 22:34

Olá, Teresa. Este teu super-fofo comentário foi lido hoje de manhã às quatro crianças, a caminho da escola. Todos adoraram e agradecem muito (enfim, a Rita não se manifestou, mas suponho que também agradeça). O Tomás é que agora não se cala a querer saber quem é o Bobby McFerrin.
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De Sandra Figueiredo a 21.10.2013 às 21:46

Acho que este é um enorme elogio:
Quando comecei a ver o vosso vídeo as minhas filhotas,de 3e5anos, largaram os puzzles que estavam a fazer e vieram a correr ver o vídeo comigo. Quando terminou tivemos que o ver outra vez,a pedido delas...afinal as crianças não mentem,não é?
Parabéns,adorámos
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De gralha a 21.10.2013 às 21:30

Adorável! Principalmente a pequena abelha aos ss e ss :)
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De Inês Monteiro a 21.10.2013 às 21:28

Pq é que abana as mãos da Ritinha, coitada?
A coreografia da Carolina é muito engraçada!
Taaaaaaaaaaaaantos livros!

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