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Fundamentalista anti-mentira

por João Miguel Tavares, em 23.10.13

A propósito do meu post sobre as pulseirinhas, a Paula comentou o seguinte:

 

Não mentir NUNCA aos filhos é um excelente princípio.
Mesmo que obrigue a andar com pulseirinhas ridículas...


Sim, é verdade. Não podia estar mais de acordo. Todos nós temos algum tipo de fundamentalismo, e o meu é este: nunca mentir às crianças (na verdade, nem às crianças, nem aos adultos, mas isso é tema para outra conversa). Nunca me dei mal com este princípio, nunca me arrependi, a fama de desbocado só me tem dado alegrias, e - cereja em cima do bolo - facilita brutalmente a nossa vida, porque nunca somos apanhados na curva nem somos obrigados a rotações impróprias da espinha.


Claro que em relação às crianças não é um fundamentalismo completamente fundamentalista. De outro modo teria de os informar aos dois anos de idade que o Pai Natal não existe. O lado onírico, sonhador e imaginativo está sempre bem activo, e quando se está em modo brincadeira é perfeitamente possível - e até aconselhável - aldrabar o máximo que se puder. Mas apenas - e só - em modo de brincadeira. Quando o tom muda para sério, a mentira deixa de ser permitida. Já lhes disse várias vezes: "Só há uma coisa pior do que portarem-se mal: mentir."


Eu levo isto tão a peito que no infantário faço sempre questão de me despedir da Ritinha e dizer que me vou embora, mesmo que as pobres professoras e auxiliares fiquem depois com a criança a chorar ao colo. Nos primeiros dias é sempre uma chatice, porque ela ainda não conhece o ambiente e detesta sair do colo do pai. Daí que a maior parte das pais (e educadoras, já agora) prefira virar costas, distrair as crianças, dizer "olha ali aquele brinquedo", enquanto a mamã ou o papá se pisgam a grande velocidade. Eu não: prefiro que a Rita chore mas veja o meu adeus. Ao fim de algum tempo ela percebe que eu parto mas depois volto, e a partir daí deixá-la na sala passa a ser uma actividade bastante pacífica.


Utilizei essa táctica com todos os meus filhos e resultou. Aquela coisa de dizer aos putos "a mamã vai só ali e já volta" não me entra na cabeça. Graças ao fundamentalismo do "não mentir", o que acontece é que as crianças confiam em mim, e sabem que cumpro aquilo a que me comprometo. Isso pode causar-lhes, no início, alguma tristeza e algumas frustrações quando lhes digo na cara "sorry, não dá, desta vez o papá não vai poder" fazer isto ou aquilo. Mas, feitas as contas, acredito - e, mais do que acreditar, tenho provas - que isso lhes dá uma imensa segurança.

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publicado às 10:32


8 comentários

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De Jorge Costa a 25.10.2013 às 18:26

Hummmm ... No Natal há Pai Natal ai em casa ou nunca houve ???
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De rute a 24.10.2013 às 12:10

Olá, bom dia.

Concordo com quase tudo. Cá em casa também deixo os meus filhos pendurarem as suas obras de arte (desenhos...) pela casa porque sei que ficam muito orgulhosos, e nós também. Também já usei umas pulseiritas e colares para os deixar com aquele sorriso que só nós conhecemos.
Também abomino as mentiras e explico-lhes que são feias :).
Só mesmo aquelas mais deliciosas como a questão do Natal (existe ou não Pai Natal/Menino Jesus?).
Consegui enganar o meu filho mais velho até aos 10 anos. Sempre que tinha dúvidas (tinha muitas, claro), disse-lhe sempre que eu apesar de ser adulta também acreditava no Pai Natal, e desta forma lá foi papando a mentirinha.
Somente a questão de deixar a menina na escolita a chorar é que tenho as minhas dúvidas. Até porque, se bem sei, o choro de uma criança arrasta o choro das outros que até já estavam ambientadas e preparadas para mais um dia de creche. E tudo o que nós Pais, pudermos fazer para facilitar o trabalho das super Educadoras que tratam dos nossos filhotes, é sempre bem vindo. Só por isto....
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De MIsabel a 28.10.2013 às 10:51

O meu papel não é facilitar a vida da educadora do meu filho mas sim educá-lo.
Desde o primeiro dia em que deixo o meu filho no colégio que lhe digo que ele fica a brincar com os meninos e que a mãe vai trabalhar e depois o vai buscar.
Respeito muito o trabalho das educadoras e auxiliares e é importante ensinar o meu filho a respeitar todo o pessoal educativo. Mas o meu papel como mãe não é facilitar o trabalho de ninguém e sim educar o meu filho.
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De Paula a 24.10.2013 às 00:00

Olá João Miguel,
Antes de mais agradeço a referência. Gostei muito do post.
Gosto de pessoas assim: frontais, directas, transparentes. Já vão rareando hoje em dia.
Eu também sou assim e gosto de o ser, pois estou de bem com a vida e durmo muito bem.
Já recebi críticas por não ser muito "politicamente correcta". Prefiro ser frontal, educadamente, do que mentirosa. Se gosto elogio. Se não gosto não critico. Não minto mas não digo tudo o que penso, se isso puder magoar alguém.
Tento ensinar isso aos meus filhos.
Para mim, não mentir, é um dos mais importantes valores que lhes tento passar.
Já aqui escrevi sobre isso: http://vidademulheraos40.blogspot.pt/2013/01/comportamento-na-escola.html
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De Anonima a 23.10.2013 às 12:03

Alias, se o JMT respondeu assim... "oh, muito obrigado, Tomás, que querido". Acho que nao é nenhuma mentira... O Tomás foi realmente muito querido em fazer uma pulseira como simbolo de agradecimento e eterno amor pelo pai.
A mentira seria estar a dizer que é a pulseira mais bonita do mundo e dar uma importancia "falsa" à pulseira.
A verdade é que o Tomás foi um querido e essa é a atitude que se está a louvar.
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De A Espiga de Trigo a 23.10.2013 às 11:56

Há fundamentalismos positivos e este é um exemplo. Ainda ontem refletia precisamente nesse assunto e chegava à mesma conclusão: é muito mais nefasto mentir ou esconder coisas de uma criança do que dizer-lhe a verdade. E é como diz: a confiança só se constrói assim.
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De Anónimo a 23.10.2013 às 11:24

E que tal dizer a verdade, já que não gosta da mentira, e dizer ao seu filho que não gosta de andar de pulseiras...
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De João Miguel Tavares a 23.10.2013 às 11:33

Porque dizer a verdade não é dizer toda a verdade em todas as ocasiões. Dizer a verdade não é ferir inutilmente os sentimentos das pessoas. Porque para mim é mais importante a felicidade que o meu filho sente ao ver-me andar com a sua pulseira ridícula do que o incómodo que eu sinto em andar com ela.

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