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A cotação do amor

por João Miguel Tavares, em 04.11.13

O Público deu este domingo a notícia de que se registou um decréscimo do número de divórcios de 2011 para 2012 e um aumento do tempo que as pessoas ficam casadas. No caso da duração dos casamentos, estamos a falar de dados entre 2007 e 2012, e portanto de uma tendência, que é esta: a duração média de um casamento à data do divórcio passou de 14,3 para 15,7 anos.

 

É curiosa a forma como a notícia foi enquadrada pelo jornal e pela peça televisiva a que assisti à noite: o tempo de casamento aumenta pela simples razão de que as pessoas não têm dinheiro para se divorciar. Cito a notícia do Público:

 

A experiência de Ricardo Candeias, advogado que coordena o sitedivorcios.net, diz-lhe que o número de pedidos de divórcio desce até quando o país começa a discutir o Orçamento do Estado. Parece-lhe que os cônjuges desavindos lêem ou ouvem falar nas medidas previstas, começam a fazer as contas, ficam apreensivos, controlam o impulso para fazer as malas.


É certamente uma maneira de ver as coisas, e é bem capaz de ser a mais provável. Mas eu, talvez por ser optimista e ligeiramente romântico, gostaria que tivesse sido pelo menos colocada uma outra hipótese - a de que a crise nos obriga a procurar refúgio junto do núcleo fundamental das nossas vidas e a valorizar aquilo que temos de mais importante. Em vez de se supor imediatamente que as pessoas só não se divorciam porque não têm dinheiro, que alguém admita, se faz favor, a hipótese de a cotação do amor estar a subir enquanto o rating do país continua a descer. 

 

É que esta é uma hipótese que sempre senti como muito plausível em alturas de crise profissional e dificuldades económicas. Nos momentos mais complicados das nossas vidas não é nos corredores dos centros comerciais que procuramos conforto (enfim, há quem procure, mas não me parece um sintoma particularmente saudável), mas sim junto daqueles que nos estão mais próximos. Não estou aqui a defender - atenção - que o dinheiro não é importante nas nossas vidas. Claro que faz imensa falta, e se não fizesse o Mali era o país mais feliz do mundo. Mas também é verdade que quando estamos demasiado entretidos a estoirá-lo tendemos a esquecer que a felicidade, de facto, não se compra - basta olhar para Hollywood, para o buraco na cabeça de Kurt Cobain ou para Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho.

 

O discurso da crise como uma vantagem para encontramos o essencial das nossas vidas é bastante perigoso, na medida em que somos facilmente caricaturados e acusados de situacionistas. Género: "Eh pá, então se calhar estes cortes todos nos salários até são bons!" Claro que não são bons. Claro que são maus. Claro que há pessoas que estão a sofrer muito e que menos dinheiro nos nossos bolsos significa menos dinheiro para fazer o que queremos. Ou seja, a crise tira-nos liberdade - e para um liberal, como eu, isso nunca pode ser considerado positivo per si.

 

Mas a crise também abana as nossas vidas. Mexe connosco. Obriga-nos a mudar o foco. E, nesse sentido, faz de nós pessoas mais atentas. Quando o mundo é virado do avesso, há desde logo o terrível perigo de partirmos o pescoço. Mas quando estamos de pernas para o ar também temos oportunidade para olhar para as coisas de uma outra maneira. Sendo péssimo para a carteira, pode sempre ser uma forma de darmos mais valor àquilo que o dinheiro não pode comprar - e que é, sem falsos moralismos, realmente o que de mais precioso temos na vida.

 

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publicado às 09:55


4 comentários

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De Ricardo a 04.11.2013 às 13:05

Eu ainda tenho outro ponto vista. Havendo falta dinheiro, muita gente prefere viver com quem não ama, a viver debaixo de uma ponte e dependendo da sopa dos pobres para se alimentar. Muita gente prefere estar com alguém por quem não sente nada, para se fazerem de tristes aos olhos da familia e vizinhos. Há ainda aqueles que por teimosia para com o conjuge, recusem o divorcio para não perder a pessoa com quem casaram a favor de outra que muitas vezes apareceu na vida do casal depois das dificuldades financeiras terem desaparecido e haver uma segurança a nivel de carreira profissional.
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De Maria Cruz a 04.11.2013 às 12:41

Conheço casais que mesmo separados, e sendo uma separação calma, sensata, continuaram a viver juntos até que pudessem se reestruturar e ir cada um para seu lado. Conheço casais que já não se suportam mas não tem a menor possibilidade financeira de estarem separados. Conheço pessoas que por terem muito tempo, e pouca preocupação real (problemas de dinheiro, saúde, no trabalho etc...),acabam se dedicando a procurar problemas nas suas relações... e acabam por encontrar. Conheço pessoas que, na hora que os problemas surgem, se unem mais para enfrentá-los, assim, há de tudo um pouco. Por isso acredito na visão romântica, e também na visão prática do tema, enfim, acabo não acrescentando muito a discussão, não é?
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De Viajante a 04.11.2013 às 12:02

Embora a vontade de acreditar numa explicação mais positiva, ou mais bonita, seja reconfortante, pensando com frieza tenho dúvidas que essa possa fornecer pelo menos a maior parte da explicação.
O divórcio é um dos actos notariais mais caros, depois das escrituras. E a separação de um casal acarreta efectivamente muitas despesas, a começar pela necessidade de haver duas casas quando antes era necessária só uma. São aliás cada vez mais noticiados os casos de casais separados e até divorciados que continuam a partilhar a mesma casa.
Depois, e aqui há um dado muito relevante em termos de quantidade que não é ponderado, o que acontece com os casais unidos de facto, que são cada vez mais? E com aqueles que sendo na prática unidos de facto não aparecem nas estatísticas como tal? Alterariam a percentagem ou não? É bom lembrarmo-nos que deste prisma olhamos para uma realidade incompleta.
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De Ana Maria a 04.11.2013 às 10:45

"Mas eu, talvez por ser optimista e ligeiramente romântico, gostaria que tivesse sido pelo menos colocada uma outra hipótese - a de que a crise nos obriga a procurar refúgio junto do núcleo fundamental das nossas vidas e a valorizar aquilo que temos de mais importante."

Pensei o mesmo: que estudos estão na base daquela afirmação, daquela relação causa-efeito? Será mesmo a crise que está a forçar os casais a conviverem debaixo do mesmo tecto, anulando-se, desgastando-se?
Ou, num tempo em que as coisas estão mais sérias e mais difíceis, as pessoas começam a tirar mais tempo para pensar, para refletir, para respirar fundo e perceber que - afinal - o problema tem solução?

Sei que nem tudo são rosas e que hoje, como num antigamente não muito distante, há pessoas que sofrem uma vida inteira por não terem possibilidades de mudar o rumo da sua vida. Mas, tal como o João, prefiro ACREDITAR (é um acto de fé, mesmo) que as decisões de uma vida não se regem só pelas moedas mas também pelos sentimentos.

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