Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Come What May

por João Miguel Tavares, em 19.11.13

 

A citação que referi no post anterior, referente ao novo livro de Gonçalo M. Tavares, é uma nota que acompanha uma sequência de texto onde o autor reflecte sobre amor, identidade e aquilo a que chama "unidade no sofrimento":

 

Este dói-me a dor do outro é realmente o ponto de união mais forte entre dois organismos e, nesse sentido, o ponto de dissolução da identidade.

Escreveu Sylvia Plath:

"O teu corpo

Magoa-me como o mundo magoa Deus."

(...)

A dor, de facto, como o mais relevante.

O amor será assim a disposição para ser, se necessário, ladrão da dor do outro.

 

Esta passagem, descoberta ao acaso, numa abertura aleatória do livro (coisa que Gonçalo M. Tavares aconselha a fazer na leitura de Atlas do Corpo e da Imaginação), é muito importante para mim, pela razão porque tantos livros são importantes para nós: não porque nos ensinem coisas novas, mas porque nos confirmam o que já sabemos.

 

E neste caso em particular, a minha identificação resume-se a uma velha frase: "come what may". Quando eu e a Teresa nos casámos, em Abril de 2002, o filme Moulin Rouge!, de Baz Luhrmann, estava no pico da sua popularidade. Nós já tínhamos gostado muito de Romeu+Julieta, e o musical feérico, excessivo, deslumbrado e assolapado que era Moulin Rouge!, história desvairada de amour fou entre um jovem sonhador e uma cortesã na Paris de 1900, não poderia senão tocar profundamente dois jovens apaixonados, como eu e a soon-to-be-excelentíssima esposa.

 

E então decidimos não só que as nossas alianças de casamento haveriam de ser parecidas com aquelas que Claire Danes e Leonardo DiCaprio trocam em Romeu+Julieta, mas também que elas teriam gravado no seu interior, em vez de nomes ou de datas, simplesmente a expressão "come what may", uma das canções centrais de Moulin Rouge!.

 

É bonito, portanto, ver confirmada na passagem de Gonçalo M. Tavares aquilo que dois jovens, já não tão imberbes assim, intuíram em 2002: que o segredo do amor não está na disponibilidade para gerir a alegria, actividade ao alcance de qualquer um, mas na disponibilidade para gerir, sempre que necessário, a dor e o sofrimento. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até ao fim das nossas vidas. Isto não são juras de felicidade eterna - são juras de perseverança eterna.

 

Come what may. Venha o que vier.

 

 


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:24


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Rita João Correia Martinho Lopes a 20.11.2013 às 21:27

Gosto da maneira como se espicaçam um ao outro, da forma como trocam galhardetes, da forma despretensiosa como fazem declarações de amor tão genuínas, da forma como é o vosso amor...
Porque ao contrário do que muitos pensam um casamento não tem só pinceladas cor de rosa, tem um sem fim de cores, como o vosso.
Sem imagem de perfil

De maria a 20.11.2013 às 12:37

Que lindo, João!
Sem imagem de perfil

De Ângela Ribeiro a 19.11.2013 às 16:30

Que lindo João! O vosso blog é melhor e mais esclarecedor do que qualquer curso católico para os noivos! Vou partilhar :-)
Sem imagem de perfil

De elisabete a 19.11.2013 às 16:19

Oh João, João do que me foi lembrar! O filme visto 4 vezes e 4 vezes chorado, a música ouvida e cantada a plenos pulmões vezes sem conta, o casamento que inicia com Yann Tiersen e termina com a música de que acaba de falar... o Amor...o Amor complicado, proibido de uma aluna por um professor que 13 anos passados até já deu frutos e continua de pedra e cal e sem lamechices para sempre calando tudo e todos...oh João, João!
Elisabete
Sem imagem de perfil

De Carlos Gilbert a 19.11.2013 às 16:02

Lindo. Faz bem ler pensamentos destes, ao fluir dos dedos no teclado. The mind unleashed. The mind? Or the heart?...

Comentar post




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D