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Quem és tu, Carolina?

por João Miguel Tavares, em 16.12.13

Eu estava na festa de Natal da escola da Carolina, a olhar para ela ao longe, a vê-la interagir com os colegas e com os professores, a ver a forma como falava, como se mexia, como se relacionava com as pessoas do seu meio escolar, e a ter a perfeita sensação de que eu já não conheço assim tão bem aquela minha filha. Quem és tu, Carolina?

 

Mas não se assustem. Este não é um desconhecimento no sentido mau da palavra, não no sentido "quem és tu, que não te conheço!", tipo aquela coisa que nós dizemos quando um filho faz alguma coisa muito errada. É, bem pelo contrário, um desconhecimento no sentido bom, de alguém que já é gente fora do seu ninho, alguém que ganhou uma independência própria, uma forma de ser pessoa que é só sua.

 

A poucos meses dos seus 10 anos, a Carolina não é só uma, mas duas. Há a Carolina da escola e a Carolina de casa, e a Carolina da escola é muito mais crescida do que a Carolina de casa. Parece-me mais educada e mais atenta, mais adulta e mais independente, e desconfio - só posso desconfiar, porque quando me aproximo as coisas mudam - que não tenha as mesmas conversas, nem os mesmos medos, nem sequer diga as mesmas piadas, e - claro - que cultive imensos segredinhos com as amigas.

 

Há nisso um sentimento de perda, como é óbvio. Ela já não é uma criança totalmente dependente de mim e da Teresa, como ainda são o Tomás, o Gui ou a Rita. Eu estou a perder a Carolina, no sentido em que aos poucos vou perdendo parcelas de conhecimento sobre o que ela faz e sobre o que ela pensa. Crescer é fechar portas e janelas na cara dos pais, abrir novas divisões de privacidade, com direito de admissão reservado. E é inevitável que nós, papás e ex-tudo, fiquemos cada vez mais vezes de fora.

 

Mas é um estranho sentimento de perda, este, na medida em que ele também me enche de orgulho, porque vem misturado com um certo sentimento de dever cumprido. À medida que vai diminuindo o meu espaço de tutela, vai-se completando o trabalho como pai e educador. Claro que ainda tenho muitos anos pela frente de educação e de cuidado, mas a sensação que me assaltou naquela festa de Natal, vendo a Carolina ao longe, é que para aí 60% está feito. Já não a vou conseguir moldar tanto quanto ela, a partir daqui, se moldará a si própria.

 

Para pais control freaks, imagino que isso possa ser um pouco assustador. Afinal, há um vasto território desconhecido à nossa frente. Mas eu sou um eterno optimista, e acho que a partir deste ponto vai ser bem mais divertido do que foi na última década. Porque é sempre muito mais interessante descobrir a riqueza única do outro do que construir extensões de mim. E eu tenho a certeza de que a Carolina me vai ensinar muito, me vai desafiar muito e me vai tornar um homem e um pai melhor e mais sábio.

 

A sabedoria do saber viver é verdadeiramente tudo o que conta nesta vida, e nesse sentido os nossos filhos são dos mais preciosos auxiliares que temos à mão. Vou com certeza adorar vê-los crescer, e por isso aquele breve momento de epifania foi como uma prenda de Natal antecipada: eu já não conheço muito da Carolina, mas gostei muito de ver ao longe o que não conheço.

 

O que eu vi, na verdade, foi a esperança - não a esperança pura e meio tonta do wishful thinking, mas a esperança à séria, ou seja, aquela que é alicercada em boa dose de certeza - de que eu e a Teresa a tenhamos educado bem e preparado para a vida. E isso foi mais do que bom. Foi óptimo, e, a bem dizer, foi até bíblico: quem perder uma vida por amor, achá-la-á, está escrito nos Evangelhos. Que isso se aplica a nós, eu já sabia. Que isso também se aplique aos nossos filhos, estou agora a aprender.


A Carolina prepara-se para descolar no seu próprio avião

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publicado às 09:48


12 comentários

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De Maria João a 18.12.2013 às 13:30

Há aquele texto de Saramago que diz que os filhos são por empréstimo... e depois começamos a "perdê-los". No bom sentido, claro e ainda bem que é assim.
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De A a 18.12.2013 às 11:46

22 anos, filha de pais control freaks.
Este texto emocionou-me...
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De Anónimo a 16.12.2013 às 18:10

O meu rapaz "mais grande" acabou de fazer 11 anos.
O meu menino ali estava ontem na sua festa de aniversário com quase 30 amigos (sim, que ele para fazer amigos, mas amigos do peito mesmo, não é pobre), a rir, a contar anedotas (ao longe :)) e todos em volta dele e eu pensei: só quero que a vida te sorria e sejas feliz como neste dia. Cresças rodeado de amigos e eu ali ao fundo, pronta para amparar, se for preciso.
Custa vê-los ganhar asas, mas é também um motivo de orgulho enorme!
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De Anónimo a 16.12.2013 às 17:53

Muito bonito! O meu filho tem 3 anos e meio e assusta-me um pouco saber que a velocidade que me vai levar até esse momento é grande, muito maior que a que eu desejo.Mas é assim...obrigada pelo lindo texto :)
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De Maria Cruz a 16.12.2013 às 17:53

¨Criar um ser humano legal¨- parece simples, mas é difícil, complicado, leva tempo, resignação, repetição, perseverança... mas deve ser a melhor sensação do mundo! Aliás, já vou colhendo alguns frutos, pois os meus ainda são pequenos... mas dão um orgulho, é do melhor que há!

Parabéns aos pais!

Texto maravilhoso!
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De Anónimo a 16.12.2013 às 14:42

Exatamente o que sinto pela minha Margarida de 11 anos. Palavra por palavra. Adorei o texto
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De Barbara Faria a 16.12.2013 às 13:39

Que texto tão bonito! Espero sentir o mesmo quando a minha filha crescer (já estou a trabalhar para isso). Obrigada pela partilha, foi dos textos mais bonitos que já li sobre paternidade :)
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De Natacha Marques a 16.12.2013 às 12:04

Igual aqui. Este texto está soberbo. Sou trimãe e a Marta com 12 anos, ganhou asas. E o meu orgulho mal contido? É isso que escreve, vê-la interagir com outros, vê-la decidir, vê-la crescer,educada, forte, independente, ainda-menina-quase- mulher.Tudo ao longe. Com sentido de perda, com vontade de lhe dar colo e de a apertar e dizer " daqui já não sais!". Já saiu. Ainda bem. :)
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De Olívia a 16.12.2013 às 11:48

Imagino que, essa sensação se vá repetir por mais 3 vezes...

Fui mãe em 2008 de duas meninas, uma de 10 anos e uma que entretanto nasceu!

E para mim também é muito bonita esta sensação de ver crescer uma parte nós (com sorte a nossa melhor parte) e olhar para a evolução das minhas filhas e ter a sensação de dever cumprido - "Ensinei-te a pescar, agora pesca tu sozinha", mas a verdade é que, lá no fundo, tenho sempre medo por elas! Medo que caia quando aprende a andar, que se corte na tesoura quando está nos recortes, medo das viagens a pé até à escola no 5º ano, dos namoricos aos 16...
Este fim de semana estava a planear as fatiotas para o Natal e a filhota mais velha (16 A) queria uma saia (anda sempre de calças) e no meu roupeiro tinha uma saia que adorei, mas que já não me serve... como é possível que ela vá este ano vestir uma saia minha? Esta realidade bateu-me cá no fundo...
E direi sempre que tenho pena de não ter feito parte da vida desta minha filha até aos 10 anos (altura em que nasceu na nossa vida)... tenho pena daquilo que perdi, mas em compensação tenho e terei sempre o hoje e o amanhã, por isso quero que ela cresça devagarinho, muito devagarinho!
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De Anónimo a 16.12.2013 às 11:11

My feelings exactly. Com a minha M., a poucos meses de fazer 10 anos.

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