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Coitadinho do bracinho da Carolina

por João Miguel Tavares, em 31.01.14

Há dois dias ligaram da escola à Teresa e a Teresa ligou-me a mim: era preciso ir às Urgências da Estefânia fazer um raio X ao braço da Carolina. Uma turba de miúdos tinha caído em cima do seu braço esquerdo, numa daquelas brincadeiras parvas típicas da idade, e ela estava muito queixosa na zona do cotovelo.

 

A Teresa estava no hospital, onde há sempre gente que tem coisas mais graves do que braços amolgados, e lá tive de ir eu, que aqui por casa nunca se passa nada de particularmente estimulante. Ainda há pouco tempo dizia a alguém que eu tinha a sorte de nunca precisar de pôr os pés numa urgência, e pimba, ora embrulha que é para não te andares a armar em esperto.

 

No Hospital da Estefânia, fomos muito bem recebidos e muito rapidamente atendidos (parece que na Ortopedia não costuma haver filas de espera), tanto por funcionários como por uma médica, aliás bem gira (é incrível como só há médicas giras na minha vida - parece que vivo dentro de um episódio da Anatomia de Grey). Lá se lhe apertou o bracinho, lá se fez o raio X à menina, e lá se percebeu que aquilo era mais mariquice do que qualquer outra coisa, tendo eu contribuído involuntariamente para aumentar as estatísticas das falsas urgências. Gelo durantes dois ou três dias, um anti-inflamatório e tchauzinho.

 

Disse tchauzinho? Não deveria ter dito tchauzinho. Porque dentro da lógica cutchi-cutchi que hoje em dia impera em todas as relações adultos-crianças, a senhora doutora colocou um fio de gaze à volta do pescoço da Carolina e aconselhou o repouso do braço até domingo. Eu tive de conter o riso interior, mas a Carolina escutou naquele momento tudo o que queria ouvir - o braço ao peito durante cinco dias! Uma magnífica desculpa para ter pena de si própria e exibir o seu traumatismo aos coleguinhas da escola, que dela iriam ter tão dedicada pena...

 

E pronto, cá anda ela por casa com arzinho de estropiada, com respostas muito dolorosas sempre que lhe perguntamos como está. Aquele braço esquerdo, nota-se, é uma cena lancinante. Excepto... bom, excepto quando é preciso passar mais um nível ao Super Mario 3.

 

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publicado às 09:45


Carmine's

por João Miguel Tavares, em 30.01.14

Eu sou um bocado guloso. Se às vezes vou a passar pela cozinha e um doce qualquer se cruza comigo, rapidamente lhe dou o prazer de uma visita aos meus compartimentos interiores. Com o chocolate, então, a coisa funciona assim: se não o vir, posso passar meses sem comer, mas se houver uma caixa aberta ao meu lado, marcha em dois dias. Daí a Teresa esconder todos os chocolates que temos cá em casa, como se eu fosse uma criança de quatro anos.

 

E foi precisamente imbuído desse espírito, a que poderemos chamar Monstro das Bolachas, que há uns tempos me alambazei com dois ou três rebuçados que estavam em cima do aparador do meu quarto. Eu, de facto, estranhei que aqueles rebuçados estivessem ali, mas o meu aparelho digestivo não é dado a elucubrações demoradas, e portanto eles lá marcharam, apesar de nem sequer ser grande fã de rebuçados. Foi simples gulodice.

 

Comi um, comi dois, comi três, até que a Teresa, dias mais tarde, descobriu e perguntou-me:

 

- És tu quem tem andado a comer os meus rebuçados?

- Ah, desculpa, não sabia que os rebuçados eram teus.

- De quem é que haviam de ser?

- Não sei. De anónimos. Pensei que fossem apenas rebuçados que tivessem vindo viver para nossa casa, e não tivessem nenhum dono em particular.

- São meus.

- OK, desculpa. Tu até és tão dada à partilha. São só rebuçados, não são?

- Não, não são. Olhaste bem para eles?

 

Bom, de facto, eu não tinha olhado bem para eles. Nem bem, nem mal. Eram apenas pobres rebuçados sem identidade, que eu havia instrumentalizado para divertir a minha pança.

 

Até que fui olhar para o último sobrevivente, o derradeiro rebuçado, que havia ficado viúvo após eu ter dado cabo de toda a sua família e amigos, e aquilo que vi foi isto:  

 

E mal vi isto, soltei um grande "aaaahh!". "Desculpa, desculpa, desculpa, eu não tinha visto."

 

Big asneira.

 

O que eu tinha comido não eram simples rebuçados. Era memorabilia. Eram doces recordações. Eram provas vivas de grandes momentos de felicidade.

 

O Carmine's, para quem não sabe, é um dos mais populares restaurantes de Nova Iorque, daqueles com fila quilométrica à porta, onde se serve comida italiana em doses tão generosas que um jantar daria para alimentar Andorra. Eu e a Teresa estivemos lá em Setembro e achámos muito divertido, gostámos bastante, comemos que nos fartámos, passámos uma bela noite juntos.

 

 

Pelos vistos, e sem eu saber, ela trouxera de volta para Portugal alguns rebuçados do restaurante. E contou-me o que habitualmente fazia com eles:

 

- Costumo levá-los para o hospital. Sempre que estou mais em baixo como um.

 

Uau. Que bonito foi ouvi-la dizer aquilo. Nunca imaginei que dar trincas a um rebuçado pudesse ser uma declaração de amor, e que enquanto a minha excelentíssima esposa fazia uma punção lombar ela estaria a recordar-se dos nossos tempos juntos em Nova Iorque. Uau mesmo. Isto dá dez a zero a qualquer ramo de flores. Mas que romântico. 

 

Talvez até um pouco romântico de mais, no sentido em que ainda fiquei com maiores problemas de consciência, e a reflectir demoradamente sobre a pertinência de a gula ser um dos sete pecados mortais. Mas, enfim, já nada podia fazer. Regurgitar os rebuçados não era opção.

 

Portanto, à falta de melhor, e sem obstaculizar futuras penitências, achei que a única coisa que me restava era escrever este post para imortalizar na blogosfera os rebuçados Carmine's e dar conta do gesto tão bonito da Teresa.

 

Afinal, nós teremos sempre Nova Iorque.

 

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publicado às 11:01


Incríveis postais de São Valentim

por João Miguel Tavares, em 29.01.14

Encontrei isto na net e fiquei ciumento: nós nunca recebemos cá em casa postais dos meus filhos no Dia de São Valentim, a dizer que gostam muito de nós e coisa e tal. Já alguém teve essa sorte? Não é por nada de especial (juro que não estou especialmente carente), é só mesmo porque poderiam sair coisas maravilhosas como estas:

 

"Obrigado mamã por me fazeres comida para que eu não morra"

 

 

 

"Mamã e papá vocês têm sorte de estar vivos."

 

Ah, como eu adoro putos sem a menor noção do peso das palavras.

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publicado às 11:36


Nós existimos, meus senhores #4

por João Miguel Tavares, em 28.01.14

Faço muita questão de informar os leitores deste blogue, em primeiríssima mão, que estou a finalizar um livro que reúne 112 textos (para fazer pendant com o número do INEM, que isto às vezes são verdadeiras urgências) sobre esta coisa da paternidade e da vida familiar. Haverá mais novidades em breve.

 

A boa parte desta notícia é que poderão a partir do início de Março encontrar prosa sobre birras e fraldas nas livrarias e na Biblioteca Nacional. A má parte desta notícia é que estou com menos tempo para trabalhar para este blogue e comentar coisas, como vocês, caras leitoras e caros leitores, mereciam - até porque as partilhas que tenho lido, sobretudo a propósito deste post, têm-me impressionado muito. Peço desculpa e espero que compreendam.

 

Mas a verdade é que os posts não escritos acumulam-se, incluindo sobre o tema das relações de longo prazo e o que fazer para lá chegar, que é matéria para infindáveis reflexões (textos anteriores aqui, aqui e aqui). Correndo o risco de estar fora do prazo, que isto já foi para aí há uns 10 dias, não queria deixar passar em branco, ainda assim, este comentário da Leonor (convém lê-lo integralmente aqui, procurando Leonor a 17.01.2014 às 12:57):

 

Quem está confortável com o que é gosta de partilhá-lo e convencer-se ainda mais do caminho que traçou e convencer os outros e mandar recadinhos.

 

Acho que há muito de verdade nesta frase da Leonor. O que ela quer dizer é que estou a falar de barriga cheia (verdade), e portanto isso leva-me a ter prazer na partilha (verdade), e essa mesma partilha alimenta a minha barriga de volta (também verdade). Três verdades indiscutíveis para a Leonor: o entusiasmo com que falo de determinado tema é tanto maior quanto ele se reflecte na minha vida, e à medida que se partilha recebemos o conforto de quem se revê nas nossas palavras, solidificando aquilo que estávamos a dizer em primeiro lugar. Tudo isto está correcto. 

 

Mas eu não vim aqui só para concordar com a Leonor. E a parte em que discordo dela tem a ver com o final da sua frase, sobre "convencer os outros e mandar recadinhos". A parte de "mandar recadinhos" atiro já borda fora, porque a expressão parece pressupor que ando para aqui a mandar indirectas a quem quer que seja. E eu sou mais pelas directas do que pelas indirectas. Mas a parte do "convencer os outros" merece ser reflectida, para eu tentar mais uma vez clarificar a minha posição, para o caso de ela não ter ficado suficientemente clara, até porque pode haver uma tendência discursiva para transfomar uma verdade individual numa verdade universal. E não é nada disso que eu quero. 

 

Interessa-me muito saber se há determinados segredos na relações duradouros que possam ser exportáveis para outros casais. Quer dizer: gostaria de poder aconselhar quem se chega ao pé de mim e me lança o desafio: "explica-me porque é que a tua relação funciona". Infelizmente, não estou certo de o conseguir fazer, daí já me ter perguntado várias vezes (e referido isso mesmo neste blogue), se aquilo a que numa relação frutuosa chamamos "mérito" (ou seja, um conjunto de procedimentos que me ajudam a construir uma relação feliz) não é sobretudo "sorte" (um conjunto de compatibilidades químicas entre dois seres humanos estranhamente complementares). A verdade, provavelmente, estará algures no meio, e será como sempre uma mistura das duas coisas. Não sei ao certo.

 

Mas o que sei é que, sendo esta a minha posição, não há como pretender que eu esteja aqui a "convencer os outros". Convencer os outros a fazer o quê? A replicar algo que eu nem sequer sei como obtive? Claro que, da mesma forma que se eu for um bom escritor acho que sei como se escreve, e se eu for um bom pintor acho que sei como se pinta, também se eu for um bom esposo é normal ter a mania de saber como se consegue um bom casamento. Essa é a reacção natural, e daí que aconteça quase sempre aquilo que a Leonor denuncia - começamos a pregar sobre o nosso modo de vida particular querendo transformá-lo em verdade universal.

 

Mas eu resisto mesmo a isso. A sério. Eu agradecia que este blogue nunca fosse visto como pregação, ou movido por qualquer espécie de impulso missionário. Tirando um núcleo muito pequeno de valores, pelos quais darei sempre a cara e o coração, eu não quero pregar sobre coisa nenhuma. Por uma razão muito simples: não tenho assim tantas certezas sobre tanta coisa, e não quero empenhar o meu pescoço por um futuro que não sei se estarei a altura de cumprir.

 

Dispenso bem um mundo feito de réplicas de Joõezinhos e Teresinhas. A única coisa que eu quero é que o mundo hiper-relativista e mega-auto-centrado em que nos encontramos admita que nós existimos (ou seja, que há relações genuinamente felizes), e por isso faço questão de contar aos outros a minha experiência. Para os evangelizar? Não. Simplesmente para partilhar. Quem quiser aproveitar alguma coisa, aproveita. Quem não quiser, deita fora. E ambas as atitudes são, aos meus olhos, inteiramente legítimas.

 

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publicado às 10:48


João e Teresa by Carolina

por João Miguel Tavares, em 27.01.14

A foto da revista Sábado não está nada mal, mas a Carolina prefere retratar o seu pai e a sua mãe em pose idílica. Há três ou quatro dias ela veio entregar-nos este desenho, muito orgulhosa. "Para porem no blogue", acrescentou. Cá está.

 

 

Há, desde logo, a assinalar a generosidade com que eliminou a minha pança e me pôs mais espigado do que o Bruno Nogueira. Simpática, a minha filha.

 

Depois, além dos clássicos coraçõezinhos, gosto da originalidade do "for ever" - os erros de ortografia perdoam-se mais facilmente se forem dados em língua inglesa, e a questão do "para sempre" tem andado a ser muito debatida. Não só no blogue, mas também cá em casa.

 

Finalmente, se olharem bem para as nossas camisolas, ambas têm a mesma inscrição: Romeu e Julieta. Que bonito. Eu mostrei-lhes o filme do Baz Luhrmann há uns 15 dias, e eles ficaram muito impressionados. Só espero que o meu fim e o fim da Teresa sejam um pouco mais animados.

 

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publicado às 10:37


Diálogos em família #33

por João Miguel Tavares, em 27.01.14

 

- Papá, tens de falar com a mamã.

- O que é que se passa, Tomás?

- Já não tenho idade para usar roupa interior com ursinhos.

- Mas isso nem se vê, Tomás.

- Já não tenho idade, papá.

- Hum, ok. Vamos falar com a mamã.

(...)

- Aqui o Tomás diz que já não tem idade para usar roupa interior com ursinhos.

- Eu sei, Tomás. Mas eu só te mandei essa roupa para a natação, não para a escola.

- De qualquer forma, se puderes passar essa roupa interior para o Gui, era bom. Ele não se importa. E eu já não tenho idade para usar roupa interior com ursinhos.

- Está bem, Tomás, vamos fazer isso.

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publicado às 10:20


Pais de Quatro na revista Sábado

por João Miguel Tavares, em 26.01.14

É só para dizer a quem acompanha este blogue que a revista Sábado decidiu dedicar duas páginas aos pequenos conflitos domésticos que trazemos para o Pais de Quatro. A peça e a foto ficaram muito giras:

 

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publicado às 14:09


Bat-filhos

por João Miguel Tavares, em 25.01.14

De cada vez que a Teresa está de banco e eu tenho de ir buscar os miúdos todos à escola e ao infantário sem carro (é a Teresa quem fica com ele), já temos mais ou menos instituído o ritual de regressar a casa a pé e jantar no McDonald's. Esta sexta-feira, o Happy Meal estava a dar umas máscaras do Batman. E eu fotografei esta nova família, que vai começar a sair à noite pelas ruas de Lisboa para combater o crime.

 

Bat-Carolina, Bat-Tomás e Bat-Gui
Bat-Ritinha

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publicado às 10:55


Brisa suave num campo devastado

por João Miguel Tavares, em 24.01.14

Vou tentar explicar num instante, aproveitando o facto de a excelentíssima esposa estar de banco e não poder corar com os meus elogios, porque é que o comentário anterior da Ana Azevedo me toca tanto. Vocês podem querer dar-me o desconto por aquilo que eu vou dizer ser sobre a minha mulher, mas eu sei que tenho do meu lado, como testemunhas de defesa, não dezenas, mas centenas ou milhares de pessoas que já precisaram da sua ajuda e a quem ela acompanhou nos momentos mais emocionalmente difíceis das suas vidas; aqueles momentos de que a Ana fala e sobre os quais sente tanta necessidade de aprender.

 

Essa é simultaneamente a bênção e a maldição de um médico - viver uma vida de uma intensidade desmedida, ao lado de milhares de doentes que entregam tudo o que têm nas suas mãos. Então quando se trata de uma médica como a Teresa, especialista em hematologia oncológica, que durante muitos anos trabalhou no IPO de Lisboa, esse tudo é mesmo tudo, é habitar um forte isolado numa fronteira hostil, que a morte tenta diariamente assaltar. Não admira que tantos médicos sejam escritores - é uma profissão que pode conferir uma sabedoria imensa a quem estiver disponível para a abraçar de corpo e alma, como a Ana parece estar. Invejo-vos por isso.

 

E a verdade é que a Teresa nasceu para ser médica. Aliás, ela queria ser médica desde que se lembra, por razões que ela vos contará se quiser, e, de facto, mesmo nas alturas em que está mais desiludida com a sua profissão, nunca a imaginei a ser outra coisa. Ela às vezes quer imaginar-se outra coisa, mas no que depender de mim, nunca quererei que se imagine. Por uma razão simples: ela é uma médica extraordinária não por causa do tal "conhecimento médico-científico-orgânico" de que a Ana fala - embora seja impossível alguém ser bom médico sem conhecimentos sólidos na sua área -, mas exactamente por aquilo que a Ana procura e que na Teresa - sorte imensa a dela - é tão natural: saber "o que fazer ou dizer a alguém que chora copiosamente à cabeceira do pai que está a morrer".

 

Nesse sentido, a Ana veio bater a uma porta mais certa do que imagina: naquilo a que tipicamente se chama relação médico-doente, a Teresa tem um talento fora do comum. Eu já insisti com ela muitas vezes para se especializar nisso, para sistematizar isso, para escrever um livro sobre isso, mas ela chuta sempre para canto, dizendo que há óptimos livros sobre o assunto. Nunca me convenceu. Acho simplesmente que, como aquilo lhe sai de forma tão natural, seria como pedir para explicar aos outros aquilo que é óbvio para ela. E no entanto, como a Ana aqui mostrou tão bem, o dom da Teresa não é nada óbvio. E eu que o diga, que fico invariavelmente de boca aberta quando a vejo saber sempre, mas sempre, o que dizer, o que fazer, como tocar (e como o toque é importante!), como estar perante pessoas confrontadas com as situações mais brutais das suas vidas. Seja a sua própria morte, seja a morte das pessoas que mais amam.

 

Acho que seria capaz de ficar aqui a elaborar sobre isto até o Sol nascer. Mas tenho mais coisas para fazer e a Teresa pode ficar embaraçada a tal ponto que me vá querer bater por estar a dizer tudo isto (se eu não postar nos próximos três dias, já sabem: foi ela que me partiu os dedinhos ao chegar a casa). Até porque sendo um dom que a Teresa sabe que tem, e sabe que é raro, e sabe que é valioso, ela parece nunca o valorizar tanto quanto devia - ou então, talvez essa desvalorização seja parte integrante do próprio dom. Não faço ideia. Mas que é um enorme talento, é, e é por mim tanto mais admirado quanto eu sou o seu exacto oposto: muito melhor à distância do que perto; muito melhor a escrever sobre isto num blogue do que a falar disto ao lado de alguém que precise. A mim falta-me absolutamente esse dom.

 

Foi isso que eu tentei explicar num texto que escrevi em Março de 2011, para a página Os Homens Precisam de Mimo do Correio da Manhã, poucos dias após a morte de um dos doentes que mais marcaram a Teresa. O texto chama-se apenas "Filipe", e apetece-me deixá-lo agora aqui, como prenda para a Ana Azevedo, enquanto a Teresa está a trabalhar longe e a fazer aquilo para que nasceu.

 

FILIPE

 

Quando era pequeno, as minhas tias-avós achavam-me o miúdo mais antipático do mundo, porque eu nem um “bom dia” lhes dirigia. O meu irmão, que é quatro anos mais velho e sempre foi um rapaz falador e civilizado, tinha de me enfiar cotoveladas e rosnar baixinho um “diz olá à tia” para que a minha língua descolasse, e assim demonstrar à família que não tinha saído de uma gruta pré-histórica anterior à invenção da linguagem. Ainda hoje ele goza com essa minha absoluta inépcia social, que a idade foi polindo, mas sem curar.

 

Acreditem ou não, estou mais à vontade num anfiteatro a falar para 150 pessoas do que num bar a conversar com alguém que acabei de conhecer. Já a minha excelentíssima esposa é o contrário. Se tem de falar para um grupo de pessoas que está com os olhos espetados nela, parece Colin Firth no ‘Discurso do Rei’, com as palavras numa longa fila dentro da boca, à espera de um semáforo verde que parece não chegar. E no entanto, ela, que é médica, é um verdadeiro génio no um para um: nunca vi ninguém com tamanha capacidade para confortar as outras pessoas, saber ouvi-las e encontrar palavras que curam e acalmam.

 

Não vos vou contar quem era o Filipe porque eu próprio, apesar de lhe ter emprestado a primeira série do ‘Dexter’ e de ter feito alguns desvios nocturnos para lhe comprar pastéis de Belém, nunca cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Apenas através das conversas da Teresa. Da preocupação da Teresa. Da sua angústia. E finalmente, da sua imensa tristeza. O Filipe morreu há dez dias no IPO, aos 20 anos de idade. No velório, a Teresa escutava, abraçava, consolava, como a brisa suave de que a Bíblia fala, num campo devastado. É um dom extraordinário que ela tem. Já eu, regressei à infância: estupidamente mudo, incapaz de dizer o que quer que fosse àqueles pais. Tenho 37 anos e ainda preciso das cotoveladas do meu irmão.

 

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publicado às 22:45


Afinal, a culpa é de uma... quase-médica

por João Miguel Tavares, em 24.01.14

Há quem ache que de cada vez que elogio os leitores deste blogue só estou a passar graxa e a dar uma de relações públicas, mas acreditem que vocês são mesmo quatro estrelas e meia (só não digo cinco que é para continuaram a esforçar-se). Hoje tive um dia muito cheio e longe de hot spots, e é um gosto regressar a casa e ver a riqueza da caixa de comentários do post tétrico e pós-tétrico.

 

A provar, aliás, que a minha intuição hitchcockiana estava certa, a Ana Azevedo até decidiu regressar, qual Miss Marple, ao local do crime, para nos explicar os motivos da sua estranha pergunta sobre a morte de um filho. E a explicação é tão boa, mas tão boa, assim a um nível hitchcock-agatha-christiano, que o seu texto tinha, mais uma vez, de vir parar aqui. Até porque eu tenho uma ou duas coisas a dizer sobre ele (e a excelentíssima esposa teria para aí mil e uma, se não estivesse hoje de banco). Cá vai:

 

Boa tarde a todos! A publicação do post mais tétrico de todos os tempos é minha culpa! Não, não fui eu quem o escreveu!:) A pergunta que levou à sua escrita é que é minha!


Algures na caixa de comentários alguém perguntava o motivo que me levou a colocar aquela questão. Então cá vai:


- Sou estudante de medicina e até começar a estagiar, o sofrimento humano não fazia parte do meu conhecimento. Não vivia numa redoma, é certo, mas também nunca tinha ouvido tantos relatos trágicos por dia. E isso atrapalhava-me imenso, porque me tornava completamente impotente. Sei como tratar uma insuficiência cardíaca, mas não sei o que fazer ou dizer - se é que deva fazer ou dizer - a alguém que chora copiosamente à cabeceira do pai que está a morrer. Considero que, ao contrário do conhecimento médico-científico-orgânico que é tanto maior quanto mais ler sobre o assunto em livros e em artigos científicos, o conhecimento daquilo que é a essência humana do doente e dos familiares e como lidar com esse lado só se adquire com a experiência de vida. Estou a 1 ano dos 24 anos, a 1 ano de exercer medicina! Aos 24 anos ninguém - ou quase ninguém - tem essa experiência, logo se eu falar e discutir os assuntos com várias pessoas talvez aprenda com a experiência de vida dos outros.

- A morte na infância e todo o seu ónus sempre foi uma área que me sensibilizou de sobremaneira, pela minha ainda maior impreparação para lidar com o assunto. Na universidade vão-nos falando da morte do velhinho que tinha n patologias e que até estava num sofrimento atroz mas quase ninguém nos fala no menino que morreu com 5 anos. Vamos para os estágios nas áreas pediátricas e o mundo cai-nos aos pés. Li milhares de artigos sobre este assunto, li milhares de testemunhos e de opiniões mas sempre ávida por ler mais e mais. Não posso fazer nada pelo menino que está irremediavelmente doente... mas poderei fazer pelos pais? Se puder, eu tenho que descobrir!

- Sempre pensei que era "melhor" para um pai ou mãe perder um filho com 7 anos do que um filho com 7 dias: de um filho com 7 anos vai poder recordar-se dos momentos felizes que viveram, das coisas boas que ele lhe disse, de um filho com 7 dias vai ter saudades de tudo o que nunca teve mais o que poderia vir a ter. Depois comecei a ouvir os meus pais assim de levezinho quando anunciavam na imprensa a morte de alguma criança com leucemia comentarem "coitados dos pais, se o final era para ser este mais valia ter morrido ao nascer", encontrei as crónicas do JMT aquando do nascimento da Carolina e comecei a questionar toda a minha forma de pensar. 

Sei que não há medidores da dor. Sei que se alguém perder no mesmo acidente a esposa e a filha se calhar vai ficar profundamente triste com a morte da filha "esquecendo" a morte da esposa enquanto que alguém que perde o marido e tem os filhos bem de saúde vai chorar a perda do marido como a maior das perdas. Sei que a fé pode ajudar a viver as perdas de outra forma. Sei que depois do que li ontem e hoje aqui no blogue estou muito, mas muito mais rica do ponto de vista humano. Só serei melhor médica se tiver a par de um conhecimento científico irrepreensível um conhecimento e um respeito humano profundíssimo!

Queria agradecer ao JMT e a todos os seus caros leitores por partilharem comigo a vossa opinião/ perspectiva. Muito, muito obrigada, do fundo do coração.

 

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publicado às 20:54

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Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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