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"Saudades dos filhos que nunca tive"

por João Miguel Tavares, em 24.01.14

Eu diria que a publicação do post mais tétrico de todos os tempos no Pais de Quatro ficou inteiramente justificada com a extraordinária partilha desta leitora anónima, que aqui deixo para todos poderem ler no corpo principal do blogue. Muito obrigado a ela, quem quer que seja:

 

É curioso ter-se levantado a questão sobre se existe ou não uma relação directa entre a grandeza da dor da perda de um filho e a sua idade. O que veio de imediato ao meu pensamento, enquanto lia o post, foi a dor imensa e insuportável que, mês após mês, tratamento após tratamento, nos assolou e quase me destruiu (não fosse a força do meu amor e companheiro!) sempre que o filho que tanto desejávamos não surgia na nossa vida. De cada vez, essa dor vinha renovada e mais pesada, acumulada, mês após mês, tratamento após tratamento, e era vivida duma forma quase irracional porque eu sentia (e ainda sinto quando revivo esse período...) saudades dos filhos que nunca tive.


Paralelamente, ainda tinha de suportar o "Então? Quando é vêm os filhos?" . A partir duma determinada altura, para nos deixarem em paz, começamos (por minha iniciativa) a responder que não queríamos ter filhos. Depois desta resposta, ficava um silêncio constrangedor da outra parte que acabou por neutralizar estes ataques indiscretos ao nosso sofrimento. Por outro lado, também era quase insuportável ouvir, por parte de quem sabia o que se passava connosco, coisas como “deixa lá, se não conseguirem podem adoptar”, “há tantas crianças que precisam de uma família e se calhar o vosso filho já está à vossa espera”, … tudo dito com muito amor, muita amizade, muita vontade em nos afagar a alma, mas sem a percepção do desejo infinito de ter um filho feito por nós e não o conseguirmos ter. Houve alturas em que senti que, sendo um casal infértil, tínhamos a obrigação social de aceitar essa condição e avançar logo para a adopção (fica aqui o mote para uma discussão sobre este assunto).


Bom, depois vieram os nossos dois nafagafinhos e essa dor ficou guardada aqui, num cantinho que é só dela, e eu fico mais tranquila e em paz relativamente às saudades que ainda sinto dos filhos que tanto desejei e que nunca tive, quando olho para estes filhos felizes, saudáveis, lindos e tão, mas tão!, desejados e penso que estes são os filhos que nós tínhamos de ter.


Quanto ao "automatismo" do amor de uma mãe por um filho/a, a minha experiência também é um pouco diferente da experiência "romântica" de ser mãe relatada pela maior parte das mães que conheço. Os meus filhos são gémeos mas, quando nasceram, a T. precisou de cuidados neonatais e, portanto, só o E. ficou comigo logo após o nascimento. Eu e o E. tivemos alta do hospital e a T. ficou internada na neonatologia. Claro que eu ia todos os dias ao hospital mas tinha outro filho recém-nascido em casa para cuidar e amamentar e, nas primeiras semanas de vida, eu senti que aquele bebé que estava no hospital e que era meu, também era um estranho que eu tinha de conquistar. Ao fim de 3 dias eu já conhecia tão bem o E.: sabia se o choro dele era sono, fome, fralda, frio, calor ou miminho e não conseguia acalmar os choros da minha T...

 

Finalmente, a T. teve alta e eu estava determinada a conquistar aquela bebé que ainda não tinha tido oportunidade de conhecer. Aí, veio um novo contratempo: o E. precisou de fazer sessões de fisioterapia 3x/semana e, como eu é que tinha a licença de maternidade, obviamente, era eu que o levava às sessões. Eu passava muito mais tempo com o E. do que com a T.. A T. ficava com uma das avós e isto foi assim até ao ano de idade. À medida que o tempo passava, crescia em mim um sentimento de culpa enorme por perceber que a minha relação com cada um deles era tão diferente. Cheguei a pensar que o meu amor por ele era maior do que por ela. Mas não! O que aconteceu foi que houve um conjunto de circunstâncias que fez com que eu demorasse mais tempo a conquistar e desenvolver a minha relação afectiva com a T..

 

Para mim, foi estranho ter esta experiência da maternidade. Estava convencida de que eles iriam nascer e ia haver logo um click igual por cada um deles, mas a verdade é que eu tive de "aprender" a minha filha e acho que só ao fim de 2 anos é que a conquistei em pleno. Nunca a amei menos do que a ele, nem a vou amar mais do que a ele, mas a vida quis que eu demorasse mais um pouco a conhecê-la.

 

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publicado às 09:06


Um sistema pneumático para a fada dos dentes

por João Miguel Tavares, em 23.01.14

E já agora, ainda a propósito da fada dos dentes, posso assegurar-vos que qualquer coisa que a gente faça para surpreender os nossos filhos ficará sempre muito aquém disto. Há malucos para tudo:

 

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publicado às 16:16


E finalmente, a fada dos dentes apareceu ao Gui

por João Miguel Tavares, em 23.01.14

O grande dia, o mais esperado, o mais aguardado, o mais sonhado, finalmente chegou: ontem caiu o primeiro dente de leite ao Gui. Ele andava desesperado para aí desde os três anos de idade. Via os dentes dos irmãos saltarem, via as prendas que a fadinha dos dentes lhes trazia, e ele, coitado, com quase seis anos, nada.

 

Mas ontem, quando o fui buscar à escola, ele veio a correr na minha direcção como um doido, a explodir de felicidade, só para me exibir o seu maxilar inferior com uma janelinha aberta no teclado branco. Depois, entregou-me um guardanapo muito bem selado com fita-cola, onde repousava o seu troféu.

 

Eu liguei à Teresa para a informar do que tinha acontecido e para ela se pôr em campo: era necessário arranjar-lhe uma prendinha especial, para ele receber no dia seguinte ao acordar. E todos sabíamos o que é que o Gui queria: um dos dois piratas da colecção da Djeco que lhe faltavam.

 

 

Um dia destes ainda tenho de falar da Djeco, que é tudo aquilo que eu acho que uma marca de brinquedos para crianças deve ser, mas o que importa agora para aqui é que o Gui adora a sua colecção de piratas, tal como o pai do Gui e a mãe do Gui.

 

E como a mãe do Gui partilha a sua paixão flibusteira, basta juntar a isso o seu instinto de coleccionista e a sua paixão assolapada pelos filhos para a tornar uma cliente deveras conhecida na loja da Edicare da Avenida de Roma, onde segundo sei os meus queridos rebentos fazem investidas regulares, sobretudo quando o pai não está a ver. O problema é que os dois piratas que faltam ao Gui, embora estejam há muito encomendados, exactamente para nos valerem em situações como esta, não há meio de chegarem.

 

A boa notícia é que a Teresa sabia que na montra da loja existia um dos piratas que o Gui não tinha. A má notícia é que esse pirata não podia ser vendido, já que estava fora da caixa e a caixa cessara de existir, como diriam os Monty Python (ver o melhor sketch de todos os tempos). A excelente notícia é que a senhora da loja, após lhe ter sido explicada a situação, foi um amor: decidiu por sua iniciativa oferecer o pirata ao Gui.

 

 

Infelizmente, nem tudo foram notícias tão boas quanto esta. O Gui depois da escola foi ao dentista (mera coincidência - já estava marcado), que perante a notícia da queda do dente lhe resolveu oferecer uma caixa giríssima em forma de dente para ele o guardar, mais um fio para colocar a caixa ao pescoço. O Gui ficou ainda mais contente e orgulhoso, mas como é um destravado, quando regressava a casa com o avô acabou por partir o fio e a caixa voou literalmente pelos ares quando ia a atravessar uma passadeira. A caixa encontrou-se. O dente, não.

 

Eles ainda andaram lá imenso tempo à procura do dente, mas nada. Quando a Teresa soube, foi para o local com a Carolina voltar a procurar o dente, mas nada. Só faltou mesmo chamarem a peritagem da Polícia Judiciária (se a excelentíssima esposa tivesse o número no telemóvel, era mulher para isso).

 

Perdidas as esperanças de recuperar o dente, a solução encontrada teve de ser uma que já havia sido posta em prática muitos dentes atrás, com o Tomás, quando um dos seus dentes de leite se enfiou pelo ralo do lavatório - fazer o desenho de um dente e colocá-lo dentro da caixinha. "Quando não há dentes verdadeiros", expliquei eu, "a fadinha leva um de papel". Para isso, bastava desenhá-lo, recortá-lo e pô-lo no lugar do outro, assegurei.

 

E aí o Gui teve uma reacção tão querida que só me apeteceu dar-lhe beijinhos:

 

- Papá, não vamos enganar a fadinha dos dentes...

 

Eu expliquei-lhe que não se tratava de enganar a fadinha dos dentes. Claro que um dente de papel não era o mesmo que um dente verdadeiro, mas nessa ocasião o que a fada fazia era, em vez de deixar uma prenda toda bem embrulhadinha e vistosa, penalizar a falta de cuidado do menino e a sua cabeça no ar não fazendo o embrulho. A prenda ficava fora da caixa e ela ia-se embora.

 

E assim se fez.

 

 

Hoje de manhã o Gui lá tinha o pirata que ele tanto queria, e andou a mostrá-lo a todos os manos. A Carolina, que tinha ido com a mãe à loja, também foi super-simpática: perguntou-lhe o que é que tinha recebido e fez um ar muito espantado quando ele lhe contou. Depois, o Gui veio agradecer-me muito por lhe ter feito o desenho do dente.

 

É curioso como há males que vêm por bem: o azar que o Gui teve ao perder o dente acabou por revelar um menino com um coração e uma honestidade enormes. Não estava nada à espera daquele "papá, não vamos enganar a fadinha dos dentes", que nos encheu de orgulho. De certa forma, eu e a Teresa acabámos por receber uma prenda muito melhor do que a dele. E nem sequer foi preciso um dos nossos incisivos sair do sítio.

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publicado às 14:12


Uma pergunta que parece saída do Alfred Hitchcock Presents

por João Miguel Tavares, em 23.01.14

A Ana Azevedo deixou há dois dias uma pergunta um bocado tétrica na caixa de comentários deste post. A pergunta é esta:


Quando fala da relação que tinha com a Ritinha quando era uma pequenita só com alguns meses de vida, e diz que ela não era tão intensa como a que tinha com os restantes filhos, abre uma ligeira fresta, e eu vou entrar sem pedir licença, para colocar uma questão que já há muito tinha curiosidade em lhe colocar. Então:


Acha que quando morre um filho que ainda é bebé os pais sofrem menos do que quando ele já tem 5, 6, 7... 10 anos? E quando o filho tem 18, os pais sofrem menos ou mais morrendo ele nesta idade comparativamente se ele morresse aos 7 anos? E quando o filho já é um adulto, é mais dolorosa a sua morte? Gostava mesmo mesmo de ouvir a sua opinião relativamente a este assunto!

 

Francamente, Ana, acho que ninguém consegue responder a uma coisa dessas quando se trata de filhos com 5, 6, 7, 10, 18 ou 36 anos. Todos nós sabemos que a morte de um filho é a maior brutalidade emocional que pode acontecer a um ser humano, e ainda ninguém inventou um medidor de sofrimentos para poder avaliar uma coisa dessas.

 

A única diferença que sublinhei no post original foi na relação com recém-nascidos. É um tema que me interessa, sobretudo para salientar que o amor de um pai por um filho é um processo contínuo, e não um interruptor que se liga no momento do nascimento. Já escrevi sobre isso algumas vezes: quando a Carolina nasceu, os primeiros meses foram bastante difíceis para mim exactamente porque eu tinha na cabeça que o amor paternal seria uma coisa automática - eu olharia para a criança pela primeira vez no hospital e pimba, já estava, amor à primeira vista. Não é assim que acontece, e acho importante sublinhar isso, para que outros pais possam considerá-lo uma coisa normal se passarem pelo mesmo.

 

Aliás, para voltar a assuntos tétricos, mas importantes em termos de cultura geral, porque muito gente desconhece isto, a própria lei penal portuguesa tem essa diferença em conta ao separar o crime de homicídio do crime de infanticídio. Se uma mãe matar o seu filho na sequência de um parto (o caso da legislação brasileira, por exemplo, ainda é mais tolerante, não definindo um período específico para tal acontecer desde que exista uma depressão pós-parto) o crime tem o nome de infanticídio, e a moldura penal nada tem a ver com a de um assassinato.

 

Diz o artigo 136º do Código Penal Português: "Mãe que matar o filho durante ou logo após o parto e estando ainda sob a sua influência perturbadora é punida com pena de prisão de um a cinco anos." Segundo sei, nem sequer há mulheres presas por causa disso, já que a situação costuma ter grandes atenuantes. Note-se que um pai não pode cometer infanticídio. Apenas uma mãe.

 

Em resumo, eu diria - não sei se há estudos sobre isto, imagino que haja, pois há estudos sobre tudo, mas aqui falo apenas de uma constatação pessoal - que demora à volta de um ano, ano e meio, para os nossos laços de afectividade em relação a um bebé se equivalerem aos que temos pelos outros filhos. E isto para o caso dos pais. Para as mães é diferente, porque o bebé sai de dentro delas, e a relação que uma mulher estabelece com um recém-nascido é muito mais próxima do que a de um pai (mas também porque sai de dentro delas, o sentimento de repulsa, quando acontece, pode ser muito maior - daí a questão do infanticídio). Generalizo, como é evidente.

 

E pronto. Depois desta conversa toda, vou ali ver um filme de terror e já volto. Vocês, caros leitores, obrigam-me a escrever sobre as coisas mais estranhas.

 

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publicado às 09:12


Um lugar especial para a tia

por Teresa Mendonça, em 22.01.14

Ontem a Armanda teria feito 45 anos, se ainda estivesse entre nós. A sua partida recente permanece muito presente no quotidiano da nossa família, e não há dia em que os miúdos não falem na tia Armanda.

 

Na primeira oração da noite que fizemos após a sua morte, eles ficaram muito baralhados. Diariamente, num dos momentos da oração, costumamos pedir protecção para as pessoas que conhecemos e que têm algum tipo de sofrimento, e mandar um beijinho para aqueles que "gostam muito de nós" e estão agora junto de Deus, referindo os seus nomes, numa espécie de ritual em que os miúdos não deixam esquecido ninguém que lhes tenha passado pelo coração. Todos são nomeados, e eles ficam verdadeiramente indignados se me esqueço de mencionar alguém.

 

Mas, pela primeira vez, com a morte da tia Armanda, eles tiveram consciência de que uma pessoa que pertencia há vários anos ao grupo pelas quais pedíamos protecção passou para o grupo a quem mandamos beijinhos. Muitas perguntas surgiram. Será que não rezámos tanto quanto a tia merecia? Como é que a tia recebe agora os nossos beijinhos?

 

Com simplicidade, falei-lhes de conceitos que os cristãos chamam de intercessão, acção de graças e comunhão dos santos, e no final decidimos que por enquanto era melhor reservar um lugar especial para a tia na oração e não a incluir nos grupos a que já nos tínhamos habituado.

 

Ontem, lembrei-me disto tudo quando, ao fim da tarde, em vez do habitual telefonema para lhe desejar um feliz aniversário, decidi cantar-lhe os parabéns durante a Missa. E também quando o Tomás, nessa manhã, com a sua sensibilidade tão especial, me pediu para vestir uma camisola de lã, para se lembrar da tia.

 

A Armanda costumava brincar com um dos seus sintomas da doença, que fazia com que tivesse frio o tempo todo e andasse sempre muito agasalhada. O próprio Gui costuma contar a quem o ouve que a tia não morreu por ser velhinha, mas sim por ser friorenta (só espero que os seus coleguinhas não comecem a sofrer de afrontamentos nocturnos após ouvirem estas conversas!).

 

Depois de vestir a camisola de lã, o Tomás decretou ainda que o Monstrinho (o seu peluche favorito) passaria a fazer anos a 21 de Janeiro. Podem ser apenas camisolas, peluches e canções. Mas é assim que a Armanda continua a viver na nossa memória e na memória dos nossos filhos, e é através destes pequenos gestos que trazemos de volta para o pé de nós quem partiu demasiado cedo.

 

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publicado às 14:08


Filhos favoritos

por João Miguel Tavares, em 21.01.14

Por causa deste Diálogos em Família, os leitores levantaram uma velha questão, mas que realmente nunca abordámos neste blogue:

 

E pode acontecer amar-se mais um filho do que outro?

 

Só consigo responder a partir da minha experiência pessoal, como é óbvio, e no meu caso a resposta é não, ainda que com nuances. Ou seja, não, não consigo dizer que gosto mais de um filho do que do outro, e no pacote até já incluo a Ritinha. E digo "já incluo a Ritinha" porque acho que a ligação a um bebé vai evoluindo com o tempo. Eu não tinha com ela aos três meses a mesma relação que tinha com os outros, mas hoje, a caminho dos 17 meses, já faz definitivamente parte da pandilha.

 

Quais são as nuances, então? As nuances têm a ver com compatibilidades de feitios, que certamente se irão aprofundar com o correr do tempo. Com quatro filhos, uns terão gostos e personalidades mais próximos dos meus, e é natural que, a partir daí, desenvolva mais afinidades com uns do que com outros. Tal como é possível que determinados filhos tenham carácteres mais marcados e meritórios (o Tomás, neste momento, tem uma sensibilidade comovente, quando comparada com a dos outros irmãos). Isso não implica a canalização de mais amor para A do que para B, mas sim diferenças inevitáveis nas relações entre nós.

 

É, aliás, o sentido da abordagem da anónima que comentou a 20.01.2014 às 16:37, na qual me revejo:

 

Eu tenho dois filhos que amo da mesma maneira. Eles estão a ficar crescidos e cada um está a ganhar a sua personalidade e a verdade é que um deles se enquadra mais na minha e eu na dele.


Amo os dois igual, tenho a certeza, mas dou-me melhor com um deles, converso mais... Saímos juntos, vamos passear... O outro não gosta de ir, prefere ficar em casa... Não estou a preterir o outro, não mesmo. É mesmo uma questão de personalidades.


Visto de fora, acho que pode parecer que "gosto" mais de um do que do outro, mas não é verdade, e quando falamos nisso lá em casa, eles próprios sabem que há diferenças, sim, mas não no amor, apenas no relacionamento, porque somos todos diferentes uns dos outros!

 

Suponho que alguma coisa destas se possa vir a passar comigo, ainda que por enquanto a família ande toda atrás uma da outra.

 

Mas diferenças reais no amor? Basta ver a nossa reacção instintiva quando achamos que algum - qualquer um - se magoou. Estou certo que a velocidade a que saímos disparados é igual para todos eles. E há-de ser assim, suponho, até que estejamos caquéticos e já não consigamos correr.

 

A revista brasileira Isto É tem aqui um bom texto sobre esse tema. E um gráfico que vai ao encontro ao que aqui estive a dizer:

 

 

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publicado às 10:10


O papá não é médico #9.2

por João Miguel Tavares, em 20.01.14

Meu Deus, mas que quantidade impressionante de sugestões mariquinhas, e super-fofas, e mega-delicadas! Peço desculpa à excelentíssima esposa, mas a bem da defesa da virilidade desta casa, sou obrigado a apresentar propostas alternativas.

 

Segundo o Manual de Gajos Brutos que Acham que os Putos Hoje em Dia São um Bocado Estragados com Tanto Cutchi-Cutchi, notável súmula de investigações milenares realizadas pelo Instituto de Tributo às Cavernas Onde Não Havia Grande Coisa e Ainda Assim Chegámos Cá, há outras formas de conseguir o abandono da chucha. Por exemplo, esta:

 

- um dia olha-se para um puto a chuchar e pensa-se "Hummm... se calhar já era hora de largares essa coisa";

 

- explica-se ao puto que já é hora de largar aquela coisa;

 

- de um modo geral, o puto entende que nunca é hora de largar aquela coisa;

 

- tira-se-lhe aquela coisa, ainda assim (pais e mãe mais sensíveis podem criar histórias imaginárias, algumas das quais envolvendo sapos grandalhões, que o Instituto de Tributo às Cavernas Onde Não Havia Grande Coisa e Ainda Assim Chegámos Cá não tem nada contra isso);

 

- o puto chora um bocado;

 

- se tiver mau feitio pode até chorar muito;

 

- não se cede;

 

- estamos mentalmente preparados para passar três noites sem dormir espectacularmente (fazer esta operação nas férias é capaz de não ser má ideia);

 

- ao fim de alguns dias, o puto esquece-se da coisa em particular, e começa a fazer birras por outra coisa qualquer em geral;

 

- à partida, posso assegurar que esta prática não deixa sequelas para a vida, na medida em que é raro ouvir dizer a adultos "o maior trauma da minha infância foi quando me tiraram a chucha".

 

E pronto, era esta sugestão do Manual de Gajos Brutos que Acham que os Putos Hoje em Dia São um Bocado Estragados com Tanto Cutchi-Cutchi que eu queria partilhar convosco.

 

Admito que lhe falta alguma cientificidade, mas parece-me um método eficaz.

 

 

Ah, e em relação à sucção de dedos, deixo a sugestão de um filme: Thumbsuckers, de Mike Mills, um filme de 2005 que em Portugal estreou com o título de Chupa no Dedo. Dá menos trabalho do que o consumo do New England Journal of Medicine e diverte bastante mais.

 

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publicado às 14:52


Os jogos de vídeo podem tornar-nos mais espertos?

por João Miguel Tavares, em 20.01.14

Este vídeo da Asap Science sublinha algo que cada vez mais estudos parecem estar a demonstrar: que o uso regular de jogos de vídeo pode aumentar de forma significativa as capacidade congnitivas do ser humano. Ora veja:

 

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publicado às 11:58


A mamã é médica #9.2

por Teresa Mendonça, em 20.01.14

Cá estou de volta, como prometido, para o segundo e último post sobre o uso da chucha (o primeiro encontra-se aqui).

 

Quanto às estratégias de abandono da chucha/ sucção do polegar:

 

- o sucesso de qualquer intervenção depende da vontade do próprio em participar. Uma criança, a partir do momento em que começa a perceber o que lhe dizemos e a compreender como funciona o ambiente em que vive, tem vontade própria e não deve ser tratada como um bebé. Temos que explicar à criança, em termos simples e adaptados, o porquê da necessidade do abandono da chucha e que acreditamos que ela é capaz de o conseguir. A estratégia de abandono deve ser planeada em conjunto;

 

- substituir a chucha/ dedo por um elemento de transição, como um lençol ou cobertor macio ou um brinquedo fofo e aconchegante;

 

- ajudar a criança a encontrar alternativas para se acalmar e auto-confortar: jogar um jogo de que goste muito - como um puzzle especial, cantar, ouvir música, aconchegar-se com um peluche da sua predilecção. Fazer uma massagem leve e reconfortante à criança ou ler-lhe uma história é uma óptima maneira de a acalmar. E uma sessão de mimos especiais de mamã/ papá (sem olhar para o relógio) é imbatível.

 

- parar de a repreender durante um período de tempo (por exemplo, um mês) sobre o seu hábito. Algumas crianças usam-no para chamar a atenção dos crescidos e quanto mais falamos sobre isso e os recriminamos mais eles irão insistir. Ignorar e reforçar os mimos nesse período;

 

- reduzir progressivamente a frequência da utilização da chucha e restringi-la o mais possível ao sono;

 

- criar um sistema de recompensas: coloque um calendário no frigorífico e assinale ou cole um sticker por cada dia em que a sua criança não use a chucha ou não chuche no dedo. No final de cada semana arranje uma pequena recompensa para lhe oferecer (uma história extra ao deitar, um pequeno brinquedo, assistir a um filme na sala com ela) e anuncie um piquenique especial para o momento em que ela cumpra um mês de sucesso no abandono do hábito. Elogie-a muito, e não a recrimine se ela recair. Reforce que acredita que ela vai conseguir;

 

- a ajuda do odontopediatra/dentista pode ser vital. Se a criança ouvir o seu médico a dizer-lhe que tem mesmo que abandonar a chucha ou o chuchar do dedo e este lhe explicar, como a um crescido, o que lhe poderá vir a acontecer, a solenidade do momento e o peso das consequências podem convencê-la da urgência da mudança de hábito;

 

- furar a chucha para que ela "deixe de funcionar" pode ser uma das técnicas mais eficazes, como alguns leitores sugeriram, mas não deve ser utilizada. Qualquer chucha (latex/ silicone/ borracha) que se encontre danificada (com cortes/ zonas de descoloração, gotas de água no seu interior) deve ser imediatamente deitada ao lixo. Nem pensem duas vezes! Está fora de questão expor as crianças a produtos eventualmente carcinogéneos. Daí que seja essencial trocar frequentemente de chucha - na pior das hipóteses, de três em três meses, e mais frequentemente se as crianças já tiverem dentes - para evitar contaminações, riscos de contacto com substâncias eventualmente perigosas e diminuir a dependência de uma chucha em especial. E lavá-la frequentemente com água quente e sabão;

 

- em relação especificamente à sucção no dedo, técnicas como o uso de meias nas mãos, ligaduras, dedeiras de borracha, verniz com sabor amargo ou uso de camisolas com as extremidades das mangas cozidas têm que ser explicadas à criança e esta tem que aceitar e compreender a sua utilidade para que funcionem - mas numa criança motivada são altamente eficazes. Nas crianças mais velhas, depois da erupção dos dentes definitivos, em que o hábito persistente de sucção no dedo prejudica directamente o seu desenvolvimento, e em casos muito particulares, o odontopediatra pode planear a utilização de um dispositivo intra-oral que facilite o abandono do hábito. Também ajuda distrair as crianças com actividades que ocupem as duas mãos. Manter a criança ocupada a fazer puzzles, legos, jogar à Wii, a trepar árvores, a jogar voleibol/basquetebol, brincar com plasticina, fazer colagens ocupa-lhe as duas mãos e ajuda a distraí-la da necessidade de sucção para se sentir bem;

 

- voltando à chucha, escolher uma cerimónia ou uma viagem especial para a enterrar ou a dar pode ser uma boa estratégia: entregar a chucha ao bebé Jesus, ao Pai-Natal, ao coelhinho da Páscoa, à bebé girafa numa ida ao Zoológico. Ou aproveitar uma situação inesperada e que os marque para resolver a situação. No nosso caso, o instrumento que usámos para a Carolina e depois o Tomás deixarem a chucha foi um sapo que nos apareceu inesperadamente na Urra. Quando íamos deitar-nos, já de noite, encontrámos um sapo gigante. Ficámos todos espantados, em especial a Carolina. Nessa noite a chucha desapareceu para sempre. E o assunto ficou muito resolvido na cabeça da Carolina, pois foi obviamente o sapo que a foi buscar durante a noite. Qual seria a outra razão para ele ali ter aparecido?

 

- ou então pode-se sempre aproveitar para entregar a outro a tarefa de desmame. Há dois anos, quando mudámos de casa, fizemos um acampamento na sala da casa nova (com tenda e tudo) e convidámos uns amigos do Tomás para virem passar connosco o fim-de-semana. Os miúdos tinham 5 anos e iam entrar para a escola primária daí a uns meses. Dormiram todos na sala, em grande excitação e camaradagem, e eu fiquei no sofá para controlar as tropas. Em 5 segundos, depois de tanta brincadeira, caíram para o lado e só acordaram 10 horas depois. Todos, menos uma menina, que gemeu durante três horas e só adormeceu ao meu colo depois de muitos mimos e canções. Soube no dia seguinte porquê. O pai não lhe quis enviar a chucha, sem a qual nunca antes tinha dormido, porque receava que gozassem com ela. E resolveu fazer isso sem me dizer nada. Nessa manhã apeteceu-me enfiar uma chucha pela garganta abaixo desse pai, mas a história teve um final feliz: a menina largou a chucha de vez. (Claro que se quiserem fazer isso, talvez não seja má ideia perguntar primeiro à outra pessoa se está disponível para a tarefa.)

 

Em resumo, e para quem não teve paciência para ler isto tudo:

 

- o uso da chucha durante o sono é recomendável para todas as crianças, sobretudo durante o primeiro ano de vida, pela sua relação com a redução da SMSL (Síndrome da Morte Súbita do Lactente);

 

- a sua introdução deve ser atrasada, nas crianças amamentadas, para depois de a amantação estar firmemente implantada;

 

- a chucha é uma grande aliada quando se pretende acalmar, consolar ou confortar uma criança, mas por norma nunca deve ser utilizada como primeira linha de defesa para não aumentar a sua dependência dela e ajudar a criança a criar outras medidas de auto-controlo. Uma mudança de posição, uma canção de embalar, uma história ou uma sessão de mimos especiais de mamã/ papá são tão eficazes no conforto da criança como a chucha, e como tal devem ser utilizadas em primeira linha para potenciar os seus efeitos no futuro;

 

- a utilização da chucha ou de qualquer outro objecto alternativo para sucção não nutritiva (fralda de pano/ cobertor/ brinquedo/ lençol) é sempre preferível ao uso de um dedo para chuchar. O abandono deste hábito será sempre mais tardio e difícil;

 

- a frequência da utilização da chucha deve ser restringida para os momentos de sono e para situações de SOS em que os métodos alternativos de conforto e controlo não sejam eficazes, de modo a fortalecer métodos alternativos de auto-controlo na criança;

 

- a maioria das crianças deixa de usar a chucha entre os 2 e os 4 anos. A utilização da chucha durante o sono até aos 5 anos não é provável que cause problemas irreversíveis e a longo prazo. No entanto, de forma a evitar perturbações odontológicas, alterações no desenvolvimento craniofacial, na musculatura e na fala pela sua utilização frequente e prolongada, é importante aconselhar os pais das crianças que usam chucha até mais tarde a planear o abandono deste hábito antes da erupção dos dentes definitivos, de preferência começando a planear essa suspensão entre os 4 e os 5 anos;

 

- as chuchas devem ser trocadas com frequência e, sobretudo, a qualquer sinal de danificação devem ser imediatamente deitadas fora;

 

- existem múltiplos truques para se abandonar o hábito de chuchar mas não vale a pena insistir em nenhum deles se a criança ou os pais não estiverem preparados. É que às vezes são os pais quem precisa daquela chucha, e não a criança.

 

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publicado às 10:09


Uma história de amor

por João Miguel Tavares, em 19.01.14

Enquanto eu andava a escrever estas coisas sobre o amor e as relações de longo prazo, recebi na minha caixa do correio o anúncio do lançamento pela Tinta-da-China de mais um livro de Jan Morris, o segundo após Veneza, na colecção de Viagens dirigida pelo Carlos Vaz Marques.

 

Eu não li (ainda) o Hav, e o ponto aqui não são os méritos literários da escritora britânica. O que me interessa é falar um pouco da sua biografia. Para aqueles que acham que ligações a longo prazo são necessariamente sinónimo de família tradicional e de valores conservadores, a incrível história de Jan Morris, nascido James Humphrey Morris em 1926, está aí para o desmentir.

A mudança de sexo de Jan Morris, em 1972, aos 46 anos, já seria só por si uma história extraordinária. Ocorrida em Marrocos, pelas mãos dos ginecologista francês Georges Burou, verdadeiro pioneiro neste tipo de intervenções numa época em que elas ainda não eram permitidas na Europa, a odisseia da sua transexualidade foi contada pelo próprio dois anos depois, numa obra chamada Conundrum. O livro começa assim:

 

I was three or perhaps four years old when I realized that I had been born into the wrong body, and should really be a girl. I remember the moment well, and it is the earliest memory of my life.

 

Apesar de esta sensação tão forte durante a mais tenra infância, Morris continuou à procura da sua identidade, ao mesmo tempo que se afirmava como jornalista, viajante e escritor. Foi ele o correspondente que acompanhou Edmund Hillary na primeira subida bem sucedida ao Evereste, em 1953. 

 

 

Mas o que interessa realmente para aqui foi o que ele fez quatro anos antes disso, em 1949: o casamento com Elizabeth Tuckniss, com a qual teve cinco filhos (um deles morreu ainda na infância), antes de se decidir pelos tratamentos hormonais, que desembocariam na referida operação.

 

 

Eis o que espanta na relação de Morris com Tuckniss: ela resistiu a tudo, incluindo à mudança de sexo.

 

Embora ambos tenham sido obrigados a divorciarem-se nos anos 70, devido a questões legais - não existia ainda a possibilidade de casamentos entre dois homens ou duas mulheres -, elas permaneceram sempre juntas. E quando, em 2008, passaram a ser possíveis as uniões de facto em Inglaterra, Jan e Elizabeth voltaram novamente a unir-se aos olhos da lei.

 

Diz Elizabeth:

 

I made my marriage vows 59 years ago and still have them. We are back together again officially. After Jan had a sex change we had to divorce. So there we were. It did not make any difference to me. We still had our family. We just carried on.

 

Ora cá está este admirável "carried on", que num caso tão extremado quanto uma mudança de sexo, em que o marido a meio da vida se transforma em mulher, só é mesmo possível com uma quantidade avassaladora de amor - um amor que ultrapassa tudo, incluindo a implosão da identidade sexual.

 

O mundo, de facto, é um lugar estranho, que não pode ser reduzido à nossa caixinha de valores e de ideias feitas. Para os interessados, há mais detalhes sobre esta história aqui.

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publicado às 22:55




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