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PD4

por João Miguel Tavares, em 25.06.14

A Conceição M. acaba de acronomizar o Pais de Quatro. Escreveu ela num comentário:

 

Depois de, no final do expediente, ter vindo dar uma "espreitadela" ao PD4...

 

À primeira pensei: "dar uma espreitadela onde?" E só depois cheguei lá: "Ah, ao PD4!" Nunca ninguém nos tinha chamado PD4. Que fofinho.

 

Adorei. Dá um certo ar de intimidade, tipo nick name que só os amigos conhecem, e ainda por cima parece um robô da Guerra das Estrelas. E como se sabe, toda a gente cá em casa adora a Guerra das Estrelas.

 

PD4 seja, então. Fica baptizado e devidamente abreviado a partir daqui. E a Conceição M., mesmo que voluntariada à força, passa a madrinha deste blogue.

 

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publicado às 15:04


E se ter filhos não for assim tão giro? #3

por João Miguel Tavares, em 25.06.14

Depois da parte I e da parte II, eis a parte III.

 

PARTE III

 

Isso não significa, contudo, que questões como a educação dos filhos tenham sido inventadas nos manuais do doutor Spock ou do doutor Brazelton. A Pediatria, como ramo próprio da Medicina, é ainda uma criação do século XIX, e o primeiro Hôpital des Enfants Malades abriu no distante ano de 1802, em Paris. A preocupação com as crianças não é, obviamente, uma invenção do século XX – aliás, toda a nossa civilização cristã é baseada na concepção de um Deus que entregou o seu único filho, num gesto de amor radical, para a salvação dos homens. Basta recordar o baptismo de Jesus segundo a narração de Lucas:

 

E uma voz veio do Céu: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti pus todo o Meu enlevo.”

 

Uma cultura que tem no seu centro esta intimidade amorosa de pai e filho não é crível que tenha ignorado durante séculos a riqueza de tal ligação.

 

O historiador francês Philippe Ariès, numa obra fundamental acerca da história da infância – L’Enfant et la Vie familiale sous l’Ancien Régime, de 1960 –, defende que a ideia de infância enquanto conceito etário específico e distinto da idade adulta é algo que se impõe apenas no século XVI, a par do desenvolvimento da esfera privada e do conceito moderno de família. Segundo Ariès, antes disso a criança era apenas o “dependente”, o “não-adulto”, e como tal era representado na iconografia medieval: não como alguém que tivesse uma identidade ou sequer uma morfologia próprias, mas apenas como um adulto miniaturizado. E, a partir desta premissa, o historiador francês formulou a sua máxima mais conhecida: “Na Idade Média a ideia de infância não existia.”

 

Esta frase de Ariès tem sido alvo, desde então, de numerosas críticas por parte de outros historiadores, que a consideram abusiva e claramente exagerada. Mas seja qual for a data em que se impôs a ideia de infância e da criança como um sujeito capaz de ir muito além do mero “ser dependente”, aquilo que se sabe, para além de qualquer dúvida, é que no final do século XVII a filosofia começou a interessar-se profundamente pelo conceito de educação.

 

Em 1693, John Locke publicou o influentíssimo Some Thoughts Concerning Education, que logo nas suas linhas iniciais afirmava: “Penso poder dizer, de todos os homens que conhecemos, que nove partes em dez daquilo que eles são, bons ou maus, prestáveis ou não, o devem à sua educação.” Locke generalizava assim a sua concepção da tabula rasa: não havendo ideias inatas, todo o conhecimento tem a sua origem na experiência, na percepção e, claro, na educação.

 

John Locke

 

Setenta anos depois, assumidamente inspirado por Locke, Jean-Jacques Rousseau foi ainda mais longe em Émile, ou De l’Éducation (1762), onde encontramos a conhecida formulação de que o homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe – uma variação muito optimista do mito do Bom Selvagem. Embora eu tenha em minha casa quatro provas vivas que desmentem efusivamente tal tese, na altura Rousseau foi convincente ao ponto de a sua defesa apaixonada de uma educação para aprimorar os costumes, plasmada em Émile, ter sido adoptada pelos revoltosos de 1789, e tomada como base de partida para o primeiro sistema nacional de educação francês.

 

Jean-Jacques Rousseau 

 

Ainda assim, dificilmente se pode argumentar que a importância de uma criança ou de um filho, no final do século XVIII, se assemelhasse a qualquer coisa que possamos encontrar nos dias de hoje. De facto, Jean-Jacques Rousseau, homem aparentemente tão cheio de boas intenções e encantado com a ideia do “bom selvagem”, teve cinco filhos com a jovem lavadeira Thérése Lavasseur e a nenhum deles chegou sequer a dar um nome: todos os bebés foram abandonados à sua sorte no Hôpital des Enfants Trouvés. Nas suas Confissões, o filósofo francês haveria de argumentar que ter filhos era “uma inconveniência” a que não se podia permitir. Eu, pelo meu lado, só posso confirmar que ter miúdos atrapalha a escrita.

 

(Parte III de VII. Continua amanhã)

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publicado às 09:49


A ASAE da paternidade

por João Miguel Tavares, em 24.06.14

Tenho de agradecer publicamente à Maria o esforço que tem feito para animar a caixa de comentários deste blogue, e portanto volto a fazer questão de responder à sua última invectiva no corpo principal. As palavras delas vão a bold, as minhas respostas a redondo.

 

Eu realmente tenho de deixar de vir espreitar este blog...

 

Vá lá, Maria, já é a 17ª vez que promete isso. Por que não admitir simplesmente que gosta de cá vir?


Mas há algo que me atrai, género curiosidade idiota pelo acidente do outro lado da Segunda Circular...

 

Parece-me uma razão perfeitamente legítima. Portanto, sugiro que passe a iniciar os seus comentários da seguinte forma: "O mais recente estampanço no Pais de Quatro motiva-me a comentar o seguinte..."

O João reitera novamente a "tolerância à palmada", mas passe a expressão, isso é uma forma um tanto ou quanto "pussy" de defender a coisa! Depois deixa a cargo dos seus comentadores mais dados à violência a verdadeira tarefa argumentativa. Se está tão seguro da sua convicção porque não faz um post inteiramente dedicado ao assunto? 

 

Adoro quando me chamam pussy. Sobretudo pussy cat. Mas permita-me deixar aqui mais uma sugestão, Maria. Dá sempre jeito, quando se trata de comentar um comentador ou um blogue, não partir do princípio que a primeira vez que esbarrámos nele foi precisamente no dia em que o comentador ou o blogue nasceram. Quer dizer: o Pais de Quatro já tem um histórico. Ele não começou quando a Maria cá apareceu pela primeira vez, via polémica Gonzalesca, se bem me recordo.

 

Donde, para evitar ser apanhada sem cadeirinha em afirmações definitivas e proferidas a grande velocidade, a Maria pode sempre recorrer ao Google, que é um grande amigo, investigar o arquivo do blogue, ou, muito simplesmente, rodar um bocadinho o pescoço para a direita e verificar que, sob o título "posts mais comentados", a terceira entrada chama-se precisamente "Sobre bater (ou não bater) nas crianças".

 

"Se está tão seguro da sua convicção porque não faz um post inteiramente dedicado ao assunto?" deve ter sido uma frase que divertiu deveras os frequentadores mais antigos deste blogue. Aquele post é o terceiro com título "Sobre bater (ou não bater) nas crianças", mas, que eu me recorde, foram pelo menos 11. Acha que lhe chegam? A Maria não é a única a entusiasmar-se com a questão da palmada, sabe. Na verdade, esse é o tema mais debatido, e sobre o qual mais escrevi, desde o início deste blogue, na segunda metade de 2012.

Sugestão de título: As virtudes da violência infantil. Soa-lhe bem?

 

Lá está: não só me soa bem como esse argumento é também o mais batido entre quem se opõe à palmada. E acerca disso eu já tentei explicar - mas nunca é demais pregar, ainda que no deserto - que esse é um argumento deveras básico, porque sugere uma equivalência (violência infantil/ violência doméstica) entre adultos e crianças.

 

Ora, eu acredito (é uma coisa cá minha) que os adultos não são crianças. Em certas coisas as crianças têm mais direitos do que os adultos. Noutras coisas as crianças têm menos direitos do que os adultos. E isto pela simples razão de que as crianças não são adultos, nem sequer mini-adultos. São... como é que se chama?... crianças.

 

Mas, já agora, aproveito para esclarecer um outro ponto. Quando me vêm cá dizer "ah, mas se fosse um adulto a fazer birra você não levantava a mão", permitam-me notar que não é, de todo, verdade. Se eu estivesse numa discoteca ou no meu trabalho e um gajo fosse tão irritante, teimoso e mal-comportado como às vezes os putos birrentos conseguem ser, e se eu não tivesse a opção de lhe virar costas, garanto que lhe batia. Ou, pelo menos, tentava. Com a diferença de que lhe aplicaria um murro nas trombas e não uma palmada no rabo.

 

Eu sou um gajo violento, o que é que quer. Tão violento que nunca na vida andei à pancada com ninguém. 

 

P.S. Até aposto que se o seu filho não quiser calçar os sapatos para sair de casa não lho permite, fazendo uso se necessário da dita ferramenta de educação imprescindível, não vá ele cortar-se num vidro, ou simplesmente porque parece mal. Mas pô-lo no chão do carro ignorando as mais importantes regras de segurança já não merece tanta atenção e podemos ser portugueses cool do desenrasca! Faz todo o sentido.

 

Eu vou aqui confessar um pecado: dei o exemplo de sentar uma criança no chão do carro de propósito e com alguma maldade, para testar a tolerância dos meus queridos leitores e leitoras. Tive o cuidade de escrever "imprevistos de última hora" e "distâncias muito curtas", para amenizar a coisa, mas ainda assim a sempre-atenta Maria não deixou escapar.

 

De facto, tendo em conta aqueles momentos mais tolerantes em que admite não saber tudo acerca da ciência de criar filhos, a Maria está a maior parte do tempo à beirinha de fundar uma ASAE da paternidade. Qual é a última directiva de Bruxelas sobre a melhor forma de calçar meias, locomover-se no passeio ou fixar uma cadeira num habitáculo? A Maria sabe.

 

Pois bem, Maria, eu confesso: já levei crianças deitadas no chão do carro, já estacionei em sítios proibidos e raramente ando na autoestrada a 120 quilómetros por hora. Sou um péssimo cidadão e o pai mais horrível do mundo.

 

Os meus filhos não crescem num mundo liofilizado. Eu sou de Portalegre e a Teresa é de Castelo Branco. Fazemos dezenas de milhares de quilómetros todos os anos em estrada para visitar a família - as probabilidades de termos um acidente aumentam imenso. E então? A Carolina pede muitas vezes para ir sozinha andar de bicicleta no Alentejo. Estando sozinha, as probabilidades de ela ser atropelada e de eu não estar ao seu lado aumentam imenso. E então? Tomamos precauções, dizemos-lhe para ter cuidado, mas não a impedimos de ir, não é?

 

Imagine, Maria, que eu vou apanhar os meus filhos à escola e um pai amigo me telefona, desesperado, a dizer o seguinte: "Por favor, apanha-me os miúdos e leva-os para tua casa até eu chegar. Fiquei aqui retido no emprego e só consigo estar aí daqui a meia hora." Imagine, Maria que o portão da escola vai fechar e que os funcionários da escola se vão embora. O que é que eu faço? Enfio-os no meu carro, sobrelotando-o, numa viagem de quilómetro e meio feita a 40 quilómetros/hora? Ou deixo-os sozinhos à porta da escola, à espera que o pai deles chegue?

 

As duas opções têm os seus perigos. Podemos ter um acidente de carro. Mas se as crianças ficarem sozinhos podem ficar assustadas ou - sei lá - aparecer um raptor. Sabe aquelas alturas da vida em que somos obrigados a escolher não entre o bem e o mal, mas entre o mal maior e o mal menor? A mim, estão-me sempre a acontecer.

 

E, portanto, faça-me um favor, Maria: ainda que seja para ver acidentes, parta do princípio que todas as pessoas que vêm a este blogue querem o melhor para os seus filhos. Se não quisessem, se não se preocupassem, se não gostassem de ser melhores pais e mães, não vinham cá. A internet é tão vasta, não é? Há tantas coisas para fazer.

 

Eu não quero uma ASAE da paternidade, Maria. Não quero regras absolutas, para seguir como se eu fosse uma mula com duas palas nos olhos, condenado a passar a vida a andar à roda de um poço. Nós temos cabeça própria para avaliar riscos, improvisar, saber quando as regras podem ser quebradas, pela simples razão de que seremos sempre mais inteligentes, mais sensíveis e com mais bom-senso do que um calhamaço com directivas, venha de onde vier.

 

Se algum dia eu tiver realmente um acidente grave, e falhar profundamente aos meus filhos, a Maria terá sempre o consolo de dizer "eu bem avisei". Mas depois fará como na Segunda Circular: abanará a cabeça e seguirá em frente. Nós, os pais, somos o que ficamos, portanto não tenha a presunção de ser a única pessoa com o coração no sítio, quando à sua volta só há irresponsáveis, insensíveis ou gente que não está a perceber bem.

 

Um beijinho para si e continue a voltar, sempre acutilante,

 

JMT 

 

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publicado às 11:20


E se ter filhos não for assim tão giro? #2

por João Miguel Tavares, em 24.06.14

Parte I aqui. Parte II já a seguir.

 

PARTE II

 

A grande questão é: porquê? Porque é que andamos todos a sentir esta necessidade de exorcizar, através do riso, os fantasmas das crianças presentes? O que é que se passou com a paternidade para ela hoje ser um peso tão grande sobre os nossos ombros? Afinal, a espécie humana não começou ontem a ter filhos, certo?

 

Certo. Só que algures no último quartel do século XX, após a entrada em força das mulheres no mercado de trabalho, da luta pela igualdade dos direitos, do crescimento da geração baby boomer e da invenção de contraceptivos que nos permitem ter exactamente os filhos que queremos, e não aqueles que vão aparecendo, ocorreu uma verdadeira revolução copernicana no conceito de família: os filhos deixaram de orbitar em torno dos pais e os pais passaram a orbitar em torno dos filhos.

 

A consequência é esta: hoje em dia, à minha volta, só encontro pais a queixarem-se, mesmo que muitas vezes não percebam exactamente porquê (eu incluído). À primeira vista, lá está, parece um relativo absurdo histórico, sociológico e antropológico. Estima-se que o homo sapiens exista há 200 mil anos, e alguma ideia de família, ainda que vaga, existirá há tanto tempo quanto ele. Melhor ou pior, chegámos desde as cavernas até aqui, e durante milénios não se vislumbrou qualquer traço desta angústia moderna em relação à paternidade. Os filhos simplesmente tinham-se e criavam-se. Porque é que isso deixou de chegar?

 

A ciência económica talvez possa dar uma ajuda nesta resposta, se decidirmos recorrer à velha lei da oferta e da procura: os filhos, por opção dos pais e auxílio dos contraceptivos, tornaram-se um bem raro. E ao tornarem-se cada vez mais raros, foram-se tornando cada vez mais preciosos. E ao tornarem-se cada vez mais preciosos, deixaram de ser um assunto exclusivo das mães – os pais continuaram a produzi-los, como sempre o fizeram, mas passaram também a educá-los, como praticamente nunca o haviam feito.

 

Ao mesmo tempo, a evolução da medicina afastou o espectro da morte da criança. A morte de um filho é hoje uma tragédia raríssima – não um acontecimento comum. Portugal, como toda a gente sabe de já tanto ter ouvido falar nisto, é um dos países com a mais baixa taxa de mortalidade infantil do mundo. Segundo os dados disponíveis (números da Pordata), a mortalidade infantil caiu de 77,5 mortes por cada 1000 crianças em 1960 para 2,9 mortes por cada 1000 crianças em 2013. Estamos a falar de uma redução de 96% no espaço de apenas meio século.

 

Recuando 200 anos, a única forma de aferir acerca da mortalidade infantil (óbitos até ao primeiro ano de idade) ou juvenil (óbitos até aos sete anos) é através de comparações entre os registos paroquiais de baptismos e o número de óbitos. Segundo um estudo realizado pelo professor Cândido dos Santos (Nota sobre a Mortalidade Infantil nos Século XVIII e XIX), centrado em freguesias de Lisboa e do Porto, os números são assustadores. Entre 1780 e 1789, na freguesia lisboeta de Santa Catarina, a mortalidade infantil rondava os 125‰ e a mortalidade juvenil os 291‰. Isto significa que praticamente uma em cada três crianças morria antes de chegar aos sete anos de idade, sobretudo de “febres” (bronquite, escarlatina), “diarreias” (desinteria) ou “bexigas” (varíola).

 

 

Esse mesmo estudo mostra que os números não baixam ao longo de todo o século XIX – e quando surgiam epidemias, como a da cólera em 1833, o número de mortes era devastador. Ora, num mundo destes, aquilo que hoje temos como a mais traumática experiência humana – a perda de um filho – era necessariamente tida como um acontecimento natural. Os filhos morriam – e morriam muito. E nesse sentido, seria um absurdo que a afectividade por uma criança ocupasse uma parte tão central das vidas dos portugueses dos séculos XVIII ou XIX como ocupa na vida dos portugueses de hoje, em pleno século XXI. 

 

(Parte II de VII. Continua amanhã)

 

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publicado às 09:30

A caixa de comentários do post sobre "As virtudes da incerteza" está cheio de textos interessantes, e é-me impossível trazê-los todos para o corpo central do blogue. Vários deles mereciam ser debatidos, mas não sendo fisicamente possível fazê-lo opto apenas por convidar os leitores a passarem por lá. Abro uma excepção para um comentário da Helena Araújo, que em boa hora volta a opinar neste espaço. Diz ela:

 

Só queria fazer um comentário sobre esse "alfa e ómega". Os filhos não são o centro da nossa vida, são o centro da vida deles, e precisam da nossa ajuda para o encontrar. A esse respeito, ler o poema de Khalil Gibran sobre os filhos - penso que todos o conhecem.

 
Não são nossos, foram-nos confiados e estão inteiramente dependentes de nós - e essa é uma enorme responsabilidade.

 
Lembro-me muitas vezes de uma pergunta numa coluna de ética de um jornal (alemão, claro...). Um pai ia buscar o filho à escola, e trazia também o filho do vizinho. Para o seu próprio filho comprou uma cadeirinha caríssima, o XXL dos cuidados de segurança, mas para o filho do vizinho comprou uma cadeirinha barata. O pai perguntava: "será que devia sentar o meu filho na cadeira barata, e o do vizinho na cadeira mais segura, já que ele está sob a minha responsabilidade?"


O filósofo que assina a coluna respondeu que pela seguranca do filho do vizinho deve responder o pai do miúdo. A ideia de dar ao próprio filho uma cadeira menos segura é absurda, porque o seu próprio filho não tem mais ninguém que zele pelos seus interesses, nomeadamente pela sua seguranca. 

"Não tem mais ninguém que cuide dele." Um bebé chora a meio da noite, sabe-se lá por que motivo - e só pode contar com o pai e com a mãe. O que é que estes fazem? Sabem merecer essa responsabilidade?

 

Acho muito curioso o exemplo que a Helena deu das cadeirinhas, e talvez, realmente, isso explique muita coisa - nomeadamente o facto de eu não ser alemão. No exemplo que dá, eu não hesitaria duas vezes: seria o filho do vizinho a ir na melhor cadeira e o meu filho a ir na pior.

 

Aliás, já aconteceu uma vez ou outra, em desenrascanços e imprevistos de última hora, ter de meter mais um par de miúdos no carro e, em distâncias muito curtas, um deles ter de ir no chão. Sendo ilegal (só este facto, aliás, seria impensável para um alemão - que provavelmente telefonaria para a Comissão de Protecção de Menores), nunca deixaria que outra criança, que não um filho meu, se colocasse nessa situação.

 

Para mim, são questões básicas de cortesia e de convivência cristã, iguais a dar o que de melhor temos em casa a uma visita. Os meus filhos são carne da minha carne, e amo-os mais do que tudo, mas racionalmente - ou filosoficamente - a vida deles não é mais preciosa do que a vida dos filhos dos outros. Se eu assumo a responsabilidade de tomar conta deles, nem que seja por apenas cinco minutos, isso significa que racionalmente - ou filosoficamente - eu assumo a disponibilidade de agir perante eles como se fossem meus filhos. E o facto de eles não serem meus filhos apenas aprofunda essa exigência.

 

Não me interessa para nada que o outro miúdo tenha um pai cuja responsabilidade é tomar conta dele. Naquele momento o pai dele não está ali, e portanto sou eu que assumo essa responsabilidade. E da mesma forma que eu estou disponível para colocar o bem-estar daquela criança à frente da minha, também tenho de estar teoricamente disponível para colocar o bem-estar daquela criança à frente da do meu filho, que é carne da minha carne e meu dependente.

 

Talvez esteja aqui a chave da diferença em relação à tolerância à palmada e a tantas questões sobre educação. A Helena vê o filho como um outro à nossa responsabilidade, eu vejo um filho como algo meu em processo de independência. Tão meu que até tem direito a ficar com a pior cadeira - a mesma que eu tomaria para mim.

 

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publicado às 10:10


E se ter filhos não for assim tão giro? #1

por João Miguel Tavares, em 23.06.14

Após duas semanas de sabática, conforme prometido à excelentíssima esposa e aos leitores menos dados à ruminação existencial, eis que estou de regresso ao meu tema favorito: os escolhos da paternidade contemporânea.

 

Como também já aqui expliquei, escrevi um texto muito longo para o Público sobre o tema, e tendo em conta que foi a coisa mais elaborada que produzi até hoje sobre um assunto que é central a este blogue, achei que fazia sentido esse texto vir parar aqui, para poder ser comentado pelas sete pessoas que ainda têm pachorra para me ler - e, já agora, porque o digital permite uma contextualização em termos de vídeos, links e imagens que não está ao alcance do papel.

 

O texto original tem sete capítulos, e por isso, ao longo de sete dias, irei oferecê-los em doses homeopáticas, para não enjoar demasiado. Cá vai a primeira parte, cheia de vídeos divertidos.

 

PARTE I

 

O humorista americano Louis C.K. andou a arrastar-se durante 20 anos por bares, palcos e programas televisivos de segunda categoria sem que ninguém lhe prestasse grande atenção. Até que um dia foi pai, e num espectáculo ao vivo, em meados dos anos 2000, decidiu tratar a sua filha por “cara de cu” (“asshole”, no original) e dizer que finalmente “compreendia os pais que atiravam os seus miúdos para o lixo”.

 

 

A reacção estupefacta do público, algures entre o riso desconfortável e a falsa indignação, foi a sua estrada de Damasco. Nos números de stand-up comedy que se seguiram à epifania, Louis C.K. decidiu apostar cada vez mais na temática trauliteira-familiar, e aos poucos foi abrindo a caixa de Pandora doméstica e a retirar mini-esqueletos do seu armário, puxados à força de assholes, bitches e incontáveis fuckings dirigidos às próprias filhas.

 

 

O resultado foi este: os pais começaram a rir-se em uníssono daqueles não-ditos tão sentidos, que eles próprios imaginaram ter de esconder dentro de si e acorrentar às masmorras do superego pela vida fora, fosse por convenção social ou por vergonha pessoal. E com o passar dos anos, esse riso foi-se tornando cada vez mais solto, cada vez mais livre e cada vez mais catártico – ao ponto de Louis C.K., com o seu humor desregrado, desbragado e arriscadíssimo, ser hoje o mais bem-sucedido comediante da América. 

 

Como é que isto aconteceu? Como é que aquele tipo ruivo, gordo, careca e semi-obscuro, de quem se mandavam links do YouTube às escondidas para os amigos pais se consolarem enquanto tentavam adormecer o filho de oito meses pela oitava vez, se tornou subitamente a nova coqueluche da comédia americana, com uma vasta colecção de nomeações para os Emmys, graças à série Louie?

 

A explicação, para um pai de quatro filhos como eu, é relativamente simples: Louis C.K. teve a coragem de dizer aquilo que todos nós, homens heterossexuais e pais de família, sentíamos cá no fundo mas não éramos capazes de verbalizar, mesmo andando há muito a acumular frustrações pessoais e profissionais. A saber: que o discurso sobre a paternidade está todo ele avariado e que ser pai, muitas vezes (demasiadas vezes, até), não tem piada absolutamente nenhuma.

 

E de repente, já não é só Louis C.K. a tirar-nos desse armário. É também, por exemplo, Adam Mansbach, graças ao sucesso planetário de um falso livro infantil chamado Vai Dormir, F*da-se (edição portuguesa da Arte Plural), protagonizado por um pai desesperado que tenta convencer o seu filho a adormecer através de versos tão subtis quanto:

 

O gatinho junto à gata se aninha
E o cordeiro ao pé da ovelha busca calor.
Estás aconchegado na tua caminha,
Agora, f*da-se, dorme por favor.

 

A Lua no céu está a aparecer
E as estrelas já brilham, meu amor.
Leio mais uma história, pode ser,
Mas, f*da-se, depois dorme, por favor.

 

Tanto na sua versão em papel como na versão áudio original lida por Samuel L. Jackson,

 

 

o livro foi um enorme sucesso, ainda que na sua tradução portuguesa haja demasiados asteriscos (o “fuck” passa a um púdico “f*da-se”) e a capa se desdobre em avisos cautelosos, não vá um pai narcoléptico enganar-se no destinatário da obra: “Recomendado a pais com muito sentido de humor”; “Não leia este livro aos seus filhos”.

 

 

Dispensavam-se tantos pruridos. Os pais portugueses, tal como os pais americanos e todos os pais do mundo ocidental, querem cada vez mais quebrar o discurso socialmente correcto e falsamente cor-de-rosa em relação à paternidade. Eles precisam disso, a bem do seu equilíbrio mental, e eu próprio posso testemunhá-lo, tanto em termos pessoais como profissionais: o mais bem-sucedido dos três livros para crianças que escrevi até hoje tem como título O Pai Mais Horrível do Mundo.

 

 

O pessoal está definitivamente a precisar de desabafar.

 

(Parte I de VII. Continua amanhã)

 

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publicado às 09:47


Diálogos em família #39

por João Miguel Tavares, em 22.06.14

- Papá.

- Diz, Gui.

- "Caterpillar" é um gato dentro de uma pilinha?

 

 

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publicado às 16:07


Yo? Como assim "yo"?

por João Miguel Tavares, em 20.06.14

Digam-me cá uma coisa. É impressão minha, ou esta nova aplicação de telemóvel que anda a entusiasmar tanta gente e que apenas permite dizer "yo", é assim como o assobio de um pastor para chamar as cabras ou o cão?

 

Eu diria que há certas modas tecnológicas que nos aproximam mais do australopiteco do que do homo sapiens. Mas se calhar sou eu que sou cavernícola. 

 

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publicado às 09:48


As virtudes da incerteza

por João Miguel Tavares, em 19.06.14

Eu prometo por antecipação não me voltar a meter em combates de pediatras, mas quero chamar a atenção para um comentário da Maria, que tem estado empenhadíssima a defender González contra Estivill na caixa deste post. Eu critiquei-a por estar a ser um bocadinho agressiva na resposta a outros leitores e pedi um pouco mais de sentido de humor, já que não estávamos propriamente a falar do genocídio do Ruanda. A Maria respondeu o seguinte:

 

Compreendo o comentário, mas como sabe há assuntos que nos são demasiado importantes para conseguirmos discuti-los levianamente! É exactamente este o busílis da questão! É que nas coisas que realmente importam as crianças aparecem sempre em último na lista de prioridades e de direitos humanos (ao contrário do que o João parece pensar!)

Sim, porque não se trata de andarem na equitação, aprenderem piano e a falar 5 línguas, mas de não merecerem a atençãozinha de serem confortadas quando choram ou de comerem até estarem satisfeitas ou sofrerem [punições] físicas quando um terceiro acha que se justifica! 

Parecem ser as únicas a quem é aceitável deixar sofrer, desrespeitar e humilhar! Caramba, às vezes nem acredito que este assunto seja discutível! Se estivéssemos a falar de violência domestica ou de abuso psicológico entre cônjuges, o João nem sequer me colocaria esta questão, certo? 

P.S. Nenhum de nós tem memória dessa altura da nossa vida, mas quem sabe se para um bebé que acorda sozinho a meio da noite não é como estar num meio de um genocídio no Ruanda! Ou o João acha que tem consciência de que temos portas e paredes? 

 

Por esta altura já toda a gente conhece a minha enorme alergia a quaisquer comparações que misturam palmadas no rabo ou, no caso em apreço, uma criança a chorar na cama, via método Estivill, com violência doméstica ou abuso psicológico de cônjuges. Acho um absurdo homérico este tipo de equivalência, mas é daquelas coisas: se as pessoas não conseguem vislumbrar a diferença, também não sou eu que as vou convencer.

 

O que me interessa aqui é sublinhar um outro ponto, que eu também já referi várias vezes, mas que para mim tem uma enorme importância. Os pais actuais preocupam-se demasiado. Os pais actuais vivem excessivamente em função dos filhos. E o que o discurso da Maria supõe, independentemente de concordarmos ou não com os seus métodos, é um centramento da nossa vida nas necessidades dos nossos filhos. Nós vivemos para dar uma resposta às suas exigências.

 

É certo que a Maria faz uma observação pertinente num comentário anterior: 

 

Em relação aos meninos terem que comer tudo o que está no prato (só porque foi assim que eu aprendi e porque sou eu quem manda aqui, porque tenho imensa auto-confiança principalmente ao exercitá-la defronte a um menor de meio metro), não lhe parece que obrigá-los a comer significa aumentar exponencialmente o tempo que se orbita em volta dos pequenos?

 

É uma óptima observação, só que eu tenho dificuldade em compatibilizar esta atitude com a do "se ele chora dou colo" ou "se ele não quer dormir sozinho é porque tem medos ancestrais e há que consolá-lo".

 

Os filhos não são o nosso alfa e o nosso ómega. Eles não são (ou não devem ser) o centro do nosso mundo. E este relaxamento (que os pais têm tanta dificuldade em ter, começando por mim) que eu defendo não é laxismo - é uma procura de equilíbrio pessoal e familiar, que passe por nos manter felizes e não deixar que os filhos estabeleçam as regras do nosso agir.

 

Um sintoma desse centramento que eu critico é precisamente a forma tão séria como a Maria aborda estes assuntos, como se não tivesse a menor dúvida de como agir em relação aos seus filhos, como se estivesse na posse de todas as certezas, como se houvesse uma fórmula universal da boa educação infanto-juvenil, aplicável a todas as famílias e a todos os filhos.

 

Essa fórmula - é o meu dogmatismo - não existe, Maria. Eu tenho dúvidas diárias, acho mesmo que o que resulta para uns não resulta para outros, e suponho que seja por isso que neste blogue se fazem tantas piadas, se valoriza o sentido de humor e se gosta de discutir com as pessoas.

 

Partirmos da convicção das nossas próprias insuficiências é um bom caminho para evitar dizer coisas como "nem acredito que este assunto seja discutível!", ou achar sinceramente que a angústia de um bebé que acorda sozinho a meio da noite é comparável ao genocídio no Ruanda. Eu posso provar que não é? Não posso. Mas terrores nocturnos todos nós tivemos. E genocídios, felizmente, não acontecem todos os dias.

 

O excesso de relativismo é bastante perigoso. Mas o excesso de dogmatismo ainda é mais.

 

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publicado às 10:15


Gato regressa a casa 13 anos depois

por João Miguel Tavares, em 19.06.14

Agora que estou decidido a não ter um cão, acho que vou começar a montar uma campanha pró-gato neste blogue (anteriores episódios aqui e aqui), só por prudência. Não é que eu queira ter um gato, atenção, mas pode ser politicamente avisado, caso se torne necessário encontrar uma solução de compromisso, procurar alternativas no panorama dos animais domésticos.

 

Esta história ocorrida na Austrália é deveras impressionante, e é mais um golo dos gatos no campeonato felino-canino: um impressionante gato, desaparecido em 2001, regressou a casa 13 anos depois, em desgraçadíssimo estado (mas vivo). O bicho chama-se Shelby, e a história é muito bem contada nesta reportagem de uma televisão australiana. Ora vejam:

 

 

 

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publicado às 09:47




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