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Faz mal bater às crianças?

por João Miguel Tavares, em 26.02.13
A propósito deste post e do tau-tau, escreveu um leitor:

Definitivamente, ainda serão precisos muitos anos (ou mesmo séculos) para que os pais (não todos, felizmente) e a opinião pública em geral (não toda, felizmente) perceba que o castigo físico que muitos pais ainda utilizam para educar os filhos não é legítimo, tal como outra qualquer expressão de agressão de um ser humano para outro (mesmo que seja para afastar a mosca como muitos dizem em sua defesa). Nesse dia, bater num filho (ainda que com o pretexto de estar a educá-lo) será tão condenável como hoje já é a agressão do marido à mulher (agressão esta que outrora também foi prática corrente, aceite e justificável).


Ora vamos cá ver. Em primeiro lugar, seria de bom tom não fazer comparações entre a palmada que um pai dá no rabo de uma criança e a agressão de um marido a uma mulher. É uma comparação de tal modo desproporcionada que nunca dá bom resultado. Mas eu percebo que o leitor tenha chegado a ela, porque todo o raciocínio parte da premissa de que há uma igualdade entre pais e filhos que proíbe o castigo físico ("agressão de um ser humano para outro"), já que ambos são seres humanos.

Recuso em absoluto essa tese. É verdade que ambos são seres humanos, mas não há, de todo, uma igualdade entre pais e filhos, e tratar os filhos como nossos iguais é mau para ambas as partes. A hierarquia pai-filho deve estar bem estabelecida, não tanto por nossa causa, mas por causa deles - é ela que lhes dá segurança. E nesses aspecto, uma palmada no rabo ou uma estalada na mão desempenha o seu papel numa fase em que as crianças são demasiado novas para compreenderem argumentos racionais - ou, mesmo quando os compreendem, insistem ainda assim em passar dos limites.

Pode ser que haja pais fabulosos que consigam, sem recurso à palmada ou ao grito (que eu também pratico muito, às vezes mais do que gostaria), educar exemplarmente os seus filhos. Se assim for, ofereçam-me um workshop, se faz favor. Eu nunca consegui. Até por volta dos sete anos, aquilo que o leitor chama tragicamente de "castigos físicos" a mim sempre me pareceu uma ferramenta educativa essencial. A partir dos sete, a criança ganha uma autonomia, um nível de responsabilidade e de compreensão das coisas que tornam a palmada desnecessária, a não ser em caso de catástrofe comportamental. Há, evidentemente, um altura para parar de bater, como demonstram alguns estudos). Eu não me lembro da última vez que bati à Carolina.

Mas o Gui de vez em quando apanha, sim. E apanha porque, ao contrário de tanto discurso cor-de-rosa, educar também é domesticar. Além de inteligência e racionalidade, nós temos um lado animal fortíssimo, e a civilização, que é aquilo que nos afasta dos bichos, é uma construção milenar altamente castradora. Comer com talheres, lavar os dentes, pentear o cabelo antes de ir para a rua, cumprimentar o vizinho, nada disto são actos naturais. É mais giro comer com as mãos, andar desgrenhado, não falar a ninguém.  Educar é impor, é domesticar, é castrar, e para um libertário é até uma coisa muito feia de se fazer - porque nos uniformiza, torna-nos a todos demasiado parecidos. Mas eu não sou libertário. Sou mais para o conservador, e acredito nas vantagens da disciplina e na imposição de regras que nos ajudam a orientar ao longo da vida.

Toda a gente sabe que os homens são animais racionais, mas depois concentramo-nos demasiado no adjectivo e esquecemos o substantivo. Animais, sim. Somos bichos num eterno processo de domesticação (e muitas vezes a lutar contra ele). E a experiência diz-me que as palmadas que doem não são as que batem com muita força. São as injustas. E essas, sim, eu esforço-me ao máximo para as evitar. 

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publicado às 09:32


82 comentários

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De Marta a 01.04.2014 às 23:22

De pedagogia, técnicas aparentemente científicas de relações educacionais e afins, pouco ou nada percebo. Agora, puxando dos galardões até poderia deixar aqui umas achegas sobre o significado da palavra sanção, do sentido e do objectivo (ganho a vida a sancionar os cidadãos....) ou até do significado do "poder correctivo" que os pais detêm sobre os respectivos filhos, reconhecido nos tribunais portugueses, e sem entrar em discussões opinativas sobre o que penso do assunto. Poderia tudo isso, mas prefiro ficar-me pelos meus conhecimentos empíricos da maternidade e deixar aqui uma frase, repetida inúmeras vezes pela falecida avó dos meus dois filhos (6 e 9 anos), para quem quiser utilizá-la como instrumento de reflexão: "é tão fácil educar os filhos dos outros..."
Numa nota final: qualquer agressão sobre um ser humano é crime, tratando-se de relações pais/filhos, o limite está no propósito e nas consequências.
Anseio desesperadamente pelo tal workshop que forneça a fórmula secreta que substitui a milagrosa palmada no rabo da criança que com 5 ou 6 anos avança para atravessar a estrada soltando-se inadvertidamente da mão da mãe e quase é atropelada. É que não conheço nenhum discurso, linguagem ou mensagem pedagógica tão eficaz quanto está palmada dada no momento certo. Até porque passados 30s do discurso pedagógico a criança já não retém mais nada da mensagem. Dito isto, sou absolutamente contra os chamados castigos corporais e o estabelecimento da diferença pais/filhos por via do temor reverencial. Por fim, agradeço todos os dias a única vêz que o meu pai me levantou a mão para me dar a chamada "valente tareia" (aliás a única vez que me bateu na vida), por ter sido absolutamente eficaz!
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De Teresa Muge a 27.10.2013 às 14:44

Mais uma provocação ― lembrei-me agora de uma história que o Zeca (Afonso) contava e que se tinha passado com ele em Paris:
— Um dia, ia o Zeca a pé por uma das ruas parisienses, quando chega a um cruzamento com passadeira e semáforo para os peões que, na altura, estava vermelho; a seu lado, aparece uma senhora com uma criança de +/- 3 anos pela mão, que desata numa ruidosa e espectacular birra, puxando pelo braço da mãe para atravessar a rua, com carros a passar e tudo; depois de dois 'não' firmes e dois esticões no braço da criancinha ― que redobrou a gritaria ― a mãe não hesita: prega-lhe com três palmadas no rabo; o puto agora chora, mas já não estrebucha. O Zeca fica todo incomodado e mostra-o bem fazendo um reparo à senhora: 'Ó madame, não pode bater na criança!' ― Resposta imediata da 'maman': 'Pourquoi? T'es jaloux?' ('Porquê? Estás com ciúmes?).
Torno a dizer: não sou defensora de palmadas, tabefes, puxões de orelhas, castigos/punições...; ou seja, não penso assim: quando uma criança faz uma birra, dá-se-lhe uma palmada; quando é teimosa, dá-se-lhe um tabefe; quando parte um prato, vai de castigo para o quarto, etc. Que defenderei eu então? A mais completa bandalheira? A desautorização dos pais? A falta de regras, de disciplina? O quê? A conversa mole? Ai ai ai...
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De Teresa Muge a 17.10.2013 às 09:48

DUAS HISTÓRIAS:
— sou filha de pais de quatro - pai e mãe latinos, o primeiro viajando entre os mimos, muitos mimos e os tabefes, a voz alta, os castigos, a segunda um doce que não acredita nesses 'meios educativos' e que prefere conversar/fazer compreender, mas que, quando a coisa aperta, lá vai dizendo 'olha que se o teu pai sabe...!'; nunca duvidei do amor de ambos.
1ª HISTÓRIA: o pai vinha a casa almoçar; depois, dizia que precisava de descansar pelo menos meia hora antes de regressar ao trabalho; por isso, os putos não o deveriam incomodar nesse momento, nem com barulho, nem com interrupções de nenhuma ordem; assim, fechava-se no seu quarto a dormir a sesta. Ora a dada altura, teria eu oito ou nove anos, achei que tinha coisas importantíssimas a dizer ao pai exactamente naquele seu momento sagrado de repouso. Truz-truz, entra sem ouvir se pode ou não e avança: Ó papá... As primeiras duas ou três vezes que fiz isto levei uns belos e crescentes ralhetes, entremeados com as minhas cada vez menos bem sucedidas tentativas de justificação da pressa. E lá veio um dia em que ao 'Truz-truz e entra e Ó papá' se seguiu um corpo deitado que se dobra, agarra no seu pesado chinelo e o atira na minha direcção. Valeram-me os meus óptimos reflexos para não ter levado com o chinelo na cabeça. A mãe viu tudo e foi falar com o pai. Eu fiquei do lado de fora, paralisada, a ouvir bocados da conversa 'Magoou-se? ― Não, mas podia ter-se magoado! Não podes fazer as coisas assim! ― Que é que tu queres, já lhe expliquei, já lhe pedi, já a proibi... e ela nada! E se eu não descanso esta meia hora, não aguento, não aguento, pronto! ― Eu vou falar com ela.' Quando a mãe saiu do quarto eu estava a fazer beicinho, quase a chorar. 'Tu não podes fazer isto ao teu pai! ― Já percebi! Posso pedir-lhe desculpa?' Já não me lembro quando o fiz, mas pedi desculpa ao pai e nunca mais me foi difícil compreender o quanto ele precisava de descansar, nem do valor bem contextualizado daquele tipo de linguagem não verbal. Não foi o medo do chinelo que me fez mudar. Foi o recíproco da violência que sobre ele eu estava a exercer. Pode não se chegar a situações limite deste tipo? Pode.
2ªHISTÓRIA: tínhamos ido ver um Tatoo (demonstrações, em espectáculo tipo circense, de habilidades militares) ― o primeiro da minha vida; de todas as coisas que me deixaram louca de divertimento e curiosidade, os paraquedistas foram os que bateram todos os recordes: bolas, então eu, cujos sonhos e brincadeiras recorrentes implicavam voar, voar, voar... de capa, de asas a fingir, de tapetes e vassouras que aguentam connosco! Adorei! No dia seguinte, lá estava eu no comando das brincadeiras: o guarda chuva do meu pai, para mim, era enorme e até se parecia bastante com aquele novo meio de voação que era o paraquedas. Subi acima do telhado da casa, no meio do estardalhaço dos outros putos - entre acagaçados, entusiasmados, curiosos... - prontos a apreciar o resultado da façanha que eu lhes prometera. Mesmo na berma do telhado, guarda-chuva aberto sobre a minha cabeça, bem agarrado por duas mãos bem esticadas, disse aquelas que seriam as últimas palavras de prolongamento do suspense...; nesse exacto segundo, aparece a minha mãe e eu vejo-a ― olha para cima e empalidece ― levanta os braços e murmura um 'Ó Teresinha' que eu não ouço mas percebo pelo movimento dos seus lábios ― de algum modo lhe senti o susto e a dor e de algum modo percebi que eu estava em risco, em risco de me magoar à séria, não com palmadas, mas com o meu corpinho todo a bater no chão. Voltei para trás. E nunca mais me esqueci do que é esse outro tipo de linguagem não verbal.
A interpretação das histórias pertence a quem as lê. Mas quero dizer-vos que não defendo as palmadas.
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De João Miguel Tavares a 17.10.2013 às 10:12

Muito obrigado pelas duas histórias, Teresa. Eu percebo perfeitamente o que quer dizer, e como tenho dito nos meus posts, nestas coisas não acho que existam receitas aplicáveis a toda a gente por igual. Mas já agora, só por curiosidade, que o seu apelido não é assim tão vulgar, você não é a Teresa irmã da Amélia, pois não?
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De Teresa Muge a 17.10.2013 às 08:49

Caro JMT
Segui o seu conselho e fui ao paisano. Interessante também. Por impulso, respondi a um dos comentários. Como fala de si, aqui também o deixo.

Teresa. Muge says:
17/10/2013 at 08:18

Minha querida Tânia
Foi através do blog do João Miguel Tavares que vim aqui ter. Parece que este é mesmo um assunto importante para muita gente ― enfim, não apenas as palmadas, mas estas integradas numa coisa muito mais vasta que é a educação dos nossos piquenos (ser criança é uma circunstância passageira dentro da circunstância passageira que é a vida; mas é a circunstância cujo peso na vida inteira tende a ser inversamente proporcional à idade que vamos tendo).
O seu contributo comoveu-me: pela sinceridade quase ingénua com que procura dizer a si mesma ‘não te preocupes que tu és capaz de ser boa mãe’. Qualquer pessoa que, advertida ou inadvertidamente, ponha em causa uma parte (por pequena que seja) das convicções educativas de alguém, está a por em causa um edifício inteiro. Creio que é isso que faz o JMT a reagir ‘à ninja’ – como diz o André.
Quase se pode ouvir claramente: ‘Se não posso ou não devo dar palmadas, o que é que eu ponho no seu lugar? Alguém me diz?’ ― pois, mas é que a palmada está tão ligada a uma amálgama de ideias e de crenças sobre as pessoas, a vida, a sociedade… que ao fazer delete sobre ela se corre o risco de tudo o resto se desagregar; os pais:
– ou começam a não confiar em si, a sentir-se inseguros, a deixar as tarefas educativas para os ‘profissionais’…,ou seja, a não decidir no momento (espaço/tempo) em que a decisão é necessária (e pais indecisos e/ou não-decisos é muito pior que pais que nem sempre decidem bem)
– ou, sentindo o aproximar desse tsunami, fecham sobre si mesmos esse mundo de convicções, fazem umas ameias e desatam às flechadas em todas as direcções
Curiosamente, ambas as reacções mostram que há ali qualquer coisa sobre a qual gostariam ou deveriam de saber mais. O modo ninja do JMT parece-me mais um pedido pungente de “socorro” do que uma vontade de ter razão seja a que custo for. Acho que já mostrou ser mais inteligente do que isso!
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De Sofia Silva a 11.10.2013 às 11:31

Este post é antigo mas só li agora e tenho de comentar.
Já vi aqui muitas opiniões de pais, e muito bem, mas ainda não vi nenhuma opinião de filhos. Eu não sou mãe mas sou filha. Até à adolescência sempre fui uma míuda difícil, com a mania de que sabia tudo, respondona, muito desobediente (porque achava sempre que sabia melhor) e, segundo os meus pais, com muita imaginação para fazer asneiras. Apanhei muitas sapatadas e todas merecidas. Umas dadas no momento certo, outras num momento em que a minha mãe ou o meu pais (que estavam divorciados e portanto em casas diferentes) já estavam "cegos". Sim, porque alguns míudos tiram-nos do sério! Eu já passei por isso sem ser mãe, por isso posso simplesmente virar as costas e os pais que resolvam. Mas não é fácil para os pais. Vejo isso até nos filhos da minha melhor amiga, que são uns amores, bem educados, mas às vezes "passam-se".
Agora olho para trás (não passou assim tanto tempo) e entendo perfeitamente as atitudes da minha mãe e do meu pai. É graças às chineladas no rabo e algumas com colher de pau, porque os tirava mesmo do sério, que sou aquilo que sou hoje. Uma adulta responsável, com valores, bem formada. Em pequena era mesmo muito mazinha. A verdade é que os miúdos não são todos os iguais e acho que isso é um ponto fundamental também.
Estou muito grata aos meus pais por aquilo que sou hoje, sapatadas incluídas.
Se eles podiam ter agido de outra forma mais pedagógica? Se calhar podiam mas os pais também não são perfeitos e claro que uma asneira a um sábado não tinha as mesmas consequências que uma asneira à 3.ª à noite por exemplo. O cansaço e o stress também condicionam as reacções dos pais.
E acho que TODAS as crianças que forem bem educadas vão entender TODAS as sapatadas que levaram, como eu as entendo.
E concordo totalmente com o autor, se houver quem consiga educar bem um filho com outros recursos, melhor, mas nenhuma criança fica traumatizada por apanhar de vez quando. (Claro que não me refiro a situações de violência doméstica, isso é um caso à parte).
E já agora, no Verão costumava passar longas temporadas na aldeia com os meus tios e avó enquanto os meus pais trabalhavam. Estes nunca me bateram mas castigavam e recordo uma sensação de injustiça muito grande relativamente à dimensão de certos castigos (uma semana sem desenhos animados, uma semana sem gelados, não ir a festas com os meus primos...) que nunca senti relativamente às palmadas.
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De teresa muge a 10.10.2013 às 20:13

Li tudo. Já tive vontade de responder várias vezes, mas ela diminui proporcionalmente à iliteracia educacional que os comentários revelam. Ora a ignorância tem, em qualquer área, uma característica comum: os indivíduos acreditam sinceramente que as suas opiniões são uma espécie de teorias científicas inabaláveis. No entanto, de tão bem acabadinhas e redondinhas, acabam por não ter ponta por onde se lhe pegue. E eu fico assim, a olhar para elas, e a pensar: que pena não haver um consultório educacional, do mesmo tipo do consultório médico, com espaço e tempo para construir respostas coerentes e fundamentadas a perguntas de pais sobre a educação dos seus filhos! Claro que tal como o consultório médico é gerido por uma médica, o consultório educacional deveria ser gerido por um profissional de educação, com esta ressalva: a sua especialidade deveria ser centrada na relação educativa, para não se correr o risco das respostas terem aquele mesmo toque de passe/truque de magia que tantos pais procuram; é que muitos professores, na sua formação inicial – e, neste momento, desde o pré-escolar – aprendem 'muito' português e matemática e ciências..., mas não aprendem, de facto, a ser educadores/professores. A relação educativa, então – onde educogenia (ou potencial educativo dos contextos), interacção, conflitos, regras, sancionamento... são estudados, ou seja, onde se podem aprender vários e úteis instrumentos de acção naqueles domínios – como dizia, a relação educativa, ou é muitíssimo pouco ou nada mesmo abordada. Assim, continuamos a ser todos muito especialistas numa área de actividade humana que, desde os confins dos tempos, é coisa do gineceu. Talvez por isso demore tanto tempo a ser respeitada como área do conhecimento tão séria e necessária como a medicina. Meu Deus, terei eu forças para discussões sobre quem gira em volta de quem? Não valerá mais a pena um et pure se muove sem outras considerações e ir mesmo para cabeleireira?
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De João Miguel Tavares a 11.10.2013 às 17:53

Cara Teresa, agora fiquei eu curioso: não quer mesmo elaborar mais um pouco sobre o que pensa de tudo isto? De facto, eu não estou habilitado para conselheiro educacional, mas gostava de conhecer as suas convicções sobre este assunto.
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De Teresa Muge a 15.10.2013 às 23:12

Caro João Miguel

Fiquei muito surpreendida com o seu contacto. Não tenho muito o hábito de viajar por blogs a dar opiniões. Mas gostei deste por já gostar do 'mimo' que os homens precisam e passei a segui-lo. Não é só por isso. Sou uma apaixonada pelas questões da educação. Gosto de pessoas, pronto! Na base, sou Educadora de Infância – é uma espécie de camada de pele, às vezes à flor, outras ao fundo, mas está cá; vários anos virei frangos em diferentes Jardins de Infância, naquela espécie de nomadismo que a profissão proporciona aos mais afoitos, ou que não precisam de ficar numa grande cidade ou perto de casa, ou que qualquer outra coisa para serem profissionalmente felizes. Depois, estive vinte e tal anos a virar outros frangos numa universidade, a trabalhar como docente na formação de Educadores de Infância. Isto criou-me ainda uma outra pele que, não sendo a mesma, às vezes se confunde com a primeira. No entanto, nesse papel ou circunstância de formadora 'estou-me nas tintas' para os ou as Educadoreas: o que me interessa mesmo são as pessoas crianças ― portanto ETs ― com quem elas irão trabalhar; por isso é que não me estou nas tintas para as pessoas educadoras. Rebuscado? Peço desculpa, às vezes custa a dizer certas coisas. Pronto, no geral, são estes os meus pergaminhos.
Agora preciso ainda de pedir desculpa pelo meu pedantismo de especialista: não é vaidade, é cansaço, é sentimento de impotência... 'Toda a gente' sabe alguma coisa de educação que pode ser útil. Os pais de cada criança ― não assim como um todo amorfo, mas os pais concretos de filhos concretos ― sabem muito da educação dos seus filhos. É por isso que eu acho que o papel de um especialista, por exemplo, em relação educativa, não é o de substituir os pais dizendo-lhes o quê, como, quando, onde... "devem" fazer isto ou aquilo. Vejo mais utilidade nessa figura de consultoria, mas da boa; ou seja: tu pões um problema - ele ajuda a formular/reformular as perguntas - ele vai-te oferecendo instrumentos de pensamento e acção te podem ajudar a construir os teus próprios roteiros de procura de respostas.
Por exemplo: 'Faz mal bater nas crianças?' - a questão está mal colocada. Se perguntasse à Teresa-sua esposa: 'Faz mal dar paracetamol às crianças?' ― se calhar ela diria o mesmo. E depois a coisa teria de se ir afinando entre ambas as partes até se falar a mesma língua e se poder começar a conversar de facto!
Assim, para podermos continuar a conversar, vou deixá-lo com uma(s) pergunta(s): acredita no potencial humano para se tomarem decisões boas para si e para os outros? acredita que este potencial se pode desenvolver desde a nascença? acredita que os putos pequenos podem ir desenvolvendo este potencial desde muito pequeninos?
OK! ― não o vou deixar sem tentar responder a seco à tal pergunta mal colocada com outra(s) pergunta(s): Mesmo que mal possa não fazer, para quê bater? — (atenção que não perguntei 'porquê', pois podia responder 'porque sim' e a conversa deixava de ter sentido); Faz bem às crianças apanharem de quem é maior, mais forte, mais pesado, que conhece muitas mais coisas do mundo físico, do mundo lógico-matemático e do mundo das pessoas e ainda por cima sabe muitas muitas palavras?
Só mais um favor: veja, num dicionário muito bom, o que é que quer dizer 'sancionar' (é só para não andar aqui a enrolar se houver próxima vez).
Um abraço a toda a família - em especial aos ETs, sua esposa Teresa e para si, com admiração pelo seu trabalho.
Teresa Muge
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De Joana Mendonca a 03.10.2013 às 16:12

Este post já é antigo, mas não sei bem como vim cá parar. Eu faço parte da minoria que em Portugal acredita e educa sem recurso à palmada e à violência e fiquei contente por ver que há mais pessoas como eu. O meu marido não é Português e para ele nunca fez sentido o recurso à palmada. Percebo que as pessoas possam perder a cabeça com os filhos, mas a palmada parece-me um recurso pedagógico pobre e medriocre. Para quem tiver interesse: http://www.nospank.net/pt2009.htm. E para quem disse que era fácil não bater, não é verdade. De facto é mais dificil porque implica a procura de soluções pedagogicas alternativas. Nós usamos o "time-out" com muita frequência. Gosto muito do vosso blogue, e devo confessar por verificar que alguem que gosto de ver e ouvir, acabe por defender algo com o qual eu estou em tão grande desacordo. Mas claro, o mundo é feito de diversidade. Mas como alguem já escreveu, é nos paises com maiores niveis de educação da população que se verifica o não uso da uso da palmada. E além disso, não conheço mais nenhuma lingua que tenha uma palavra de linguagem infantil para palmada...
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De Anónimo a 16.09.2013 às 16:54

Eu levei palmadas no rabo quando precisei e sabia bem que pelas coisas que estava a fazer as ia levar e bem merecidas!! No entanto amo muito os meus pais e agradeço as palmadas que me deram!
A questão é dar as palmadas porque realmente a criança se portou mal, e muitas vezes eles próprios têm noção disso (como eu), ou se as palmadas já são derivadas de impaciência dos pais que muitas vezes estão demasiado ocupados a enviar sms e a ver televisão para tomar atenção ao que o próprio filho tem a dizer!!
Assisti há uns anos uma criança de 8 ou 9 anos a dar um estalo à mãe em plena esplanada de shopping, o que é que a mãe fez?! Nada...no mínimo levava-o à casa de banho e num meio mais privado dava-lhe uma palmadita no rabiosque...pela demora que provavelmente teve na resposta não adiantava recriminar a criança mais tarde, ela nem se lembraria do sucedido...
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De Diogo a 03.10.2013 às 02:25

Agradeço as palmadas que levei e as respectivas cinturadas.
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De O Pipoca Laroca a 06.09.2013 às 23:27

Concordo, em absoluto, com a opinião de João Miguel Tavares. Não confundo violência infantil com educação. Uma palmada na mão ou no rabo, perfeitamente contextualizada, com fundamento num comportamento inaceitável da criança (exemplo: bater nos pais; partir objectos) e proporcionada relativamente ao comportamento, não pode, quanto a mim, ser confundida com violência infantil, que associo a um acto físico gratuito, de intensidade desproporcionada e com consequências físicas e psíquicas graves para a criança. Também não entendo que uma palmada contextualizada seja prior do que fechar uma criança no quarto. Apesar de não envolver contacto físico, a segunda parece-me mais violenta do que a primeira.
Também pretendo, desde já, inscrever-me no lírico workshop sobre "Como infalivelmente educar a seu filho poupando-o a uma palmada na mão ou no rabo quando o seu comportamento ultrapassa o limite do que lhe parece razoável". Também gostava de compreender, mas confesso não conseguir, como explicar racionalmente a uma criança de pouca idade o que deve/pode ou não fazer, se o seu próprio desenvolvimento neurológico, até determinada idade, impede que tal suceda. Em determinada idade, o desenvolvimento infantil não se caracteriza por comportamentos racionais, mas sim emocionais. Tenho um filho de 31 meses, atento, curioso, expressivo, enérgico e doce. Mas, como a grande maioria das crianças nesta faixa etária, faz birras. Sempre tento caracterizar o seu comportamento, explicar-lhe que é desadequado, que o desaprovo e por que o desaprovo. Tudo em linguagem adaptada ao que eu sei que ele compreende. Findo o discurso, deixo-o continuar a birra, sem dar-lhe atenção. Quando a birra acaba. Volto a explicar por que não gostei do comportamento dele e que tal me deixou triste. E sei que ele entende. Mas se a birra degenera, como algumas vezes, em bater-me com os pés ou com as mãos, não assumo que esteja a sofrer de violência física por parte do meu filho de 31 meses (porque efectivamente, não somos iguais: ele é um ser humano em desenvolvimento, eu sou o adulto a quem a sua educação está confiada). Mas ensino-lhe outra coisa: que toda a acção gera reacção. E leva uma palmada. Para perceber que a violência gera violência. E explico-lhe que, se não bater na mamã, a mamã não lhe bate. E fica no castigo (sentado na sala) a pensar no que fez à mamã. E garanto que percebe o que lhe digo. Porque, passados uns minutos, vem dizer-me que se portou mal e não bate mais na mamã e que me quer dar um beijo e pedir desculpa (o que também lhe ensinei, em caso de mau comportamento para com qualquer pessoa). Claro que, numa próxima birra mais violenta, voltamos ao mesmo. Também é por repetição que as crianças apreendem. Toda a acção, positiva ou negativa, terna ou violenta, gera uma reacção. Ensino-lhe isso com a mesma naturalidade que elogio efusivamente o seu mais pequeno comportamento positivo. Para transmitir-lhe auto-estima e orgulho em si-próprio. Para que possa progredir no seu desenvolvimento. Os pais são uns amigos muitos especiais. Porque são os únicos amigos responsáveis por ensinar a distinguir o bem do mal.
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De Unknown a 15.08.2013 às 11:28

Não quero entrar no mérito de qual é o método educacional mais correto. Em minha família são 3 irmão homens. Que apanharam e muitas vezes. Hoje adultos, nenhum deles tem depressão, nem são agressivos. E mais que isso, todos os 3 são pessoas boas, com boa educação, honestos e que amam e muito seu pai.

E admito que pelo que me lembro, mereci as palmadas que tomei.

Não é um ato de espancamento umas palmadas na bunda, ali não tem nenhum órgão vital, doía, marcava, mas no dia seguinte eu estava jogando bola já.

Será que o método educacional dele era tão errado?

Agora vamos pensar por um outro lado. Como pode um pai responder pelos atos de um menor de idade que roubou ou matou sendo que ele teve que educar a criança a maneira que sociedade acabou impondo?

Eu em minha humilde opinião, achou que uns tapas na bunda as vezes se faz necessário.

Vejo isso com o passar dos anos, isso era muito comum antigamente, até o professor usava desses métodos. E hoje com essa sociedade corrompida, cheia de menores infratores, vão falar que antigamente eles estavam errados?

Acho que é um pouco cedo pra conseguir afirmar que um método educacional recente é o método correto.

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Onde o pai fala de assuntos sérios



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