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A mamã é médica #7.1

por Teresa Mendonça, em 16.01.13

Um leitor escreveu: O leite não é a maior fonte de cálcio disponível, não sendo necessariamente essencial à dieta de uma criança (como muitos meninos e meninas intolerantes à lactose que nem por isso deixam de crescer saudáveis o comprovam). Até amêndoas e sementes de sésamo têm mais cálcio do que o leite (e ambos podem ser incluídos facilmente em pães ou até bolachas caseiras - em que se controla os açúcares e nem por isso deixam de ser atractivas para os mais pequenitos.)
E ainda outro, a respeito de um post em que uma mãe se preocupava por o filho não gostar de leite: O pequeno parece comportar-se como os restantes mamíferos conhecidos. Ao que parece somos os únicos que insistem em continuar, e até obrigar-nos, a beber leite de outros bichos. 

Nos últimos anos têm sido muito acesas as discussões e debates sobre se o leite é ou não um alimento saudável para os humanos, em especial para as crianças. Os argumentos de um e outro lado da questão são múltiplos e por vezes extremados e pouco simpáticos (ou não fossem os nomes dos pobres animais que produzem o dito cujo - vacas e cabras - propícios a trocadilhos deselegantes). Por decreto, quando nos referimos a leite alimentar estamos a falar de leite de vaca. Quando queremos falar de leite de cabra ou outros temos que especificar a origem.


Como há muitos pontos importantes a discutir, divido a discussão em dois posts.

Comecemos pelos argumentos contra a ingestão: que há alimentos mais ricos em cálcio do que o leite, que somos a única espécie que bebe leite depois da infância e a única que bebe leite proveniente de outra espécie, que o leite contém hormonas que são administradas às vacas para crescerem mais rapidamente, que a maior parte dos lacticínios é pasteurizada e que esse processo destrói as proteínas do leite, que é homogeneizada e isso desnatura as proteínas e torna o leite mais difícil de digerir, que o leite tem mais colesterol que o bacon, que as vacas são alimentadas com milho e soja geneticamente modificados, restos de animais, pesticidas e antibióticos, que existe maior incidência de fracturas osteoporóticas em países com elevado consumo de produtos lácteos, que quem consome produtos animais tem um cemitério de bichos no estômago, e por aí adiante.

 
A decisão de ingerir ou não produtos animais é uma filosofia de vida e, desde que todos os nutrientes sejam incluídos na dieta, por vezes com necessidade de recorrer a suplementos, é uma escolha que só a cada um diz respeito. Não devem ser aqui esquecidas as crianças (em especial os lactentes) que em raros casos sofrem défices vitamínicos importantes, com sérias consequências para a sua saúde, pelas escolhas alimentares pouco informadas dos pais.
 
É verdade que existem alguns alimentos mais ricos em cálcio do que o leite. As sementes de sésamo ou as amêndoas (estas muito menos) são um exemplo. Agora vejamos: aproximadamente, a quantidade de cálcio existente numa chávena de amêndoas integrais é 378 mg e numa de leite é 300 mg. Só que se ingerirmos a primeira estamos a consumir cerca de oito vezes mais calorias do que com a segunda. Percebe-se, portanto, porque é que as amêndoas não são consideradas pela FDA (órgão governamental que controla os alimentos e medicamentos nos EUA) um boa fonte de cálcio (por definição a quantidade de referência diária de um determinado alimento deve fornecer 10-19% da dose diária recomendada desse nutriente para ser considerada uma boa fonte nutricional), ainda que o seu consumo seja altamente recomendável.
 
Sobre o conteúdo ilícito de antibióticos, hormonas, pesticidas e bactérias no leite alimentar não me vou pronunciar. Os métodos de análise e controle do leite estão regulamentados, são minuciosos, e é suposto que funcionem e sejam verificados pelas entidades responsáveis.
 
É verdade que o tratamento térmico que o leite alimentar sofre (com vista a destruir os organismos indesejáveis), e a sua homogeneização, alteram significativamente a fracção proteica útil do leite e induzem perda de nutrientes. Aqui o que conta é o que se obtém da relação custo-benefício e ainda assim o resultado, segundo estudos credíveis de equipas credenciadas na área de Pediatria e Gastrenterologia, é positivo, re-assumindo-se o leite como uma fonte primordial de proteínas e cálcio.
 
Sobre o conteúdo de gorduras no leite já aqui me referi em A mamã é médica #2.

Em relação às patologias que se associam ao consumo de leite falarei no post seguinte. 



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publicado às 11:30


8 comentários

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De fca a 17.07.2014 às 15:55

Boa tarde,

No âmbito profissional encontrei uma estat´stica em que se afirmava que 1 em cada 3 crianças que hoje nasce terá um cancro.

O prof. Sobrinho simões argumenta que esta doença será cada vez mais uma doença cronica.

Um dos meus irmãos, argumenta que parte da prevalência desta doença tem haver com a alimentação e parte com o leite.

Assim, e como este é um tema que nos interessa, enviei este post.

Aqui segue a resposta dele, em jeito de provocação poara mais um mamã é médica:


"Não estas a ver o filme todo.

1. “Percebe-se, portanto, porque é que as amêndoas não são consideradas pela FDA”
=> Segundo li no documento, este argumento é utilizado porque as amêndoas têm mais calorias.
Mas ninguém disse que as calorias são más.

O problema é que a malta que come carne ingere muito mais calorias do que a malta que não come.
Por isso para a malta que não come carne até é bom ingerir mais calorias.
Em média um vegetariano é mais magro do que o não vegetariano, por isso essa questão das calorias é uma falácia.

2. O nosso organismo não está feito para ingerir a carne.
Ao consumirmos a carne, por este ser um produto altamente ácido, o nosso organismo tem de utilizar a fonte de alcalinidade para compensar essa acidez.
Onde temos essa fonte? No cálcio nos ossos. Ou seja, por comeres carne precisas de ingerir mais cálcio do que quem não a come.
Conclusão, os vegetarianos necessitam de menos cálcio do que os não vegetarianos.

3. Existem outras fontes de cálcio com menos calorias, por exemplo as folhas verdes escuras como as couves.

4. És um tipo das estatísticas. Podes verificar que os países com mais osteoporose são precisamente aqueles onde se consume mais leite.



Que te parece mano?"
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De Filipe Gorjão a 03.06.2014 às 10:22

Creio que falta um "A mamã é médica #7.2".
:-(
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De Joana Silva a 13.01.2014 às 13:24

Teresa, sei que o tempo não deve ser muito...mas gosto tanto de ler estes posts da "mamã é médica".
Posso pedir um tema, posso (como diz o meu filho)? Como conseguir que o meu filho de 3 anos deixe de uma vez por todas a chupeta?
Obrigada.
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De Patty a 25.04.2013 às 17:07

Tenho pesquisado sobre este tema, e li recentemente num artigo que me pareceu sério que o problema de beber leite é este ter na sua composição um elemento que dificultaria a fixação do cálcio nos ossos, sendo esse o motivo para os países com maior consumo de leite serem os que apresentam maiores índices de osteoporose. Tem algum conhecimento sobre esta interpretação? Obrigada.
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De Diogo Pedrosa a 03.04.2013 às 15:49

Realmente este assunto é polémico e há muitos prós e contras.

Penso que além da ingestão de alimentos com cálcio, também muito importante é saber se o nosso organismo tem capacidade para assimilar o cálcio. Desta forma a Vitamina D extremamente importante nessa função, por isso considero que se deve controlar os valores dessa Vitamina no nosso organismo.

Gostava de saber a sua opinião.

Obrigado
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De Maria Paes de Vasconcelos a 15.02.2013 às 15:27

Uma opinião pessoal de uma profissional da área:

Somos os únicos mamíferos que bebem leite em adultos, mas também somo os únicos que estudamos filosofia e fomos à Lua (para escolher 2 ao acaso...).

No desenvolvimento da nossa espécie houve um momento crucial em que se iniciou a pastorícia, e passou a haver proteína de alto valor biológico à mão sem ter de matar o animal, o que é mais económico e "amigo dos animais" (aliás, como o ovo).

A escolha de beber ou não leite é pessoal, e é possível viver bem sem ele, mas é prático (para levar na carteira/mochila, por exemplo), é adaptável (com sabores, em queijo, em iogurte...) e é barato (principalmente se comparado com outras fontes proteicas). Portanto a questão é: why not?

(Nota: muitos parabéns pelo blog, adorei as estrelas! um alívio neste dia em casa com filho engripado...)
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De SN a 16.01.2013 às 23:02

Bom. Este assunto do leite atormenta me um bocadinho. Porque a curto prazo não vou mesmo conseguir ultrapassar a sua resistência. E vou compensando com alternativas mas sempre a pensar que poderá estar com carências de cálcio. Em termos de crescimento ele esta no percentil 95 de altura e 75 de peso. O pediatra desdramatiza mas este tópico incomoda me. Obrigada pelas sugestões e informações. Vou continua em testes.

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De Arca Trapos a 16.01.2013 às 13:54

Bem, há certamente alimentos mais ricos em cálcio do que o leite, não deixando este de ser um alimento rico noutras substâncias igualmente necessárias.

Se o problema realmente é o "beber leite de outros bichos" tem-se sempre a alternativa do leite de soja. Sou completamente a favor, como veterinária sei/vi que a industria do leite é um mundinho assustador, para além de que a nível ecológico é o melhor passo que poderíamos dar.

Agora, sejam pessoas interessadas e procurem uma boa fonte de informação. Não retirem alimentos das dietas dos vossos filhos, só porque lemos em algum lado que tal e coisa.

Gosto muito dos posts "a mamã é médica". Continuem! :)

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