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E se ter filhos não for assim tão giro? #4

por João Miguel Tavares, em 26.06.14

Partes I, II e III. Hoje, a parte IV.

 

PARTE IV

 

Depois chegou o século XIX e todas as suas revoluções: Darwin, a paixão pela biologia e pela antropologia, o desenvolvimento extraordinário de todos os ramos da ciência (que viria a desembocar na psicologia e em Freud), e ainda uma revolução industrial que começou a empurrar a mulher para dentro de casa. De facto, a ideia de que a mulher sempre viveu na cozinha a cuidar dos filhos até ao momento em que, em meados do século XX, começou a ir bater à porta de empresas, é completamente falsa: nos tempos em que a agricultura de subsistência era o principal modo de vida, a mulher fazia parte da força de trabalho.

 

Foi com a industrialização, com o progressivo desenvolvimento da burguesia, com o crescimento do sector terciário e com o surgimento de uma classe média onde o ordenado do homem era suficiente para sustentar a família, que a mulher pôde enfim dar-se ao luxo de se tornar a “fada do lar”, dedicada à casa, especialista na ménage e concentrada na educação dos seus filhos. E como não há mundo de fadas sem literatura a acompanhar, os livros sobre o tema cresceram e multiplicaram-se. Havendo tempo, havendo dinheiro, havendo interesse e havendo cada vez mais ciência, os manuais de como cuidar dos filhos começaram a aparecer.

 

Alguns, poucos, ainda na transição do século XIX para o século XX, mas a maior parte deles já bem dentro do século XX, acompanhando o desenvolvimento da medicina e a importância crescente da figura do pediatra. Sim, este é finalmente o tempo dos doutores Spock e Brazelton e dos seus livros que vendiam (e vendem) milhões. Só Baby and Child Care, que Benjamin Spock lançou pela primeira vez em 1946, foi durante meio século o livro mais vendido da América, logo a seguir à Bíblia.

 

 

E com eles tudo mudou – a educação e o cuidado dos filhos passaram a ser encarados com seriedade científica, a infância foi estratificada em inúmeras categorias, a evolução dos miúdos passou a ser analisada e reanalisada mês a mês e a gravidez analisada e reanalisada semana a semana. Com este senão: a confusão dos pais foi aumentando de dia para dia, já que o pediatra do terceiro esquerdo poderia perfeitamente dizer – e dizia – coisas bastante diferentes do pediatra do segundo direito, estando eles a falar exactamente sobre o mesmo assunto.

 

A crescente aplicação e preocupação dos pais em relação aos destinos dos seus filhos não os tornou necessariamente mais informados – apenas mais angustiados. Até o tema-fetiche de qualquer processo educativo – saber se devemos apostar em “mais autoridade” ou em “mais afecto” na educação das crianças – foi variando radicalmente consoante os autores e os ares dos tempos. Há um belo livro que demonstra tudo isso, embora centrado apenas nos Estados Unidos, chamado Raising America: Experts, Parents and a Century of Advice About Children e assinado por Ann Hulbert (e que o próprio Brazelton considera na capa ser “a classic”). Hulbert conclui que o empenho de todos os envolvidos é muito estimável, mas que falha redondamente em oferecer respostas definitivas a milhões de pais ansiosos e, com assustadora frequência, à beira de um ataque de nervos.

 

A medicina fez maravilhas ao longo dos últimos 100 anos: a vida uterina é hoje conhecida até ao mais ínfimo detalhe, a mortalidade infantil caiu a pique, a vacinação afastou as doenças mais perigosas da infância, e até já podemos ver uma cara colorida e a três dimensões do nosso feto durante ecografias de rotina. Só que quando os putos saltam cá para fora, e a abordagem psicológica se torna mais importante do que quaisquer problemas físicos, as dúvidas não só continuam, como as inseguranças dos pais aumentaram, em vez de diminuírem.

 

 

Hulbert resume a coisa citando o pós-título de um artigo publicado no New York Times sobre os desafios da maternidade, esclarecedoramente intitulado “Mothers can’t win” – “As mulheres não podem ganhar”: “Trabalho ou casa? Peito ou biberão? Bater ou mimar? O que quer que escolham, elas vão sentir-se mal.” Sim, as mulheres vão sentir-se mal, e todos nós já sabemos que a vida das mães é tramada – há um movimento feminista que há décadas não diz outra coisa. Mas permitam-me, por um momento, interromper a descrição do horror da vida feminina para fazer a pergunta que, por razões óbvias, mais me interessa: e a vida dos pais?

 

(Parte IV de VII. Continua amanhã.)

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publicado às 09:51


E se ter filhos não for assim tão giro? #3

por João Miguel Tavares, em 25.06.14

Depois da parte I e da parte II, eis a parte III.

 

PARTE III

 

Isso não significa, contudo, que questões como a educação dos filhos tenham sido inventadas nos manuais do doutor Spock ou do doutor Brazelton. A Pediatria, como ramo próprio da Medicina, é ainda uma criação do século XIX, e o primeiro Hôpital des Enfants Malades abriu no distante ano de 1802, em Paris. A preocupação com as crianças não é, obviamente, uma invenção do século XX – aliás, toda a nossa civilização cristã é baseada na concepção de um Deus que entregou o seu único filho, num gesto de amor radical, para a salvação dos homens. Basta recordar o baptismo de Jesus segundo a narração de Lucas:

 

E uma voz veio do Céu: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti pus todo o Meu enlevo.”

 

Uma cultura que tem no seu centro esta intimidade amorosa de pai e filho não é crível que tenha ignorado durante séculos a riqueza de tal ligação.

 

O historiador francês Philippe Ariès, numa obra fundamental acerca da história da infância – L’Enfant et la Vie familiale sous l’Ancien Régime, de 1960 –, defende que a ideia de infância enquanto conceito etário específico e distinto da idade adulta é algo que se impõe apenas no século XVI, a par do desenvolvimento da esfera privada e do conceito moderno de família. Segundo Ariès, antes disso a criança era apenas o “dependente”, o “não-adulto”, e como tal era representado na iconografia medieval: não como alguém que tivesse uma identidade ou sequer uma morfologia próprias, mas apenas como um adulto miniaturizado. E, a partir desta premissa, o historiador francês formulou a sua máxima mais conhecida: “Na Idade Média a ideia de infância não existia.”

 

Esta frase de Ariès tem sido alvo, desde então, de numerosas críticas por parte de outros historiadores, que a consideram abusiva e claramente exagerada. Mas seja qual for a data em que se impôs a ideia de infância e da criança como um sujeito capaz de ir muito além do mero “ser dependente”, aquilo que se sabe, para além de qualquer dúvida, é que no final do século XVII a filosofia começou a interessar-se profundamente pelo conceito de educação.

 

Em 1693, John Locke publicou o influentíssimo Some Thoughts Concerning Education, que logo nas suas linhas iniciais afirmava: “Penso poder dizer, de todos os homens que conhecemos, que nove partes em dez daquilo que eles são, bons ou maus, prestáveis ou não, o devem à sua educação.” Locke generalizava assim a sua concepção da tabula rasa: não havendo ideias inatas, todo o conhecimento tem a sua origem na experiência, na percepção e, claro, na educação.

 

John Locke

 

Setenta anos depois, assumidamente inspirado por Locke, Jean-Jacques Rousseau foi ainda mais longe em Émile, ou De l’Éducation (1762), onde encontramos a conhecida formulação de que o homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe – uma variação muito optimista do mito do Bom Selvagem. Embora eu tenha em minha casa quatro provas vivas que desmentem efusivamente tal tese, na altura Rousseau foi convincente ao ponto de a sua defesa apaixonada de uma educação para aprimorar os costumes, plasmada em Émile, ter sido adoptada pelos revoltosos de 1789, e tomada como base de partida para o primeiro sistema nacional de educação francês.

 

Jean-Jacques Rousseau 

 

Ainda assim, dificilmente se pode argumentar que a importância de uma criança ou de um filho, no final do século XVIII, se assemelhasse a qualquer coisa que possamos encontrar nos dias de hoje. De facto, Jean-Jacques Rousseau, homem aparentemente tão cheio de boas intenções e encantado com a ideia do “bom selvagem”, teve cinco filhos com a jovem lavadeira Thérése Lavasseur e a nenhum deles chegou sequer a dar um nome: todos os bebés foram abandonados à sua sorte no Hôpital des Enfants Trouvés. Nas suas Confissões, o filósofo francês haveria de argumentar que ter filhos era “uma inconveniência” a que não se podia permitir. Eu, pelo meu lado, só posso confirmar que ter miúdos atrapalha a escrita.

 

(Parte III de VII. Continua amanhã)

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publicado às 09:49


As virtudes da incerteza

por João Miguel Tavares, em 19.06.14

Eu prometo por antecipação não me voltar a meter em combates de pediatras, mas quero chamar a atenção para um comentário da Maria, que tem estado empenhadíssima a defender González contra Estivill na caixa deste post. Eu critiquei-a por estar a ser um bocadinho agressiva na resposta a outros leitores e pedi um pouco mais de sentido de humor, já que não estávamos propriamente a falar do genocídio do Ruanda. A Maria respondeu o seguinte:

 

Compreendo o comentário, mas como sabe há assuntos que nos são demasiado importantes para conseguirmos discuti-los levianamente! É exactamente este o busílis da questão! É que nas coisas que realmente importam as crianças aparecem sempre em último na lista de prioridades e de direitos humanos (ao contrário do que o João parece pensar!)

Sim, porque não se trata de andarem na equitação, aprenderem piano e a falar 5 línguas, mas de não merecerem a atençãozinha de serem confortadas quando choram ou de comerem até estarem satisfeitas ou sofrerem [punições] físicas quando um terceiro acha que se justifica! 

Parecem ser as únicas a quem é aceitável deixar sofrer, desrespeitar e humilhar! Caramba, às vezes nem acredito que este assunto seja discutível! Se estivéssemos a falar de violência domestica ou de abuso psicológico entre cônjuges, o João nem sequer me colocaria esta questão, certo? 

P.S. Nenhum de nós tem memória dessa altura da nossa vida, mas quem sabe se para um bebé que acorda sozinho a meio da noite não é como estar num meio de um genocídio no Ruanda! Ou o João acha que tem consciência de que temos portas e paredes? 

 

Por esta altura já toda a gente conhece a minha enorme alergia a quaisquer comparações que misturam palmadas no rabo ou, no caso em apreço, uma criança a chorar na cama, via método Estivill, com violência doméstica ou abuso psicológico de cônjuges. Acho um absurdo homérico este tipo de equivalência, mas é daquelas coisas: se as pessoas não conseguem vislumbrar a diferença, também não sou eu que as vou convencer.

 

O que me interessa aqui é sublinhar um outro ponto, que eu também já referi várias vezes, mas que para mim tem uma enorme importância. Os pais actuais preocupam-se demasiado. Os pais actuais vivem excessivamente em função dos filhos. E o que o discurso da Maria supõe, independentemente de concordarmos ou não com os seus métodos, é um centramento da nossa vida nas necessidades dos nossos filhos. Nós vivemos para dar uma resposta às suas exigências.

 

É certo que a Maria faz uma observação pertinente num comentário anterior: 

 

Em relação aos meninos terem que comer tudo o que está no prato (só porque foi assim que eu aprendi e porque sou eu quem manda aqui, porque tenho imensa auto-confiança principalmente ao exercitá-la defronte a um menor de meio metro), não lhe parece que obrigá-los a comer significa aumentar exponencialmente o tempo que se orbita em volta dos pequenos?

 

É uma óptima observação, só que eu tenho dificuldade em compatibilizar esta atitude com a do "se ele chora dou colo" ou "se ele não quer dormir sozinho é porque tem medos ancestrais e há que consolá-lo".

 

Os filhos não são o nosso alfa e o nosso ómega. Eles não são (ou não devem ser) o centro do nosso mundo. E este relaxamento (que os pais têm tanta dificuldade em ter, começando por mim) que eu defendo não é laxismo - é uma procura de equilíbrio pessoal e familiar, que passe por nos manter felizes e não deixar que os filhos estabeleçam as regras do nosso agir.

 

Um sintoma desse centramento que eu critico é precisamente a forma tão séria como a Maria aborda estes assuntos, como se não tivesse a menor dúvida de como agir em relação aos seus filhos, como se estivesse na posse de todas as certezas, como se houvesse uma fórmula universal da boa educação infanto-juvenil, aplicável a todas as famílias e a todos os filhos.

 

Essa fórmula - é o meu dogmatismo - não existe, Maria. Eu tenho dúvidas diárias, acho mesmo que o que resulta para uns não resulta para outros, e suponho que seja por isso que neste blogue se fazem tantas piadas, se valoriza o sentido de humor e se gosta de discutir com as pessoas.

 

Partirmos da convicção das nossas próprias insuficiências é um bom caminho para evitar dizer coisas como "nem acredito que este assunto seja discutível!", ou achar sinceramente que a angústia de um bebé que acorda sozinho a meio da noite é comparável ao genocídio no Ruanda. Eu posso provar que não é? Não posso. Mas terrores nocturnos todos nós tivemos. E genocídios, felizmente, não acontecem todos os dias.

 

O excesso de relativismo é bastante perigoso. Mas o excesso de dogmatismo ainda é mais.

 

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publicado às 10:15


E agora é a vez de Eduard Estivill

por João Miguel Tavares, em 18.06.14

O jornal online Observador, depois de ter efectuado uma polémica entrevista ao pediatra catalão Carlos González, que muito deu que falar neste blogue, regressa agora com uma nova entrevista, desta feita à nemésis de González, o igualmente pediatra e igualmente catalão Eduard Estivill.

 

Que os senhores devem gostar muito um do outro fica bastante claro pela resposta de Estivill à seguinte pergunta:

 

Para Carlos González, todos os castigos são inúteis. Que opinião tem dele e das suas teorias – porque acha que é um sucesso de vendas?
Não conheço esse senhor, pelo que não posso comentar.

 

Não sei porquê, fiquei desconfiado de que não se frequentam.

 

Ainda assim, nesta batalha de gigantes da pediatria catalã, desconfio que não me seja lá muito difícil escolher o lado. Reparem como até no campeonato da foto-foleira-com-a-mão-na-bochecha (juro que não sei como é que alguém continua a tirar fotos deste género em 2014), González e Estivill têm posturas inteiramente diferentes.

 

 

Carlos González nunca perde o ar beatífico. Ele sorri, sim, mas é um sorriso de quem já atingiu um patamar superior de sapiênca pediátrica. A mão direita apenas faz o favor de amparar uma cabeça que já não é deste mundo. Ele paira acima de nós.

 

 

 

Eduardo Estivill segura a bochecha esquerda de uma forma completamente diferente. Está com o dedo apontado, provavelmente para mais depressa o virar na direcção de um puto irritante, se for preciso colocá-lo no seu lugar. Além disso, não há nada de beatífico no seu sorriso. É um sorriso de um gajo normal, que está ao nosso nível, e os dentinhos de coelho ajudam a acreditar no que ele diz. Se ele tivesse pinta de ariano, a gente tinha mais receio da sua paixão pelas regras e pela autoridade. Num tipo com dentes de coelho, é sempre muito mais fácil acreditar.

 

Como se vê por esta minha equilibradíssima e justíssima apreciação dos dois pediatras só com base em fotografias, eu acho que sou mais Estivill. E, na verdade, não é só por causa das fotos. É mesmo por causa de respostas como estas:

 

Acha que as crianças devem ser castigadas?
O castigo é um acto negativo que a criança pode entender com ansiedade. Ao invés, regras firmes em todos os hábitos dão segurança às crianças. O importante é que os pais comuniquem as regras e os limites como uma coisa natural e não como um castigo.

 

Quais as consequências da culpabilização dos pais no desenvolvimento dos filhos?
Os pais inseguros, com baixa autoestima e problemas pessoais têm uma maior tendência a proteger em demasia os filhos. Assim, passam-lhe as suas carências, o que os torna mais inseguros. O contrário acontece com os pais que são seguros de si mesmos.

 

Acha que tem um discurso centrado nos pais?
Todos os estudos científicos mostram-nos que, na questão dos hábitos de ensino, os responsáveis são os pais. As crianças não aprendem sozinhas, mas sim aquilo que lhes ensinamos. De pais seguros saem crianças seguras. De pais inseguros saem crianças sem bons hábitos. Quando uma criança come bem, dorme bem e está bem educada, o mérito é dos pais. O mesmo acontece no sentido contrário.

 

Mas leiam toda a entrevista, porque vale a pena.

 

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publicado às 09:51


Ir para além do razoável

por João Miguel Tavares, em 04.06.14

Vale sempre muito a pena ler os comentários do Carlos Duarte, desta vez em resposta aos argumentos da Teresa Power:

 

Cara Teresa,

Acho que depende muito do "conceito" [de amar um filho]. O que o João quereria dizer - e ele que confirme ou desminta - era que as crianças são, nos dias de hoje, alvo de muito mais "atenção formal" (obviamente, e pegando no comentário do LA-C, de classe média para cima - nas classes mais baixas as diferenças em relação ao passado serão menores ou nulas). Se quiser, e concordo plenamente com isso, trocou-se parte do "amor" como sentimento por um "amor" como obrigação (muitas vezes obrigação material).

Enquanto no passado, a falta de amor paternal (mais que o maternal) apenas era censurado socialmente quando se verificava situações de abandono (i.e. o pai "deixava" a família), sendo admitidas mesmo situações de negligência ou violência (o pater familias exclusivamente como ganha-pão e disciplinador), nos dias de hoje passou-se do 8 ao 80 e a censura social ocorre não só em situações de acção deliberada (i.e. o abandono, a violência), mas também de actuação passiva (não ir assisitir às actividades dos filhos). Mais, e parece-me que este é o ponto principal do João: passou-se de uma situação em que a Sociedade dava total liberdade (e quase total poder) aos pais sobre os filhos para uma em que a Sociedade se substitui à própria família, estabelecendo normas de conduta admíssiveis ou não que vão para além do razoável.

 

Entretanto, a Teresa Power concordou, e incluiu um exemplo concreto, bastante divertido, até porque eu próprio iria certamente comprar esse DVD:

 

Perfeito! Estamos a dizer o mesmo... O que é o amor? Recebi outro dia uma carta de uma empresa fotográfica através da pré-escola dos meus filhos, e que dizia assim: "É obrigação dos pais não só amar os filhos, mas também assegurar que acompanham a sua escola, fazendo e mantendo registos fotográficos de todos os momentos significativos... Sugerimos a compra de um DVD com as actividades escolares dos seus filhos ao módico custo de 22 euros..." Naturalmente que ofereci a carta aos meus filhos para eles usarem a página de trás para desenharem (somos muito poupadinhos aqui!) e só voltei a recordar esta carta agora, ao escrever este comentário.

 

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publicado às 10:02


"Vamos deixar de stressar com os nossos filhos"

por João Miguel Tavares, em 03.06.14

A Ana Rute Cavaco traduziu e colocou neste seu blogue um texto do pastor Kevin DeYoung, retirado do seu livro Crazy Busy. Vale imenso a pena lê-lo, pois ele aborda, de forma bastante clara, muito daquilo que eu tenho andado a discutir neste blogue. Deixo esta citação apenas como aperitivo (vão lá ler o resto que vale muito a pena):

 

Vivemos num mundo estranho. As crianças estão mais seguras do que em qualquer outra altura, mas a ansiedade parental é cada vez maior. As crianças têm hoje mais oportunidades e possibilidades de escolha, mas os pais vivem mais preocupados e aborrecidos. Despendemos uma quantidade inédita de energia, tempo e atenção nas nossas crianças. E ainda assim, assumimos que as falhas serão culpa nossa porque não fizemos, eventualmente, tudo o que pudemos. Vivemos num tempo em que a felicidade e o sucesso futuro das nossas crianças está presente em todas as nossas outras preocupações. Nenhum esforço é demasiado exigente, nenhuma despesa muito elevada e nenhum sacrifício desmesurado se for para as nossas crianças. É como uma pequena vida pesada na balança, tudo depende de nós.

Podemos justificar esta obsessão com as crianças como uma espécie de amor sacrificial e devoção. E poderá ser. Mas também lhe poderemos chamar Kindergarchy: um governo infantil. Em “Debaixo de um governo infantil”, Joseph Epstein diz: “Toda a agenda está feita em função das crianças: da escola delas, das audições, saraus, com o seu cuidado, saúde, alimentação – as crianças são quem dá o nome a este jogo.” Os pais tornam-se pouco mais do que empregados presentes para os seus filhos, como se elas fossem descendentes directas do rei sol. 

 

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publicado às 12:00

3. O meu último ponto é muito melhor justificado pelo longo texto que ontem foi publicado na revista de domingo do Público (o texto encontra-se online, aqui), e portanto quem gosta de argumentações mais elaboradas é ir lá ler. Mas o ponto central é este: eu entendo que no último par de décadas aconteceu uma revolução copernicana no que diz respeito à relação pais-filhos. Ou seja, entendo que os filhos deixaram de orbitar em torno dos pais e os pais passaram a orbitar em torno dos filhos. Isso muda tudo, incluindo aquilo que me parece dever ser o discurso mais adequado de um pediatra em relação aos pais.

 

Há 40 anos, o discurso de González seria altamente pertinente. Se eu vivesse num mundo onde as crianças apanhavam reguadas na escola, levavam sovas de cinto e nunca eram beijadas pelos pais, então o discurso do amor e do bésame mucho não só seria útil como indispensável. Em 1974, eu votaria González. Só que nós já não vivemos nesse mundo - e por isso o aconselhamento pediátrico, naquilo que é a relação pai/filho, tem necessariamente de evoluir.

 

Ora, quando eu leio uma entrevista onde a obsessão pelo filho e o amor ao filho e as necessidades do filho e o crescimento do filho são o único tema abordado, isso custa-me muito engolir. Não é só pela questão do mimo, embora eu ache, de facto, que a ter de eleger um problema das crianças de 2014 não será a falta de mimo mas sim o seu excesso. Mas não é isso que me incomoda mais: é, sobretudo, a falta de questionamento do equilíbrio familiar, que me parece muito afectado pela tal revolução copernicana; é a não valorização da forma como os pais estão a ser sugados pelas exigências das crianças, ao mesmo tempo que González nos aconselha a aumentar a potência do aspirador.

 

Para quem, como eu, acredita muito numa ideia de família; para quem, como eu, acredita que a família tradicional, com pai e mãe e filhos e avós, é o maior bem que podemos legar aos nossos filhos; para quem, como eu, acha isso infinitamente mais importante do que saber se um puto dorme ou não na cama dos pais; para quem sente que, à sua volta, essa equilíbrio está muito afectado; então Carlos González leva todo o seu tempo a mandar tiros ao lado.

 

São tiros que, pelo que se vê das reacções ao meu texto, acertam ainda no alvo de muita gente. E assim sendo, os gonzalistas que façam bom proveito dos seus conselhos. Mas da minha - provavelmente egoísta - perspectiva, o que vejo é pais de língua de fora e miúdos speedados. Dizer aos primeiros "vocês ainda deviam estar mais atentos e amar mais e amar infinitamente" é a mensagem errada, é colocar mais peso na parte do barco que já está a adornar.

 

Há muito pai egoísta, há muitas crianças que sofrem e que precisam de mais amor e de mais carinho. Mas essa não é a regra. Essa é a excepção. A regra - pelo menos a regra à minha volta - é muito pai perdido e esmagado pela responsabilidade de criar um filho. O combate que me interessa, portanto, é pela independência dos filhos em relação aos pais e dos pais em relação aos filhos. É como amar dando-lhes mais independência e não "bebeficando-os".

 

Talvez valha a pena concluir isto com uma citação de C.S. Lewis que coloquei no tal texto do Público:

 

Nós alimentamos as crianças para que em breve elas sejam capazes de se alimentar sozinhas; nós ensinamo-las para que em breve não necessitem dos nossos ensinamentos. Uma grande exigência é colocada sobre o Amor-Dádiva [“Gift-Love”, no original, segundo Lewis, o tipo de amor característico da relação pai-filho]. Ele tem de trabalhar no sentido da sua própria abdicação.

 

Gosto imenso deste conceito de "Amor-Dádiva". O amor de um pai por um filho é um amor gratuito - e para ser verdadeiramente gratuito, é necessário todos os dias combater os excessos de dependência dos dois lados. É amar sem se ser sugado - nem nós por eles, nem eles por nós.

 

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publicado às 12:26

Depois das questões da forma, três esclarecimentos sobre o conteúdo da entrevista de Carlos González, onde procuro esclarecer os meus pontos de discordância com ele e com numerosos leitores que espalharam o seu desagrado pelas caixas de comentário, e que não me parece que estejam dependentes da leitura das obras completas do leitor espanhol:

 

1. Em primeiro lugar, a questão dos castigos, e o facto de ele dizer - era o próprio título da entrevista - que "todos os castigos são inúteis". Houve quem argumentasse que aquilo que González está a fazer não é uma defesa da permissividade total, mas sim a expor uma diferença entre "castigo" e aquilo a que se pode chamar "reforço positivo". Exemplo: se a criança atirar o prato de sopa para o chão, castigo seria bater-lhe na mão ou pô-la sentada a um canto, reforço positivo seria obrigá-la a limpar o chão connosco; se uma criança tem más notas, castigo seria impedi-la de ver televisão durante uma semana, reforço positivo seria impedi-la de ver televisão para poder estudar.

 

Eu admito que a distinção entre "castigo" e "reforço positivo" seja útil, mas assim sendo, o título "todos os castigos são inúteis" é apenas puro sensacionalismo - porque, como é óbvio, na linguagem comum tanto é castigo bater na mão como mandar limpar. E assim, corremos o risco de estarmos todos a indignar-nos quando estamos a falar do mesmo. Porque, como é óbvio, qualquer pai ou mãe sabe que mandar limpar, mandar arrumar o quarto ou mandar estudar são modo eficazes de os pôr na ordem. Felizmente, para os Gonzalistas, isto é permitido - só que não é castigo.

 

Há, contudo, um detalhe que não me explicaram, mas que eu gostaria muito de entender, sem ironias: e se eu mandar a criança limpar a sopa ou ir estudar para o quarto e ela disser: "não vou!"? E se ela disser "não vou!" dez vezes? Desiste-se ou arrasta-se pelos cabelos? Que reforço positivo podemos utilizar nesses casos? Se me puderem informar, ficaria muito grato.  

 

Para conluir este primeiro ponto, talvez convenha então iniciar uma futura discussão com uma clarificação vocabular, porque existe aqui muita subtileza linguística. Não é só a questão do castigo versus reforço positivo - basta acompanhar as discussões, na caixa de comentários deste post, entre o Anacleto e Carlos Duarte acerca do significado da palavra "chantagem emocional", com o Anacleto a fazer questão de distinguir entre "chantagem", "extorsão" e "birra". Conhecendo o Anacleto tão bem a língua inglesa, arrisco-me a dizer que é aquilo a que os ingleses chamam "splitting hairs" - ninguém está verdadeiramente a discordar, apenas se está a atribuir nomes diferentes às mesmas coisas. Acontece muito.

 

2. Este ponto é rápido: ninguém poderá desmentir que Carlos González utiliza comparações entre crianças e adultos para fundamentar as suas posições. Fá-lo várias vezes ao longo da entrevista. Faz-me uma certa confusão que os subtilistas da linguagem se atrevam depois a esta extraordinária simplificação argumentativa. Lamento, mas eu não consigo levar a sério pediatras, ou outro homo sapiens qualquer, que para defender certas teses educativas se põe a comparar o incomparável, sejam adultos, crianças ou animais.

 

Nós temos muito de animal, claro, e as crianças também têm muitos pontos de contacto com os adultos, mas a educação é o modo como nós ajudamos a que as crianças se transformem em adultos decentes, portanto não faz qualquer sentido utilizar comparações envolvendo relações entre adultos para justificar determinados processos educativos de quem ainda não é adulto. É uma certa derivação da máxima os fins justificam os meios, quando aquilo que nós procuramos são os meios que nos permitam chegar aos fins.

 

Não há outra forma de colocar isto: utilizar o argumento "você não bate no seu colega de trabalho quando está descontente com ele - porque é que faz isso a uma criança?" não tem pés nem cabeça. A Brigada Anti-Palmada tem muitíssimos melhores argumentos do seu lado, da desprotecção dos mais fracos à replicação da violência. Use-os. Este é simplesmente parvo.

 

Ponto 3 - e último - já a seguir, que eu ando a ficar demasiado verborreico.

 

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publicado às 11:05


Comentários super-fixes #1

por João Miguel Tavares, em 30.05.14

Bom, isto anda animadíssimo por aqui. Antes de eu entrar em modo "vamos então falar muito a sério que há gente a ficar irritada", por causa dos posts anteriores (é ir aqui e seguir os links), queria destacar alguns comentários, conforme prometido, porque há coisas bastante boas por ali e pode haver quem esteja receoso de frequentar as caixas de comentários, não leve com alguma das garrafas que andam a voar de um lado para o outro.

 

Em primeiro lugar, queria destacar este comentário da Mãe Sabichona, que faz jus ao seu nome com uma análise deveras pertinente:

 

Bateu num ponto com o qual concordo muito. Essa ideia de exigência interna extremada, de que apenas o filho tem necessidades e vontades. Os filhos também precisam de crescer sabendo que as outras pessoas com quem (con)vivem têm desejos, nomeadamente os pais. Embora eles sejam menores e caiba-nos a nós a maior responsabilidade de os entender e não vice-versa, faz parte da vida não serem sempre totalmente compreendidos. Penso que temos de nos adaptar aos filhos tal como eles têm de se adaptar a nós e o González foca uma relação unidireccional em que o foco é sempre o dos filhos.

 

Agora, se tem uma visão extremada e idílica, isso não retira um fundo de verdade. Para mim, não é demais reflectir sobre momentos em que as nossas reacções são fruto das nossas próprias frustrações. Os pais descarregam mesmo muito nos filhos e esse é um dos motivos para se sentirem tão culpados. Porque sabem que agiram mal. Sabem que chegaram a casa e lhes deram uma palmada porque vinham massacrados com o trânsito e com o patrão. Claro que têm o direito de agir mal, não são perfeitos, e os filhos hão-de também crescer a perceber isso, ou seja, que os pais também são injustos. Mas daí a dizer que o filho levou a palmada porque realmente mereceu vai uma grande distância. É só isto que a meu ver falha no seu discurso: não conceber que, em parte, ele mexe nalgumas feridas da parentalidade. Ele foca-se demasiado nos filhos e o JMT nos pais :)

 

É uma bela lição da Mãe Sabichona, incluindo na parte em que me critica. Ela tem toda a razão: eu centro-me mesmo muito nos pais. Um princípio de justificação é este: acho que nos dias de hoje é preciso contrabalançar o barco. Tentaria explicar porquê num próximo post.

 

Queria também chamar a atenção para este comentário da Polliejean, que vai numa direcção semelhante:

 

Às vezes dá-me a sensação que o JMT se foca demasiado no papel do pai mártir que cria os filhos ali no limite da paciência porque já lhe estão a estragar o dia e berram muito ao jantar. No entanto, acredito que não é o tipo de pai que passa o tempo a bufar de cada vez que os filhos se aproximam de si. É só um certo show-off para o blogue, que tem a sua piada. Claro que sempre tem a Teresa para contrabalançar alguma falta de paciência ou momentos cutchi-cutchi com os seus filhos... :)

Mas agora ao que interessa: estas teorias do Sr. González, por muito estapafúrdias que pareçam, podem servir para encontrarmos ali um meio termo entre o estaladão e a permissividade total. Também é importante sabermos ver com olhos críticos as teorias "irrefutáveis" com que crescemos e moldá-las à nossa situação específica. Não acredito na permissividade total, mas, por exemplo, também cada vez acredito menos que o castigo seja a solução...

 

É uma posição perfeitamente aceitável - e uma excelente análise da minha pessoa. Deixo apenas esta questão: o que é que precisamos mais hoje em dia? De um pediatra que nos ensine a mimar mais os nossos filhos ou de um pediatra que nos ensine a ser mais exigentes com eles?

 

E por falar nisso, deixem-me recuperar um dos muitos comentários do Dr. Mário Cordeiro, que em boa parte por minha culpa anda para aqui a sujeitar-se a levar pancada com fartura. Ele tem cabedal para isso e não precisa de advogado de defesa, mas não ficaria de bem com a minha consciência se não fizesse duas breves notas pessoais. Em primeiro lugar, quem sugere que o Dr. Mário não respeita as opiniões dos pais só pode estar a ir às consultas de um qualquer terrível sósia ou do seu malévolo irmão gémeo - confirmem isso. Esse tipo impositivo não é, de certeza, o mesmo pediatra que atura a minha quádrupla descendência há dez anos.

 

Em segundo lugar, e exactamente porque o Dr. Mário respeita as opiniões dos outros, ele de certeza que não concorda com imensa coisa que eu escrevo neste blogue. Incluindo a história da palmada correctiva. Portanto, não confundam as coisas, por favor. Nós somos duas pessoas que pensamos pelas respectivas cabeças, e apreciamos muito essa actividade, ok?

 

Dito isto, cá vai o prometido comentário, que, ao contrário do que alguns querem fazer crer, me parece uma posição perfeitamente equilibrada em relação à educação das crianças:

 

Porquê esta coisa de gerir afectos, de dar ordens sobre ensino/ aprendizagem, de regulamentar a relação pais/ filhos? (e instilar culpa, doses imensas de culpa, nos pais?). E porquê colocar sempre amor e educação como coisas antagónicas? As crianças NÃO são adultos em miniatura e estão num processo de aquisição de autonomia, de liberdade, responsabilidade, direitos e deveres. Sem modelos, faróis, guias, não irão a parte alguma. Um rio com margens muito estreitas evolui em turbulência, mas se as margens são demasiado largas e pequenas, espraia-se na lezíria e não chega à foz.

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publicado às 10:25


Agarrem-me senão eu mordo-o! #4

por João Miguel Tavares, em 29.05.14

Vamos então ver se é hoje que consigo terminar a análise hermenêutica da entrevista do pediatra espanhol Carlos González ao Observador (posts anteriores aqui, aqui e aqui). Há alguns comentários dos leitores que merecem, também eles, comentário, mas deixo isso para mais tarde. Voltemos ao texto original - as citações da entrevista do senhor estão a itálico bold, os meus comentários a redondo normal. 

 

O autocontrolo ensina-se com o exemplo. Eu não bato nos meus filhos porque tenho disciplina, autocontrolo. Não digo ao meu filho para se calar porque não me deixa ouvir televisão, ao invés desligo o televisor para ouvi-lo melhor. Isso é a disciplina.

 

Ora aqui está um bom exemplo daquilo a que eu chamo a paternidade cutchi-cutchi, e que consiste em fingir que estamos constantemente num filme de Hollywood, onde há sempre lugar para os carros estacionarem e tempo para uma conversa bonita e profunda.

 

Então não é verdade que entre ouvir a televisão ou ouvir um filho, devemos desligar a televisão e escutar o filho? É, sim senhor. E posso desde já garantir que se, daqui a uns anos, a minha filha me disser à hora da refeição "papá, estou grávida", a minha reacção não vai ser "já me contas, querida, agora deixa-me só ouvir o que o Marcelo está a dizer".

 

Essa parte está prometida. Mas... e se, por mero acaso, o miúdo só estiver a berrar porque quer que lhe cortemos o bife? Ou que lhe passemos a água? Ou que não gosta de cenouras, argumentando que a literatura do doutor Carlos González é clara em dizer que ele não deve ser obrigado a comer o que não gosta? E se o pai, por mero acaso, for jornalista? E precisar mesmo de ouvir o Marcelo naquele momento porque a seguir tem de ir escrever um texto qualquer? Como é que se faz?

 

O que me irrita nesta entrevista de Carlos González é transformar as decisões óbvias que seriam tomadas num mundo perfeito em regra absoluta. É claro que devemos mimar os nossos filhos. É claro que é preferível não lhes bater se tivermos alternativas. É claro que é melhor desligar a TV à hora das refeições. Quem é que não sabe isso, caraças? Isso é o óbvio ululante! Não é preciso estudar muito para chegar a estas brilhantes conclusões.

 

Só que o problema da paternidade actual não é esse - é exactamente o contrário desse. É como aprender a gerir os momentos de desaspero, como sair de becos aparentemente sem saída, como manter a felicidade doméstica apesar de todos os escolhos, como manter o equilíbrio apesar das nossas falhas, como fazer para que eles não consumam toda a nossa vida, como conseguir que os nossos filhos sejam felizes ao máximo sem que, para isso, nós tenhamos de ser felizes ao mínimo. E isso não se consegue com a tal pediatria hippie, toda ela flower power.

 

Isto é a filosofia New Age aplicada aos conselhos pediátricos - pode consolar as almas zen, que andam pelo mundo levitando meio metro acima do chão, mas eu sou dos que afocinha mais do que levita. O que eu quero é que me ajudem a gerir as minhas faltas de paciência, que um pediatra enfente os problemas práticos do dia-a-dia, e não que parta de situações em que tudo está no seu lugar, da paciência dos pais à racionalidade dos filhos. Não acontece. Ou, se acontece, então é muito fácil de gerir, obrigadinho. Não preciso de Bésame Muchos.

 

Muitas vezes castigamos ou repreendemos as crianças por coisas que nunca puniríamos num adulto. Se vejo a minha esposa ou um amigo a chorar, pergunto o que se passa e tento consolá-los. Para os meus filhos é igual. Se estou a comer com um amigo e vejo que este deixa metade da comida no prato, não o obrigo a acabar tudo. Com os meus filhos também não faço isso. Jamais bateria na minha mulher, no meu pai ou em companheiros de trabalho. Muito menos nos meus filhos.

 

Bom, aqui, a conselho do meu cardiologista, limito-me a remeter para o post anterior, e para aquela parte em que grito AS CRIANÇAS NÃO SÃO ADULTOS!!! É possível arranjar um argumento menos parvo para defender que não se bata nem castigue? É que há argumentos muito melhores, que até eu posso fornecer. Isto é, mais um vez, uma visão extremada do mito do bom selvagem, que Jean-Jacques Rousseau colocou nos píncaros. Mas a verdade é que Rousseau teve cinco filhos e entregou-os todos à nascença para adopção, para que não lhe atrapalhassem a escrita e o seu profundo dever de iluminar a humanidade. Cheio de boas intenções está o Inferno cheio. Por que não admitir antes que não vivemos no Paraíso?

 

Os pais (bem, as mães) tendem a sentir-se culpados por tudo.

 

Sim, é verdade, e boa parte dessa culpa deve-se à pediatria cutchi-cutchi, que coloca as exigências dos pais em patamares tão difíceis de atingir que eles se sentem sempre aquém de tudo, e uns desgraçados de cada vez que perdem a paciência e gritam com um filho. Mas, já agora, devo informar o doutor Carlos González de que não são só as mães. Os pais também se sentem bastante culpados, e não vislumbrar isso é perceber muito pouco daquilo que neste momento se passa à nossa volta, desde o peso em cima dos ombros dos novos pais ao mega-sucesso das piadas do Louis C.K..

 

Estou convencido que as crianças pequenas, até aos três anos, mais ou menos, estão melhor com os seus pais do que em qualquer outro lugar.

 

Eu também. Vamos propor licenças de maternidade e paternidade simultâneas, com três anos de duração cada uma? Parece-me excelente. E altamente praticável. Mas, já agora, com retroactivos, se faz favor, que é para ver se eu me consigo reformar 12 anos antes da data prevista.

 

O instinto permitiu aos nossos antepassados criar os seus filhos durante milhões de anos, antes de existir qualquer civilização ou cultura. O instinto não é perfeito, mas, geralmente, é muito bom.

 

É isso mesmo. É muito bom. E o instinto diz-me que toda esta conversa é uma enormíssima treta, que pode até servir a quem só está a dois passos do nirvana e tem heranças de família que lhe permitam nada fazer na vida além de contemplar os filhos, mas que lixa a existência de todos aqueles que têm de lutar diariamente por ganhar um ordenado enquanto criam as crianças. Gente, sobretudo, que não vive dentro de um filme romântico, daqueles onde se acorda milagrosamente com um penteado cheio de estilo, as mamãs e os papás são sempre super-apetecíveis, e todos putos são louros, têm olhos azuis e dizem coisas extremamente inteligentes. São situações bonitas, claro. Até invejáveis. Mas só existem durante hora e meia, e com a luz apagada.

 

Dr. Carlos González e uma das suas belas máximas, só possíveis a quem nunca na vida foi emocionalmente chantageado por um filho. É um homem, e um pai, cheio de sorte.

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publicado às 09:49



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