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A anti-raposa

por João Miguel Tavares, em 10.03.14

Aprendemos com a raposa do Principezinho que, se soubermos as horas certas a que chegam as pessoas de quem gostamos, podemos começar a ser felizes ainda antes de elas chegarem. A raposa da Teresa teria muito que penar, na medida em que a pontualidade é a única qualidade que lhe falta. Mas, em compensação, ficámos a saber, pelo último post da Teresa, que a sua raposa aprecia ser infeliz muito antes de ter chegado, numa espécie de versão nietzschiana do livro de Saint-Exupéry - um Anti-Principezinho e uma anti-raposa, por assim dizer, que daria qualquer coisa como isto:

 

Se tu me telefonares às três da tarde a dizer que a Rita bateu com a penca no chão, eu posso começar a ser infeliz mais cedo. Como só vou chegar a casa às três da manhã, tenho 12 horas para ser infeliz. Quanto mais tempo passar até eu chegar, mais infeliz posso ser. Estarei cada vez mais inquieta e agitada, e descobrirei o preço da infelicidade! É preciso ritos.

 

Não sei porque é que o Sain-Exupéry preferiu a outra versão, quando esta faz tão mais sentido...

 

 

Digam-me: é só uma coisa da Teresa, ou todas as mulheres gostam de saber tudo a toda a hora? A Rita caiu e eu vi-a cair - foi mesmo directamente de nariz+lábio ao chão, numa queda aí de meio metro de altura. Não é que se tenha atirado do Empire State Building. A Rita ainda tentou proteger-se com as mãos, que ela já começa a desenvolver alguma esperteza, mas não chegou. Daí o lábio um bocadinho cortado pelas suas favolas e o nariz a deitar sangue.

 

Esta fase dos miúdos de ano e meio/ dois anos é sempre um pouco complicada, porque nunca sabemos bem o que eles conseguem fazer sozinhos. Eu tenho a mania de lhes dar a maior independência possível, e às vezes engano-me nas contas, como foi manifestamente o caso. Mas não houve cortes profundos, nem narizes tortos, até porque os miúdos nesta altura são de borracha e têm super-plaquetas. O sangue estancou em 10 segundos, ela não bateu com a cabeça. Foi uma queda maior do que é hábito, nada mais.

 

Sabendo eu o que fazer, para quê estar a chatear a Teresa, que estava de banco e só saía de madrugada? A opção por não lhe pôr gelo foi consciente, apesar de eu saber que a Teresa é uma fanática do gelo - ela precisava do conforto da chucha naquele momento e pôr-lhe gelo na boca iria dar origem a berraria de meia-noite. O corte não era grande, achei melhor assim, embora a sotôra discorde, provavelmente com razão. Mas para quê telefonar imediatamente, com a miúda aos berros? Para a Teresa ficar com o coração aos pulos?

 

Eh pá, eu sou completamente pró-verdade, pró-sinceridade e tudo o mais. Mas também sou pela poupança de desnecessárias preocupações quando a situação não justifica alarme. Que sentido faria uma médica que recebe pessoas com enfartes ficar 12 horas preocupada com um lábio inchado e um nariz esmurrado? Chamem-me insensível. Mas, como bem sabe que já viu esse grande filme chamado The Matrix, às vezes (só às vezes), a ignorância é uma bênção:

 

 

Relaxem, minhas senhoras. A intenção foi boa e em momento algum eu quis esconder o que quer que fosse, ok? Matem lá essa anti-raposa que vive dentro de vós.

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publicado às 11:19


11 comentários

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De Anónimo a 11.03.2014 às 10:06

Sou mãe de dois e naturalmente não estou com eles sempre.
Não espero, nem quero, nem preciso que me liguem (da escola, a vó, o pai) se eles fizeram um arranhão, se cairam e deitaram sangue, mas não era nada de maior. Prefiro saber e VER quando chegar a casa.
Porque se me ligam a contar, mas dizem "já passou e não foi nada de especial" como vou descansar o resto do dia sem saber, sem VER se é realmente asim?
Claro que se a coisa foi grave quero que me liguem, sim, porque aí eu deixo tudo e vou a voar!
Por acaso das vezes que os meus filhos se magoaram mais a sério estava sempre eu com eles, ou eu e o marido.
A ultima vez, o meu filho cortou-se e tive de o levar ao hospital (isto na minha hora do almoço - a minha mãe so dizia: ai ainda bem que foi agora, que tu estavas em casa!).
Peguei nele, levei-o ao hospital e quando estavamos a caminho de casa ligamos ao pai a contar o sucedido.
Pergunta dele? E porque não disseste antes? Para quê? Para me ligar de 5 em 5 segundos a perguntar se o medico já tinha visto, se ia levar pontos, quantos pontos, se estava bem, se estava a chorar??
Ligamos depois, contamos o que aconteceu e que já estava resolvido.
Mas já aconteceu da pequena cair de boca no chão, mas o sangue não parar, levei ao hospital e quando o pai chegou a casa, fui ter com ele à porta - antes dele ir dar-lhe o beijo de boa noite e assustar-se com a dimensão dos lábios dela.
Para mim bastava-me, por isso é assim que faço e espero que façam comigo. Que estar longe a fazer filmes é muito pior!
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De Isa a 10.03.2014 às 21:36

Como mãe que tem também de passar noites e dias fora de casa e normalmente a um oceano inteiro de distância por causa do emprego, digo-lhe que prefiro saber logo que possível. Não adianta nada, não. Aflige e muito. Mas isso quem decide e quem tem de lidar sou eu. Com o devido respeito, não cabe às testemunhas do acidente decidir quando é que a mãe, ou o pai, já agora, vai ter acesso à informação. Falo por mim, mas se me fizessem algo desse género passaria a andar de coração nas mãos, sempre. Já agora, a questão também já foi debatida nesta casa e a opinião do pai foi muito semelhante à sua.
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De Maria C. a 10.03.2014 às 16:41

Acho que não é só a Teresa - as mães, em geral, gostam de estar "em cima do acontecimento", mesmo que não adiante nada :)
Estas coisas acontecem a todos - mesmo com quem já tem uma vasta experiência de 3 filhos anteriores! Basta um segundo de distração e é suficiente para as coisas acontecerem... (só não acontece a quem não tem rebentos). Felizmente o velho aforismo popular - ao menino e ao borracho, mete-lhes Deus a mão por baixo - é, na maioria da vezes, verdadeiro. E o que interessa é que a Ritinha está bem!
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De Simplesmente Ana a 10.03.2014 às 16:14

Vou ter que ficar do lado do JMT. Das poucas vezes que a minha filha se aleijou na casa das avós, só recebi dois telefonemas: um quando ela foi mordida de raspão pelo cão com mau feitio da família e outra quando partiu a cabeça. Dos males menores ficava a saber quando a ia buscar e achei bem. Bom, mas se não me tivessem ligados das outras duas, ia ficar possessa!

Só não percebi a questão da Carolina ter que servir de intermediária ;)
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De Bárbara a 10.03.2014 às 16:03

a minha tese é que: sim, gostamos de saber de tudo (na hora, ou quase); mas gostamos que, quando nos contam, já esteja tudo "resolvido" (e do modo que nós próprias resolveríamos) pelos excelentíssimos - prevenindo o efeito anti-raposa ou outro efeito ainda pior que é: "mas se eu estou aqui a trabalhar e tu estás aí com eles, o que é que queres que eu faça?." :)
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De LA-C a 10.03.2014 às 15:15

Não percebi como é que essa desculpas todas explicam que tivesses tido de mandar a tua filha mais velha dar a informação à mãe.
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De Patricia a 10.03.2014 às 13:53

O João tem razão! Os miudos precisam de cair, ter nódoas negras, aprender com os seus próprios erros. Acredito que depois desta queda a Rita vá pensar 2 vezes antes de voltar a subir ao banco ou se o fizer vai ter muito mais cuidado :)
Sou mãe de 2 e já me chegaram a dizer que devo de insensivel porque não fico alarmada quando me ligam da escola/atl a dizer que um deles se magoou, ou então quando a mais velha me liga a dizer que se magoou e lhe dou a resposta do costume "Quando eu chegar a casa vejo".
Claro que se me disserem que um deles partiu qualquer coisa o caso muda de figura, mas sinceramente, quando eramos pequenos os nossos pais não tinham telemóvel e nós caiamos e arranhavamo-nos todos e eles só ao fim do dia é que sabiam e nenhum mal veio daí...
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De Joana B a 10.03.2014 às 13:44

Como mãe de uma criança de 2 anos que trabalha a 70 km do local onde vive não posso deixar de concordar com o João... Não há nada mais desagradável do que receber um telefonema a dizer que aconteceu algo de carácter de não emergência, que a(s) pessoa(s) em quem confiamos a nossa criança podem perfeitamente resolver, só pelo simples facto de comunicar o sucedido!
Estou a 70 km, a trabalhar, qual o benefício que tenho em saber que a criança caiu, abriu o lábio, fez uma nódoa negra...? Angústia por não estar ao lado dela? Já a tenho por ter de passar 12h ou mais afastada a trabalhar e ver os outros a acompanhar o crescimento, as conquistas, a brincar, e todas as outras coisas que era suposto acompanhar como mãe.
Este tipo de situações, a meu ver, prefiro-as saber quando chego a casa, e a vejo sossegada a dormir ou a brincar com o Pai. Aí constato que foi um "acidente" normal de quem está a conquistar o mundo, em que o mimo de quem lá estava (com a ajuda da chupeta!!!) ajuda mais do que o telefonema à mãe a relatar o sucedido.
Não temos de saber tudo na hora, temos de os deixar conquistar o mundo, temos de os deixar cair, fazer nódoas negras, arranhões, temos de os deixar crescer... e temos de distinguir o que é emergência e o que é "normal"! E aprender a confiar no discernimento das pessoas a quem confiamos a nossa criança, seja o pai, os avós, os tios, a educadora, a ama... E já agora mamãs, telefonam ao papá quando a criança cai, faz uma nódoa negra ou abre o lábio?
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De Patty a 10.03.2014 às 22:27

Muito pertinente a questão que levanta: telefonamos nós aos pais a informar quando a cria se magoa? Normalmente não... ;)
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De Teresa Power a 10.03.2014 às 13:23

olá João! Dos meus seis filhos, até agora só a Sara, de ano e meio, ainda não "partiu a cara"! O mais recente foi o António, de quatro anos, a sair do monovolume de regresso da escola: tropeçou nas mochilas dos irmãos e caiu de cara no chão... Sangue por todo o lado, a Clarinha de imediato: "Mãe, calma, já passa..." e eu, como costume, aos gritos! Depois, quando percebi que era do lábio, acalmei: a minha "vasta" experiência diz-me que não o devia levar ao hospital, pois quando o corte é no lábio, ninguém lhe faz nada! Esteve dois dias a sopas frias, e uma semana de cara ao lado... e pronto! O mais velho, esse ficou mesmo com o nariz torto depois de um embate frontal parecido, aos dez anos... Enfim! Confesso que ao António nem gelo pus, pois sei que o importante era parar o choro e sei que o inchaço e a dor iriam acalmar por si...
Obrigada pelo destaque dado ao meu blog! Um blog tão pequenino parece de repente tão importante... E um abraço para todos! Teresa
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De Paula Almeida a 10.03.2014 às 12:27

Na explicação principesca ficou qualquer coisa pelo caminho. Afinal, foi a Carolina e não o João a dar as más notícias. Hummm! Concordo com a Teresa. :) Era medo. Isso de não querer preocupar são desculpas esfarrapadas de homens (deve ser uma coisa genética). E, sim, as mulheres (as mães e as outras também!) gostam de saber tudo o que se passa a toda hora.

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