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A Torre Eiffel e os agriões

por João Miguel Tavares, em 10.03.14

A propósito deste meu post, sobre como sair de casa é muitas vezes apenas uma óptima forma de estarmos mais próximos uns dos outros, a Teresa Power deixou o seguinte comentário:

 

Não é, realmente, preciso ir à Disneylândia - e nos tempos que vivemos, quantos portugueses se podem dar ao luxo de viajar para fora do país? Umas mini-férias de carnaval com seis crianças meio engripadas em casa, a chover lá fora, muitas histórias para contar, muitas batalhas de índios e cowboys para gerir, muitos desenhos para pintar, muitos abraços para dar, misturados com benurons e brufens... Que maravilha! 


A noção de cultura também é relativa... Subir à Torre Eiffel não é um acto cultural mais importante do que aprender a distinguir espinafres de agriões - e eu só aprendi esta diferença ao decidir vir viver para o campo, depois de uma vida inteira na cidade, e plantar uma horta no meu quintal! A cultura, afinal, pode estar também no nosso jardim...

 

Eu conheço a Teresa Castel-Branco Power há tantos anos como a Teresa (ambas cresceram em Castelo Branco), até porque nos encontrámos precisamente no mesmo sítio: num retiro de três dias de um movimento católico chamado Convívios Fraternos, tinha eu acabado de fazer 17 anos. As nossas vidas seguiram depois rumos diferentes, mas fomo-nos encontrando aqui e ali, e a Teresa tem hoje uma família invejável com o Niall (daí o apelido Power - ele é irlandês), a crescer ali para os lados de Aveiro: são seis crianças impecáveis dos quinze anos ao um ano de idade.

 

Sempre conheci a Teresa Castel-Branco (ainda antes de ser Power) como alguém que vive a sua fé muito profundamente, e as suas convicções religiosas, ao contrário das minhas, nunca vacilaram, mesmo nas alturas mais difíceis (e houve várias, e muito difíceis). Ela tem um blogue onde fala da vivência católica da sua família, chamado precisamente Uma Família Católica. Vale a pena passar por lá.

 

Eu ando há imensos meses para escrever aqui sobre a questão da fé na nossa família, pelo menos desde os tempos em que algumas leitoras se meteram comigo sobre a frequência da missa nos comentários a este post. Mas, por uma razão ou por outra, incluindo o facto de o assunto ser bastante complexo para mim, fui sempre adiando. E hoje vou adiar mais uma vez - mas, pelo menos, fica já publicamente prometido vir a postar sobre fé e família um dia destes.

 

Este enquadramento serve para que se compreenda melhor o comentário da Teresa Power e a sua defesa das coisas simples da vida, pois é nelas que encontramos com maior facilidade as graças de Deus. De facto, nessa perspectiva, subir à Torre Eiffel não é mais importante do que saber distinguir espinafres de agriões. Até porque o mais importante, no entender da Teresa, está sempre ao nosso lado e nunca nos abandona.

 

Infelizmente, a minha fé nunca foi tão grande quanto a dela e os anos não me têm tornado mais crente. Nesse sentido, não me considerando eu detentor das chaves de uma qualquer revelação ou de um caminho único para propor aos meus filhos, a experiência da viagem é, para mim, fundamental - porque é, por excelência, a experiência do Outro. Daquele que é diferente de mim, daquele que não fala a mesma língua, que não pensa como eu, que tem outros hábitos e uma cultura distinta, e que por isso me pode enriquecer na sua imensa diversidade.

 

Possivelmente por eu ser uma pessoa muito pouco contemplativa, porque para mim rezar sempre foi embater no silêncio, e porque a minha fé tem a espessura de um fio de cabelo, eu fraquejo sempre quando se trata de propor caminhos muito claros e muito certos para os meus filhos, daqueles que vão bastante além da chamada regra de ouro (aqui em português, aqui em inglês), praticamente transversal a todas as religiões.

 

O meu pensamento é um "pensamento débil", tal como ele foi definido por Gianni Vattimo, numa tentativa de encontrar um meio caminho entre as verdades absolutas de metafísica e a futilidade (e impraticabilidade) do puro relativismo. As primeiras tendem historicamente para a violência, o segundo não serve de nada quando se trata de definir um agir (e muito menos um educar).

 

Daí que a minha tendência seja sempre para privilegiar a Torre Eiffel em vez dos agriões, a diversidade cultural em vez da natureza pura, o contacto com as verdades dos outros em vez do cultivo da minha própria e singular Verdade - até porque não a tenho com suficiente convicção.

 

Eu acredito profundamente no conceito de família como uma força estruturante da humanidade. Mas tenho muito poucas soluções para oferecer aos outros. O máximo que posso dizer é: "reparem, eu sou assim"; "olhem, nós fazemos assim". E, de seguida: "digam-me também como vocês fazem". Porque eu quero muito aprender com os outros - bem vistas as coisas, acho que não tenho feito outra coisa neste blogue.

 

É por isso que, embora saiba que a minha casa é aquilo que de mais precioso tenho, acredito que a boa educação dos meus filhos passa por os empurrar frequentemente para fora dela. Não tendo eu um caminho único para lhes propor, gosto que contactem com a diversidade dos caminhos à sua disposição. Eu tenho imensa inveja de quem consegue realizar-se com muito pouco, de quem consegue ver Deus no grão de trigo (ou no espinafre, ou no agrião), como a Teresa consegue.

 

Mas os míopes da fé, como eu, têm de se aproximar de tudo, têm de pôr a mão em tudo, como São Tomé, e para isso é imprescindível ir, ver, estar, mexer e duvidar. Disse que não ia falar de fé, e reparo agora que não falei eu de outra coisa.

 

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publicado às 09:54


5 comentários

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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 15:03

João Miguel, a fé ou se tem, ou não se tem! Não se tem mais ou menos fé do que outrém, e não se é obviamente "mais crente" (com o passar dos anos) ou "menos crente", ou se acredita num deus (ou até num deus e nos "lesser gods", termo fabuloso...) ou não se acredita. Quem se arreiga o "direito" de dizer que "é mais católico" do que outrém, comete um erro de avaliação enorme, pois o que quer dizer é que segue mais à risca os preceitos de determinada religião, e é desta confusão que nascem quase todas as discussões sobre esta matéria.
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De Kalu a 15.03.2014 às 23:37

Caros João e Teresa,
Também eu conheci o meu marido há 15 anos num Convívio Fraterno! Hoje sou mãe de 3 diabretes, um casal de gémeos com 3 anos e uma pequenina de 2, e seguidora da vossa família, onde tanto consolo vou buscar para as tropelias e arrelias do nosso dia a dia! :)
O João, não querendo falar de fé, fez-me recordar aquele papel de cartolina laranja que trouxe comigo do meu convívio! Realmente o que é a Fé senão a experiência do encontro, comigo e com o Outro, através dos outros!
Ainda que o assunto extravase a questão Família, para mim a questão Fé percorre as bases em que assentamos a nossa... É certo que em muitos assuntos as coisas não são fáceis e que a minha Fé também é muitas vezes como a de Tome! Tocamos logo num ponto fraturante já que os gémeos foram concebidos por PMA... Mas o centro, a forma como tentamos viver e educar os nossos filhos, vai beber em muito ao fato de termos Fe!
Fico por isso a espera de ouvir mais, de si e da Teresa, sobre o assunto! Tanto mais, que quando encontro convivas não consigo deixar de me sentir logo um bocadinho ligada a eles!
Felicidades para a vossa família! :)
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De Patty a 10.03.2014 às 22:19

Fui espreitar o blog da Teresa, e fiquei rendida... Fascinada por uma vivência de fé tão profunda, tão honesta!
E basta reparar nos sorrisos felizes para percebermos o que realmente faz diferença na vida. Que privilégio, ter a coragem, o discernimento de escolher viver assim...
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De rute moreira a 10.03.2014 às 11:39

"Míopes da Fé"
Acho extraordinário! Metafora à inglesa. Normalmente só em inglês se consegue dizer tanto com tão poucas palavras. E contrariando Caetano, onde filosofar é em alemão, este texto desconcerta, sobretudo, pelo poder da fé que encerra.
É muito mais fácil ter fé em Deus do que nos homens. E mais difícil do que manter uma fé inabalável na humanidade, é manter essa mesma fé em nós próprios.
Se levarmos ao limite o exercício de síntese para descrever Deus, ficam-nos duas palavras: Verdade e Aceitação. E se nos esforçarmos ainda mais no exercício, fica só uma palavra: Verdade. Porque a aceitação não é mais do que sermos capazes de ver a verdade das nossas limitações.
O eco que a verdade deste texto transmite é uma imensa demonstração de fé pela verdade que expressa na solidez de viver a inconstância da vida e as suas fragilidades. Se ter Fé é alguma coisa, essa coisa é acreditar que quanto mais partilharmos as nossas mais intimas verdades e as vivermos intrinsecamente. Não é nova a ideia que só a verdade pode mudar o mundo. E a prova está aqui. No eco da vivência destas palavras e no impacto que elas têm nos outros.
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De rute moreira a 10.03.2014 às 11:49

correcção ao texto de cima, o último parágrafo sofreu um atentado qualquer.

"Míopes da Fé"
Acho extraordinário! Metafora à inglesa. Normalmente só em inglês se consegue dizer tanto com tão poucas palavras. E contrariando Caetano, onde filosofar é em alemão, este texto desconcerta, sobretudo, pelo poder da fé que encerra.
É muito mais fácil ter fé em Deus do que nos homens. E mais difícil do que manter uma fé inabalável na humanidade, é manter essa mesma fé em nós próprios.
Se levarmos ao limite o exercício de síntese para descrever Deus, ficam-nos duas palavras: Verdade e Aceitação. E se nos esforçarmos ainda mais no exercício, fica só uma palavra: Verdade. Porque a aceitação não é mais do que sermos capazes de ver a verdade das nossas limitações.

O eco que a verdade deste texto transmite é uma imensa demonstração de fé. Uma séria reflexão sobre a solidez de viver a inconstância da vida e as suas fragilidades.
Se ter Fé é alguma coisa, essa coisa é acreditar que quanto mais partilharmos as nossas mais intimas verdades e as vivermos intrinsecamente mais fortes somos.
Não é nova a ideia que só a verdade pode mudar o mundo. E a prova está aqui. No eco da vivência destas palavras e no impacto que elas têm nos outros.

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