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Abençoada independência

por João Miguel Tavares, em 08.10.14

A propósito deste post da Carolina a ir sozinha para a escola pela primeira vez, houve quem perguntasse como é que tão badalada questão se resolveu a contento do pai. Ou melhor: a contento de todos. Pois bem, resolveu-se como é suposto: ao fim de 15 dias de aulas, a Carolina pediu finalmente para ir sozinha para a escola. Por um lado, já estaria farta de ouvir o pai resmungar; por outro, fez uma nova amiga, com a qual se encontra a meio caminho, e depois seguem juntas para as aulas.

 

A mamã da Carolina, depois de me ter humilhado em público, terá também sentido algum rebate de consciência, e é possível que tenha feito trabalho de bastidores para que a sua filhinha se resolvesse a saltar mais depressa do ninho. Não sei. Elas não me contam muita coisa. Da minha parte, tratou-se basicamente de utilizar as tácticas habituais do contra-terrorismo feminino: aparente mão de veludo, camuflada de um eficientíssimo pilão pica-miolos, que conduz nove vezes em dez à rendição do gajo.

 

Comigo, costuma resultar: no que diz respeito a discussões com a excelentíssima esposa, eu acabo quase sempre com as duas mãos levantadas e a abanar a bandeira branca. Sinto-me frequentemente a encarnação sapiens sapiens do provérbio "cão que ladra não morde". Em 100 assuntos respeitantes aos miúdos, há 99 em que eu digo "ok, leva lá a bicicleta" - só que de vez em quando aparece um que eu considero mesmo, mesmo, mesmo essencial. E a Carolina ir sozinha para a escola no quinto ano era um deles. Nesses casos, transformo-me numa gaja. E não desisto.

 

A Teresa escreveu no famoso post em que me atropelou com um rolo compressor que eu teria pregado à Carolina

 

vários sermões sobre como era inaceitável que [eu] estivesse a perder 14 minutos (7 de ida e 7 de volta) da [minha] existência atarefada para a acompanhar num trajecto ridiculamente simples e inofensivo

 

mas a crítica - posso dizê-lo agora - é altamente injusta. Foi isso que eu, por antecipação (ao fim de 22 anos já as vejo chegar à distância), quis dizer com o post "tanta fama para tão pouco proveito":

 

Eu sou egoísta e autocentrado, mas tenho praticado muito pouco. Donde, acumula-se uma dupla frustração: a de andar a praticar muito pouco o meu egoísmo e autocentramento, e a de ser acusado de uma coisa que não tenho tempo para praticar.

 

De facto, o meu desejo de a Carolina ir sozinha para a escola não tem nada a ver directamente com a minha independência. Tem a ver com a independência dela, e de como isso é importante numa família numerosa: nós não nos podemos dar ao luxo de não empurrar para a frente os filhos mais velhos. Pela simples razão de que precisamos da ajuda deles para não darmos em doidos.

 

Lembram-se de eu uma vez ter dito que a Teresa não tinha quatro filhos mas quatro vezes um filho? Ela é uma mãe de altíssimas rotações, e eu tenho manifestas dificuldades em acompanhar o seu ritmo. Ora, ao contrário dela, eu não vejo o meu - o nosso - descanso como um luxo, com o qual necessito desesperadamente de adornar a minha vida burguesa. O nosso descanso e a independência dos nossos filhos não são luxos - são peças essencias na nossa qualidade de vida e na qualidade da paternidade que praticamos junto deles.

 

Eu sou um péssimo pai quando estou esgotado e impaciente. Ter uma noção de família em que nos entregamos tanto aos filhos que quase nada sobra para nós não é só mau para marido e mulher - é mau para os próprios filhos. Porque somos piores pais e porque eles vivem excessivamente dependentes do nosso empenho. A Carolina ir sozinha para a escola melhora a nossa qualidade de vida enquanto família, com certeza. Mas não só: dá-lhe uma liberdade e uma independência que melhoram a sua própria qualidade de vida. Todos ficamos a ganhar.

 

E quanto a estar a chover no dia 1, conhecem o clássico provérbio: independência molhada, independência abençoada.

 

Ontem foi um dia muito importante.

 

fotografia (1).JPG

 

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publicado às 13:18


11 comentários

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De Mário Cordeiro a 11.10.2014 às 19:20

Um dia, João - e digo-lhe por experiência porque além destes de 11 e 12, tenho uns já matulões de 35 e 34, com filhos, eles próprios, a começar o 1º ciclo (os mais velhos) -, eles hão-de agradecer-lhe ser (ter sido) um Pai tão presente, preocupado e atento, vencendo os fantasmas que todos nós temos em prol da autonomia assertiva e responsável.
Sei que auto-fustigar-se faz parte um bocadinho da sua função de blogger de Pai de Quatro (e Marido de Uma), mas, a sério, continue a sua rota. e para a chuva há gabardines e guarda-chuvas, além do gozo de chegar encharcado a casa.
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De Conceição M. a 09.10.2014 às 10:39

Excelentíssimo Pai, tinha alguma dúvida que a Carolina era capaz?? Nós não - era, óbviamente uma questão de tempo (do dela).
Quero é ver quando a Carolina começar a sondar sobre saídas à noite (vai ver que esse tempo não está tão longe quanto isso...) se é tão rápido a querer a sua independência! :)
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De Claudia Goncalves a 08.10.2014 às 18:07

Vou deixar aqui a minha opiniao nao como mae mas como filha. Os meus pais, sobretudo a minha mae, super protegeram o meu irmao mais velho. Foi uma crianca muito desejada, foram seis anos de muita luta, de certa forma eu percebo o excesso de proteccao. Quando eu nasci, 6 anos depois, a minha mae ja era uma mae mais experiente, ja sabia mais, e nunca me super protegeu. Alias, pelo contrario, mentiu-me e largou a bicicleta gigante onde eu aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas. O meu irmao deve ter aprendido a andar de bicicleta de armadura de ferro. A diferenca de personalidades esta bem a vista. Todas as criancas sao diferentes, certo. Todos nos tornamos em adultos diferentes. Mas da minha experiencia, acredito que o facto dos meus pais nao me terem protegido tanto quanto ao meu irmao mais velho (apesar de ser a ultima e unica rapariga na familia, curiosamente) teve um grande impacto na formacao da nossa personalidade. E hoje somos adultos muito diferentes.

Beijos ao Joao & Teresa, e peco desculpa pela falta de acentuacao.
Claudia
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De Sílvia a 08.10.2014 às 16:37

"Ter uma noção de família em que nos entregamos tanto aos filhos que quase nada sobra para nós não é só mau para marido e mulher - é mau para os próprios filhos. "... Não podia concordar mais. E o que pretendo fazer, mesmo não colocando o meu pequeno no infantário antes dos 3 anos, é dar-lhe a máxima noção possível de independência.

Agora, não me parece que tenha "ganho" à Teresa, se bem me lembro no post em que ela lhe respondeu, ela dizia que deixaria a Carolina ir sozinha quando a menina se sentisse preparada, e ao que leio aqui ela foi... quando se sentiu preparada!! As mulheres têm essa coisa de fazer os homens acreditar que ganharam uma questão, quando na realidade não ganharam... evita muitas discussões!!
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De Bruxa Mimi a 08.10.2014 às 21:45

Bem observado! (Refiro-me ao segundo parágrafo.)
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De Teresa Power a 08.10.2014 às 14:31

Tens toda a razão, João: o nosso descanso e o nosso tempo de casal são absolutamente fundamentais, e o cuidado dos filhos não pode colocar-se à frente da relação marido-mulher, embora naturalmente seja mais imediato. Nós também "empurrámos" os filhos para fora do nosso quarto o mais cedo possível, também os "empurramos" para a cama cedo, também os "empurramos" para ajudar em casa e crescer. Por eles, e por nós! Quando ao fim de quinze anos e sete filhos pude finalmente ter o meu quarto de volta, sem berços de bebés a obrigar ao silêncio e à luz apagada, foi uma festa...
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De Teresa A. a 08.10.2014 às 14:57

Apoiado, Joao!
E apoiado, Teresa!!!
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De Sílvia a 08.10.2014 às 16:41

7 filhos?!! Parabéns! Mulher (e homem) de coragem!
Também gostava muito, mas acho que não teria paciência, nem força (física e psicológica)! Nem dinheiro, mas isso seria o menos!
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De Teresa Power a 08.10.2014 às 17:11

Eu também não tenho dinheiro, nem força, nem paciência... Mas cada filho que nasce traz realmente um pedaço de pão (de dinheiro, de força, de paciência...) debaixo do braço :) Arrisque! É preciso sermos loucos, como na juventude! No final, a felicidade é tão, mas tão grande, que compensa tudo! Bjs
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De Sofia a 08.10.2014 às 14:26

Bem, parabéns à Carolina e aos papás por este passo. :)
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De tinita a 08.10.2014 às 14:23

ninguém é igual a ninguém. é um resultado positivo um casal discordar em alguns assuntos pois acredito que assim se descobrem novos caminhos. lá em casa, neste género de questões de independência eu sou um João e o meu excelentíssimo esposo é uma Teresa (com todo o respeito que a Teresa merece pois também concordo com muitas das suas ideias).
Atribuo o facto de ele ser demasiado protector, ao facto de ser filho único e ter recebido alguma proteção excessiva por parte dos pais. Muitas vezes discordamos no quanto podemos deixar “esticar o elástico” comigo a dizer que a criança de 8 anos tem de abrir a pestana. Muitas vezes acaba com o excelentíssimo esposo a dizer “afinal ele consegue desenvencilhar-se melhor do que eu pensava”.

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