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Conchista Wurst e a história da mulher barbuda

por João Miguel Tavares, em 12.05.14

A vitória no Eurofestival da canção de Conchita Wurst, "Rise Like a Phoenix", causou um entusiasmo mediático que já não se via para aí desde os tempos dos Abba. Porque a canção é boa? Receio bem que não: a canção é uma belíssima pepineira festivaleira, como se pode facilmente verificar.

 

 

Aliás, nos tempos em que Conchita Wurst se chamava ainda Tom Neuwirth (ou seja, quando ela ainda era ele), participou num programa austríaco de talentos tipo Factor X onde já mostrava a sua voz, certinha mas pouco mais do que banal.

 

 

O que faz, então, Conchita Wurst provocar tanto entusiasmo? A barba, claro. Não tem nada a ver com a voz ou com a música, tem tudo a ver com a performance e o lado de freak show.

 

Tem tudo a ver com esta transformação:

 

 

 

Donde, é no mínimo irónico que se utilizem palavras como "respeito" e "tolerância" quando aquilo que está em causa, e que faz titilar as plateias mundiais, é o mesmo fascínio pelo bizarro que alimentou os números de circo durante séculos e séculos - e onde a mulher barbuda era um clássico recorrente.

 

Sobre os perigos e a desumanidade desse aproveitamento já Todd Browning disse tudo o que havia a dizer num dos filmes mais impressionantes da história do cinema, um ovni de 1932 ainda hoje inultrapassado, chamado Freaks. Deixo aqui só o trailer, para abrir o apetite, acerca dessas "breathing, living monstrosities", que, segundo se escuta, "não precisavam de ter nascido":

 

 

Mas mesmo para quem não é dado à cinefilia, convém fazer aqui um pequeno trabalho de memória. Porque pode dizer-se muita coisa acerca de Conchita Wurst, mas nada que se pareça com "vejam onde o mundo chegou" ou "só me faltava mesmo ver isto". Porque "isto" - ou seja, a mulher barbuda - é, na verdade, um "isto" velho como o mundo. Nem sequer a sua glamourização - posso garantir-vos - foi descoberta em 2014.

 

Já em 1631 (coisa pouca: só uns 400 anitos atrás) o espanhol José de Ribera pintava para o seu mecenas do Palácio de Real de Napóles o retrato de Magdalena Ventura, assim descrita numa carta da época, no que parece ser um caso extremado de hirsutismo:

 

Nelle stanze de V. Re stava un pittore famosissimo facendo un ritrato de una donna Abruzzese maritata e madre di molti figli, la quale hala faccia totalmente virile, con più di un palmo di barba nera bellissima, ed il petto tutto peloso, si prese gusto sua Eccellenza di farmela veder, comecosa meravigliosa.

 

O quadro, actualmente depositado no Museu do Prado, precisamente intitulado "La mujer barbuda", é o que se segue, e a sua descrição mais pormenorizada pode ser encontrada aqui. Dele também faz parte a inscrição - que se poderia aplicar a Conchista Wurst - "el gran milagro de la naturaleza": 

 

 

Note-se, no quadro, o pormenor necessário da amamentação. Magdalena Ventura teria na altura 52 anos, e portanto dificilmente amamentaria, mas tal detalhe era necessário para se perceber que se tratava de uma mulher:

 

 

Avançando uns séculos no calendário, já na época da fotografia, vale também a pena relembrar a história da francesa Clémentine Delait (1865-1939), uma mulher barbuda que tinha um café numa vila da Lorena. Segundo consta, Clémentine terá visitado um dia um circo, viu uma mulher barbuda, e apostou com o seu marido (já no século XIX havia maridos com gostos esquisitos) que conseguiria fazer crescer uma barba muito melhor do que aquela. O excelentíssimo esposo apostou 500 francos e, manifestamente, perdeu:

 

 

 

Perdeu por um lado, mas ganhou por outro: a aposta atraiu numerosos clientes para o seu café, cujo nome acabou por ser alterado para Le Café de La Femme a Barbe, onde ela, aliás, aproveitava para vender fotos de si própria. O marketing já tem muitos séculos.

 

 

Podem encontrar mais imagens de Clémentine Delait, e a história contada de forma ligeiramente diferente, aqui.

 

Os exemplos, obviamente, poderiam continuar. Como se vê, o que mais há é mulheres barbudas, para impressionar as almas, ao longo da história da humanidade. E tendo em conta que Conchita Wurst nasceu homem, diria que o seu feito é bastante menor do que o de Clémentine Delait.

 

De resto, a única coisa que Wurst está a fazer neste momento é aquilo que Delait ou Magdalena Ventura fizeram muitos séculos atrás: vender a sua imagem ao grande público, aproveitando de caminho para épater la bourgeoisie, que é sempre giro, e tudo isto certamente por valores mais elevados do que o cafezinho ou as fotografias da senhora Delait.

 

É, como é óbvio, uma atitude inteiramente legítima. Convém apenas poupar na conversa da luta pelo respeito e pela tolerância, porque aquilo que nos faz a todos virar os olhos para a televisão para ver Conchita Wurst não é a música, não é a voz, nem são os direitos LGBT. Deixem, portanto, a pregação para melhor altura. Há ainda muita mentalidade para alterar, com certeza, mas para isso é preciso bastante mais do que uma barba preta e uma canção foleira.

 

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publicado às 10:07


23 comentários

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De Mamã a 22.05.2016 às 16:14

Parabéns pelo post
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De Manuel a 22.05.2016 às 11:54

A estrutura genética dessa coisa continua a ser XY com ou sem barba.
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De Anónimo a 15.05.2014 às 02:56

A ideia foi mesmo essa...chamar a atenção para um evento moribundo, só para não dizer...morto!

http://www.dw.de/derretimento-na-ant%C3%A1rtica-ocidental-%C3%A9-irrevers%C3%ADvel-afirmam-cientistas/a-17631644
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De Cláudia a 14.05.2014 às 00:22

O que me causa admiração não é o facto da Conchita se ter apresentado em palco com um belo vestido (envergado com muita elegância), com maquilhagem mas com barba. O que me choca são os comentários agressivos, homofóbicos e desrespeitosos que se ouviram após a vitória dela/dele. As caixas de comentários nos jornais estavam cheias de ódio. Na minha opinião só demonstra que afinal ainda existe muita gente que não admite nem respeita nada que saia daquilo que está formatado. Bravo Conchita. Adorei a actuação e achei uma justa vencedora.
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De Ana Mendonça a 14.05.2014 às 10:05

Concordo perfeitamente, sim é verdade que o impacto maior foi a sua aparência, mas pela voz e pela própria música também mereceu o pódio. Se houve músicas melhores? Pois isso é da opinião de cada um.
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De Anónimo a 22.05.2016 às 23:21

Na minha terra as coisas quando nascem com defeito: ou tem cura ou mandam-se fora ou então isolam-se até morrer...
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De magui silva a 23.05.2016 às 12:22

Grande palerma, por isso nem se dá ao trabalho de colocar nome!
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De Anónimo a 23.05.2016 às 08:37

cambada de maricons, as pessoas (e não as ´´coisas``) normais qualder dia tem vergonha de sair à rua. Todos num barco sem fundo ainda era pouco.
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De Anónimo a 23.05.2016 às 09:53

tá visto que 99.9% das ditas mulheres gostam destas ´´coisas´´, depois queixam-sse que não há HOMENS... vá-sse lá perceber as gaijas. Cambada de travecas gayzolas, um ferro em brasa era o que estas coisas queriam
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De magui silva a 23.05.2016 às 12:25

Cada um é como cada qual, tem direito a viver como quiser pois a vida é só uma e há que vivê-la da melhor maneira possível e que ser feliz!
Ninguém tem nada com isso!
Cambada de Parvos!
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De Anónimo a 20.11.2016 às 23:09

Só ainda não entendi qual é o problema e dos gajos como tu? Afinal de que tens medo? De ficarem mais gajas pra ti e não dares conta delas ou não queres concorrência pra ficarem mais gajos pra ti?
Afinal, de que lado estás que ainda ninguém entendeu?
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De Nuno Gomes a 13.05.2014 às 14:28

Independentemente do seu trabalho de pesquisa (bastante lato, por sinal), salvo melhor opinião em contrário, é apenas mais uma forma de existência.
Cumprimentos,
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De Rolando a 13.05.2014 às 13:52

Boas

Em relação a tudo o que foi já dito gostaria de apresentar o meu ponto de vista... primeiro, a canção era boa!! A voz irrepreensível!! Em nada se pode comprar com a Dana Internacional. para além de uma canção vulgar não tinha voz nenhuma... em relação a forma como se apresenta: quem vê olhos não vê corações... a mim, sinceramente, não me afeta a sua imagem. Os media é que querem-lhe dar mediatismo!

Em segundo lugar: Infelizmente, os anos, os séculos sucedem-se uns atrás dos outros, mas a mentalidade continua retrógrada... posso não aceitar a sua forma de vida, mas isso não em dá o direito de condenar e difamar.

Em relação ao festival em si mesmo: O hoje/presente em nada se pode comparar com o ontem/passado... não existia a propaganda que existe hoje, os mais diversos concursos de talentos e programas de qualidade duvidosa, como acontece hoje... e que muitos criticam, mas na verdade não perdem um episódio/programa.... É verdade que o festival eurovisão já é o que era... mas, o tempo de hoje não é o que foi ontem...no passado tivemos apenas um canal de televisão, uma telenovela em horário nobre e hoje??? isto para não falar dos programas que por aí andam com o pseudos VIPs e Famosos...

Hoje o concurso "joga" para o espetáculo, acompanhando os tempos modernos... não queiram o festival a preto e branco, com concorrentes vestidos com trajes a anos 60... a única coisa que eu critico é o fato de terem retirado a orquestra e as canções não serem tocadas ao vivo.

O espetáculo que a Dinamarca apresentou neste ano, foi de enorme qualidade televisiva, uma espetáculo feito para a televisão...

Quanto a Portugal... se começassem a promover os verdadeiros talentos que por este país andam, talvez fosse diferente... mas, o velho do restelo persiste em não deixar que tal aconteça...
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De Don Diniz a 15.05.2014 às 02:52

Quer então dizer que a Áustria, procurou e achou um talento?!
Interessante é que só aconteceu depois de se transfigurar, não é!?
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De migas a 13.05.2014 às 13:44

Adoro mulheres com pelos, bigode barba pelos nas axilas. Excitam-me.
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De Anónimo a 13.05.2014 às 11:17

Deixem-me ver se percebi, quando se apresentava como Tom não tinha um pelo na cara, agora que se apresenta como Conchita faz questão de apresentar uma barba cerrada como muitos homens não teêm? A mim parece que está mais preocupada em chamar a atenção e fazer o papel de " coitada de mim que sou discriminada" , em vez de se preocupar se tomou a atitude certa para se sentir bem na sua pele como mulher.
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De ... a 12.05.2014 às 21:25

Não tenho seguido as conversas por essa Internet fora, portanto se isto anda aí badalado peço desculpa (e desculpem lá a seca lol).

Antes de mais adorei este seu trabalho de casa.

Depois, qualidades musicais à parte (se em anos em que ganha alguém que cai na categoria "normal" com músicas que também não são extraordinárias nem sequer boas...), há algo que corrobora que é o "estranho" que atribui estas vitórias.

Tenho 25 anos, se calhar até há bem mais situações do que as 3 que vou enumerar e que recordo... mas em 1998 ganhou por Israel a Dana com um música chamada Diva. Ora a Dana é um transexual, cresceu como homem e depois tornou-se mulher. Recordo muito bem, até porque tinha 10 anos e raramente ouvira falar em tais casos, que deram muito destaque no antes e depois ao candidato/a de ISrael contando a história imensas vezes. Antigamente a RTP1 passava ou antes ou depois do telejornal durante um mês antes uma a uma as canções que iriam representar cada país, acho eu. Dana ganhou. Em 2006 foram os Lordi pela Finlândia, eram os "diferentes", os que se distinguiam da normalidade (normalidade já muito foleira por esses anos). Ganharam. Agora em 2014 ganhou esta Conchita, novamente o "estranho" ali do bolo. Qual a probabilidade de quando há uma "anomalia" ganhar sempre essa anomalia...bem, parece-me demasiada coincidência que sempre que há alguma coisa estranha ganhe a estranha, se realmente fosse a música que aqui se avaliasse ou se a figura e conceito não levasse pelo menos 90% da votação. Se isto fossem provas cegas e só tivéssemos direito ao audio até ao final da votação, acredito que nenhum dos 3 tivesse ganho. Eu pessoalmente gostei bastante da música dos Lordi (dentro, claro, do geral desse fraco ano). E a Diva e a deste Sábado também não eram as piores. Simplesmente de outra forma acredito que tivessem passado despercebidas.

Eu tenho saudades de quando a Eurovisão era um programa em família, e eu já apanhei pouco disso. Recordo muito bem a Lúcia Moniz e o entusiasmo quando a meio da votação chegámos a estar em 2º lugar. Mas o que eu realmente aprecio são os concursos para trás, décadas de 60 e a de 70 sobretudo. E Portugal nunca envergonhou nesses tempos. Mas mesmo nesses tempos, em que supostamente era um juri musical a votar, já havia uma carga política forte...basta recordar a troca permanente dos 8, 10 e 12 pontos entre países fronteiriços. E nós além de sermos um país que não se destaca nem para o bem nem para o mal (sim, que os países mais pobres e/ou com conflitos também nessa altura já havia uma espécie de apoio no voto), estamos numa península.
A Eurovisão agora é apenas um circo. Já não vejo, mas tenho saudades daquela essência de outros tempos, de ouvir o "two points, deux points"..disso e dos jogos sem fronteiras :p
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De Anónimo a 12.05.2014 às 18:14

Acho que faltou um pormenor importante no post: A VOTAÇÃO.
Se antes a votação era politizada e feito por supostos intelectuais na área, hoje é por nichos que pagam para votar.
Os 12 pontos dados por Portugal, nada representam a verdadeira vontade ou gosto português.
O lado interessante deste novo método, é que nos vai brindando com uns homens da luta e com estas ameijoas.

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