Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Crimes e parafilias

por João Miguel Tavares, em 12.03.14

O dr. Mário Cordeiro é o pediatra a quem calhou a fava da família Mendonça Tavares: já lá vão dez anos a aturar a nossa rapaziada. Para além de se dividir por 472 actividades, desta vez o dr. Mário ainda teve tempo para vir dar uma perninha opinativa ao nosso blogue, por causa deste post. Eis o seu comentário:

 

É preciso sempre grande cuidado ao interpretar estes dados. Para já, não são amostras representativas, mas sim de conveniência, o que retira qualquer hipótese de extrapolação - não sabemos quantas pessoas responderam mas, mais importante, quantas se recusaram a responder e porque o fizeram.


Depois, as razões para responder "sim" (no sentido de ser vítima ou perpetrador) podem variar conforme o à-vontade com que as pessoas das diversas culturas e países se sentem relativamente a temas "tabus" ou "obscuros". Para já, nem sabemos qual a "definição de caso" usada nos diversos países e como ela é compreendida e interpretada neles.


Há um bom par de anos, um estudo brasileiro mostrava que na Suécia havia muito mais crianças com síndroma de Down ("mongolismo") do que no Brasil, tendo-se depois verificado que a amostragem era o número de crianças com esta doença que se viam na rua... as brasileiras estavam escondidas em casa!

 

Não embarquem, pois, nas "primeiras páginas" - ainda hoje se dizia que os casos de violência sobre crianças tinham aumentado creio que 12,5% - não são "os casos", mas "os casos reportados", o que é muito diferente. Claro que, para um jornal, o primeiro título vende mais... Pena é que não haja uma análise epidemiológica e uma meta-análise coerente e consistente destes estudos e surjam, apenas, resultados aqui e ali que são fogachos e que, bastas vezes, não expressam o real sentido do fenómeno.

 

Talvez por isso, também, é que as pessoas continuam com medo dos pedófilos a ponto de eu ver pais obcecados com as fotografias aos filhos, quando mais de 90% dos abusos sexuais ocorrem em casa, com pessoas conhecidas da criança. Aliás, os media falam de "crime de pedofilia"... que não existe porque a pedofilia não é nem pode ser crime: o que é crime é o abuso sexual ou, melhor, o crime contra a liberdade e autodeterminação sexual de uma criança. Ser pedófilo e não cometer crime de abuso não é passível de denúncia, sequer... é uma parafilia, mas não um crime. Poderemos "esmiuçar" este tema, se o JMT quiser.

 

O dr. Mário regressa no seu parágrafo final à questão da pedofilia, que já havia sido abordada aqui e aqui. Aparentemente, ele acompanha o meu tom mais despreocupado do post inicial sobre o tema. Só que esse tom mudou depois da quantidade impressionante de pessoas que partilharam neste blogue casos pessoais de abuso, quando crianças. Por isso, sim, não me importava nada de "esmiuçar" o tema. Até porque ainda não tive com nenhum dos meus filhos a tal conversa sobre os potenciais perigos da pedofilia.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:10


7 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.03.2014 às 21:25

Talvez se devesse ensinar e treinar as crianças (se é que isto é possível) a gritar a plenos pulmões, caso se sintam ameaçadas...

Não sei se estou a dizer um grande disparate, mas... se eu tivesse conseguido gritar...
Sem imagem de perfil

De Mafalda a 12.03.2014 às 12:01

Não me parece que o tom MC seja despreocupado em relação à pedofilia. Realça, e bem, é que o que deve preocupar os pais são os perigos próximos.
Há uns anos assisti por motivos profissionais a uma conferência sobre o rapto e abuso de menores e desde então o que mais me angustia não é o desconhecido... é o monitor do campo de férias, o senhor da padaria, o irmão da amiga, a tia tão simpática. Não se trata de fechar os filhos numa redoma mas sim de os ir alertando para certas coisas como o corpo é só deles, que os adultos não podem ter segredos com as crianças nem lhes pedir para não contarem algo aos pais, que nós (mãe e pai) iremos sempre estar do lado deles e prontos a defender-los, que se algo não lhe faz sentir bem ou os deixa desconfortáveis (e isso inclui não obrigar que deem beijinhos) não têm de o fazer.
Curiosamente mostrei o video que postou há uns tempos, e que permitiu uma série de conversas sobre a sexualidade, e as minhas filhas (5 e 7) reagiram muito bem e foi um bom despoletador de perguntas.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 12.03.2014 às 10:36

Não me parece que possa dizer que o Dr. Mário Cordeiro "está a acompanhar o seu tom mais despreocupado" relativamente `a pedofilia. Seria, aliás, mto grave se ele o fizesse. Os testemunhos que tem recolhido no blog falam por si.
O que ele diz é que as pessoas estão a colocar as suas preocupações no local errado, e que em vez de se preocuparem com o "pedófilo anónimo" se devem preocupar, sim, com o círculo de adultos que rodeiam a criança.Infelizmente a "ocasião faz o ladrão" (passo a expressão) e parece-me que muitos dos abusos acontecem porque, com pessoas próximas, as oportunidades abundam e as crianças ficam mais reticentes/confusas/... de se queixarem.
É muito díficil de gerir esta situação, nomeadamente não cair no extremo oposto de isolar os nossos filhos numa redoma hermética.
Imagem de perfil

De pipocateresa a 12.03.2014 às 09:55

Olá! Este é um daqueles temas que me interessa bastante. Ainda recentemente um aluno de medicina a estagiar num hospital psiquiátrico me dizia que era assustador o número de pessoas que lá estava e que tinha sido vítima de abusos sexuais na infância. A maioria dentro de casa e pelo pai. Mas não é para dizer isso que estou a comentar. É, sobretudo, pela forma como termina o post, quando diz que ainda não teve a conversa com os filhos. Penso que devemos falar com as crianças, ao nível delas claro, desde cedo. A minha filha mais velha tem 5 anos e aqui ou ali já fui aproveitando para dizer que existem partes do nosso corpo que só nós é que podemos tocar, ou a mamã (ou o papá) quando nos estão a dar banho. Por exemplo, uma amiguinha dela com quem costuma brincar (da mesma idade) gosta muito de brincar aos médicos e quer sempre dar picas no rabinho. Eu aproveitei essa questão, para lhe dizer que não era boa ideia brincarem assim, porque se podiam aleijar etc, e que em determinadas partes só nós é que devemos tocar. Isto meio a brincar meio a sério. E depois eu digo-lhe sempre que à mamã se conta tudo e dou-lhe espaço para ela falar do que quer, isto na esperança de que caso haja, algum dia, alguma coisa, ela me conte.
Sem imagem de perfil

De Carlos Duarte a 12.03.2014 às 09:49

Caro João / Dr. Mário Cordeiro,

Não posso concordar com o primeiro parágrafo. Os dados referentes à metodologia do estudo são apresentados no Anexo II do mesmo estudo (pág. 173 - 183), incluíndo taxas de resposta, validação de respostas, correcção de factores sócio-económicos, etc.

Quanto ao resto, de acordo, mesmo estando pouco informado sobre o assunto (apesar de ter 2 filhos, pedófilia é uma coisa que pouco me assusta - assusta-me mais ter um acidente com eles no carro). Como o Dr. Mário Cordeiro referiu com o exemplo da Trissomia-21 no Brasil e na Suécia, a visibilidade conta muito. Quem, e em jeito de gozo, apenas veja os programas da manhã das televisões deve achar que o país é constituído por homicidas (especialmente parricidas e matricidas)...
Sem imagem de perfil

De ... a 12.03.2014 às 09:47

Gostei da abordagem dele e concordo. Vejo as pessoas com uma preocupação excessiva com as coisas que não são as principais portas para os abusos. Eu sou mais uma anónima das que sofreu abusos, tinha 8 anos. Hoje tenho 25. Como dizia o outro " a sina de quem nasce fraco ou forte"...felizmente eu nasci forte e acabei por, só aos 17 anos, dar a volta e sair do poço fundo para onde a situação me levou e onde vivi dos 8 aos 17. Nunca contei aos meus pais, por ser alguém próximo e porque o meu pai, do alto dos seus 80 anos, é daquelas pessoas que já fez comentários muito estupidos ao ver notícias sobre abusos de crianças, e sobretudo porque tornar publico me destruiria ainda mais. Então tive de continuar a conviver com essa pessoa. Mas embora tenha dado a volta, o dar a volta não é ultrapassar. É simplesmente aceitar tentar ser feliz com o que aconteceu e desistir da ideia impossível do tempo voltar atrás e alterar o que aconteceu. Mas a nossa forma de ver o mundo e as pessoas é para sempre alterada por estes acontecimentos. Eu nunca serei alguém normal. E influencia a nossa vida completamente. Influencia a nossa vida conjugal e sexual e a forma nojenta em que alguns dias a pensamos. Influencia as nossas relações com as outras pessoas. Influencia tanto que eu criei um ódio tão grande aos homens que tinha grande receio de engravidar e ter um menino. Sim, contra todas as teorias de que "ter preferência pelo sexo do bebé é uma futilidade", nem sempre o é, às vezes há motivos por trás que justificam algo que as pessoas consideram não justificável. Tive primeiro uma menina e na segunda gravidez, fiz o exame do sexagem fetal e no momento que li "menino" desatei a chorar muito. Não, eu não sou maluca, mas precisei de tempo para lutar contra mim mesma. Contra os "anticorpos" que desenvolvi resultado do que me aconteceu. Isto é daquelas coisas que ninguem poderá entender..demorei alguns dias a tentar lutar contra a pedra eterna no meu sapato. Tenho uma amiga que sofreu abusos do próprio irmão. Tinha 5-6 anos. Contou a uma tia. A tia contou aos pais. Refilaram com o irmão e a história terminou ali (para os pais, ela ainda sofreu abusos mais uns tempos). E ela tem o medo oposto. Não quer ter filhas porque as sabe muito mais vulneráveis e não conseguiria viver com o permitir que uma filha passasse o mesmo que ela. Mas eu...eu não sei o que me doeria mais, se o meu filho se transformar um dia num monstro e fazer isso a alguém se a minha filha passar pelo que passei. É assim, tão cru e duro como pode soar a quem lê. E o que mais dói é ter a certeza que por muito que me esforce, quer na educação dele quer na prevenção dela, eu não posso garantir que qualquer das situações não venha a acontecer. E nesse dia o que sobrou daquela criança de 8 anos também morrerá, juntando-se ao que de mim morreu naqueles tempos.
E escreve-vos alguém que desenvolveu uma capa, que é um poço de boa disposição para os outros, que é considerada um exemplo e muito forte e bola para a frente. A maioria das pessoas que me rodeia não imagina a maça podre que há por baixo da casca bonita que conhecem.
Sem imagem de perfil

De Patricia a 12.03.2014 às 11:04

Não podendo sequer imaginar aquilo porque passou durante a sua infância mas podendo perceber os seus receios em relação à sua filha e ao seu filho, penso que deve considerar que não é só a sua filha que pode sofrer abusos e não é só o seu filho que os poderá infligir. Estamos aqui a falar em teoria mas de facto não são só as crianças do sexo feminino que sofrem abusos sexuais e não são só as pessoas do sexo masculino que os praticam.
Eu tenho dois filhos e vivo muito atenta a essa possibilidade!

Comentar post




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D