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Dificuldades de aprendizagem #3

por João Miguel Tavares, em 03.11.14

O LA-C chamou-me a atenção para este excelente texto que a Inês Teotónio Pereira escreveu no i de sábado, sobre um tema que temos vindo a abordar no blogue, e que eu vou roubar escandalosamente por todas as razões e mais uma, que tentarei explicar um dia destes:

 

Um dos meus filhos tinha dificuldades de aprendizagem. Começou a ler tarde, dava erros ortográficos, distraía-se com as moscas (literalmente), não decorava coisa alguma e sempre que podia deixava os trabalhos de casa por fazer. Também se esquecia de tudo, era desorganizado, não dava importância aos testes nem percebia o fundamento das avaliações. Não era competitivo e tinha dificuldade em perceber a importância que os pais e os professores dão à escola. Desde cedo que desenhava com pormenor e aos cinco anos já fazia desenhos em perspectiva e com profundidade, mas não tinha paciência para pintar ou para fazer os traços direitos.

 

Um dia, numa luta renhida com as contas de dividir, levantou a cabeça e desabafou: "Gostava de saber o que é que este lápis pensa se ele conseguisse pensar." Foi mais ou menos nessa altura que descobrimos que usava a parede junto da secretária para desenhar enquanto fingia que estudava. Era também talentoso a representar e conseguia inventar uma história interminável a partir de dois palitos. Da escola chegavam-nos notícias de "falta de interesse", "falta de concentração" porque "é muito distraído" e "trabalha pouco". Em casa, nós, pais, pressionávamos, castigávamos e espremíamos a criança cada vez que chegava mais um recado ou mais uma nota. Sobre os talentos pouco lhe dizíamos porque o tempo era escasso e o calendário escolar não dava tréguas: antes do teatro está a Matemática e antes da criatividade está o Português, sentenciávamos.

 

No 4.º ano conheceu os livros do Harry Potter e foi assim que se viciou na leitura. Os erros, esses, persistiam e as notas continuavam a sair esforçadas. A motivação era mínima e a escola continuava a ser um mal necessário na qual passava os dias. O Harry Potter era o seu esconderijo. No 6.º ano chegaram os exames e com eles a possibilidade real de fracassar. Assustou-se com a eventualidade e, ajudado pela maturidade, estudou três semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por nós. Conseguiu a melhor nota da escola e da vida dele no exame de Matemática e deixou pais e professores de queixo no chão. Gostou da experiência e ainda mais da sensação. Nunca mais repetiu o resultado, mas as notas nunca mais saíram esforçadas, os trabalhos de casa nunca mais ficaram por fazer e nunca mais se denunciou a sua falta de concentração.

 

Para trás ficou o teatro e do desenho nunca mais ouvimos falar. Diz ele que não desenha bem porque não consegue fazer traços direitos ou imitar paisagens. A comparação com os desenhos fotográficos dos colegas e as classificações suficientes dos professores esfriaram o seu empenho e comprovaram que o seu talento afinal era apenas suficiente. Com a ajuda do tempo acabou por desistir. Dos oito anos da vida escolar do meu filho tiro duas conclusões. A primeira é que durante anos dei mais importância à escola e às considerações dos professores que ao meu filho, dei mais importância às dificuldades denunciadas pelos professores que aos talentos que eu conhecia. Sem saber cavei um fosso de frustrações que aumentava cada vez que chegava uma nota ou um recado, como se cada um deles fosse mais uma prova do seu fracasso (e do meu). Sem querer amolguei-lhe a auto-estima e eduquei-o tendo como referência as pautas escolares.

 

A segunda é que apesar de mim e da escola ele conseguiu. Conseguiu porque quis, porque um dia resolveu querer. As ameaças, as pressões, os castigos e o desespero perante cada má nota não tiveram qualquer efeito positivo, apenas negativo. As dificuldades de aprendizagem são apenas isso, dificuldades. E não querem dizer mais nada sobre os nossos filhos. No dia em que os confundimos com as dificuldades deles, em que olhamos para eles e em vez de crianças vimos problemas de matemática, os nossos filhos facilmente acreditam que são eles próprios os erros e os problemas. E então sim, as dificuldades perpetuam-se e podem ultrapassar em muito o âmbito da escola. A felicidade e o futuro dos nossos filhos não se medem pelo seu desempenho escolar - que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos trabalho, acaba por se cumprir - mas podem estar comprometidos se nós, pais, os julgarmos e medirmos por isso. O principal problema das dificuldades de aprendizagem é a dificuldade dos pais - não dos filhos - em lidar com elas.

 

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publicado às 16:35


24 comentários

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De lucina santos a 29.11.2014 às 22:36

Vejo-me muito nesse papel, filhos com dificuldades escolares e eu mãe desesperada que só vê os erros deles. Ás vezes fico angustiada quando para para pensar quantos elogios lhes dou por dia, e quantas vezes grito com eles para se despacharem a fazer os trabalhos de casa,e quantas vezes lhes digo para estarem quietos quando passam um dia inteiro enfornados numa sala de aula a tentar cumprir regras porque o programa têm que ser dado mas a dificuldade das crianças fica alheia a isso. Depois da alegria que senti ao conhecer este blog e depois de ter lido este texto da Inês Teotonio vou querer, certamente, olhar para os meus rebentos com outros olhos, sei que eles têm valores que precisam ser estimulados.
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De Catia Lopes a 15.11.2014 às 23:21

Já vou um bocadinho tarde, mas não podia deixar de comentar este assunto. Sou professora leccionei durante 5 anos em Portugal, trabalho agora como professora no sistema de ensino inglês.
As crianças inglesas não têm metade dos conhecimentos das nossas. Os programas são mais simplificados e o meio cultural de muitas crianças é muito pouco promotor de conhecimentos. Não se fala de dificuldades de aprendizagem como se fala em Portugal e quanto a mim as crianças portuguesas têm muito mais conhecimentos.
A minha conclusão é que em Portugal se tem exigido muito das nossas crianças e às pequenas dificuldades coloca-se de imediato um rótulo. Cada criança tem o seu tempo para aprender.
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De Cátia a 06.11.2014 às 10:35

Infelizmente é assim, a sociedade formata as crianças para serem adultos todos iguais, mas em Portugal um sistema educativo que faça isto até faz sentido tendo em conta que não há mercado laboral para artistas no nosso país! Enquanto a arte estiver associada à loucura e ao desemprego assim será!
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De João Miranda Santos a 04.11.2014 às 13:20

Já que se fala da Escola da Ponte, segundo o professor José Pacheco não há dificuldades de aprendizagem mas sim dificuldades de ensinagem.
Para perceberem um pouco melhor porque o diz vejam p.ex. esta conversa dele:
https://www.youtube.com/watch?v=J2VH_1Jg0O8&feature=share

Só há duas hipóteses: ou é louco ou tem razão.
Se tiver razão, então anda-se a fazer muito mal às pessoas na sua infância com esta escola.
O que mais me perturba é o argumento de não haver qualquer fundamentação teórica científica para o modelo da escola actual.. é assustador.
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De LA-C a 04.11.2014 às 14:08

Há, evidentemente, muito mais hipóteses. Pode não ser louco e, simplesmente, não ter razão. Pode ter montado um sistema que funciona para algumas pessoas e não para outras e por aí fora.
Mas uma coisa é definir estratégias para lidar com dificuldades de aprendizagem, outra é negar a sua existência.
E estratégias que passam por simplesmente não impor metas às crianças e ensinar apenas as coisas que lhe interessam é desistir da criança. Pode ter uma infância e uma adolescência muito felizes, mas vai ter uma vida muito frustrante.
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De João Miranda Santos a 04.11.2014 às 14:27

O LA-C ou não ouviu o que diz o prof. Pacheco ou ouviu e não entendeu nada. Se ele não tem razão e defende e justifica teórica e fundamentadamente o que defende, então é louco. Sistema montado que não funciona para todas as pessoas é claramente a escola comum. A prová-lo directamente há todos os alunos classificados com insucesso escolar, e são mais que muitos. A prová-lo indirectamente há todos os outros que conseguem responder às imposições mas que falta provar o que poderiam ser se fossem educados de outra forma. Uma pessoa só tem dificuldades de aprendizagem quando quer aprender uma coisa e não consegue. Quando lhe querem ensinar uma coisa e ela não aprende, então a dificuldade é de ensinagem. E quando as estratégias passam por impor coisas às crianças e ensiná-las, em vez de despertar interesses, provocar a curiosidade, propor estratégias e acompanhar a aprendizagem, então está-se a limitar a criança e a comprometer as suas capacidades. Do resultado para a vida o LA-C, se tiver como, mostre-o.
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De LA-C a 04.11.2014 às 18:36

"O LA-C ou não ouviu o que diz o prof. Pacheco ou ouviu e não entendeu nada."

Você é a personificação da dicotomia.
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De ANABELA MARTINS a 04.11.2014 às 12:08

Permitam-me colocar aqui um link do hino da Escola da ponte, penso que faz todo o sentido nesta discussão...

www.youtube.com/watch?v=xD52Qu0-FPo

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De Ana a 04.11.2014 às 12:02

http://memoriasduminternato.blogspot.pt/2013/05/a-controversia-da-excelencia-do-ensino.html
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De Joana a 04.11.2014 às 11:52

No princípio do texto até tentei identificar-me com a mãe que o escreveu, mas no momento em que ela própria diz que desvalorizava os talentos do filho, pressionava a criança, que achou normal pô-lo a estudar 3 semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por ela e que demorou 8 anos a perceber que prejudicou o filho, não me parece que haja muito com que me possa identificar ou até com que possa simpatizar.

É verdade que a escola tem muito que evoluir, é verdade que há uma certa pressão para a normatividade mas os pais não podem desresponsabilizar-se das suas funções e atribuir sempre a culpa aos outros.

E a minha função como mãe é fazer com que elas sejam felizes, realizadas e integradas, não é produzir crianças que tenha 20 a tudo.
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De Ana Catarina Ferreira a 04.11.2014 às 10:37

Excelente.... simplesmente!!
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De Maria Alves a 04.11.2014 às 09:46

O problema é que o ensino não está preparado para crianças que já têm talentos. Obrigam-nos a estudar aquilo que está no programa, independentemente dos interesses de cada um. Sempre defendi que o ensino até ao 6º ano deve ser obrigatório e com os programas obrigatórios ( com algumas mudanças óbvias ). Mas a partir daí, disponibilizar-se-iam disciplinas várias e quem escolheria seria o aluno. Conforme a sua aptidão e interesses. Ou então Homeschooling, que está a dar os primeiros passos em Portugal, lá fora já é comum. Custou-me ler este texto e saber que houve talentos abafados em prol do sistema de ensino exigido.
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De Ana a 04.11.2014 às 09:45

Escrevo como adulta que já foi criança e adolescente. Sempre tive boas notas e sem nunca me esforçar muito mas sempre a deitar-me as tantas porque passava o tempo a olhar para o ar em vez de estudar, sabendo que tinha de pelo menos ler a matéria, mas sem método, sem objetivo, sem brio. Não são MESMO as notas que contam mas sim o significado que encerram...a escola é uma ferramenta para nos construirmos, para nos organizarmos , para construirmos a nossa imagem de nós, com ajuda dos pais... um 3 pode ser bem mais meritório, brioso e orgulhoso do que um 5, porque faz mais quem quer do quem pode (e isto fica impresso em nós), e é importante querermos alguma coisa, por nós e para nós, e isso não são as notas que nos dão.

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