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Elogiar ou não elogiar, eis a questão

por João Miguel Tavares, em 25.02.14

Como já aqui referi várias vezes, o Tomás é o nosso filho melhor comportado, por uma longa distância. É super-certinho, em casa e na escola; tem um prazer genuíno em fazer os outros felizes; levanta-se antes de toda a gente (pais incluídos), veste-se e faz a cama; se pedirmos um voluntário para qualquer coisa ele é o primeiro a oferecer-se; e ainda por cima é um miúdo muito inteligente.

 

Fico muito feliz que ele seja assim, mas tamanha concentração de virtudes está a causar alguns problemas caseiros - ao ponto de eu começar a rever algumas posições que tinha por adquiridas. Para mim, sempre foi óbvio que deveria elogiar os filhos que se portassem bem, de todas as vezes que tal acontecesse. Mas, de repente, começo a descobrir que, se for utilizada de forma demasiado rígida, tal regra pode causar problemas no ecossistema caseiro.

 

Ou seja, embora em bom rigor eu devesse fazer corresponder os meus elogios ao mérito dos actos de cada um, sobrecarregar o Tomás de encómios causa um desequilíbrio grande, que acaba por transformá-lo, aos olhos dos outros, no menino-bonito dos papás. E quando digo "aos olhos dos outros" estou sobretudo a referir-me à Carolina, que embora adore o Tomás, parece ter uma certa frustração interior por não conseguir ser tão bem comportada quanto ele.

 

Colocado perante este quadro, o João Miguel de há quatro anos diria: "se ela não consegue ser tão bem comportada quanto ele, problema dela, esforce-se mais". Já o João Miguel de hoje em dia tem tendência para ser um pouco mais tolerante, e sobretudo para tentar perceber que inseguranças se escondem dentro da aparentemente toda segura Carolina.

 

Dona de uma personalidade muito mais forte e muito mais competitiva, a minha filha mais velha nem sempre consegue controlar o seu nariz empinado, e muito menos as suas respostas prontas, sempre na ponta da língua. Por isso, está frequentemente a ser corrigida com um "olha para o teu irmão e comporta-te como ele". Mas embora seja muito tentador dizer-lhe isso, eu e a Teresa temos conversado bastante sobre o assunto e sobre a necessidade de abandonarmos esta fórmula.

 

A frase é verdadeira? É. Temos de continuar a elogiar o Tomás pela sua generosidade e bondade? Temos. Mas não podemos deixar que se estabeleça um fosso demasiado grande entre filhos, naquilo que aos elogios diz respeito. Temos provavelmente de ser mais generosos para uns (Carolina e Gui) e menos generosos para outro (Tomás), de forma a que todos eles se sintam tratados por igual.

 

Grande parte do fascínio de ser pai é este: não adianta termos ideias demasiado rígidas sobre as coisas - a realidade acaba sempre por nos trocar as voltas. O segredo está, pois, em sabermos adaptar-nos ao contexto e irmos corrigindo os nossos procedimentos, de forma a manter uma família unida. Tão importante quanto os meus filhos terem um excelente carácter é assegurar que eles sejam grandes amigos pela vida fora. E para isso, eles não podem de forma alguma sentir que uns são bestiais e que outros são um bocado bestas (para utilizar a colorida linguagem do grande Toni).

 

Numa família numerosa, tal como numa equipa de futebol, não contam só os valores individuais. É necessário colocá-los ao serviço do colectivo, mesmo que para isso seja necessário tratar de forma igual aquilo que é manifestamente diferente - uma frase, já agora, que nunca imaginei vir a escrever na vida.

 

Ou seja, estamos sempre a aprender.

 

 A Carolina a pousar para a foto do 10.º aniversário, com o Tomás ao fundo a brincar com o iPhone

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publicado às 09:32


18 comentários

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De Joana Mendonca a 01.03.2014 às 11:15

Uma das coisas para mim mais fantásticas na educação é essa oportunidade para reflectir e repensar as nossas opções e por-nos em causa, que nos é permitido pela continuidade. Em criança, eu era a mais nova e a mais "bem comportada", e acho que para a minha irmã foi difícil. Embora a minha mãe não fizesse essas comparações assim abertamente, o resto da familia fazia. Isso sempre me fez pensar no peso daquilo que se diz aos miudos, porque acho que muito da nossa personalidade resultou desse "rotulo" que tivemos na infância. Mas muitas vezes fazemos essas coisas sem pensar. A oportunidade para repensar é excelente.
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De Fernando a 26.02.2014 às 18:04

Eu sou apenas pai de três meninas e a minha mais velha também vai fazer 10 anos em Maio. Acho que o elogio do esforço ao nível individual é fundamental, já o elogio feito na presença dos restantes ou as comparações pode ser um pouco destrutivo. Acho que o nosso trabalho passa por salientar -lhes os pontos positivos deles, mostrar como são e devem ser únicos (sem imitar os irmãos), mostrando como podem melhorar nas áreas em que tal é possível. É fácil? Com certeza que não, nunca foi e nunca será. De facto concordo de há 10 anos para cá que continuo a aprender mesmo que muitas vezes seja um pouco doloroso.
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De Anónimo a 26.02.2014 às 12:52

É, de facto, dificil gerir as personalidades de cada um dos nossos filhos, tentando dar-lhes igualdade de tratamento.
Eu tenho dois filhos, um rapaz e uma miúda que são tão, mas tão diferentes que nem parecem irmãos (dizem). É que são muito diferentes fisicamente e também a nível de personalidade.
Amo os dois da mesma forma! Mas a verdade é que me identifico mais com o meu filho, com a sua maneira de ser e acabamos por nos "dar melhor".
Quantas vezes tenho de me reprimir, para não a comparar com o irmão.
Lembro constantemente a mim própria que eles são diferentes e tenho de aceitar isso, mas não é fácil.
Não posso tratar de igual forma duas pessoas que são tão diferentes, não seria bom para eles, nem seria possível para mim.
Tenho de advertir mais a um que a outro, tenho de castigar mais a um que a outro e até elogiar.
Tento não fazer comparações entre eles, mas é inevitável, até porque "os de fora" estão sempre a faze-lo: ah, não pareces nada o teu irmão, tão atinadinho e certinho...
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De Maria do Porto a 25.02.2014 às 17:28

Caro João Miguel,

trata-se de facto de uma decisão "difícil" - elogiar, ou não - eis a questão!
Mas permita-me uma observação: e se elogiassem aquio que para eles é efectivamente resultado do seu "esforço" e não da sua "natureza"?
Quer-me parecer que o seu Tomás terá algumas dificuldades em, por exemplo, ser assertivo. Defender a sua própria posição numa "discussão" de irmãos, contradizer uma oipmião dos outros, etc. - talvez fosse bom elogiá-lo nestas ciscunstãncias - em vez de elogiar continuadamente aquilo que pra ele é uma atitude "normal" (a generosidade, a atenciosidade...).
Já a Carolina parece necessítar de elogios sempre que conseguir dominar a impulsividade, controlar os "excessos de autonomia"... :-)
Está a ver o meu ponto de vista?

Parece-me que o reforço positivo (elogio) deve ser dirigido áquilo que "lhes dá trabalho" - e não ás atitudes que reflecten apenas a sua natural personalidade.

E já agora: adoro o seu blog!
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De Maria a 25.02.2014 às 16:13

Somos 4 irmãos, um era o certinho, bom aluno sossegadinho.... à conta disso fazia de nós "gato sapato",. A pior coisa que se pode fazer a um filho, é estar constantemente a pressiona-lo para ser igual a um irmão.
Hoje todos adultos, 3 de nós damo-nos superbem, e suportamos polidamente o "bonzinho" com quem convivemos o menos possivél.
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De Ana a 25.02.2014 às 15:37

Acho curioso, ao ler estes comentários, que todos tenham tantas certezas como educar os filhos que são, naturalmente, diferentes. Eu, então, tenho imensas duvidas, todos os dias. Tento fazer o melhor que sei e falamos muito sobre este tipo de temas entre nós, Pais. Também nós temos duas filhas completamente diferentes e, muitas vezes é muito difícil encontrar o "meio termo"....de facto os livros não nos ensinam nada e muito menos o que lá vem sobre educação pode ser tido como uma ciência certa. Admira-me tantas convicções...
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De Joana a 25.02.2014 às 15:36

Dizem-nos para nunca comparar os filhos. É bonito sim senhor mas é impossível. Comecei logo a compará-los durante a gravidez e é difícil não o fazer no dia-a-dia.
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De Maria Cruz a 25.02.2014 às 14:00

Elogiar sem nunca comparar.
E TALVEZ, pensar que para o Tomás, o seu comportamento é normal, ele tem essa índole, talvez não seja difícil para ele ser da maneira que é, e por isso não ser necessário receber sempre elogios, ele não está fazendo um grande esforço de comportamento, é da natureza dele (claro que merece reconhecimento, mas se calhar não precisa de um constante elogio, uma vez que para ele isso flui naturalmente).
É como uma pessoa ser super comunicativa e desinibida, enquanto o outro irmão é tímido, acho que devemos respeitar e não dizer: ¨ Olha, seu irmão falou com toda gente, deu beijinhos em todos lalalala¨ , muitas vezes para o ¨desinibido¨ tal atitude não custe nada, assim não é passível de constante elogio. Duro, duro é para o tímido cumprimentar toda a gente e ser sociável, daí uma razão de elogio- pelo esforço!
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De Quando me encontrares a 25.02.2014 às 12:16

Preocupo-me em elogiar comportamento e actos.
Temos tendência para elogiar um filho pelo que ele é, seja bonito, inteligente, meigo ou bom aluno. Mas isso faz sentido? Que mérito temos por sermos bonitos? Ou inteligentes? Ou arrumados? O mesmo que temos por ter nascido: nenhum.
Daí ser importante elogiar os actos, o trabalho, o esforço. Que, num caso de um filho mais irrequieto ou respondão, pode ser o esforço em se portar melhor. No filho mais "certinho", até pode ser o esforço por se tornar mais descontraído.
É um exercício difícil, mas que me esforço (eu também!) por fazer.
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De LA-C a 25.02.2014 às 11:25

"Não podemos deixar que se estabeleça um fosso demasiado grande entre filhos, naquilo que aos elogios diz respeito. Temos provavelmente de ser mais generosos para uns e menos generosos para outro, de forma a que todos eles se sintam tratados por igual."

Ou seja, estás a fazer redistribuição de generosidade em nome da igualdade de tratamento. Eu sempre soube que eras um gajo (toma lá os 50 cêntimos para o garrafão) de esquerda. Enfim, és um camarada.
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De João Miguel Tavares a 25.02.2014 às 19:55

Eu sempre disse que era um centrista moderado. Simplesmente, como o país é muito canhoto, um centrista em Portugal é frequentemente de direita para lá do CDS. Além disso, eu não confundo o Estado com a família. Eu só quero ser pai dos meus filhos. Não pai de 10 milhões de portugueses. :-)
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De LA-C a 26.02.2014 às 10:41

"Eu sempre disse que era um centrista moderado."

Qual a diferença entre um centrista moderado e um centrista radical?
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De João Miguel Tavares a 26.02.2014 às 11:05

Nenhuma. Devia ter escrito "centrista e moderado". Mas pode considerar-se que o centrista radical é um centrista em todas as matérias, ou seja, um meias tintas. Eu não sou centrista sobre tudo. Em certas coisas sou de direita. Noutras sou de esquerda. E é quando se soma isso que dá um gajo ao centro. Acabei de inventar estar teoria, sublinhe-se. Mas parece-me boa.

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