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Eu também sou claramente um criançofóbico

por João Miguel Tavares, em 09.04.14

Sei que este assunto já foi aqui suficientemente debatido na semana passada (para quem perdeu esses estrepitosos capítulos, é ler isto e isto), mas a Maria João Marques discordou de mim no blogue O Insurgente, e como eu gosto muito da Maria João Marques não queria perder esta oportunidade para polemizar com ela.

 

Vale a pena ler a totalidade da sua argumentação sobre o facto de achar completamente legítimo que os hotéis mantenham as criancinhas longe dos seus corredores. Mas, ainda assim, deixo aqui um excerto, como amuse-bouche:

 

Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? (...) E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável. Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?

 

O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora. E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).

 

Ora, ao contrário daquilo que a Maria João argumenta, a questão não está em ter empresas para determinados nichos de mercado, mas em ter empresas que, por lei, têm de ser de livre acesso (exactamente para não poderem impedir a entrada a brancos, pretos, gordos, magros, velhos, novos, cristãos ou árabes, consoante as idiossincrasias dos seus proprietários), a proibirem a entrada a crianças e a pais com crianças.

 

Pegando num exemplo da Maria João, não é discriminação ter uma loja que só vende roupa para crianças, para homens, para mulheres ou para magras - mas seria uma discriminação uma mulher gorda não poder entrar numa loja para mulheres magras, ou eu não poder entrar numa loja de lingerie feminina com os meus quatro filhos pela mão.

 

Em última análise, a legislação anti-discriminação existe precisamente porque muitos de nós somos fóbicos em relação a alguma coisa. A verdade, devo confessar à Maria João e aos leitores deste blogue, é que eu sou criançofóbico várias vezes ao dia. O que eu daria para estar permanentemente no silêncio dos deuses. E, como eu, também os donos dos restaurantes e dos hotéis, que se tiverem o seu estabelecimento cheio e puderem escolher, dispensarão sempre - mas sempre - ter crianças a encherem-lhe mesas e quartos.

 

Porquê? Porque as crianças são uma seca. Fazem barulho. Exigem camas extra. Cadeirinhas especiais. Nos restaurantes, ocupam o mesmo espaço de um adulto, e não só comem bastante menos (se forem bebés, aliás, nem sequer comem), como ainda por cima fazem barulho. Quem é que gosta de aturar crianças? As crianças não se recomendam fora dos parques infantis - e é por não se recomendarem que os seus direitos, e os direitos dos seus pais, devem ser protegidos.

 

Porque senão, um dia destes, abrindo-se alegremente a porta aos estabelecimentos child free, o que vamos ter é precisamente a tal especialização por nichos de mercado que a Maria João refere. E eu, como pai, passo a estar condenado a comer na McDonald's e em lojas de hambúrgueres até os miúdos terem 18 anos. O país já fecha tantas portas na cara de quem tem filhos. Chamem-me esquisito, mas eu dispenso bem mais esta.

 

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publicado às 09:54


35 comentários

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De migas a 11.04.2014 às 09:10

Não gosto de crianças, são mal educadas agressivas e quando crescem tornam-se más!
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De Anónimo a 11.04.2014 às 20:32

Não era você que não gostava do cheiro das mulheres????

"e quando crescem tornam-se más!" - então somos todos más pessoas, é? É que já fomos todos crianças. Eu, por acaso, até era muito bem comportadinha e educadinha. Mas... agora, já adulta, fico fera, por exemplo, com certas coisas que leio....
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De Mel a 13.04.2014 às 19:24

Então as crianças têm um vantagem em relação a si, por exemplo: não são más! ;)
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De Pat a 10.04.2014 às 12:59

Canseira JMT... Obsessão...ou simplesmente necessidade de aumentar a "população" de visitantes, comentadores e afins...

..."O argumento é bom, mas que as pessoas se sentem motivadas a discutir este tema, sentem: o recorde de comentários para um único post foi ontem largamente batido."
... Não era este um ou o objectivo subjacente a este tema ou post ?! Comentários atrás de comentários , visualizações, e até uma nota no jornal...Se calhar inocente no primeiro, mas não tão assim no segundo...terceiro...quarto... " , ups !
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De Sílvia a 10.04.2014 às 15:14

Sim, e?? Deduzo que as pessoas que aqui discutiram o tema também saibam ver isso.
Eu, por exemplo, comentei em todos os post, porque acho uma discussão interessante, gosto de dar a minha opinião e gosto de debater temas interessantes (para mim), seja aqui ou numa mesa de café com amigos... Qual é o drama de ele aumentar visualizações à custa disso? Acho dramático é não se ter o que fazer para vir constatar o óbvio!
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De Pat a 10.04.2014 às 17:47

Sim...! E?! Nao foi o que acabou de fazer! Constatar o "meu" obvio? Redundante não? (...tudo o que é demais...cansa!)
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De Joao Nogueira Santos a 10.04.2014 às 04:54

Não me parece que a descriminação pela idade possa ser tratada como a descriminação por outros fatores:relegião, cor etc... Deixei de propósito género, porque tal como idade, também há muitos espaços comerciais de admissão reservada apenas a mulheres ou homens (ginásios só para senhoras por exemplo).

Bares e discotecas é o exemplo classico de descriminação pela idade que todos nós aceitamos e defendemos.

O "mercado" trata de resolver e oferecer opções para todos os perfis. Agora, se o mercado não o faz, nesse caso pode fazer sentido o Estado legislar e assegurar acesso "livre".

Mas acho que estamos muito longe desse cenário, quanto aos hoteis e restaurantes.

Pessoalmente, quando reservo um hotel com spa/piscina interior, questiono se o acesso é livre para crianças. Observo muitas vezes que a resposta é que sim até determinada hora. É uma forma de se agradar a gregos e troianos, afinal, a chave para o sucesso em tantos negócios.

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De Mel a 13.04.2014 às 19:30

Discriminação nas discotecas? Pela idade? Já agora também há discriminação no direito de voto ou direito a tirar a carta de condução. O facto de ser exigir certas condições, não implica, necessariamente, discriminação. Não deixar entrar crianças em discotecas não visa proteger o estabelecimento nem os clientes adultos, mas sim proteger a própria criança, que deve frequentar locais adequados à sua idade e participar em actividades propícias às suas característica, com vista ao seu saudável desenvolvimento e à sua segurança.

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De mãe de nenhum a 09.04.2014 às 23:08

Hoje, ao fazer o check-out de uma família (pais, avós e 2 crianças entre os 10 meses e os 2 anos), que tinha passado uma semana cá na quinta, perguntei se tinham gostado. Disseram que tinham gostado muito de tudo, principalmente da paz! Só para confirmar, perguntei: "os cães não incomodaram, pois não?" (os nossos cães não costumam ladrar). Resposta: "Não, não. Os cães não fizeram barulho nenhum. Pena os meus filhos não serem um bocadinho como os vossos cães!"

Lembrei-me imediatamente de vocês todos - Pais - destas conversas todas e saiu-me: "Deixe lá, é barulho genético. Um dia vai ter saudades..."
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De José Miguel Azevedo a 09.04.2014 às 18:04

Bom dia.
Antes demais dizer que sou pai de seis, daí este tema me interessar sobre maneira.
Relativamente à excelente questão levantada pela Maria João, penso que a lei permite vendermos exclusivamente roupa de criança, mas proíbe a venda dessa roupa exclusivamente a clientes de raça branca. Ou seja, a lei permite a especialização em determinado produto mas não a venda exclusivamente a determinado tipo de cliente.
Eu entendo perfeitamente o desejo de sossego de quem defende o " child free ", oh como eu entendo. Mas graças a Deus que a lei existe. Porque se esta permitisse discriminar a quem vendemos um produto ou prestamos um serviço,a nossa sociedade assentaria na discriminação e não na igualdade de direitos.
É bom abordar este tema ( crianças ), especialmente, de forma educada e positiva.Por vezes,em sociedade, sinto-me desconfortável, quase uma "atracão de feira", ( por ser diferente ),por estar casado, ter seis filhos e todos da mesma mulher.
Miguel


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De JCM a 09.04.2014 às 23:08

Tem toda a razão, seria como se houvessem escolas só para um sexo específico ou clubes que estipulassem condições (socioprofissionais ou geográficas) para ter sócios! ainda bem que a sociedade não é assim...
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De Ana Faria a 09.04.2014 às 16:59

Ohhhh Deus. Mas como tu exageras, homem. Depois disto tudo ja comeco a achar a existencia de parques infantis e totalmente discriminatoria... E quando quero andar de baloico e nao fazem o banco grande o suficiente para sentar la a minha bunda 38? Huh? Sinto-me completametne a margem da sociedade. Humpf! ;) Gosto imenso de te ler, mas digo-te sinceramente que acho que esta dicussao ja cheira mal e nao consigo deixar de pensar que este tipo de opiniao um pouco ignorante. (Sorry) Nada tolerante. So old school! Geeeees. Contam-se pelos dedos de uma mao os hoteis e restaurantes que em Portugal nao deixam entrar criancas. "Jasus, Home!" Take a chill pill. Que dramatico, Joao! Nem quero pensar quando o querido amua. ;) lololol joking.
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De LP a 10.04.2014 às 11:11

Qual é a parte do "não ser legal" que não entendeu?
O que importa ser um, dois, três ou mil? Não podem, ponto final.
Não há drama nenhum, só a lei. A lei só é um drama quando não é cumprida.
E é a primeira vez (acho eu) que vejo chamar "old school" à defesa de uma não discriminação...
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De Mel a 13.04.2014 às 19:32

Lá está: lei e não discriminação!
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De André a 09.04.2014 às 14:11

Em todos os países que se permite o child free o mercado da oferta de sítios sem crianças continua muito reduzido. O 'mercado' familiar é gigante, e é por isso que há menus criança e os hotéis oferecem camas. Esta vitimização dos pais nao faz sentido nenhum, e nao ha nenhuma novidade numa sociedade que discrimina em função da maioridade, nem nada na constituição sobre isso.
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De Mel a 13.04.2014 às 19:35

Sugiro-lhe, então, a leitura da Constituição República Portuguesa Anotada pelos Doutores Gomes Canotilho e Vital Moreira, especialmente o artigo 13.º.
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De LP a 09.04.2014 às 11:47

Já tinha lido o post em questão e achado que era um chorrilho de disparates, metáforas mal feitas, exemplos sem nexo.

O JMT continua com toda a razão. E eu também sou "criançofóbico" excepto quando não posso ser por obrigações de pai.
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De Sílvia a 09.04.2014 às 12:19

Mesmo! Pior são as contradições nos comentários de resposta que faz ao leitores. Quem raio é a Maria João Marques?! A senhora parece-me um bocado alucinada, diria mesmo "tolinha" (palavras dela)!!!!
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De João Miguel Tavares a 09.04.2014 às 13:41

A Maria João é tudo menos tolinha, Sílvia. Gosto imenso das coisas que ela escreve. Simplesmente, não se pode concordar em tudo.
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De Sílvia a 09.04.2014 às 15:05

JMT, eu apenas respondi no mesmo tom que ela respondeu aos leitores que não concordavam com ela (leia os comentários e respectivas respostas). Não a considero "tolinha" (repito, palavra usada por ela) por discordar dos outros, considero-a "tolinha" por se expressar como expressou a quem discordou dela. Sim, pelas respostas dela que li, parece-me um bocado alucinada, também tenho direito a opinião, baseando-me naquilo que leio, que a pessoa escreve, posso evidentemente estar errada, da mesma forma que ela pode estar errada quando chama tolinhos aos outros!
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De João Miguel Tavares a 09.04.2014 às 15:08

Com certeza, Sílvia. Estou apenas a dar-lhe a minha opinião. A Sílvia tem toda a legitimidade para achar o que acha.
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De Isabel Prata a 09.04.2014 às 11:38

Não sabia quem era mas agora fui ver, e o que se pode esperar de alguém que advoga a liberdade dos pais de vacinarem ou não os filhos até "porque ainda há pouco tempo houve um surto de sarampo em NY" ? Informe-se, minha senhora, antes de dizer barbaridades.
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De Isabel Prata a 09.04.2014 às 11:42

peço desculpa à Maria João do Insurgente porque não foi nada disso que ela defendeu sobre as vacinas. O mal de se ler à pressa.
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De Isabel Prata a 09.04.2014 às 11:31

Não sei quem é a Maria João Marques, mas a argumentação dela não tem ponta por onde se lhe pegue ou, em linguagem brejeira, o que é que o cu tem a ver com as calças?

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