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Eu também sou claramente um criançofóbico #2

por João Miguel Tavares, em 17.04.14

Eu e a Maria João Marques, enquanto pessoas de um outro tempo, estamos a ter a modos que uma polémica epistolar: vamos discordando um do outro a intervalos semanais. O assunto provavelmente só já interessa a nós o dois, mas eu continuo a insistir, até porque desta vez a Maria João clarifica o seu argumento económico-liberal. O texto integral dela está aqui, mas eu deixo um par de citações:

 

As famílias com crianças são um grande mercado e os proprietários e gestores de hoteis e restaurantes têm noção disso. Se os restaurantes não quisessem receber crianças, não teriam cadeirinhas para elas, estabeleceriam um consumo mínimo para quem ocupasse lugar à mesa, não criariam menus infantis,… E os hoteis, então, se quisessem enxotar crianças teriam boas soluções: camas de bebé e camas extra caríssimas, alimentação de crianças ao mesmo preço da dos adultos (...)

 

Enquanto as famílias quiserem levar crianças para hoteis e restaurantes, haverá hoteis e restaurantes que aceitam crianças. Pelo melhor motivo de todos (não, não é cumprir a lei): as empresas, para sobreviverem e prosperarem, fazem por agradar aos clientes. E se o mercado resolve – e bem, porque incorporando as decisões livres de consumidores, empresários e gestores – o problema, então o legislador só tem de ficar quieto e não incomodar.

 

Eu diria que a Maria João é bastante convincente a argumentar que existe oferta abundantíssima de hotéis e restaurantes que aceitam crianças, e que portanto nenhuma família corre o risco de não encontrar um telhado onde dormir ou um restaurante onde alimentar as suas crianças. O problema é que... o problema não é esse.

 

A Maria João não poderia ser mais clara: para ela, se o mercado funciona, então o legislador só tem de ficar quieto e não incomodar. Só que isto, para mim, nunca fui essencialmente uma questão económica (ainda que, é verdade, eu tenha argumentado com o facto de as crianças serem umas chatas e ninguém estar para as aturar - devo ter escrito isso num dia particularmente difícil aqui em casa).

 

Não se trata, portanto, de o mercado "funcionar" ou não, porque o mercado - ao contrário do que muitos pensam - não é a bússula que norteia a minha vida. Eu sou mais de esquerda do que pareço à primeira vista. (Deve ser por isso que gosto do Obama e a Maria João nem por isso, naquele que é, sem dúvida, o maior dos seus defeitos.) A minha questão é muito anterior à questão mercadológica - é uma questão de princípio, ou seja, trata-se de acreditar que está errado impedir uma família com crianças de entrar num local de livre acesso.

 

Claro que chegados a este ponto admito que não há muito por onde contra-argumentar, porque batemos na parede moral do certo e do errado. Para a Maria João defender o que defende implica que ela considere aceitável um estabelecimento dizer "criança aqui não entra porque faz barulho e chateia". Ora, eu considero isso, de facto, uma discriminação. Acho que é um argumento que não pode ser invocado a priori. Certamente que não é uma discriminação tão grave quanto dizer "você não pode estar aqui porque tem a pele preta", nem tão triste quanto colocar sapos de louça ou metal à entrada de lojas para que os ciganos não entrem. Mas é uma discriminação, ainda assim.

 

E isso, obviamente, é prévio às questões de saber se o mercado dá ou não resposta às necessidades de pais com filhos. Daí que o argumento da Maria João - "se o mercado resolve o problema, então o legislador só tem de ficar quieto" - seja inaceitável para mim. O mercado (é só uma comparação, ok?) também resolvia o "problema" na América dos anos 50 - o meu ponto é anterior a esse, ou seja, é ético e não económico.

 

Nesse sentido, eu e a Maria João estamos a discordar do assunto em planos diferentes. A sua análise económica parece-me muito bem feita, mas só é possível uma pessoa saltar para ela se não houver nenhum constrangimento ético em relação a esta questão. Eu tenho esse constrangimento. Ela não. E é por isso que - desconfio - nunca iremos chegar a acordo sobre o tema, por muitos posts que continuemos a trocar. É que se a discutir sobre economia já não é fácil duas pessoas concordarem, sobre filosofia, então, é melhor nem falar. 

 

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publicado às 10:13


8 comentários

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De Chico a 21.04.2014 às 20:36

Acho verdadeiramente incrível esta criançofobia.
Se acho agradável ouvir uma criança a chorar ao pé de mim? não... mas daí a defender que as mesmas devem ser proibidas em certos espaços, acho um absurdo e até perigos por vários motivos.
1. Questiono-me sobre que sociedade é esta que construimos e que falta de tolerância com os outros
2. É castrador da parentalidade. Ser pai ou mãe é dificil só pelo facto de se ter de educar uma criança. Se a isso somarmos uma sociedade que segrega com base no ruido infantil estamos a ver onde isto vai parar...
3. Precisa-se de mais apoio para os pais, não menos. Vivemos numa sociedade envelhecidade. Ainda que isto não fosse verdade, ainda assim não se justifcaria.
4. Todos formos crianças, todos tivemos birras. O minimo que podemos fazer é compreeder e aceitar.
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De liliana a 18.04.2014 às 20:02

Dava-me jeito era uns sapos que afugentassem criancinhas! :)
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De Carlos Duarte a 17.04.2014 às 15:55

Caro JMT,

Qual esquerda qual carapuça! A discussão dos direitos individuais vs deveres sociais não divide Esquerda e Direita. Divide, quanto muito na questão liberal vs conservador (à direita) ou liberal vs libertário (à esquerda). O que o JMT queria dizer não é que era mais de Esquerdo do que parece, mas antes que é menos liberal (anglo-saxónico) do que parece ;)
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De Anónimo a 17.04.2014 às 12:01

On topic:

A parte do sapos está bem vista, fez-me lembrar uma notícia (que não encontro infelizmente) de um tribunal que mandou retirar estes bichinhos de um café que tinha sido "redecorado". O Juiz considerou que fora intencionalmente discriminatório.

Off topic:

Lamento desapontá-lo mas... gostar do Obama não faz de si particularmente de esquerda... aliás o Obama dá grande jeito na medida em que serve de conversa neutra, tipo a meteorologia. Em caso de dúvida, fala-se do Obama e o pessoal sorri. Os nórdicos acharam-lhe tanta graça que até lhe deram um Nobel. Profiláctico vá, que foi antes de ele fazer alguma coisa.
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De VascoB. a 17.04.2014 às 12:03

Esqueci-me de assinar, que isto não é os AA ;)
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De Conceição M. a 17.04.2014 às 15:57

Então fui só eu que não percebi a dos sapos...
O que é que os sapos têm a ver?...
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De Conceição M. a 17.04.2014 às 16:52

Muito obrigado "excelso marido" :) (gostei da expressão do post anterior)
Já percebi - confesso que nunca tinha ouvido uma destas...
Boa Páscoa!

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