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Ir para além do razoável

por João Miguel Tavares, em 04.06.14

Vale sempre muito a pena ler os comentários do Carlos Duarte, desta vez em resposta aos argumentos da Teresa Power:

 

Cara Teresa,

Acho que depende muito do "conceito" [de amar um filho]. O que o João quereria dizer - e ele que confirme ou desminta - era que as crianças são, nos dias de hoje, alvo de muito mais "atenção formal" (obviamente, e pegando no comentário do LA-C, de classe média para cima - nas classes mais baixas as diferenças em relação ao passado serão menores ou nulas). Se quiser, e concordo plenamente com isso, trocou-se parte do "amor" como sentimento por um "amor" como obrigação (muitas vezes obrigação material).

Enquanto no passado, a falta de amor paternal (mais que o maternal) apenas era censurado socialmente quando se verificava situações de abandono (i.e. o pai "deixava" a família), sendo admitidas mesmo situações de negligência ou violência (o pater familias exclusivamente como ganha-pão e disciplinador), nos dias de hoje passou-se do 8 ao 80 e a censura social ocorre não só em situações de acção deliberada (i.e. o abandono, a violência), mas também de actuação passiva (não ir assisitir às actividades dos filhos). Mais, e parece-me que este é o ponto principal do João: passou-se de uma situação em que a Sociedade dava total liberdade (e quase total poder) aos pais sobre os filhos para uma em que a Sociedade se substitui à própria família, estabelecendo normas de conduta admíssiveis ou não que vão para além do razoável.

 

Entretanto, a Teresa Power concordou, e incluiu um exemplo concreto, bastante divertido, até porque eu próprio iria certamente comprar esse DVD:

 

Perfeito! Estamos a dizer o mesmo... O que é o amor? Recebi outro dia uma carta de uma empresa fotográfica através da pré-escola dos meus filhos, e que dizia assim: "É obrigação dos pais não só amar os filhos, mas também assegurar que acompanham a sua escola, fazendo e mantendo registos fotográficos de todos os momentos significativos... Sugerimos a compra de um DVD com as actividades escolares dos seus filhos ao módico custo de 22 euros..." Naturalmente que ofereci a carta aos meus filhos para eles usarem a página de trás para desenharem (somos muito poupadinhos aqui!) e só voltei a recordar esta carta agora, ao escrever este comentário.

 

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publicado às 10:02


6 comentários

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De IPM a 08.06.2014 às 12:15

Li isto e lembrei-me deste tema, por isso aqui fica: http://maegyver.blogspot.pt/2014/06/saber-dizer-nao.html
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De Olívia a 05.06.2014 às 09:46

A verdade é que nos dias de hoje a maioria das pessoas dá muita importância ao que os outros pensam... e por vezes temos tendência a procurar por todo o lado soluções para uma coisa que é "natural", ser pai ou mãe é uma coisa tão básica e nós andamos aqui a ler 1001 teorias... às vezes precisamos é de parar e pensar. Se não estamos bem porque será? Tive dias em que senti que não fui boa mãe, tive dias em que tive a certeza de que fui... se já gritámos com as nossas filhas? sim, já o fizemos (agora faço menos desde que aderi ao berra-me baixo) se já lhes demos castigos? Sim já demos. Se já as obrigámos a fazer uma coisa que não queriam, mas que era o melhor? Sim. Se já demos um "ralhete" a valer no meio de um local publico por qualquer falta de educação? Sim também já aconteceu! E isto faz de mim uma má mãe e do meu marido um mau pai? Paciência. Também somos nós que lhes contamos histórias e que brincamos ao faz de conta, e "comemos" os bolos de plasticina e revelamos as fotos para o concurso de fotografia e por aí fora... já fui massacrada com teorias e teorias e no fim de contas as coisas têm-se resolvido. Cada filho é como é, cada pai no seu intimo deve saber o que é melhor para o seu filho! E isto é uma coisa estranha, quando num processo de adopção temos de ouvir 50.000 vezes falar o superior interesse da criança até ficamos com a cabeça a andar à roda... mas com os filhos biológicos a conversa parece ser outra. Fica registado que eu gosto das minhas filhas por igual, mas quando precisarem que lhes diga "não" vão ouvi-lo, de certeza que vão!!!
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De Sofia Lopes a 04.06.2014 às 16:08

mas qual é o pai ou mãe que no seu perfeito juízo acha mesmo que o amor que sente pelo seu filho se mede num dvd de 20 euros (ou 200, ou 2.000)?! opá, ao menos fossem mais subtis, isso é um verdadeiro atentado à inteligência!
a censura social parte primeiro de mim, eu e a forma como eu me vejo e analiso, é que dita se um ato é ou não censurável, não é o que os outros ditam!
é como eu digo sempre, dá-se demasiada importância ao que os outros pensam. "ai o pai da joaninha não veio à festa do dia da flor, onde é que já se viu, aquilo é que é um pai ausente!". pois, mas se calhar o pai da joaninha passa os fins-de-semana a acampar na sala com a joaninha enquanto a mãe da nonô vai à festa do dia da flor, do dia da estrela-do-mar e do dia da concha amarela mas quando chega a casa empurra o tablet para o colo da miúda porque "tou com uma enxaqueca"
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De Mário Cordeiro a 05.06.2014 às 12:41

Adorei!
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De Anónimo a 05.06.2014 às 14:45

Gostei do comentário, é bem verdade!
Senti isso qnd na festinha da Família não pude estar presente á última da hora. Não fui, mas pai esteve presente!
Senti me mal é verdade, verdadinha.....mas não é isso que vai medir o amor que sinto pela minha filha, porque no dia a dia dela estou sempre PRESENTE!
Mas no dia seguir foi um tal de perguntar (Não veio mãe? Então? Foi tão giro?!) Uma pessoa sente se mal, é verdade!
E minha filha não esteve só pai foi a dita festinha!
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De Isabel a 04.06.2014 às 15:18

Este debate está muito interessante. Aconselho a leitura do livro " Amor Incerto " de Elisabeth Badinter. Já e antigo mas da uma boa perspectiva da educação e cuidados com crianças ao longo do tempo.
Ha, notoriamente, um exagero formal na educação, nos nossos dias.
Estou muito atenta a este e outros blogues pois sou avo e vejo a dificuldade que os pais sentem em relação aos seus filhos, numa culpabilizacao constante, porque as criancinhas exigem e o mercado agradece.
E só uma achega de avo atenta.
Isabel

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