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João Miguel Tavares deita-se no divã

por João Miguel Tavares, em 05.06.14

Não se preocupem: prometo que não vou começar a falar de mim próprio na terceira pessoa do singular. Ainda não cheguei a jogador de futebol. Mas é que recebi na caixa de correio do Pais de Quarto um mail da Ana que dizia o seguinte, a propósito do longo artigo que escrevi no Público de domingo.

 

Eu, que andava tão entusiasmada com os seus posts sobre pais/ filhos, fiquei ontem, quando li o seu artigo no Público, muito desiludida com uma afirmação sua: “Temos filhos porque tem de ser”.

 

Desde o começo deste debate, tem-me vindo ao pensamento que poderia lançar no seu (e da Teresa) blogue a pergunta: Porque é que temos filhos?

 

Vamos por partes. O desafio de lançar a pergunta está aceite, parece-me óptimo, e será efectuado já no próximo post. Por agora, deixem-me só tentar esclarecer aquele "temos filhos porque tem de ser", porque não foi bem isso que eu escrevi, e certamente que a intenção não era dizer que devemos ter filho por obrigação. Coitadas das pessoas que não podem ou não querem ter filhos. A minha frase original é esta:

 

Se nós pararmos de acreditar que ter filhos é suposto ser uma coisa divertida, e passarmos a aceitar antes que é uma coisa que deve ser feita, e que nos devolverá no futuro, com juros, aquilo que nos tira no presente, talvez o próprio presente se torne mais fácil de suportar.

 

E é esta aclaração, para utilizar uma palavra agora tão em voga, que me obriga a ir deitar-me no divã, onde me encontro a rabiscar este texto para tentar esclarecer o meu ponto de vista e explicar porque escrevo o que escrevo.

 

Ao contrário do que muitos possam pensar, eu não escrevo tantas vezes sobre a minha família para tentar mostrar que sou um bom pai. Às vezes escrevo para tentar convencer-me de que sou um bom pai; a maior parte das vezes escrevo para tentar compreender as minhas próprias insuficências como pai, e encontrar caminhos para que eu próprio possa ser mais feliz, mais paciente e estar mais pacificado com a minha própria vida e dentro da minha própria casa.

 

É uma perspectiva muito egoísta. Mas eu sou um animal a necessitar de permanente domesticação familiar - é provável que boa parte dos homens seja assim. Há um bicho dentro de mim sempre a exigir mais tempo para as minhas necessidades, que me convida a um constante auto-centramento, que me pede atenção a toda a hora. Eu preciso de combater esse bicho.

 

É assim como nas tentações de Cristo: nós estamos sempre a ser levados - e levados, a maior parte das vezes, por nós mesmos - para o topo de uma montanha de onde se vêem todos os reinos do mundo. E convencemo-nos de que tudo aquilo poderia ser nosso se a nossa vida fosse diferente, se tivéssemos um bocadinho mais de tempo, de não tivéssemos tanta coisa a pesar sobre os nossos ombros.

 

Dizer "não" a essa terrível tentação que nos quer convencer que somos muito mais do que realmente somos é uma absoluta necessidade minha. É um combate egoísta, mas que, curiosamente, não tem de ser feito só por causa de mim - tem também de ser feito pelos meus filhos.

 

Quando as crianças são muito pequenas e muito dependentes, a felicidade delas decorre muito da nossa própria felicidade. Eles sentir-se-ão tanto melhor na sua família quanto eu me sentir bem na minha família. Porque dessa forma serei com certeza um pai mais atento, mais paciente, mais carinhoso.

 

Em linguagem cristã, trata-se de saber morrer para viver de novo - mas eu sou um péssimo cristão. Ou então sou um óptimo cristão, que não concebe esse morrer como puro sacrifício, mas como pura dádiva. Ou seja, a boa entrega - aos teus filhos, à tua mulher, ao teu próximo - tem de ser uma entrega pacificada, e não revoltada. E as minhas entregas - porque eu entrego-me - são, demasiadas vezes, bastante revoltadas.

 

Daí que aquilo que me interesse, em relação aos filhos, é encontrar mecanismos que me permitam cumprir da melhor forma o meu papel de pai, sem a ganga das frustrações não cumpridas. Aquele "temos filhos porque tem de ser" não é uma obrigação que eu quero impor à humanidade - é um mecanismo que permite desligar-me da tomada do prazer permanente.

 

Se nós estivermos convencidos de que ter filhos é uma coisa que tem de ser necessariamente divertida, corremos o risco de viver em permanente estado de frustração - porque ter filhos pequenos, boa parte do tempo, não tem graça nenhuma. Mais vale convencermo-nos - é esse o sentido da minha frase - de que é uma coisa que tem de ser feita (quando já temos filhos, como é óbvio), porque assim a alegria virá por acréscimo. Trata-se de receber a alegria como uma bênção, e não como um "tem de ser".

 

A secularização do mundo deixou-nos míopes, no sentido em que deixámos de ver ao longe. Independentemente da existência de Deus, é muito difícil viver bem só com os olhos postos no presente. Precisamos sempre - eu preciso, pelo menos - de uma teleologia, de ver ao longe um propósito, uma finalidade, não necessariamente num outro mundo, mas daqui a 10, 20 ou 30 anos. Daí agarrar-me com todas as forças que tenho ao dever do presente, procurando criar mecanismos para deferir o prazer para o futuro.

 

Daí, também, o facto de, nos dias de hoje, o impacto dos filhos nos pais me interessar bastante mais do que o impacto dos pais nos filhos. É puro egoísmo, no sentido em que a minha felicidade, em termos intelectuais (não em termos práticos, claro), me interessa mais do que a deles; é altruísmo, no sentido em que sem essa felicidade própria serei sempre pior pai.

 

As pessoas parecem muitas vezes esquecer-se de que os casamentos e as famílias não desabam porque as crianças são infelizes. Os casamentos e as famílias desabam porque os pais são infelizes. Daí que a pergunta que me persegue, tanto em termos pessoais como gerais, seja: como encontrar mecanismos para que nós, adultos, sejamos mais felizes dentro das nossas próprias famílias do que somos hoje em dia.

 

É por isso que estou neste divã. A maior parte das pessoas está concentradíssima em saber como criar e educar os filhos para que eles possam vir a ser felizes. Parece-me muito natural. A minha colega de blogue também está muito interessada nisso. Mas eu continuarei solitariamente, teimosamente, egoistamente, a averigurar como ajudar os pais para que eles próprios (e eu, em primeiro lugar) consigam ser mais felizes, já que sem essa felicidade prévia - ou, pelo menos, sem alguma espécie de pacificação interior - tudo o resto se desmoronará como um castelo de cartas.

 

 

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publicado às 09:35


22 comentários

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De mãe a 16.06.2014 às 03:32

Mãe de 5, por aqui. Li o post na diagonal, que o sono é muito... mas o último parágrafo, não podia concordar mais. :)
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De Kate a 05.06.2014 às 23:42

Eu concordo plenamente com a ideia de pais felizes, filhos felizes. Aliás, não conheço nenhuma família em que os pais sejam felizes um com o outro e as crianças sejam infelizes.

E para falar de uma experiência pessoal, os meus pais nem sempre tiveram muito tempo para estar em casa comigo e com o meu irmão, não nos ajudavam a estudar, não brincavam propriamente connosco mas souberam-nos transmitir essa felicidade. E isso basta que sejamos felizes, a parte das discussões corriqueiras que por vezes também temos...
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De mae sabichona a 05.06.2014 às 21:30

Não consigo imaginar ter um filho com o objectivo de ser algo que dê frutos no futuro. Ainda que ache que ter um filho se relaciona também com questões existenciais, nomeadamente como uma forma inconsciente de aceitar melhor a morte através de um sentido ou propósito na continuidade, só me fez sentido tê-lo para que pudéssemos viver no presente, dia a dia, tudo o que essa experiência tem para nos oferecer.
Apesar de não ser possível conciliar com tudo o que nos dava prazer quando éramos apenas um casal, penso que há uma aceitação bastante pacífica de que é uma etapa que implica certos sacrifícios. Mas são sacrifícios com retorno imediato, caso contrário, e sendo eu uma pessoa que partilha desse egoísmo que descreve (não sou nada uma mãe abnegada), seria muito complicado para mim sentir-me feliz. Se a felicidade fosse uma meta no tema filhos, não sei bem como conseguiria lidar com as dificuldades. Portanto, o "desprazer" é aceite porque também há bastante prazer. Tal como havia antes de termos filhos e em qualquer outra circunstância da vida.
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De Anónimo a 05.06.2014 às 19:44

Olá somos um casal com 3 filhos ,fazemos os possiveis para ajudar os nossos filhos a encontrar a felicidade pois ela não depende só da boa vontade dos pais,a nossa felicidade como casal e conseguir como prioridade de educaçao ensinar transmitindo valores , que a própria felicidade é a capacidade que temos de conseguimos agarra-la quando nos aparece e não a desperdiçar com desculpas que não conseguimos por isto ou aquilo .Devo dizer que não acredito que os filhos possam levar um casamento ao descasamento isso são desculpas para aquilo que já estava mal ,realmente da mesma forma que sou respeitada pelo fato de os filhos fazer parte de um projecto de vida , aceito plenamente quem não o opta para si mas não entendo quem o aceitou e depois desertou.
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De Susana a 05.06.2014 às 15:49

Olá João e olá a todos!

Tenho mais do que idade para ser mãe de filhos e feliz ou infelizmente o relógio biológico, por aqui, ainda não deu horas.
Sou muitíssimo bem casada com um homem que nem nos seus sonhos mais recônditos sonha ser pai - será por isso que andarei certamente relaxada em relação a esta questão.
No entanto, à nossa volta o que não faltam são casais com filhos e, dentro da "amostra", posso dizer-lhe uma coisa curiosa: todos, sem excepção, sofreram valentes abanões no casamento. E a razão é simples: elas, sim, queriam ser mães e eles fizeram-lhe o "jeito".
Os únicos que se safaram desta minha constatação, foram os casais em que ele realmente queria ser pai.
E, provavelmente, já sei o que dirão...isso é desculpabilizar os homens. Não, não é. E sei que a decisão de ter filhos deverá ser comum, mas como mulher que sou, sei muito bem que, nestas matérias (como em tantas outras) as mulheres ganham sempre.
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De Anónimo a 05.06.2014 às 15:11

Li e lembrei-me de si :)
http://activa.sapo.pt/arquivo/2014-06-03-Maes-a-beira-de-um-ataque-de-nervos;jsessionid=82B33F474D8DEF416B9D7C563A6FC8EE
Ah coiso e tal a maternidade é linda... mas tem a outra face, como quase tudo na vida.
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De Polliejean a 05.06.2014 às 15:09

Subscrevo quase inteiramente, menos aquela parte do cristão ;)

Já diz a Magda-Mum´s the Boss: Pais felizes, filhos felizes!
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De Sofia Lopes a 05.06.2014 às 15:08

pois eu não concordo nada com o "ter filhos (...) é uma coisa que deve ser feita, e que nos devolverá no futuro, com juros, aquilo que nos tira no presente"
parece aquela coisa do "filhos és pai serás, conforme fizeres blablabla" - é o quê, ter filhos como uma espécie de seguro de vida, para ter alguém que nos ampare na velhice? para não ficarmos sozinhos neste mundo? eu não sei muito bem porquê que tive um filho (ainda bem que o tive!), sempre pensei que gostava de ter um carradão de filhos porque cresci no meio de 4 irmãos e acho o máximo ter uma família grande, por enquanto só tenho 1, mas a troika ajude e trabalharei para pelo menos mais 1. mas sempre pensei que ia ter filhos, faz parte da minha visão do mundo, nós temos filhos porque sim :) nunca pensei muito nisso, na verdade, na motivação para ter filhos... (ó pra mim sentada no divã...) porquê ter filhos...? lá está, porque sim! não há um motivo, acho eu, pelo menos para mim... (não estou a gostar lá muito de estar sentada no divã, pareço-me assim um bocadinho insensível... e agora lembro-me da questão "amas-me? sim! porquê? errr... pois não sei... uma pessoa ama a outra porque sim, não é? ama apesar de, acho eu...)
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De Carlos Duarte a 05.06.2014 às 14:54

Caro JMT,

Parabéns pelo post, subscrevo o mesmo por inteiro.

Sem querer transformar - mais uma vez - este blogue em um espaço teológico (num espaço teleológico espero que sempre) ou filosófico, permita-me que pegue num excerto do seu texto que me parece particularmente importante:

"Em linguagem cristã, trata-se de saber morrer para viver de novo - mas eu sou um péssimo cristão. Ou então sou um óptimo cristão, que não concebe esse morrer como puro sacrifício, mas como pura dádiva. Ou seja, a boa entrega - aos teus filhos, à tua mulher, ao teu próximo - tem de ser uma entrega pacificada, e não revoltada. E as minhas entregas - porque eu entrego-me - são, demasiadas vezes, bastante revoltadas."

Acho que está a ver as coisas um pouco ao contrário - o facto de RACIONALMENTE ir contra os seus desejos (que são, no fundo, irracionais ou instintivos) só dá mais valor ao sacríficio. O caminho que cada um de nós percorre vale tanto (ou mais) que o final da viagem, até porque esse final é ilusório. Um bom cristão é "bom" não porque se sacrifica de forma pacifica, mas sim porque se sacrifica. Se para isso teve de vencer revoltas externas e lutar contra si mesmo, só dá mais valor ao sacríficio.
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De Isabel Prata a 05.06.2014 às 14:38



Um dos problemas do João MT, e que é comum a uma multidão de homens, é ser um chorão. E um eu, eu, eu e eu. O JMT dá mais nas vistas porque escreve isso. Estão sempre a chorar as mordomias de que são obrigados a prescindir pelo facto de terem filhos. O mundo seria muito diferente se os homens carregassem as crianças 9 meses e a seguir as pusessem cá fora e a seguir as amamentassem durante dias ou meses. Quantas vezes adormeci enquanto amamentava um bebé durante a noite, de sono e exaustão. O que é que tudo isso me deu? um grande arcaboiço para aguentar as grandes coisas e também as pequenas, como recusar todos os convites para um jantar de amigas, uma ida ao cinema etc Deu-me uma cabeça capaz de por os filhos em 1º, 2º e 3º lugares e ainda com capacidade para outros milhares de coisas. A sério, o mundo seria muito melhor se os homens não fossem tão chorões (a maioria das vezes).
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De Sofia Lopes a 05.06.2014 às 15:13

ahahahahah, completamente!!! tenho um verdadeiro chorão em casa, drama queen mesmo, e não é o de 16 meses, antes o de 36 anos :D :D :D

mas sabe que mais - quero lá saber... é nessas alturas que desligo o botão interno enquanto murmuro "hum-hum" (shame on me!)
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De António a 05.06.2014 às 16:25

Isabel, com todo o respeito não leve a mal o que vou dizer...
Mas depois de ler o seu comentário (leia outra vez sff:), diga-me lá que que é o chorão?
Eu tenho dois meninos, um de 4 anos e outro de 6 meses. à vezes também sou chorão como eles, muitas vezes porque não posso voltar a ter a vidinha que tinha antes. Mas acredite que me trazem muito mais felicidade os dois artistas do que frustração por saber que não posso voltar ao antigamente.
A mulheres choram porque carregam o filho 9 meses. porque dão à luz, porque ficam gordas, porque o marido não ajuda, porque o marido é chorão, porque o menino não arrota, porque não mama, choram porque sim,choram porque não e quando não têm mais nada para chorar encontram sempre algum motivo para sofrerem e mostrarem que sofrem.
E quem é que atura a mulher chorona? É o pai! E o pai não chora, porque a mãe é linda (é mesmo:), porque a ama muito, moesmo quando ela chora.
Não me levem a mal, eu adoro a minha mulher chorona!
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De Sofia Lopes a 05.06.2014 às 16:29

resumindo e baralhando - somos todos uns cry babies! e aqueles que coitados choram porque não têm outra forma de comunicar (os real babies), devem ficar naqueles - mas estes gajos são doidos!
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De Isabel Prata a 05.06.2014 às 17:40

Cada um fala do que tem em casa, António, ou dos que se passeiam em seu redor. Quem lhe disse que eu me lamentei durante as gravidezes, os partos (na hora sim, claro. mas nem quero imaginar um homem naquela situação) ou quando amamentei? Digo que a perspectiva menos auto-centrada das mães também vem daí. O que não quer dizer que não haja excepções para um lado ou para o outro.

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