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Maus exemplos

por João Miguel Tavares, em 01.08.14

Ontem à tarde o Tomás e uma amiga sua (mais a mãe do Tomás) insistiram muito comigo para irmos jogar à bola para um parque próximo da nossa casa, onde há um campo que já é velho mas que agora tem balizas novinhas em folha. Os miúdos costumam ser doidos por balizas verdadeiras.

 

Lá fomos, mas como já estávamos perto das cinco da tarde, ambas as balizas estavam ocupadas. À volta de uma delas estava um enxame de 12 ou 13 putos, com um guarda-redes e duas equipas. À volta da outra estava um único pai e um único filho.

 

Para meu grande espanto, o Tomás, que costuma ser um envergonhado de primeira, foi ter com o solitário pai (o prazer do futebol dá-lhe uma insuspeita coragem) e perguntou-lhe se nós podíamos jogar com ele e com o filho. Respondeu o pai:

 

- Ele é que sabe [apontando para o filho], mas vocês têm muito espaço para poderem jogar.

 

Era verdade quanto ao espaço: havia um bom bocado de campo vazio lá no meio. Só que - claro - não tinha balizas.

 

Perante aquela resposta do pai, aconteceu o óbvio: o filho disse que preferia continuar a jogar sozinho com o pai, alternando nos pontapés à baliza. E assim continuaram durante uma hora (saíram pouco antes de nós próprios nos irmos embora), pontapé para aqui, pontapé para ali, os dois sozinhos a jogar à bola. Confrontados com a nega, nós acabámos por nos juntar a um outro par de miúdos que chegou a seguir, improvisámos umas balizas no meio do campo, e divertimo-nos na mesma.

 

Claro que eu não tinha o direito de dizer nada àquele pai - não houve ali nenhuma injustiça evidente cometida. Eles tinham chegado primeiro, apanharam a baliza, e não eram obrigados a aturar-nos. Mas a verdade é que continuo a remoer isto desde ontem, sobretudo por me irritar profundamente a incapacidade daquele pai em perceber o péssimo exemplo que deu ao seu filho.

 

Nunca perceberei porque se deve perder uma oportunidade para se ser generoso num caso como este, quando é tão fácil sê-lo. Para quê pai e filho ficarem fechadinhos junto de uma baliza, quando um dos encantos do futebol é precisamente ser um desporto colectivo onde cabe sempre mais um?

 

O filho até podia ser um tímido do caraças e ter vergonha de jogar com os outros. Mas aquilo que aquele pai fez naquele momento foi valorizar o egoísmo e o auto-centramento daquela criança, em vez de a enturmar com miúdos da idade dele. Já que por aqui não me deixam dar nalgadas aos filhos, acham que posso ao menos dar umas nalgadas aos pais? 

 

 

 

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publicado às 14:59


17 comentários

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De Rute Silva a 16.08.2014 às 19:04

Hoje li esta opinião: " http://uptolisbonkids.com/2014/08/14/porque-nao-obrigo-o-meu-filho-a-partilhar/" e lembrei-me deste post seu... Fica um outro ponto de vista...
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De Sofia a 18.08.2014 às 16:29

Li este post há uns dias e fiquei a pensar no assunto, sobretudo acerca do texto que li via comentário da Rute Silva.
Se, por um lado, é verdade que o 'mundo real' não é linear e que muitas vezes (quase sempre!) temos de nos deparar com situações que exigem o máximo de nós, por outro lado é importante não esquecer que vivemos em comunidade.
É verdade que hoje em dia vivemos numa 'selva': as crianças já não podem brincar sozinhas na rua, não há empregos para toda a vida (ou emprego, de todo), o mercado é cada vez mais concorrencial, o mundo é cada vez mais exigente. Por esse motivo, talvez seja fácil deixarmo-nos levar por comportamentos que podem não ser os mais indicados."Não queres, não faças" talvez seja um dos principais impulsionadores dos chamados "pequenos ditadores" - porque todos temos de ouvir um não e de saber dizer que não.
Se é legítimo que uma criança pode não emprestar o seu brinquedo a outra porque a sua vontade precisa de ser respeitada, também é verdade que a gentileza, a bondade e a partilha são qualidades que devem ser premiadas. Por um futuro melhor.
O papel dos pais não é ensinar às crianças O QUE fazer: O papel dos pais é ensinar os seus filhos a saber COMO fazer, a pensar, a ponderar, a decidir.

Sofia
trezeemais.wordpress.com
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De Teresa Power a 12.08.2014 às 11:39

Acabada de regressar de férias da Irlanda, onde crianças aos molhos brincam juntas nos "greens" dos seus bairros, não posso deixar de concordar inteiramente contigo, João!
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De Anónimo a 08.08.2014 às 18:02

E se os pais deixassem a bola para os miúdos? Passei por esse campo que fica perto de minha casa tbm e tive oportunidade de observar não o que descreve mas outra imagem, se me permite, de fora, os 2/3 adultos que encontravam dentro de campo rodeados de um enxame de crianças bem podiam/deviam nem lá estar. Nem à baliza. Um pai só devia substituir a parede. Havendo mais de dois, é deixá-los. Eles resolvem e aprendem mais.
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De João Miguel Tavares a 08.08.2014 às 19:54

Discordo. Os pais servem de reguladores. Impõem as regras, servem de árbitros, equilibram as equipas e deixam que outros miúdos que vão aparecendo entrem no jogo. Sem pais, com um enxame de 20 miúdos, aquilo ou acaba em três tempos ou os mais pequenitos não têm sequer hipótese de tocar na bola. É a lei do mais forte que impera. A cena do bom selvagem é uma treta. Nesses casos, os pais fazem muita falta.
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De Anónimo a 08.08.2014 às 20:50

Antes demais, deixe-me que lhe diga que tenho um enorme respeito e sinto uma profunda admiração por si. Acho mesmo, sem ponta de graxismo, que é um herói dos tempos modernos. Ir ao leme de uma nau como a sua e ainda ter tempo para questionar o rumo, é obra!
Em relação ao tema em questão, concordo 100% com a sua observação... mas existem outras. Como frequentador assíduo desse jardim e tbm pai de um (ainda sem idade para pontapés na bola) já me deparei no referido campo com uma situação pior do que a que descreve - cerca de 4 binómios pai-filho brincavam separadamente. Na altura, do meu ponto de observação não consegui deixar de pensar que mais valia os pais irem beber uma cerveja os e deixarem os miúdos jogar uns com os outros.
Ou seja, na minha opinião, este parece ser um caso de "o venho, o burro e a criança".
Façamos um pouco de ficção. o pai e a criança são distantes. o pai tem de trabalhar muito. demais. não tem tempo. há semanas que a criança pede para o pai tirar uma hora para brincar à bola com ela. o pai acede. Vão brincar.
Não tem a criança o direito ao usufruto exclusivo do seu pai?
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De TNL a 06.08.2014 às 17:58

Compreendo a fúria gerada pela atitude do outro pai e no seu lugar, provavelmente teria o mesmo pensamento. Pelo menos até ontem por esta hora, altura em que li este artigo: http://www.sunnyskyz.com/blog/365/This-Mom-Perfectly-Explains-Why-She-Does-Not-Teach-Her-Kids-To-Share#rm53Ml8bySLIyvSK.01

Hoje não sei bem como reagir...
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De Simplesmente Ana a 04.08.2014 às 16:14

A minha postura seria incentivar a minha filha, mas, se ela mantivesse a nega, paciência. Não ia arranjar stress por causa disso, mas claro que ficaria um tanto ou quanto desconfortável.
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De Sofia a 04.08.2014 às 09:35

ai ao pai acho excelente - desde que as crianças não vejam, obviamente.
que raio de pai esse...
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De Andreia a 04.08.2014 às 09:11

Acho que a coisa pode ser vista dos dois lados..
Eu, por exemplo, tenho 4 filhos, 3 são meninas. O meu menino adora fazer uma coisa especial só com o pai. "Os homens". Ele gosta, sente-se importante e não perdido no meio de tanta miúda ;). Tenho a certeza que o meu marido não se oporia ao jogo e o meu filho também não, mas podia ser um momento apenas deles...

Há que não julgar sem ter conhecimento de causa do momento ou da vida de cada um...
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De ML a 03.08.2014 às 21:57

Claro que podes. Isso é lá atitude que se tenha?! Mas quer-me parecer que se tivessem aceite, ao primeiro golo sofrido o Pai ou o miúdo, um deles pegava na bola, saiam de campo e amuavam. :p
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De Maria2 a 03.08.2014 às 00:20

Aleluia :) Concordo..embora não desse nalgadas ao pai :)

Sobre os exemplos que damos enquanto pais...Há uns tempos também assisti a um episódio curioso.

No Parque do Alvito, uma menina passava por um tronco de madeira, tipo ponte, que estava entre duas casinhas.

O meu filho e mais uns 3/4 miúdos entraram pelo lado oposto. Eu vi, mas não disse nada, pois chegando a meio, facilmente iriam perceber que teriam de voltar atrás. Ou talvez conseguissem intercalar entre eles. Se não fossem eles, seria a menina, mas certamente se entenderiam.

Caso não houvesse solução, eu estava lá para orientar e ajudar a pensar em como podiam ter evitado o "problema" e o que fazer perante o facto de nenhum conseguir passar para o outro lado com facilidade.

Ora a mãe da menina, que estava mesmo ao pé, desatou aos gritos aos miúdos, a dizer que iam matar a filha(?!), se não viam que ela estava lá antes, enfim. Agarrou na miúda e obrigou-a a voltar atrás de um modo bem mais agressivo do que o modo como os outros meninos avançavam, acabando por tirá-la.

Perante a gritaria, eu que estava por trás e que assisti a tudo, sabendo que a menina nunca esteve em risco, disse calmamente que não era necessário gritar.

A senhora continuou aos gritos, descontroladamente, desta vez comigo, dizendo que se a filha caísse morria, etc. Fiquei com a sensação de que ela não contava que alguém lhe dissesse alguma coisa sobre o facto de andar a gritar com os filhos dos outros e que se sentiu...apanhada.

Eu voltei a repetir muito calmamente (não sei como!) que estava tudo bem e que não era preciso gritar.

A senhora não se acalmava, gritava as mesmas coisas, a filha mais assustada com a reacção dela do que com o que os miúdos, o pai também com a mesma postura agressiva. E eu voltei a dizer, com voz calma, que não era necessário gritar.

Finalmente, a senhora vai-se embora (ainda aos gritos), dizendo que não era mal-educada e que a conversa acabava ali. Hum?!

Conclusão: algo que as crianças facilmente teriam resolvido passou a uma cena de terror sobretudo para a miúda, porque a mãe não conseguiu controlar-se. A criança não aprendeu a resolver problemas, a dialogar/cooperar, a pensar em soluções. A mãe salvou-a de uma situação que nem era de perigo e a filha aprendeu que, quando temos um potencial problema, gritamos, ficamos inseguros, entramos em pânico e desistimos.

O interessante é que a menina tinha uns 4 anos e o equipamento tinha referido como limite mínimo de idade os 6 anos.

Depois, mais tarde, nos baloiços e nos outro equipamentos, percebi que o problema não foi com os miúdos. Os pais tratavam a menina como se fosse de cristal, não a deixavam fazer grande coisa e tudo o que fazia tinha de ser muito controlado por eles. Tratavam-na como se tivesse 2 anos.

A única coisa que me deixou feliz foi o facto de os meus filhos e os outros miúdos, perante a cena, continuarem a brincar como se não houvesse nada para ver e eu ter conseguido permanecer calma perante a agressividade da senhora. Ainda hoje me pergunto como.

Já agora, adoro a maneira como os meus filhos metem conversa com os outros e com os adultos por causa de uma bola. Parece que uma bola une as crianças e os adultos. Até eu acabo por meter conversa com quem nunca vi.

Graças a Deus, nunca tivemos uma nega no futebol. Mas já tivemos uma na areia de um parque infantil e o meu mais velho, que é todo dado, ficou um bocado sentido porque não entendia como era possível um menino não querer brincar com ele?!







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De Bruxa Mimi a 03.08.2014 às 12:10

De facto há exemplos pouco exemplares! :-)
O contraditório no comportamento dos pais dessa menina é que, por um lado, a tratavam como se tivesse dois anos e, por outro, a colocavam em equipamentos para crianças com idade superior à dela!
Parabéns por se ter mantido calma perante a gritaria da outra senhora.
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De Sn a 01.08.2014 às 19:17

Relativo. O meu filho é introvertido, precisa de tempo para se relacionar com outras crianças, principalmente se o grupo que se aproxima já se conhece entre si. Da ultima vez que nos aconteceu uma situação semelhante e partilhámos a baliza ele acabou num canto sem conseguir integrar se no grupo (que já se conhecia). Fiquei triste, por ele não conseguir integrar-se, mas também acho que também tenho que respeitar a personalidade dele.

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