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Nós existimos, meus senhores

por João Miguel Tavares, em 15.01.14

Vou dizer-vos uma coisa que me irrita tanto quanto as pessoas guardarem mesa no McDonald's sem estarem a comer ou não se saberem encostar à direita nas escadas do metro: irrita-me profundamente quem acha que o amor, todo o amor, qualquer amor, envolve invariavelmente, no longo prazo, uma dose cavalar de abdicação dos impulsos vitais do ser humano e de acomodação ao ramerrame de uma relação mais parada do que as águas de uma barragem onde já não chove há meses.

 

Tens uma relação estável há 20 anos? Então é porque as coisas verdadeiramente boas da vida não te interessam. Casaste-te com a tua primeira namorada? És um analfabeto sentimental, que nunca andou metido na divertidíssima montanha russa das paixões. Subitamente, parece que a monogamia é vista como uma falha: permaneces numa relação apenas porque nunca viste melhor; a fidelidade torna-se o refúgio dos que receiam pôr um pé fora do ninho. É como se o amor andasse de mãos dadas com uma espécie de cobardia existencial.

 

No dias de hoje, um monogâmico ou é um infeliz ou é um coninhas. E se garantir a pés juntos que não é uma coisa nem outra, é um mentiroso.

 

Chiça, como esta maneira de pensar me irrita! É que eu estou sempre a levar com ela em almoços e jantares, ainda que por indirectas. E sabem porquê? Porque na porra deste mundo em que todos nós nos adoramos e nos consideramos o centro do universo, já que no domínio do indivíduo se fez uma revolução copernicana mas ao contrário, aqueles que fogem à norma só podem ter uma qualquer falha estrutural. Um casamento só pode ser uma de duas coisas: feliz e instável ou estável e infeliz. Estável e feliz? Isso não. É uma impossibilidade lógica, segundo o Teorema das Paixões Modernas.

 

Eh pá, eu admito perfeitamente que duas pessoas amarem-se profundamente durante uma vida inteira é uma raridade, assim como descobrir pepitas de ouro numa ribeira ao pé de casa ou um poço de petróleo no quintal. Mas bolas: é possível. Difícil, muito raro, mas possível. E portanto, enquanto o amor de longo prazo for uma genuína ambição humana - porque continuar a ser, já que praticamente ninguém abdica, nalguma altura da sua vida, de procurar o Mr. ou a Mrs. Right -, as pessoas que o conseguem praticar não devem ser olhadas como freaks ou nerds, mas como excepções, raridades, epifenómenos que devem ser olhados com carinho e atenção.

 

Ou seja, a atitude das pessoas deveria ser exactamente a oposta à habitual. Um casal monogâmico que se assegura feliz há trinta anos é um objecto digno de admiração - e não de dúvida imediata e permanente quanto à sinceridade dos seus sentimentos. Abaixo este totalitarismo relativista que quer enfiar toda a gente no mesmo saco! Até parece que a única forma que muitas pessoas têm para justificar as vezes em que as suas relações correram mal é garantindo a impossibilidade das relações dos outros correrem bem.

 

Atenção: não se trata aqui de defender o quão espantosos, únicos, meritórios e dignos de admiração são os monogâmicos de longo prazo. Mais: admito perfeitamente que eles não tenham mérito quase nenhum. Talvez seja mera sorte. Talvez seja uma qualquer compatibilidade hormonal. Talvez esteja tudo nos genes, e não num qualquer caminho sentimental digno de aplauso.

 

Mas, por favor, estudem essas pessoas - não duvidem delas. Ponham-lhe o sangue em pipetas, encham as suas caixas toráxicas de fios, scaneiem-lhes o cérebro. Sim, um amor que dura décadas é uma raridade. Sim, pessoas genuinamente apaixonadas dos 17 aos 97 são para aí 0,001% da população mundial. Mas existem. Existem. EXISTEM, PORRA!

 

E pronto, era só isto. 

 

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publicado às 09:42


51 comentários

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De TC a 21.01.2014 às 11:15

Curiosamente, enquanto parte integrante de uma equipa com variadas nacionalidades, vim a aperceber-me de que muitos colegas de outros países vêem o povo Português como capaz de manter longas relações, muitas delas começadas ainda na adolescência. Numa noite num jantar, levantou-se esse tema, e lá está, muitos colegas viam nestes indivíduos, pessoas que mais tarde ou mais cedo seriam infiéis ou viveriam uma relação frustrada, pois da vida conheciam muito pouco. Não me querendo estender no conteúdo da conversa, posso apenas dizer que ouvi a melhor explicação de sempre no que diz respeito ao investimento que se faz numa longa relação, que, passado a citar: Se o meu primeiro carro foi um Ferrari, se tive a sorte de o poder comprar e se me deixa feliz, porque hei-de procurar um de gama mais baixa? Só para experimentar?". E acho que esta frase diz tudo, sobre os sortudos que encontraram o amor cedo, e sobre os ainda mais sortudos que o conseguem manter durante anos e anos!
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De Helena Duque a 17.01.2014 às 18:50

Não podia concordar mais com qualquer palavra aqui escrita.

Até à próxima xx
ww.helenaduque.com
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De Xico a 15.01.2014 às 23:46

Os meus queridos pais celebraram no passado dia 25/10/2013 o seu
sexagésimo aniversário + 8 de namoro mas isto hoje em dia são casos cada vez mais raros ( quando a média de um casamento é 3 ou 4 anos) não é de admirar que as pessoas estranham quando alguém tem uma relação feliz e estável. Vivemos numa sociedade em que tudo é descartável...pessoas relações, etc. Adorei o seu comentário e faço votos que seu casamento dure tanto ou mais de que o de os meus queridos pais.

P.S. Não podia deixar de comentar, que adoro ver o Governo Sombra:)
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De Pedro a 15.01.2014 às 23:34

Isto está a começar a parecer-se com um sketch dos Monty Python.:)
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De Maria a 15.01.2014 às 23:31

Caro Joao !
Aqui se debateu um assunto em que me revejo muitas vezes:
Casamento de 25 anos, 3 filhos (...tudo se cria !!!),eu QUIS casar cedo, eu QUIS ter os 3 filhos eu AMO a minha família assim...
Mas também oiço as mesmas bocas e também penso da mesma maneira.
CHICA CATANO !

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De Anónimo a 15.01.2014 às 23:25

Pois eu tambem faço parte das tais pessoas estranhas. Comecei a namorar com o meu marido aos 17 anos, casámos aos 25, ja lá vão 13 anos e três filhos. Tambem ouço esses comentários estúpidos, até porque muitos dos nossos amigos ja se separaram...

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De Mata cabeça a 15.01.2014 às 23:15

Por acaso estou plenamente de acordo consigO. As pessoas que guardam mesa no mcdonalds e no kfc deviam engasgar-se e ficar com danos cerebrais. Cerebrais, nao,porque nao devem ter muito cérebro.
É isso e o cafézinho que demora duas horas
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De Ovelha, Flor e Guerreira a 15.01.2014 às 22:27

Adorei a forma como está escrito o texto e o seu conteúdo. Subscrevo, na íntegra, acrescentando que, se no caso masculino a manutenção de um casamento estável é vista como algo vindo de alguém com uma deficiência qualquer, no caso feminino é muitas vezes visto como uma falta de alternativa ou um não querer ficar sozinha. Tenho um casamento estável e feliz há dez anos só, por isso, ainda vou escapando aos comentários. Mas o meu marido já não escapa.
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De Fernando Saraiva a 15.01.2014 às 19:00

Fazer testes a sangue ou análise ao cérebro? Iol. O problema é exactamente como aqui fora comentado (a base de tudo isto hoje em dia): 1 - querer viver as paixões comos e elas fossem o motivo de viver ; 2 - Viver intensamente a todo o momento, segundo a segundo... aproveitar todos os segundos para "rentabilizar" a vida. A forma de viver dessa forma é através do ponto 1. Há várias maneiras deviver a paixão: cobiça, têr dinheiro para o fazer, experimentar todo o tipo de coisas independentemente de serem boas ou más, condenáveis ou não. E além disso utiliza-se do termo "a liberdade" ou "sou livre" como "fundamento" para fazer tudo isso. E assim as pessoas experimentam de tudo... Primeiro o mais básico: comida. Depois outros: festas. Depois outros: sexo. Depois ainda outros: o PC mais moderno, o telemóvel mais moderno, viagens, carros, etc... Depois outros (e os na minha opinião, os fundamentais): fama, dinheiro, poder. A sociedade vive, por culpa das paixões, neste mundo. Mas até aí as pessoas orientam-se... O problema são as consequências. Para tudo isso abraçam-se carreiras a favor do dinheiro, a favor da cobiça de todas as coisas que criam paixões. A favor disso abraçam-se, por exemplo carreiras de TV não pela representação, mas pela reputação e fama como casa dos segredos. A favor disso vai-se por cursos ou carreiras não por que se goste, mas devido à ostentação que nos dão monetariamente. A favor disso há quem siga carreiras "politicas" com cunhas de forma a facilitar a sua ostentação. A favor disso há quem siga carreiras de corrupção, como ganhar dinheiro de maneiras menos ortodoxas ou ilegais. Etudo a favor da ostentação ou do trio fama, dinheiro, poder. Mas vamos às consequencias. Começando: já alguém comeu cogumelo venenoso aqui?iol. Acho que não. Pois está vivio iol. Mas e as paixões e as coisas ilicitas o que são? São semelhantes a um cogumenlo só que em vez de dar resposta no nosso corpo após o ingerirmos... dá resposta 5-10 ou mais anos depois. O que é ilicito afinal? Querem saber? Vou dizer a verdade... Ilicito, para começar ... e o mais básico são excessos. Uma pessoa se exagerar em algo, é ilicito. Exagerar em comida, em compras, em algo em excesso e que não faz com "fé".... mas pela cobiça ou algo parecido é ilicito. Depois, mas relações: sexo antes do casamento, ou sexo sem estar ligado por intermédio de um matromónio é ilicito. Ilicito é uma pessoa praticar sexo ou atracção por alguém do mesmo sexo. Ilicito é uma pessoa estando casada, ser "adúltero". E divórcio é ilicito. Quem casa aceitando o termo divórcio, para que casar? Vale mais viver solteiro e casto. Mas devido a isso pessoas casam e divorciam-se. Ilicito também é a cobiça. QUando uma pessoa compra porque gosta, por alguma utilidade etc é uma coisa. Agora quando se compra por cobiça é outra. Têr uma pen de PC, por exemplo de 16gb e nem 6gb utilizo.... mas vou comprar uma de 32gb ou 64 porque sim e porque é a mais moderna... é cobiça. Depois a idolatria: os famosos, aos da TV, idolatria ao dinheiro (como se fosse a coisa mais importante), fama (ser idolatrado). Tudo isso é ilicito e paz não pode trazer. E depois outras situações: matar, roubar... E uma importante: quem não tem propriamente uma ligação com Deus, a entidade superior a quem se teme e honra... como pode têr uma vida abençoada? Como pode têr fé? Pois sem fé o que somos nós? Isso é importante. Viver de uma forma digna, com a noção de bem e mal definida, limites bem definidos, não vivermos para além do que é licito é uma das chaves. Agora quem vive para lá disso e em favor de todas as paixões como poderá achar que vivendo a favor do que é ilicito, poderá viver em bem? Mas quem vive no que é licito e é prudente também para encontrar uma pessoa na mesma ordem de vida e pensamento, só poderá vir a têr um casamento e uma união "abençoada".
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De Anónimo a 15.01.2014 às 20:32

Pôças... ó João Miguel, com a sua narrativa de perseguição e martírio, já está a formar uma espécie de movimento escatológico.
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De Sofia a 15.01.2014 às 18:53

Olha q eu nunca me tinha apercebido disso... Se calhar por estar por norma completamente a leste do q os outros pensam e nem dar espaço para grandes bitaites sobre a minha vida... É realmente visto com estranheza, um relacionamento duradouro e feliz?! Q raio...

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