Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Nós existimos, meus senhores #3

por João Miguel Tavares, em 16.01.14

A Suzana Cheong deixou-me ontem esta mensagem no Facebook:

 

Tive uma relação de 26 anos com o meu ex-marido. Eu pensava que ía chegar aos 90 ao lado desse homem. A questão para mim é e será: qual é a receita para a durabilidade do Amor?

 

Eu pedi-lhe autorização para usar esta sua pergunta num futuro post (que é este), mas para não ficar demasiado frustrada com o conteúdo daquilo que pretendia escrever, adiantei-lhe logo a conclusão. A minha resposta à pergunta sobre a receita para a durabilidade do amor é... não faço patavina de ideia.

 

Tal como penso que já ficava sugerido no final do meu primeiro post, tenho uma resistência intuitiva a achar que existe um procedimento qualquer que assegure uma relação longa e feliz. Olhando para alguma da investigação moderna, mais depressa apostava o meu dinheiro na importância de determinados cocktails químicos para justificar o prolongamento do amor do que naquelas coisas que nos habituámos a ouvir sair de bocas mais conservadoras, que falam na importância do sacrifício, da abdicação e da dedicação ao outro.

 

Como é óbvio, qualquer relação feliz envolve sacrifício, abdicação e dedicação ao outro. E claro que se eu viver obcecado comigo próprio, a relação tem tudo para correr mal. O meu ponto está em achar que já existe uma espécie de pré-disposição para essa entrega. Ou seja, será que eu amo porque me sacrifico ou sacrifico-me porque amo? Eu, que já conheci algumas pessoas para quem o altruísmo era uma forma de vaidade e de compensação um bocadinho egoísta, tendo a apostar na segunda. Sacrifico-me porque amo.

 

É por isso que não posso acompanhar, regressando às reacções ao meu primeiro post, comentários como o de Daniel Cabanas (de 15.01.2014 às 12:41) ou de Fernando Saraiva (de 15.01.2014 às 19:00), herdeiros de uma linha mais ou menos apocalíptica que vê o mundo imerso em pecado e afastado dos verdadeiros valores cristãos.

 

O casamento hoje em dia não está em grande forma, mas duvido que fosse muito melhor no Portugal de há 50 ou 60 anos, numa altura em que marido e mulher, ainda que se odiassem, eram obrigados a permancer juntos, a maior parte das vezes em relações profundamente desiguais e apenas por exigência social.

 

Portanto, não olhem, por favor, para o meu discurso como algo de conservador, no sentido de estar a defender a pureza de um ideal que nunca existiu, ou sequer a reclamar o regresso à família tradicional. A minha única intenção foi defender as possibilidades do amor, hoje em dia tão acossado no círculo em que me movo. Se reclamo alguma coisa, é mesmo uma protecção do direito das minorias - que é aquilo em que os monogâmicos convictos se tornaram - à afirmação da sua felicidade sem um olhar de profunda desconfiança.

 

Mas para dar uma resposta ao anónimo que comentou a 15.01.2014 às 20:32, e que disse 

 

Poças... ó João Miguel, com a sua narrativa de perseguição e martírio, já está a formar uma espécie de movimento escatológico.

 

devo dizer que não, que para já ainda não estou a pensar nisso (mas gostei muito do "narrativa de perseguição e martírio"). Fico apenas contente por reafirmar que nem todas as relações são necessariamente consumidas pelo tempo.

 

Os casais felizardos podem até ser apenas uns sortudos do caraças, que fizeram muito menos do que imaginam para continuarem juntos, e a quem simplesmente saiu o bingo da compatibilidade genética ou hormonal. Mas - lá está -, seja por que razão for, eles existem. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 15:55


20 comentários

Sem imagem de perfil

De Gonçalves a 19.03.2014 às 13:25

Acho que o principal é uma boa conversa.
Quando a conversa é boa e honesta, nunca cansa.
É um bom amigo com quem se vai para a cama.
Casado oficiosamente há 8 anos, 2 filhos e a ideia é ser para sempre.
Sem imagem de perfil

De Carla Macedo a 03.02.2014 às 17:46

Eu acho que sai no Bingo, na rifa, em sorte.
Sem imagem de perfil

De Andreia Santos a 18.01.2014 às 17:38


Esqueci-me do respeito!
Esse valor tão esquecinho por alguns e que tanta falta faz numa relação, seja ela qual for, é absolutamente imprescindível.
Amor, dedicação, carinho, paciência, tolerância, compreensão, trabalho e respeito! Voilá! Nada de misturar tudo, senão dá gatafunhada! Há que ser comedido e usar q.b. nas situações oportunas. Ah, e convém frisar que a coisa só funciona se ambas as partes estiverem para aí viradas...
Diz isto uma cachopa de 25 anos que nada ainda sabe do assunto, portanto há possibilidade de não funcionar com todo e qualquer ser humano.
Sem imagem de perfil

De Andreia Santos a 18.01.2014 às 17:22

Boa tarde!

É tão verdade o que diz!
Eu e o meu marido, estamos juntos há 8 anos (coisa pouca), sendo 6 de namoro e 2 de matrimonio.
Não faz ideia os comentários que ouvia (sim, porque isto depois de uns quantos "quem sabe disso, sou eu" a coisa foi morrendo, embora de quando em vez ainda ouço um "também casaste nova"! (23 anos, na altura), mas pronto, adiante...), que era preciso ir experimentando (como se estivemos a falar de um gelado e a questão fosse o sabor), que assim não ia conhecer novas pessoas, novos interesses (como se isso me fosse isolar do mundo e tornar um ser altamente anti-social) e tantas outras pérolas que agora não me ocorrem.
Certo é que, para já, em nada me arrependo.
Somos pessoas completamente diferentes, temos gostos díspares, mas de alguma forma conseguimos manter o motor a rolar.
Eu acho que é às custas do Amor, mas, para ser, totalmente honesta, acho que amor só, não chega. É preciso trabalho, amizade, carinho, paciência (oh céus, e que paciência!), mais trabalho, dedicação e tolerância - isso sim é preciso com farturinha!
Não sei quantos anos irá durar o meu casamento, espero sinceramente que muitos (mas bons! Nada de martírios e coisas afins!), que, além de ser difícil encontrar outro marido como o meu - não os há por aí ao pontapé - gosto mesmo muito dele!
Sem imagem de perfil

De Manuela a 18.01.2014 às 00:43

Bem, esta é a primeira vez que comento um blog, apesar de seguir atentamente os posts deste em particular! Não resisti a este tema!
Antes de mais, pertenço ao clube dos que acreditam no “felizes para sempre”. Casei há quase 12 anos com o meu primeiro namorado, depois de 5 anos de namoro. E continuo convencida de que sou uma pessoa cheia de sorte, porque me apaixonei pelo rapaz que veio a tornar-se também o meu melhor amigo! Aliás, acho que ainda gosto mais dele hoje do que quando namorávamos ou quando casamos... porque é uma vida de cumplicidades, de projectos comuns, a remar para o mesmo lado, com dois filhos, com uns toques de romance à mistura, claro, e muitas conversas e discussões porque não somos nem perfeitos, nem iguais um ao outro. Aliás, costumo dizer que acredito que amar não é ser cego para os defeitos do outro, mas antes reconhecê-los e tolerá-los. Os truques? Primeiro, uma questão de sorte, ou destino! Depois, o querer aproveitar a sorte todos os dias, mesmo nos dias mais cinzentos. E ter a mesma escala de valores fundamentais e um projecto comum para a vida.
Há dias, li um artigo de opinião no “Sol”, onde o Luís Osório dizia palavras deliciosas acerca deste tema. Dizia assim: “Para um casamento de barriga cheia.
Diria uma ou outra coisa. Que um casamento sem amizade é um fósforo que arde rápido. E sem paixão um carro puxado a mulas. Como os fósforos que ardem rápido ficam queimados, e as mulas, mal ou bem, carregam carroças, a conclusão é simples: um casamento pode perdurar com amizade e sobreviver sem paixão. Claro que não falo da paixão esmagadora e sempre adjetivada - essa tem perna curta e, por isso, não tão grande alcance como possa parecer. Falo da que arde em lume brando e dispensa botijas de água quente. Isto do casamento não é fácil. Mas o teste é infalível… Tendo as duas equações, amizade e paixão em lume brando, que se avance. Com apenas uma, e se essa for a amizade, que se pense. Vivendo apenas com a outra, incendiados calores ou com um pequeno bico de fogão aceso, que se deixe logo os papéis preparados. Poupa-se tempo no divórcio e nervos com os gritos.”
Amizade e paixão! Encontrei as duas coisas no meu marido, tive sorte, faço por continuar a tê-la, sem comodismo!
Em relação aos posts anteriores, sim existimos (os casais monogâmicos e felizes), e não somos assim tão poucos! Uma prova: as Equipas de Nossa Senhora, um movimento do qual fazemos parte recentemente e que no nosso país e no mundo inteiro, junta grupos de casais que têm a Família cristã como valor máximo, que se reúnem para pensar, reflectir e partilhar ideias e vivências que ajudam no crescimento do casal.
Obrigada JMT pelo tempo que dispõe a animar este blog com temas importantes, de uma forma divertida e sincera!
Sem imagem de perfil

De AnaM a 17.01.2014 às 22:47

Epá... ler isto agora é como o MEC escreveu em tempos sobre o amor...

Estou a divorciar-me outra vez, caramba! Pela 3ª vez, porra! E desta vez até fui monogâmica e fiel e tudo...

O 1º casamento durou 3 anos. O 2º, 6... e este...9. Parece que consigo acrescentar 3 anos de resistência à experiência anterior.

Vá, sejam lá Felizes Para Sempre, s.f.f. que com o bem dos outros posso eu bem! :-)
Imagem de perfil

De eskila a 17.01.2014 às 20:35

Por aquilo que tenho visto nos casais que permanecem juntos eternamente, observei que um deles manda e o outro cede a tudo...não conheço nenhum casal em que os dois membros têm o mesmo poder.
Sem imagem de perfil

De Jorge a 17.01.2014 às 20:10

Casado ha 9 anos, dois filhos pequenos. Muito stress, algumas discussoes, momentos bons e menos bons, mas ate a data, o casamento é estavel. Nao sei explicar porque, é assim e pronto. Se calhar fomos bafejados com a sorte da tal compatibilidade genetica.
Sem imagem de perfil

De Cristina a 17.01.2014 às 17:46

Também me junto ao clube. 39 anos, 22 anos de relação (7 de namoro + 15 de casamento). É uma felicidade permanente? não, claro que não. Somos duas pessoas muito diferentes com vidas muito ocupada e a maior parte do tempo tentamos apenas sobreviver e que os miudos andem alimentados, com banho tomado e vão à escola e que nos entretanto nós próprios consigamos trabalhar a ganhar dinheiro para pagar as contas. é a realidade e nem sempre esta é assim tão cor-de-rosa e feliz só pelo facto de continuarmos juntos. Mas no fim do dia, mesmo quando não é um dia mau, continuamos a achar que vale a pena. Acima de tudo, vale a pena.
Imagem de perfil

De Equipa SAPO a 17.01.2014 às 17:29

Boa tarde,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais

Comentar post


Pág. 1/2




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D