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O autocasamento de Grace Gelder

por João Miguel Tavares, em 13.10.14

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O título deste post não é meu mas do meu amigo Carlos Vaz Marques, que me chamou a atenção para este interessantíssimo texto publicado no Guardian, dedicado à menina que se pode ver na foto. Ela chama-se Grace Gelder e foi notícia em vários jornais britânicos porque decidiu casar-se... consigo própria. 

 

As razões:

 

Eu estive essencialmente solteira nos últimos seis anos e consegui construir uma relação brilhante comigo própria. Ainda assim, tinha consciência de estar presa a uma certa rotina, sendo que ao mesmo tempo investir numa relação com alguém parecia-me uma coisa demasiado trabalhosa. Então, eu queria prestar um tributo a este aventuroso período de autodescoberta mas, ao mesmo tempo, avançar para uma nova fase.

grace-gelder-self-marriage-wedding-0.jpg

Daí o casamento da noiva com ela própria, ao qual assistiram cerca de 50 convidados. Grace Gelder conta que a festa acabou com chave de ouro:

 

O dia foi obviamente centrado em mim, e o evento final foi a chegada de um espelho para eu beijar.

 

O interesse com que a notícia do autocasamento foi acolhida tem a ver com o óbvio facto de ela ser sintomática deste nosso tempo de obesidade do "eu". Mas, em vez de nos pormos para aqui a pregar contra o individualismo assolapado da contemporaneidade, que é coisa já muito batida, temos de ver a notícia pelo lado positivo: se a partir de agora Grace Gelder se envolver com alguém, ela não estará a cometer uma infidelidade mas sim a praticar ménage à trois. O que me parece ter inúmeras vantagens.

 

Grace contou ao Guardian que a inspiração para a autoboda nasceu de uma canção de Björk chamada "Isobel" ("Isobel" em vez de "Isabel", explicou Björk, por remissão à palavra "isolation" - mas isso Grace Gelder não deve saber). O refrão da canção diz:

 

My name Isobel
Married to myself
My love Isobel
Living by herself

 

 

Mas, para praticantes da língua portuguesa, como nós, o melhor mesmo é ir buscar o eterno "Sampa", de Caetano Veloso, e os imorredoiros versos:

 

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho

 

Por isso, aqui fica o maravilhoso "Sampa", dedicado a Grace Gelder e à sua esposa, num belo dueto de Caetano com Maria Gadú, com os meus votos de um longo e feliz matrimónio.

 

 

 

 

 

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publicado às 08:53


10 comentários

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De JP a 14.10.2014 às 17:32

Depois duma mulher se ter apaixonado pela Torre Eiffel ao ponto de se ter casado com "ela", não me espanta que alguém case com o seu "eu". Dá outra dimensão à expressão "me, myself and i"...

De resto, para quem quiser saber mais sobre a conjuge da Torre Eiffel: http://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/howaboutthat/2074301/Woman-with-objects-fetish-marries-Eiffel-Tower.html
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De Manuel p.a a 13.10.2014 às 20:38

O Gustavo Santos, se ainda não casou consigo próprio, pelo menos está noivo!
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De Maria2 a 13.10.2014 às 22:35

Já me fez rir, creio que acertou :)
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De Maria F a 13.10.2014 às 12:30

Não querendo aqui fazer apologia do só, também não acho que quem gosta ou opta por viver sozinha seja necessariamente caso de psiquiatra.
Eu gosto de viver sozinha, na minha casinha com as minhas coisinhas gosto de receber amigos, fazer programas, etc etc mas sei que é tudo limitado no tempo porque logo logo, o meu espaço vai voltar a ser meu. Adoro crianças, passar uma tarde ou um dia com eles, a estraga-los com mimos a fazer bolachinhas ou crepes ou o que eles quiserem mas à noite, os meninos vão para os paizinhos e a Tia regressa ao seu tão abençoado sossego.
Felizmente somos poucos a pensar assim crianças precisam-se ..... alguém tem que pagar a minha reforma, que eu já ando à 40 anos a pagar a reforma de alguém..... Mas eu acho que é tão bom viver sozinha e ainda assim nunca me sentir só.
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De Sílvia a 13.10.2014 às 12:12

Definitivamente há muita gente com demasiado tempo livre!! Além dela, há mais 50 pessoas que não têm nada para fazer! Há gente com sorte (ou não)!
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De marta a 13.10.2014 às 11:45

se tivesse tanta roupa para passar a ferro como eu tenho e tanto planeamento de refeições para o jantar, para o almoço no emprego, etc etc..não tinha tempo para tanta palermice...
mas pronto..se calhar nem é mal visto...assim só tem a roupa e o almoço dela para tratar :) na volta nem é assim tão doida!!!
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De Daniela a 13.10.2014 às 11:20

João, na minha opinião já nascemos todos casados connosco próprios: com as nossas ideias, os nossos valores, a nossa auto-confiança e amor próprio. A nossa consciência e aceitação do "eu" é fundamental para nos relacionarmos, no sentido amoroso do verbo, de formas saudáveis com o outro. Casar com o outra pessoa, isso sim já está num patamar da entrega pessoal totalmente diferente. Acho que estamos perante um processo de "autodescoberta" tardio, que resultou nesta ideia iluminada...
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De Olívia a 13.10.2014 às 11:02

O que as pessoas fazem para chamar a atenção... tenho mesmo muita pena desta rapariga, penso mesmo que era importante ir ao psiquiatra... enfim a solidão é uma coisa terrível e a vida só faz sentido quando é partilhada (é a minha opinião e vale o que vale)
Olívia
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De Sofia Almeida a 13.10.2014 às 10:50

Espero que ela saiba nadar. Caso contrário, que ninguém a deixe sozinha à beira de um lago ou de um rio sem um colete salva-vidas. :P
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De Patrícia a 13.10.2014 às 10:11

Uma casa consigo própria, outra morre consigo própria (http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/14083/brittany-tem-cancro-cerebral-e-escolheu-morrer-1-de-novembro)…

Uma festeja o vazio (ainda que embelezado pelo discurso "I found myself…"), a outra encara o vazio e torna-o, por isso, mais cheio de sentido.

Enfim… as contradições…!

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