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Os bonecos Reborn

por João Miguel Tavares, em 26.02.14

 

Em Setembro do ano passado eu recortei uma dupla página do Diário de Notícias intitulada "Bonecos tratados como bebés de verdade" e guardeia-a no meu arquivo (ou seja, em cima da mesa da biblioteca). Dizia o pós-título dessa reportagem: "Os Reborn são bonecos que em tudo se parecem aos bebés verdadeiros e que são muitas vezes tratados como tal. Custam mais de 300 euros e são considerados obras de arte. Mulheres de meia idade são as que mais compram."

 

A minha ideia era falar sobre isso no Pais de Quatro, mas o tempo foi passando e o recorte foi ficando debaixo de uma pilha de livros e de outros recortes. Até que ontem o Público fez uma reportagem sobre o tema, e o assunto voltou à baila. A reportagem vem acompanhada de um vídeo, onde uma coleccionadora/ criadora de Reborns fala sobre o tema. Vale a pena vê-lo:

 

 

A santa Wikipédia, que tudo sabe, fala sobre isso, e enquadra historicamente o fenómeno. Lá se diz que esta é uma tendência que teve o seu início na década de 90, e que hoje tem um verdadeiro culto mundial. Reborn não é uma marca. O que os criadores fazem é isto: pegam em bonecas de vinil pré-existentes e personalizam-nas, através de processos demorados, em que se vão acrescentando camadas de tintas, cabelos e até novos olhos.

 

Há kits próprios para cada um criar o seu próprio boneco, e a esse processo de transformação chama-se - imaginem - newborning, que em tempos já foi um termo religioso, e que pelos vistos agora é aplicado a bonecas. Esta moldagem permite aproximar alguns bonecos das feições de bebés verdadeiros, quase à maneira de um museu de cera. O nível de virtuosismo e realismo é de tal modo impressionante que já aconteceu a polícia ter sido chamada por causa de reborns deixados sozinhos em carros.

 

 

 

Claro que eu olho para isto e, talvez por defeito cinéfilo, acho logo à partida tudo ligeiramente assustador. Não consigo deixar de ver nestes bonecos a versão delicodoce do Chucky, que tantos sustos me pregou no final dos anos 80. Receio bem que não conseguisse adormecer com eles ao lado.

 

 

Mas enfim, quem decide investir nos bonecos Reborn não está com certeza muito preocupado com o Chucky. Eles são quase sempre utilizados como substitutos para o bebé que nunca se teve, ou se teve e se perdeu (parece que há mulheres que perderam filhos e que usam estes bonecos para conseguirem fazer o luto), ou simplesmente porque o bebé cresceu, já é um puto de pêlo na venta, e de vez em quando ainda bate aquela saudade. Como seria de esperar, os especialistas dividem-se acerca da utilidade destes bonecos e acerca daquilo que eles dizem sobre quem os trata como se fossem bebés verdadeiros e os baptiza como tal.

 

Na referida reportagem do DN, Maria do Rosário, 30 anos, mãe de dois rapazes gémeos, afirma o seguinte: "O meu sonho era ter uma menina. A Carminho, a primeira bebé Reborn que tive, é uma aproximação ao que eram os meus dois filhos em bebés, tanto nas feições como no tamanho. Transporto para os três o afecto e o amor que nunca pude dar a uma menina." Um pouco spooky.

 

Na net encontrei uma outra reportagem televisivia sobre o tema, vinda do Brasil, onde neste caso é uma adolescente que tem um Reborn:

 

 

A mãe sente necessidade de garantir que a filha é uma miúda "normal", mas eu ficaria mais descansado se ela não sentisse ao mesmo tempo tanta necessidade de ser sua porta-voz. Ou seja, parecem existir sempre questões relacionadas com uma certa incapacidade de desvinculação. Ser pai e mãe não é só abraçar - é também abrir os braços e deixar ir.

 

Sem querer armar-me em psicanalista chunga, parece evidente que estes bonecos são substitutos para quem tem manifestas dificuldades nesse "deixar ir", até porque o abandono do ninho (ou o simples crescimento dos filhos) vem invariavelmente acompanhado de uma certa solidão, que muita gente não sabe gerir.

 

Claro que se os Reborn servirem de consolo para essas pessoas, e lhes derem algum equilíbrio, nada contra. Talvez possa até ser terapêutico. Mas, de facto, já vi modas mais saudáveis. E que eu não consigo deixar de pensar no Chucky, isso não consigo.

 

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publicado às 11:12


19 comentários

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De Anónimo a 06.11.2016 às 00:42

gente eu quero uma mas eu nao tenho com dicoes
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De Lara a 24.10.2015 às 23:41

Boa noite!!!!
Conheci um site que vendem bebês por um preço super especial para aquelas pessoas que desejam ter e não possuem por serem tão caros.... Lógico que não são reborns, mas são bem parecidos! Comprei já 4 bebês e vou ainda aumentar mais minha coleção!!!!
O site é www.meuxodooficial.com
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De Maria Clara a 29.10.2016 às 21:37

O site é www.meuxodooficial.com.br
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De Décy Revéz a 05.03.2014 às 20:54

Olá, sou coleccionadora de reborns, e não concordo com algumas coisas que foram ditas!!! Conheço muita gente que tem reborns e não os trata como filhos, ou têm e ainda têm filhos pequenos e nunca tiveram perda alguma!!! Eu posso dizer que infelizmente perdi 2 filhos para adopção e tenho outro numa instituição à espera de saber se vem para nós ou irá no mesmo caminho! No entanto apesar de uma dor tão grande por esta perda difícil, não é por isso que trato meus reborns como crianças, sim às vezes dá me para o ninar, passear com eles, mudar roupas etc, mas não os meto à frente de nada, não mudo rotinas, nem deixo de lutar pelos filhos que já tenho que apesar de tudo ainda luto para os recuperar! E todas as semanas passo um bom tempo com o mais novo! Faço minha vida normal e chego a passar semanas sem sequer tocar num reborn, enquanto estes ficam no berçinho deles, porque tenho de estudar, arrumar a casa, etc, e chega a certa altura que estou tão cansada que já nem tenho tempo para brincar um pouco com eles, sim brincar, não passa de outra coisa! Brinco e observo como aquela arte é linda! Muita gente acha que por eu não ter conseguido recuperar meus filhos tenho os reborns para os substituir, mas nada disso, nenhum boneco irá substituir um filho meu, isso nunca!!! Alem disso, antes dessa perda, eu já conhecia esta arte (mas fora de Portugal) e amava, é uma arte linda, que tem de ser reconhecida! Não é nenhum bixo de sete cabeças!!! Cada um faz com essa arte o que quiser, des que seja reconhecida! Se querem tratar como filhos é lá com eles, ao menos não estão a roubar, nem a mal tratar ninguém! Em vez de se preocuparem com as pessoas que gostam de coleccionar bonecos, ou gostam até mesmo de os tratar como crianças, deviam antes se preocupar com mães como eu que fazem de tudo para ter seus filhos de volta, e todo o tipo de ajuda lhes é negado pro serem novas, ou assim, ou nos animais abandonados e mal tratados, ou mesmo na miséria de país onde se vê pessoas a serem postas na ruas e a passarem fome, isso sim é que devia ser preocupante e assustador! é tudo o que tenho a dizer!!!

Ah outra coisa, eu sou uma grande fã de chucky, grande fá mesmo!!! Des dos 5 anos que adoro ele e já tenho 23! Sim até fiz uma tatoo com a imagem dele, e adorava ter um boneco igual a ele, mas infelizmente é muuuito caro, mais caro que um reborn (do que tenho visto) mas medo? Vá lá, caiam na real, são apenas bonecos, e o chucky é outro que tal!!! ;)
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De pipinhaeheh a 28.02.2014 às 09:57

muito creeeeepyyyy.
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De Manuela Meneses a 27.02.2014 às 18:14

Um outro artigo foi escrito no mesmo dia complementando o video da Reborner Andrea Melo. Tive o prazer de responder ao que me perguntaram.
http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/10948/de-quem-e-este-bebe-calma-e-so-um-boneco

Ontem escrevi e acrescentei após um comentário no Público:

Quero manter a minha capacidade de sonhar, de imaginar histórias para os filhos, para os netos. Quero continuar (sem censuras) a alimentar os meus gostos pessoais, a preferir reborns em vez de jóias, telemóveis topo de gama, relógios, tabaco, saídas noturnas excessivas. Quero despertar e manter o convívio em família e com os amigos. Quero que saibam que estes "bonecos" são utilizados também no cinema, teatro, novelas. Em aulas de Puericultura nalgumas escolas de Educação Infantil (devido ao seu toque, ao peso "quase" real) Quero que saibam que em alguns asilos, centros de dia ou "depósitos de idosos" estes "bonecos" ajudam em casos de Alzheimer pois acordam sentimentos, sensações, movimentos e estimulam a memória.Quero apenas ... apreciar quem tem o dom de conseguir com vinyl, tintas, tecidos, cabelos,ou silicone atingir esta perfeição. Homenagear os artistas que em todo o Mundo, com formação em anatomia, escultura, pintura, arte antiga, dedicam o seu tempo a aperfeiçoar e difundir esta ARTE tridimensional.Sejam felizes. Eu sou.:)
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De Hilda Antunes a 09.04.2017 às 19:40

Concordo com o seu comentário.
Tenho três reborns, mas também tenho Barbies e outras bonecas... E não estou certamente a compensar nenhuma "carência" com qualquer uma das minhas colecções.
A sensação que me dá é que a maioria das pessoas que criticam este este hobby têm preconceitos contra aquilo que não entendem...
Afinal, "brincar" com estes bonecos (o que não faço, mas compreendo) não é diferente de encarnar uma personagem "jogando" Second Life, ou WarCraft... (E pelo menos não são virtuais...)
Respeito os hobbies de todas as pessoas e acho que o mesmo devia ser aplicado aos coleccionadores de reborns...
Tenho imensa pena de não poder partilhar este hobby com outros, por saber à partida que iria ser julgada como sofrendo de algum "desiquilíbrio" emocional (ou até mental, como "ouço" a muitos críticos!).
Gostaria de conhecer alguma espécie de grupo de coleccionadores em Portugal mas, com muita pena minha, até agora não encontrei nada do género...
Acho que a maioria de nós ainda continua "no armário"! :)
Já agora acrescento: todos os colecionadores são diferentes, como todas as pessoas são diferentes! E isso é muito bom.
Este mundo seria muito aborrecido se todos fossemos iguais e só gostássemos das mesmas coisas...! :)
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De antonio a 27.02.2014 às 13:48

Boa tarde
Não acham que chega sempre que se fala de bebes reborn, focarem sempre as coisas da mesma maneira? Nao acham que existem coisas bem graves no nosso país passiveis de severas criticas? Pensem nisso.....
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De Ana Rita Marques a 27.02.2014 às 13:25

Eu adoro a arte reborn. Sempre gostei de bonecas, em especial de bebés (os conhecidos "chorões"), por isso ainda gosto mais de bebés reborn por terem uma aparência e estatura tão próxima da realidade. Felizmente não tenho nenhuma carência afectiva: sou casada e mãe de um menino de 4 anos. Tenho uma vida plenamente normal. Gosto de bebés reborn assim como poderia gostar de esculturas, pinturas ou de outra arte. Não me considero uma coleccionadora mas tenho 2 bebés reborn que estimo, mas não deixam de ser bonecos. Há quem coleccione Barbies (ainda há pouco tempo apareceu na TV um senhor que tinha mais de 5000 em casa), automóveis pequeninos, soldados de chumbo, chapéus, luvas...enfim milhares de coisas diferentes.

É pura ignorância colocar todos os apreciadores da arte Reborn no "mesmo saco". A grande parte dos coleccionadores de bebés reborn nada tem haver com aqueles que têm problemas afectivos mal resolvidos. São somente apreciadores de arte.
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De Ana Sousa a 27.02.2014 às 12:29

Não acho normal que se tratem estes bonecos como se de crianças humanas se tratasse! No entanto, afirmar categoricamente que quem tem ou cria estes bonecos são pessoas solitárias, ou que perderam filhos ou que nunca os tiveram, é rotular erradamente e de uma forma geral um grupo de pessoas apreciadoras desta arte.

quem coleciona reborns, coleciona porque gosta, porque dá importância às horas de trabalho gastas naquele boneco, que gosta dos pormenores.

Quem faz reborns são normalmente pessoas que já os colecionavam e que decidem experimentar fazer um. É uma arte, é um trabalho minucioso, demora muito tempo a fazer um reborn para que fique bem feito e com boa apresentação!

não vejo porque se há de criticar! secalhar se em vez de colecionar reborns estas pessoas colecionassem armas e andassem na rua a disparar contra pessoas, talvez não fossem tão criticadas!
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De Andrea Melo a 27.02.2014 às 12:24

Olá,

O termo é REBORNING e não 'newborning'. Quem escreveu os textos usou alguns termos técnicos erradamente, infelizmente, apesar da minha chamada de atenção para o facto.

Eu sou a pessoa do video e para mim tratam-se apenas e somente de bonecos, obras de arte, items de coleção. Faço-os majoritariamente para colecionadoras e para mães que querem oferecê-los às suas filhas. Não faço réplicas de bebés falecidos, porque na minha opinião, e na opinião de estudiosos do assunto, não é saudável. Perdas são perdas e o luto deve ser feito, não há substituto (muito embora muita gente tente substituir uma perda por muita coisa, incluindo: animais, álcool, sexo, drogas, e por aí vai).

Como tudo o que é novidade, no nosso país, causa estranheza, e é totalmente compreensível. No entanto, não concordo com rótulos nem com pre-conceitos. É uma arte, e ponto final. São objetos. Se há quem os trate como filhos, é problemas deles, tão somente. No entanto, há que se saber respeitar as opções das pessoas e não julgar todo um 'universo artístico' por causa de práticas menos saudáveis de algumas pessoas (que diga-se de passagem, estão no pleno direito de o fazerem).

Obrigada pela oportunidade de ver esta arte 'divulgada' em Portugal. ;)

Andrea
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De mariana fernandes a 27.02.2014 às 12:06

the next step
http://www.youtube.com/watch?v=1bL-o4JNNZc

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