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Porque é que um gajo tem filhos?

por João Miguel Tavares, em 29.04.14

Perante o meu acumular de queixinhas, escreve uma leitora do blogue, já sem grande paciência para mim: 

 

Com todo o respeito tenho de dizer... que sim, é difícil educar crianças, e sim, a vida muda radicalmente... Mas com certeza que ninguém o obrigou a ter quatro crianças... foi uma opção sua! Elas não pediram para nascer...

 

Com certeza que não pediram, embora, a bem dizer, a Rita tenha sido intensamente pedida pela Carolina. Espero, no entanto, que ninguém olhe para os meus queixumes, por vezes excessivos, e veja neles alguma espécie de arrependimento por me ter metido nesta coisa de ser pai de uma família numerosa.

 

Quando eu falo numa "educação para o desprazer", e faço questão de a distinguir da noção mais comum de sacrifício, é exactamente para estarmos preparados para aguentar o embate do stress quotidiano sem sermos esmagados por ele, tendo em conta que o fazemos em nome de um bem maior, que são os nossos filhos.

 

Todos nós, crianças, adultos e outros animais domésticos, necessitamos de ser treinados para aquilo a que tecnicamente se chama "adiamento da gratificação". A "educação para o desprazer" é apenas um nome mais bonito para esse adiamento da gratificação, que no caso dos filhos pode significar penar durante muitos anos até eles deixarem de ser lagartas e se transformarem em lindas borboletas.

 

Simplesmente, quando muita gente gasta o seu tempo a fingir que tudo na paternidade é borboleta, os momentos-lagarta (que são imensos) podem ser devastadores. Eu gosto, de facto, de alertar para isso, porque numa certa fase da minha vida esse embate foi realmente difícil para mim, e cheguei a achar-me o pior pai do mundo por não conseguir retirar maior prazer da paternidade.

 

Agora, saltar daí para o argumento "as crianças não pediram para nascer" é um pulo argumentativo capaz de bater o recorde mundial do salto em comprimento. Não preciso, com certeza, de o dizer, mas digo na mesma: tenho o maior orgulho nos meus filhos e não estou a pensar vendê-los para ampliar a minha biblioteca, ok?

 

Uma pessoa tem filhos por inúmeras razões, e suponho que todas elas se misturem, desde as menos românticas - o relógio biológico que faz tic-tac - às mais românticas - um grande amor que deseja completar-se em forma de família. Todas elas são verdadeiras, acho eu.

 

Mas há uma coisa que me parece extremamente importante: a capacidade de nos projectarmos no futuro. Há uma espécie de teleologia familiar e amorosa que sempre me pareceu essencial, tanto para avaliar a firmeza de uma relação (será que eu quero ficar com esta pessoa até ao dia em que ambos tivermos dentaduras postiças enfiadas num copo da casa de banho?), como para avaliar a necessidade de uma família (será que se eu chegar aos 70 anos sem filhos sentir-me-ei realizado?).

 

E embora eu tenha sempre inúmeras dúvidas quanto ao presente, quando me projecto no futuro consigo responder com surpreendente facilidade àquelas questões. É até possível que me venha a enganar. É claro que tudo pode sempre desabar. É óbvio que ninguém deve dizer "desta água não beberei". Mas neste momento tenho suficientes certezas nas respostas àquelas perguntas, o que, sendo eu um filho da suspeita, não é coisa pouca.

 

Em resumo, não se confunda cansaço, frustração ou sofrimento com alguma espécie de arrependimento. Eu adoro estar sem eles, mas não consigo imaginar o que seria ficar sem eles.

 

O António Variações já explicou tudo há 30 anos:

 

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publicado às 10:59


18 comentários

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De Isabel Correia a 05.05.2014 às 23:46

Não se preocupe com os outros, o que escreve aqui interessa a quem quer, quem não quer leia o público ou o último romance da M R Pinto.
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De DeepestSoul a 30.04.2014 às 11:54

Hum... se agora custa.... espere pelo dia em que vai ter 4 noras/genros + xxxx numero de netos.... Ai sim, prepara-se para ter grandes problemas!
Ainda agora começou!

Acho que as pessoas quando querem ter muitos filhos, esquecem-se dos problemas que isso gera bem mais tarde... lol

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De Bruxa Mimi a 30.04.2014 às 23:16

Eu acho que quem tem um filho apenas também não pensa que poderá estar a criar dificuldades futuras a esse filho, sendo o único a amparar a velhice dos pais, por exemplo. Já tive várias colegas filhas únicas, mais velhas do que eu, que se queixavam disso, o pai doente, a mãe no hospital,... e elas é que tinham de "aguentar" e socorrer ambos, levar a consultas, etc., o tempo todo. Faziam isso com todo o amor e carinho, mas não deixavam de se sentir sobrecarregadas.
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De Paula a 29.04.2014 às 21:59

Eu também sinto esse cansaço e essa frustação.
Adorei a expressão "até eles deixarem de ser lagartas e se transformarem em lindas borboletas".
Acho que é isso que estou a fazer, a desejar que se tornem lindas borboletas!
E sim, estava preparada para não sair à noite, para não fazer férias no estrangeiro e tudo e tudo.
Mas agora que eles estão a ficar mais velhos, tudo começa a ficar mais fácil! E eu gosto!
vidademulheraos40.blogspot.com (http://vidademulheraos40.blogspot.com/).
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De anónimo a 29.04.2014 às 21:58

Também acho que é importante prevenir as pessoas que ainda não têm filhos que isto da maternidade/paternidade não é (só) um mar de rosas. Mas o facto de isto ser necessário é que me parece preocupante. Às vezes tenho a sensação de que a gente reflecte demais, complica demais. Pensa que vai ser melhor do que os outros, que vai ser o progenitor perfeito. E, no entanto, o que é que na vida é um mar de rosas? Mesmo uma profissão que se adora nos traz com certeza alguns momentos de desprazer - eu não acredito que nosso grande CR7 não se farte da bola um bocadinho de vez em quando; ou que aquelas pessoas que viajam para provar petiscos e depois têm de escrever sobre isso (sempre me pareceu uma profissão de sonho) não se cansem às vezes de dormir em hotéis ou de falar com desconhecidos. Ser pai ou mãe, embora esteja num patamar diferente do do trabalho, devia ser visto como algo menos complicado. Até a logística de hoje é altamente complexa (viajar com uma criança parece um empreendimento mesmo difícil - eu viajei com a minha filha um bocado a toque de caixa e foi excelente, mas se fosse hoje seria com certeza muito mal vista). É difícil entender. Afinal de contas, há muitos milhões de anos que temos filhos - conviver bem com as dificuldades inerentes devia estar-nos na massa do sangue.
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De Paula a 29.04.2014 às 17:35

Mas existe quem não sinta esse cansaço e essa frustração? JMT, compreendo-o e concordo consigo.Também eu tantas vezes suspiro por uns minutos de isolamento. Por vezes, imagino-me num bunker e essa possibilidade deixa-me imensamente feliz. Isso faz de mim uma má mãe? Talvez. Mas não é por ter perdido o nome (desde que a minha filha nasceu que sou tratada por Mãe em todo o lado) que perdi a identidade. É como diz: eu adoro ser só eu, mas já não me imagino sem ela.
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De David Cabanas a 29.04.2014 às 17:34

A melhor resposta que dás a leitora do blogue que no fundo te critica é dada, a meu ver, muito bem no seguinte parágrafo: "Em resumo, não se confunda cansaço, frustração ou sofrimento com alguma espécie de arrependimento. Eu adoro estar sem eles, mas não consigo imaginar o que seria ficar sem eles."
Revejo-me exatamente no que descreves e passo muitas vezes pelo mesmo tipo de pensamentos... Quando páro para pensar e deixo de refilar, de fazer queixinhas, de me lamuriar, acho que a grande recompensa é ver os filhos crescer...acompanhar o crescimento de cada um daqueles seres que vieram ao mundo tão frágeis...
Quando chegar ao fim da minha vida, que espero que seja daqui a alguns anos, acho q não me vou lembrar do trabalho que os filhos deram, os cansaços, as mil e uma coisas que quis fazer e não pude... mas sim os bons momentos vividos...agora que o presente custa, lá isso custa e por vezes MUITOOOOOOOOOO!!!!!
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De Ana a 29.04.2014 às 15:21

Chego tarde a este debate, mas aqui vai a minha opinião. Nunca achei que a maternidade seria um mar de rosas, aliás espanta-me que alguém pense isso, excepto se essa pessoa viver num palácio cheio de "colaboradores", como agora se diz. Por outro lado, sempre pensei que não iria ter filhos: para quê tê-los quando não temos tempo para lhes dedicar? Apesar da minha firme opinião, o meu excelentíssimo esposo e os bebés das amigas fizeram-me ceder.
Quando nasceu a minha filha senti amor imediato. Contudo, lembro-me de pensar, no fim-de-semana anterior ao nascimento dela, que aquele iria ser o último passado com tranquilidade e, uns dias após o nascimento, já pensava no que é que me tinha metido: ela não comia, perdia peso e eu sentia-me incapaz.
Tudo isso passou, decidimos ter o segundo. Quando nasceu o meu filho, também senti amor imediato. Contudo, no primeiro dia em que o meu marido regressou ao trabalho, mais uma vez pensei que tinha feito uma grande asneira: ele chorava e não dormia, ela estava doente e chorava, e eu sentia-me a endoidecer.
O cansaço e o desprazer acompanharam-me ao longo desses primeiros tempos. O meu marido nunca estava em casa, trabalhava e estudava, e eu sentia-me assoberbada, sufocada, com o trabalho e a maternidade. Uma péssima mãe, sempre apressada, cansada e com pouca paciência. Muitas vezes, apesar do profundo amor que lhes tenho, me apeteceu sair porta fora e andar, sentir o vento e não pensar em nada.
Mas este é o desprazer normal, que li em muitos comentários feitos aos vários posts. O desprazer que eu sinto é mais profundo, e é um para o qual não estava preparada, nem ninguém estará. Um desprazer que só agrava com o passar do tempo, que não é aliviado quando eles passam um fim-de-semana com os avós. O desprazer de ter um filho diferente. Um filho que eu adoro, mas a quem eu não consigo mostrar o mundo e alargar horizontes, o que para mim constitui o grande prazer da parentalidade. E não confundam desprazer com desamor. Não os conseguiria amar ainda mais, mas poderia desfrutar muito mais de ser mãe se as circunstâncias fossem diferentes.
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De Anónimo a 29.04.2014 às 15:34

"mas poderia desfrutar muito mais de ser mãe se as circunstâncias fossem diferentes."
Tempo e condições para desfrutar, ora aqui está alguem que eu entendo
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De Carlos Duarte a 29.04.2014 às 15:09

Caro JMT,

Parabéns pela teleologia. É algo de que, infelizmente, se fala pouco. E sim, tem toda a razão, a razão da família (ou do casal) passa por ter (ou tentar ter) e criar filhos e isso não está directamente correlacionado com o nosso (errado) ideal hedonista de prazer imediato.
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De Sílvia a 29.04.2014 às 15:02

Há pessoas tããããooooo complicadas... "Jasus"!
Está muito fácil de entender o que diz, e que é a mais pura das verdades.
Se toda a gente fosse avisada de início, talvez não houvessem tantos divórcios depois dos casais terem filhos. Muitos divórcios dão-se com filhos ainda bebés, porque os pais não aguentam o stresse e pressão, porque não foram preparados para tal, foram apenas preparados para "filhos são o melhor do mundo"!!
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De Barbra duarte a 29.04.2014 às 14:02

Cá me parece que não está em causa se se gosta, é claro que se gosta dos filhos. O ponto aqui é um desabafo.. Sim, nem tudo é cor-de-rosa e sim, há dias em que apetece fugir. Mas volta-se sempre!

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