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Sobre a inteligência

por João Miguel Tavares, em 12.02.14

Ainda a propósito do post sobre estudar com os filhos, o LA-C e a Isabel Prata estiveram a trocar opiniões na caixa de comentários sobre essa coisa da inteligência. Estar aqui a reproduzir a troca de argumentos deles seria fastidioso, mas vão lá e leiam, porque ambos percebem mais do assunto do que eu. Ainda assim, não resisto a meter umas colheradas de "achismos".

 

E o que eu acho é isto: tendo em conta o buraco negro que para nós ainda é o cérebro humano e as suas capacidades, tenho cá para mim que daqui a 200 anos os cientistas de 2214 irão olhar para conceitos como o de QI com o mesmo desconcerto com que nós olhamos para a prática de sangrias para curar maleitas, como aconteceu ao longo de milénios.

 

Isto não significa que eu não considere que haja pessoas mais talentosas, mais espertas e mais inteligentes do que outras - mas somente em áreas específicas, e não como algo que atravesse a existência como um todo. Ou seja, o problema é que me parece um absurdo considerar a inteligência como uma entidade única, ainda que estejamos constantemente a falar de pessoas mais e menos inteligentes.

 

Eu invejo intelectualmente muita gente, mas todos sabemos que um grande escritor pode não saber fazer contas de dividir, tal como um prémio Nobel da Física pode dar erros de ortografia. Ainda assim, a questão mais interessante nem sequer está na vocação para diferentes áreas de conhecimento, que me parece óbvia - a questão está em que aquilo a que se chama inteligência se manifesta de formas de tal maneira diversificadas que nós ficamos sempre a raspar a superfície.

 

Tu podes ser um tipo inculto e seres um extraordinário vendedor de automóveis - será que isso não envolve inteligência? Tu podes só ter lido livros motivacionais e seres um génio sentado a uma mesa de reuniões ou num palanque, capaz de convencer toda a gente a seguir-te - será que isso não envolve inteligência? Tu podes ser o Cristiano Ronaldo e teres dificuldade com o português - mas como é possível ser um dos melhores jogadores de futebol do mundo sem ter imensa inteligência? Podem ser só neurónios redondos, feitos de hexágonos coloridos - mas desses ele tem de ter mesmo muitos. Ainda recentemente, falei de uma das qualidades da Teresa que mais admiro: a sua extraordinária capacidade para consolar quem sofre - quanta inteligência (um tipo de inteligência da qual eu, por exemplo, não tenho mais de 90 pontos) é necessária para isso?

 

Mais: nós vemos pessoas inteligentíssimas mergulharem na mais profunda depressão e infelicidade. Ora, de quanta inteligência precisamos nós para sermos felizes? Saber ser feliz e encontrar um caminho para a nossa vida não será a forma mais útil de inteligência? Eu diria que sim, mas que relação é que isso tem com saber resolver problemas de matemática?

 

Neste jogo de palavras que frequentemente nada significam, palavra por palavra prefiro a sabedoria - ou a sageza - à inteligência. Porque de pouco me serve ser muito esperto se não souber retirar disso uma utilidade para a minha vida e para a minha felicidade. Verdadeiramente, é esse tipo inteligência que mais espero que os meus filhos adquiram, ainda que seja muito mais difícil do que aprender a tabuada e o abecedário (e sendo o abecedário e a tabuada peanuts, eles não têm desculpa para não os saber de cor). A maior genialidade está em saber viver quando à partida já sabemos que vamos morrer. Mas como é que isso se mede em QI? 

 

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publicado às 14:30


10 comentários

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De Flavio a 06.08.2014 às 22:50

O portugues é um indivíduo mesquinho e menor. Invejoso de quem é intelectualmente superior.
Ninguém verdadeiramente civilzado pode gostar de viver em pt. https://answers.yahoo.com/question/index?qid=20120210042522AAIdoiX
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De Pedro Silva a 13.02.2014 às 11:54

"Isto não significa que eu não considere que haja pessoas mais talentosas, mais espertas e mais inteligentes do que outras - mas somente em áreas específicas, e não como algo que atravesse a existência como um todo. Ou seja, o problema é que me parece um absurdo considerar a inteligência como uma entidade única, ainda que estejamos constantemente a falar de pessoas mais e menos inteligentes."

De acordo! A inteligência tem "varias camuflagens" e manifesta-se de mil e umas maneiras diferentes. Como tal também acho que tal não deve ser medido mas sim constatado, estimulado e valorizado.
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De viajante a 12.02.2014 às 21:38

Para já só quero dizer que concordo em absoluto com a sua abordagem quanto a estudar com os filhos. É a que eu uso também para com o meu filho mais velho (e o pai não acompanha mais que eu).

Há pouco tempo li um artigo que referia que as pessoas mais inteligentes (não sei como mediram a inteligência) têm mais tendência para sofrer de ansiedade e problemas parecidos.
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De Kate Guimarães a 12.02.2014 às 17:50

É certo que há vários tipos de inteligência - a lógico-dedutiva, a musical, a emocional, a artística, etc - mas na escola aquela que é mais frequentemente avaliada é a inteligência aplicada às contas de matemática e a outras estruturas lógicas como a ciência (a explicação lógica de determinados factos) e a língua (igualmente regida por um determinado número de regras).

E isso torna a escola num meio um pouco injusto, pois as notas não vão reflectir toda a inteligência dos alunos. E nesse sentido, tentando evitar ser condescendente, é preciso aceitar que alguns têm de facto grandes dificuldades em tirarem notas decentes só porque não têm um elevado nível de um determinado tipo muito específico de inteligência.
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De Anónimo a 12.02.2014 às 17:17

"Mais: nós vemos pessoas inteligentíssimas mergulharem na mais profunda depressão e infelicidade. Ora, de quanta inteligência precisamos nós para sermos felizes? Saber ser feliz e encontrar um caminho para a nossa vida não será a forma mais útil de inteligência?..."

Inteligência emocional.
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De Olívia a 12.02.2014 às 16:44

Vou comentar este lindo texto com uma frase que vi hoje no Facebook de uma amiga educadora de infância e que resume também a minha opinião relativamente ao que transmitimos aos nossos filhos:

«-comentário dos meninos -"o Amor é quando os corações batem!!!" se os adultos percebessem isto, seria tudo muito mais fácil!!! (...)Sensação de dever cumprido!!! É isto que quero transmitir aos meus meninos!!!Pouco me importa se sabem contar até 1000 ou se sabem as letras... Para isso terão o resto da vida... Já para os valores...se não os adquirirem agora, torna-se tudo muito mais difícil!!!!»

Eu sei que é importante os conhecimentos que adquirimos ao longo da vida e quem vive isolado, num ambiente sem estímulos será sempre mais "pobre" de conhecimentos não querendo dizer que sejam piores pessoas por causa disso, certo?
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De Isabel Prata a 12.02.2014 às 16:43

Esqueci-me de dizer que gostei muito do texto do João.
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De Maria Isabel Prata a 12.02.2014 às 16:41

Ao contrário do que possa sugerir o post não sou nenhuma especialista, simplesmente tenho-me interessado pelo assunto – o cérebro é fascinante e é ainda nalguns pontos um ilustre desconhecido. Os testes de inteligência, aqueles que medem o QI não serão perfeitos, mas não são tolos. E medem exactamente cada um e o total dos factores de que se considera feita a inteligência: raciocínio, capacidade de ver no espaço, memória, velocidade de processamento e linguagem. Isto é o que se chama inteligência geral. Ou seja, um génio, embora possa ter alguma daquelas capacidades um bocadinho mais abaixo das outras, no conjunto atinge valores muito superiores ao comum dos mortais.
A inteligência será talvez como o dinheiro, a partir de um patamar básico, não é tudo mas ajuda. Ainda de acordo com o artigo da Nature que citei em baixo, estudos envolvendo dezenas de milhares de crianças estabeleceram fortes correlações entre QI e resultados escolares ao longo de 5 anos, entre QI e sucesso profissional, e até entre QI e melhor saúde. Estes estudos envolvem milhares de indivíduos e não é o facto de todos conhecermos 3 ou 4 ou uma dúzia de excepções que os tornam menos válidos.

Agora não me venham dizer, como já ouvi tantas vezes, que uma inteligência mediana é que é bom, que as pessoas muitíssimo inteligentes são mais desequilibradas ou mais depressivas ou etc. Se toda a gente conhece uma pessoa muitíssimo inteligente e que é muito infeliz, de certeza que também conhece o oposto. Mais uma vez, são os pequenos números. Já encontrei mais do que uma vez um prémio Nobel da química, um americano de origem oriental, que é a pessoa com o ar mais feliz, mais equilibrada, mais simpática, mais tolerante, mais acessível que se possa imaginar.
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De Anónimo a 12.02.2014 às 16:27

Dos melhores textos que já li aqui.
Parabéns!!!
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De Maria Cruz a 12.02.2014 às 15:09

Adorei o que escreveu, um dos melhores textos na minha opinião.
Concordo com tudo. Minha sogra sempre diz: ¨ Viver é fácil, difícil é saber viver¨.
Eu já há algum tempo percebi que temos que viver bem com tudo o que temos no agora. Valorizar, agradecer, relativizar e concluir que sim, somos felizes. Prometi para mim mesma não dizer a frase: ¨Eu era feliz e não sabia¨. Quero saber e desfrutar de tudo de bom que a vida me dá, essa é a minha opção.

¨A maior genialidade está em saber viver quando à partida já sabemos que vamos morrer¨- adorei essa frase, vou tentar sempre me lembrar dela! Obrigada!

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