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Sobre a pedofilia #2 (com beijos à mistura)

por João Miguel Tavares, em 27.02.14

Confesso que continuo muito impressionado com a quantidade de gente que apareceu a testemunhar casos de abuso sexual na sequência destes posts. Muito impressionado, mesmo - são realmente demasiados testemunhos para encaixarem nos meus 0,01%. E é o suficiente para me obrigar a repensar as tais conversas que não estava a querer ter com os meus filhos, por as considerar desnecessárias.

 

Num das caixas de comentários, a Joana A afirmou o seguinte, com grande inteligência e ponderação:

 

Eu faço educação sexual com professores/as e recomendo que se fale de abusos, de práticas sexuais, de segredos bons e segredos maus. Um agressor ou abusador manipula muito bem as crianças para não ser descoberto e se lhes abrirmos a porta da comunicação elas podem sentir-se mais à vontade para contar a alguém que pode intervir, em vez de esconder e deixar-se levar pela manipulação. Se pensarmos em crianças com perturbações do desenvolvimento ou da aprendizagem (com dificuldades cognitivas, portanto), ainda mais vulneráveis são a ser manipuladas e ser vítimas.

Não podemos ter números e estatísticas, não saberemos se 99%, mais ou menos, crianças são ou serão expostas a abusos, mas a prevenção é abrir a comunicação, sem medo, deixar a porta aberta, como mães, pais, educadores em que acreditamos e sabemos do que eles falam. É que o abuso tem muitas formas e se as crianças não souberem o que são práticas sexuais, nem percebem o que está a acontecer. Alguns comentários mostram isso mesmo e é nestas alturas que me pergunto se não há muito mais casos do que conhecemos.

 

Mas fez mais: de seguida deixou um link para um texto do jornal britânico The Guardian sobre essa coisa, tão portuguesa, de obrigar as criancinhas a dar beijinhos a toda a gente. O texto intitula-se "Por que não se deve forçar uma criança a beijar os seus avós" e vale imenso a pena lê-lo. Lá está - é mais uma batatada no nariz dos meus preconceitos, porque nunca tinha visto as coisas desta forma.

 

Curiosamente, eu próprio, quando era pequeno, resistia imenso a cumprimentar as pessoas, embora nunca ninguém tenha abusado de mim. Deixo só uma frase do artigo para concluir este post e estimular o debate:

 

Children have powerful instincts, and sometimes adults override those instincts for social niceties that suit the adult, not the child.

 

[Tradução minha: "As crianças têm instintos poderosos, e muitas vezes os adultos atropelam esses instintos em nome de cortesias sociais que fazem sentido para o adulto, mas não para a criança."]

 

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publicado às 09:45


9 comentários

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De Joana Mendonca a 01.03.2014 às 13:04

Também tinha a atitude de não falar e ir respondendo e falando à medida que as perguntas e duvidas iam aparecendo. Também eu vou repensar. Obrigado.
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De sn a 27.02.2014 às 16:15

Devia ter uns 10 anos quando numa ida ao café para comprar 1 pastilha apanhei um susto que me deixou nervosa durante muito tempo. O novo dono do café quase me deu a caixa das gorila e espetou me com 2 beijjos nojentos na cara. Ainda me convidou para ir conhecer a zona de restaurante, onde nao estava ninguém. Recusei e fugi dali. Durante muito tempo sentia ansiedade quando tinha de passar pelo café, e fazia o sempre a correr, com medo que ele me podesse chamar. E eu, que tinha sido muito bem educada, tinha de respeitar os adultos e fazer o que eles pediam. Nem me passou pela cabeça comentar com os meus pais. Por medo e vergonha. Nao acho que fosse pedofilo. Acho que era só mesmo um homem nojento à procura de sexo. E, provavelmente, muitos casos de abuso não sao praticados por pedofilos como os entendemos, adultos que se sentem atraidos por crianças, mas apenas tarados que não conseguindo contacto com adultos procurem presas fáceis. No restaurante trabalhava uma miuda com uns 16 anos que engravidou do estupor. Aquele episodio, que nao foi nada de especial, foi suficientemente marcante para que até hoje me lembre da roupa que tinha vestida nesse dia.
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De badmary a 27.02.2014 às 15:58

O assunto é delicado mas penso que não devemos passar de uma atitude de quase descaso para uma atitude paranóica. Acho horrível aquilo que se passa em países como os USA onde o contacto normal entre pais e filhos está a caminho de se tornar insustentável tal é a paranoia colectiva acerca do abuso infantil. Se há efectivamente tantos casos de abuso então algo de profundamente errado se passa na sociedade e uma análise mais cuidada com um plano de acção concertado tem que ser desenvolvida.
Relativamente à questão dos beijinhos acho que há situações e situações e cada uma merece uma análise cuidada. A verdade é que cumprimentar alguém (seja com beijinhos ou de outra maneira qualquer) é um acto social e os pais devem tentar incuti-lo aos filhos.
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De Anónimo a 27.02.2014 às 16:29

Concordo com este comentário.
Por vezes o meu marido está na brincadeira com a nossa filha e isso incluiu beijos, cócegas , massagens, etc e nós já chegamos a referir que qualquer dia até estas brincadeiras começam a ser vistas "de lado".
Os pais e os filhos, vão começar a perder a espontaneidade dos afectos sempre com receio das más interpretações....
É a triste realidade ...
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De Anónimo a 27.02.2014 às 12:59

Sim, as pequenas coisas fazem diferença.
http://www.babble.com/mom/a-message-to-my-daughter-dont-be-a-good-girl/

E, já gora, quanto a elogios e a outras coisas que dizemos, vale a pena pensar nisso: http://www.babble.com/mom/a-new-vocabulary-what-we-say-to-girls-matters/

(Aplica-se a raparigas e a rapazes.)
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De Joana Mendonca a 01.03.2014 às 13:01

Obrigado pelos links e pelos textos. Fazem-me pensar e por em causa. Obrigado.
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De Poupar com webshopcenter a 27.02.2014 às 11:38

Existe mesmo o estereotipo da "educação" em obrigar as crianças a dar beijinhos. A minha filha tem 2 anos e deixo sempre ao critério dela, (as vezes nem a nós lhe apetece dar beijinhos) e não fazemos cara feia por causa disso.

Outra coisa que me faz confusão é o dar "beijinho na boca" às tias ou avós, explico-lhe sempre que os beijinhos dão-se na cara mas ainda está ser um trabalho em processo (as vezes o outro lado não facilita, mas agora que li este artigo vou ser ainda mais exigente).

Eu sei que a minha ainda é muito pequena para ter essas conversas mas quero ensina-la também a falar connosco e não ter medo de nos contar nada.
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De Fernanda a 27.02.2014 às 10:29

A propósito dos instintos das crianças, lembrei-me de uma figura da minha infância que me repugnava exatamente porque insistia para eu me sentar no colo dele e lhe dar muitos beijinhos. Fazia-o em frente à senhora que tomava conta de mim (não gosto de dizer que era a minha ama porque de amar ela sabia pouco ou nada, limitava-se a receber dinheiro dos meus pais para não me deixar sozinha enquanto eles iam trabalhar) e ela própria me criticava quando eu tentava fugir a esse contacto que tanto me repugnava. Um dia, devo ter dito alguma coisa aos meus pais. Era muito pequena, não me lebro do que disse, mas lembro-me de o meu pai estar a dar indicações à senhora para não o deixar continuar a fazê-lo. Lembro-me também do escândalo que ela fez - depois de o meu pai ir embora - recriminando-me por ter feito queixa do homem e alegando que eu é que era maldosa. Tanto me recriminou que eu não só tive de continuar a aceitar os contactos nojentos dele como nunca mais tive coragem de dizer nada aos meus pais com medo das represálias dela.
Quando fui mãe, tive a certeza de que tinha de proteger a minha filha de situações dessas ou piores e que isso só era possível conversando com ela e pondo-a à vontade para me colocar todas as questões que lhe ocorressem ou dizer-me imediatamente, se passasse por alguma situação de abuso.
À medida que ela foi crescendo e se apercebendo da maldade que existe no mundo, foi também percebendo que a maioria das suas colegas não estavam tão protegidas como ela se sentia porque os pais não falavam com elas sobre esses assuntos. E isso foi um choque para ela. Quando ela me disse isto fiquei triste pelas amigas dela, mas aliviada porque percebi que tinha dado o passo certo com ela.
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De Simplesmente Ana a 27.02.2014 às 10:04

Terrível. Dá mesmo que pensar.

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