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Sobre as praxes #2 (com muita autobiografia)

por João Miguel Tavares, em 05.02.14

Ainda antes de responder a alguns argumentos de leitores pró-praxe, que se encontram na caixa de comentários do post anterior, permitam-me uma deriva autobiográfica, porque já estou farto de ouvir gente argumentar que quem se opõe a praxes nunca foi praxado nem sabe do que está a falar.

 

Como argumento, aliás, já vi coisas mais sofisticadas. Se eu estivesse a falar da vida na Lua, as pessoas poderiam, de facto, dizer: "Mas você nunca foi à Lua, sabe lá do que está a falar!" Aí, teriam boas possibilidades de acertar, tendo em conta que apenas 12 pessoas estiveram na Lua (só para os mais curiosos, aqui). Agora, praxes? Qual é a probabilidade de um gajo que é jornalista, como eu, e que tem 40 anos, não ter sido praxado? Hummm, eu não apostava o meu dinheiro, nem sequer os meus argumentos, nisso.

 

Sim, fui praxado. Claro que fui praxado. Aliás, ao contrário da maior parte das pessoas, assisti aos dois tipos de praxe: uma bastante humilhante, no Instituto Superior Técnico, para onde entrei em 1991 para estudar Engenharia Química; e outra bastante mais light e muito mais bem disposta, a que assisti embora já recusando participar, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, para onde entrei em 1994, para estudar Ciências da Comunicação. 

 

Nesta última já tinha 21 anos e era mais velho do que todos os gajos que me queriam praxar, e portanto mandei-os passear. Eles respeitaram isso. Mas no Técnico, não. No Técnico eu era o típico caloiro amedrontado que chega pela primeira vez a uma universidade - um mundo inteiramente diferente para a maior parte das pessoas, e definitivamente para mim.

 

Nessa época, eu tinha acabado de fazer 18 anos e era um provinciano portalegrense. Lembrem-se: em 1991 o muro de Berlim tinha caído há dois anos. Internet só havia em dois ou três computadores na universidade. O Facebook não tenha sido inventado. Não existiam telemóveis. Eu viva num minúsculo quarto alugado na Manuel da Maia, com uma casa de banho ao lado ainda mais minúscula do que o quarto (era o típico quarto-WC das empregadas de antigamente, com entrada directa para a cozinha) e que tinha um chuveiro eléctrico para aí de 1960, que aquecia a água mal e porcamente. Eu não tinha telefone, e ia dia sim, dia não, a uma cabine pública para falar com os meus pais. E também com a Teresa, que nessa altura eu já tentava convencer a namorar comigo (não foi nada fácil, mas acabou por acontecer poucos meses depois, a 2 de Março de 1992).

 

O dia em que eu cheguei a Lisboa nunca me sairá da memória: era a noite de 6 de Outubro de 1991, quando Cavaco Silva ganhou a sua segunda maioria absoluta. No dia seguinte, segunda-feira, eu iria começar as aulas no Técnico, e a festa da vitória do PSD estava a apenas 200 metros de mim, na Alameda D. Afonso Henriques. Mas eu sentia-me tão assustado e sozinho em Lisboa - cidade a que até então eu viera apenas sete ou oito vezes com os meus pais - que me enfiei na cama e fiquei a ouvir o ruído dos festejos que me entravam pela janela do quarto. Ainda hoje penso: como é possível não ter ido espreitar o que se estava a passar e participar num dia histórico? E eu até tinha votado no PSD. Mas senti-me um puto de província abandonado na capital do país, um passarito caído do ninho, que se escondeu debaixo do primeiro arbusto que encontrou.

 

Digam-me: perante este contexto, perante o puto de 18 anos que eu era, estão a ver-me a ter capacidade para enfrentar um turba de gandulos e dizer-lhes "tirem-me as patas de cima, a mim ninguém me praxa"? Aliás, na altura estava muito longe sequer de se ouvir falar em movimentos anti-praxes. Toda a gente era praxada. Ninguém escapava, a não ser que faltasse à primeira semana de aulas. Coisa que no meu espírito cumpridor era impensável. Donde, essa coisa de ninguém ser obrigado é mega, mega tanga.

 

Por isso, lá fui. Lembro-me de nas primeiras gatinhadelas ter perdido as minhas chaves e de ter ficado em pânico, por achar que não iria conseguir entrar em casa. Pedi para ir à procura das chaves. Não me deixaram, mas alguém as encontrou e deu-mas de volta. Depois, lembro-me de me terem deitado no chão, colocado uma garrafa de vidro vazia no meio das pernas e de uma miúda, como um lápis atado à cintura, ter de enfiar o lápis no gargalo da garrafa - a velha e eterna obsessão sexual e a humilhação pública das mulheres. Finalmente, recordo-me de ter sido obrigado a simular sexo com um sinal de trânsito qualquer, em que me andei a roçar por aquilo para cima e para baixo. Na altura era muito tímido, e essa parte custou-me bastante.

 

Será que graças a isso perdi a timidez? Não me lixem. Se fosse assim tão fácil ultrapassar certos bloqueios, os psicólogos e os psiquiatras estariam no desemprego - todas as pessoas seriam entregues nas mãos dos veteranos, para os seus super-tratamentos de integração de 15 minutos. E, já agora, será que me senti mais integrado na universidade depois disso? Deixem-me rir: consegui sentir-me mal no Técnico todos os dias durante os dois anos e meio que lá andei.

 

Com vêem, a minha praxe esteve longe de atingir o tal patamar de violência que tanto se critica. Não levei com bosta, nem tive de me pôr em cuecas. Mas para o miúdo que eu era naquela altura, foi algo que detestei e algo que temia muito, muito tempo antes. Ou seja, a praxe, para muitas pessoas, é uma violência psicológica ainda antes de acontecer. Sim, eu era um super-coninhas nestas matérias. Mas os super-coninhas também têm direito à existência.

 

Corte para o presente. Por causa destas notícias sobre a praxe, que estavam a dar na televisão, o Tomás perguntou-me o que era isso de "praxe". Eu expliquei-lhe. E ele não mais se calou durante toda a noite. Claramente, nele, a perspectiva de ser praxado, ainda que a dez anos de distância, já é assustadora. Porquê? Porque o Tomás sai ao pai: odeia qualquer tipo de humilhação. E é como o pai era quando tinha a idade dele: Detesta ser gozado. Lida mal com isso. Sente-se profundamente incomodado com críticas àquilo que tem vestido, por exemplo (falei sobre isso aqui). E um dia, ele irá odiar as praxes, ainda que sejam apenas para obrigá-lo a estar numa fila a cantar músicas parvas ou a ir buscar fotocópias à reprografia.

 

Mais daqui a pouco prentendo regressar a argumentos menos biográficos do que estes, para responder a leitores. Mas quem quiser fazer leituras psicanalíticas sobre as minhas opções públicas e as minhas convicções filosóficas, já tem aqui muito com que se entreter.

 

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publicado às 11:40


49 comentários

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De Susana a 07.10.2016 às 15:48

Olá João.

Li o seu post. Interessante. Fui aluna do ISEl e do IST. Em nenhuma das faculdades fui praxada por e simplesmente porque não apareci na 1a semana das 2 faculdades...porque trabalhava. E gracas de Deus. Desde que terminei o secundário aos 17 anos, só arranjava forma de trabalhar e tornar-me um pouco independente dos pais (já bastava depois de passar da adolescência para a idade adulta, continuar na casa dos pais, e com comida e roupa lavada).

Pois bem, na altura com 17 anos, e tendo ingressado pelo ISEL, não entendia bem o que era a Praxe. Ou melhor do que observei resumia-se a muita garrafa de cerveja espalhada pela Universidade (maioritariamente os alunos são rapazes), rapazes com calcas do avesso, caras pintadas, gritos e cantigos, brincadeiras talvez infantis (mas não me compete dizer se são ou não), ordens para comprar bebidas, enfim... Foi o que observei.

No IST também perdi a 1a semana porque estava num estágio de Verão. Quando apareci já não havia muita Praxe. Apenas fora do recinto da Uniersidade no Arco do Cego, onde só passava por lá quando ia almocar ou porque trabalhava lá ao pé. Por isso, as Praxes passaram-me ao lado, e não tenho ideia formada se sou a favor ou não.

Não sinto que precisa-se da Praxe para me integrar nas 2 faculdades. Tive colegas que hoj em dia são amigos, outros conhecidos. Não senti exclusão, por não ter ido a Praxe, ou por opcão minha, não ter comprado ou usado o traje académico. Não foi a jantares de curso ou baile de finalistas, por opcão, porque como adulta que era na altura eu escolhi assim, e não critico quem tenha feito o contrário.

Por curiosidade foi ler o Código da Praxe do IST, e.... senti-me triste... por ler 2 pontos do tal Código:

* TÍTULO II
Das mobilizações
Artigo 46º
a) Só os Caloiros, os Caloiros Estrangeiros e os Novatos podem ser mobilizados e gozados e só os doutores os podem mobilizar e gozar.

Artigo 102º
Todos os que se encontrarem fortemente embriagados ficam auto-protegidos, sendo esta protecção designada de Protecção do Deus Baco.

Neste caso, o IST aprova a gozacão entre alunos (porque 1 veterano ou 1 caloiro como são designados, são antes de mais 2 alunos de uma instituicão) e não encontra mal em um aluno estar embriagado, o que se for dentro do recinto da Universidade, é grave.

Bom, livre escolha para todos. Eu sou feliz por não ter feito parte da Praxe, porque percebi que acima disso, a Universidade, os professores, os funcionários e os colegas ajudaram-me a formar para o Mundo.

Cumps. Susana
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De André a 13.02.2014 às 05:12

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De raquel a 10.02.2014 às 14:18

Olá João,

Admito que este começo me custou. Demasiado informal, talvez. Primeiro, deixe-me dizer-lhe que gosto muito de ler o seu blogue. Depois as apresentações. Tenho 18 anos e sou estudante de Ciências da Comunicação na FCSH/UNL. Somos uma espécie de camaradas, portanto. Fui à praxe, para experimentar, mas não fui com medo: sou uma revoltada (saudável) por natureza e sabia que se alguém me chateasse ia ter de ouvir uma resposta, se não torta, pelo menos brincalhona.
Não me desiludi, muito pelo contrário. Tal como disse, a praxe de CC é bastante light e muito bem disposta. Muito à base de jogos infantis: joguei ao telefone estragado (e sim, tive o azar de me enganar e de ser eu a ir buscar duas bolas escondidas em farinha e três rebuçados numa tigela com água, mas fui gentilmente socorrida com um pano e mais água, para ficar novamente limpa) e estive numa roda a cantar uma música infantil que tinha uma coreografia mais rídicula ainda, só à laia de exemplo. Conversar, brincar e beber: a tríade sagrada. Conversei muito, às vezes à socapa, e fiz muito bons amigos durante a praxe. Cantei as músicas do curso, que tem umas bem giras (não sei como eram na sua altura), e fiz de tartaruga aflita, granada e até Miley twerkando, tudo pelas ruas de Lisboa, sempre perto da faculdade, no Campo Pequeno ou perto da linha de água (conhece?). Há quem diga que isto é andar em manada a fazer figura de urso, mas quando estou com os meus amigos ando em manada e fazemos muitas vezes figura de ursos, só porque nos apetece e tem a sua piada. Tudo o que fiz foi voluntariamente e quando algo não me agradava reclamava e pronto, não fazia, e recebia uma missão qualquer (como escrever um poema para a veterana que acabou por se tornar minha madrinha, escrever um texto sobre a importância dos professores ou ir procurar O Bazar no youtube). Também ouvi gritos: ou me ri, ou ignorei ou respondi ou berrei de volta. Sinceramente, os gritos foi a única cena que me incomodou. As atividades fizeram-me apenas sentir uma criança e ri-me tanto tanto que nunca conseguirá imaginar o quanto me diverti naquela única semana de praxe.
Tenho alguns episódios que nunca vou esquecer: todos aqueles em que respondi aos veteranos e doutores com alguma piada bem-humorada em protesto a atividades que não me apetecia fazer ou quando a minha tia me telefonou aos berros a dizer que eu tinha de ir à reitoria tratar da minha bolsa e comecei a chorar no meio da praxe porque eu já tinha ido lá 30 mil vezes e então duas veteranas disponibilizaram-se a andar da FCSH até à Reitoria, no Campus de Campolide. Nunca me vou esquecer desse dia. Foi muito importante para mim, porque tal como o João posso dizer que vim da província, ou de Tavira, no Algarve, que é basicamente a mesma cena, porque é uma cidade que mais parece uma vila ou uma aldeia e onde só se vê pessoas no Verão e de resto todos nos conhecemos uns aos outros, ou quase. Naquele momento senti-me muito pequenina (ainda mais do que o meu 1,58) e praxada pela minha tia e encontrei naquelas duas veteranas um apoio muito importante. Como este exemplo, existem muitos mais. Posso dizer-lhe que criei uma família na faculdade: tenho padrinhos, pais, tios, avós, irmãos e meios-irmãos, é uma alegria!
Aqueles que não foram à praxe não são menos felizes, pois ninguém tem falta daquilo que nunca experimentou, mas digo-lhe que muitos deles (não digo todos, porque não somos clones uns dos outros e porque é errado cair em extremismos) estariam muito felizes se tivessem participado. De qualquer maneira, não foram marginalizados: os jantares de curso estão abertos à sua presença, são nossos amigos e dos veteranos e doutores e fazem parte do grupo no fb que criei no início do ano, para que pudéssemos todos partilhar apontamentos e outros documentos que nos pudessem ajudar no estudo. Há uma grande união entre o pessoal de CC, acho que talvez seja isso que faz da nossa praxe uma praxe verdadeiramente integradora. Não tem a ver com o ritual, mas com as pessoas que o praticam e se forem boas pessoas então não há que recear.
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De Marco a 06.02.2014 às 11:01

Também me lembro de ter um certo terror à praxe. Depois, na FCSH, acabei por passar por aquilo com o alívio "mas isto é só isto?" Mas, sim, em tímidos (como eu), a praxe produz um certo terror por antecipação.
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De Stéphanie a 06.02.2014 às 10:40

Escrevi sobre isso no meu blog esta semana, já que estamos na parte de autobiografia aqui vai:
"Eu fui praxada na Universidade do Minho será que me ajudou a me integrar? Nem por isso... Tinha este "defeito" de não me embebedar todas as quartas, nem fui a todos os enterros da Gata nem a todos os jantares de cursos, pior ainda era uma "totó" que ia as aulas todas. Os amigos que fiz e que ficaram foram aqueles que tinham o mesmo tipo de vida. Não sou anti praxe porque é verdade que durante aquele ano houve situações bem engraçadas, lembro me de ver 3 colegas rapazes vestidos a meninas a cantar "somos as três p..." , o cortejo também foi bem giro, adorei a noite que fomos ao Bom Jesus e os Dr tinham postos dezenas de velas, a latada também não foi má. Também fui praxada por boas pessoas mas claro que havia os frustrados (sobretudo mulheres ) uma que devia já ter repetido varias vezes e que não tinha namorado (vou focar ,peço desculpa, a frustração pelo problema de falta de sexo) que cismava que eu tinha de tirar o meu anel de comprometido!! Claro que nunca o tirei. Outra praxe que me recusei foi de passar palitos de boca em boca, na altura uma Drª "salvou me" quando percebeu que eu nunca iria aceitar tal estupidez arranjou a desculpa de me mandar ir buscar um café... Claro que podemos recusar as praxes mas há sempre muita pressão, uma colega fez uma queixa devida a uma praxe que acabou mal teve dezenas de telefonemas e toda a gente (entende se os dr) culpava a rapariga... Não sei o que aconteceu no Meco nem acho que algum dia o saberemos, é fácil criticar os miúdos que deveriam ter recusado mas não sei se seria assim tão fácil. Estudei numa universidade que as praxes são razoáveis mas há universidades conhecidas que ouvimos historias incríveis. Não sou anti praxe mas que deve haver mais regras isso acho."
http://aprincesarainha.blogspot.pt/
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De noga a 06.02.2014 às 03:07

nunca fui a favor da praxe... da praxe idiota e parva, sem qualquer propósito e objetivo.
por um lado temos os caloiros que sofrem, coitaditos... mas o facto é que só é praxado quem quer... nos tempos de estudante, conheci caloiros que pediam para ser praxados... é ridículo... quem entra para uma universidade já não é nenhuma criança e o argumento de que são "postos de parte" se não consentirem a praxe mostra a imaturidade dos nossos jovens adultos... nos 10 anos que demorei a acabar o meu curso (sim... 10 anos!) sempre vi caloiros a queixarem-se com gosto e orgulho de terem sido "obrigados" a rebolar na lama, a gritar obscenidades pelas ruas, a serem umas "vítimas" nas mão dos doutores.
do outro lado temos esses magnânimos doutores (e muitos já deixaram de ser jovens há muito tempo), que justificam o seu prazer doentio de humilhar no facto de terem sido também já praxados dessa forma... o argumento dos ignorantes. São estes "doutores", prestes a acabar os seus cursos e a serem professores, que ensinam o respeito pelo outro; médicos, que curam o corpo; psicólogos, que curam a alma...
é triste... é muito triste perceber que estes jovens e adultos aceitam ser humilhados por gosto e humilham com orgulho.
o que acima opinei não engloba quem praxa e é praxado de forma saudável, integrante, acolhedora... são poucos, mas existem e deveriam ser um exemplo para todos... desta praxe sempre fui a favor
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De Carolina a 05.02.2014 às 21:17

Boa noite João,

Entrei na universidade de Aveiro em 2008, com 18 anos, e tive uma experiência com a praxe bastante distinta da sua.

Resumindo em poucas palavras, tudo foi para mim um conjunto de brincadeiras e de "parvoíces" inocentes e em que nada me fizeram sentir humilhada ou sequer incomodada. Talvez, para isso, tenha contribuido as regras impostas na universidade em que entrei, que fazem com que a praxe não seja em nada semelhante às reportagens que tenho visto de "ceitas" e "cultos" pois no regulamento existente, a maioria das questões que se colocam como humilhantes são absolutamente proíbidas - praxe de carácter sexual, físico, envolvendo álcool, nocturna, entre outras. A praxe acelerou o processo de integração e de relação com os colegas do meu ano e mais velhos, digo acelerou porque não acho de todo que seja algo que é necessário, como muitas opiniões por aí.

Quando a praxe terminava, os alunos mais velhos e os caloiros ficavam ao mesmo nível e não havia qualquer hierarquia, frequentavamos os mesmos sítios, as mesmas festas, pediamos apontamentos, ajuda em alguma matéria ou com algum professor e tudo o que se pode esperar da solidariedade entre colegas do mesmo curso.

Assim, tendo-me agradado a experiência, trajei nos anos seguintes e praxei os alunos que foram chegando, acolhi alguns "debaixo da minha asa" dentro e fora das praxes. Nunca achei correcta a exclusão das actividades do curso dos alunos que não frequentavam a praxe, tendo inclusivé no meu segundo ano batalhado para que todos, sem excepção, pudessem frequentar os jantares de curso, que era de curso e não de praxe e onde ninguém era praxado.

Com esta polémica re-acendida nas últimas semanas e já com uma perspectiva externa, tenho ponderado muito sobre os depoimentos que vou houvindo. Radicalismos à parte, é óbvio que há excessos e abusos nas praxes, aliás, é essa a razão pela qual o regulamento de Aveiro diz que é necessário estarem pelo menos 5 alunos mais velhos para praxar um caloiro porque "duas cabeças pensam melhor do que uma". No entanto, sempre me intriguei porque aceitariam as pessoas fazer o que não queriam, porque se rebaixavam, porque é que alguém lhes dizia "atira-te a um poço" e elas, não querendo, o faziam na mesma. Talvez por ser ainda nova, e também por não me identificar com a personalidade coninhas que o João diz que tinha nos seus 18, eu sei que teria respondido, que teria virado costas, que teria enfrentado, mas eu sempre fui respondona e dada ao conflito de ideias e argumentos.

Agora, e reforçado pelo seu depoimento que lhe agradeço a forma como está escrita, não levando para radicalismos fáceis, deparo-me com esta realidade de que aquilo que para mim era inocente se calhar para outros não era, que a praxe pode continuar mas que é preciso que quem praxa tenha ainda mais cuidado do que aquele que eu tive, que seja explícito que é voluntário, que é como pertencer a uma tuna ou a um núcleo da associação de estudantes, que nada acontece caso não se pertença. Acredito nunca ter feito ninguém se sentir como o João descreve, mas se tal aconteceu foi completamente involuntário.
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De Maria C. a 06.02.2014 às 17:40


Olá Carolina - provavelmente não irá ver esta minha resposta; de qualquer maneira, coloca o dedo na ferida que muitos pretendem evitar:
"Nunca achei correcta a exclusão das actividades do curso dos alunos que não frequentavam a praxe, tendo inclusivé no meu segundo ano batalhado para que todos, sem excepção, pudessem frequentar os jantares de curso, que era de curso e não de praxe e onde ninguém era praxado." - então é porque essa exclusão, afinal, existe, de forma mais ou menos declarada ou encoberta, mas ela está lá!
Não sou particularmente a favor, nem particularmente contra - as "parvoeiras" das pinturas, da farinha, dos cartazes... não me chocam grandemente DESDE QUE - e é este o busilis da questão - elas sejam encaradas como tal pelos caloiros e eles entrem na brincadeira porque de facto querem e não porque se sintam de alguma forma pressionados, nem que seja, pela simples hipotese de não poderem vir a participar no que quer que seja.
E pode-se invocar que os jovens podem dizer que não. OK - é certo que não está lá um comité para manietar os estudantes e forçá-los a fazer as coisas coercivamente... Mas, como já muitos aqui testemunharam, não é fácil dizer esse NÂO. Assim como nas escolas não é fácil dizer que não ao tabaco, ao alcool, às drogas... o "fantasma" da exclusão do grupo ou da não inserção é muito forte e leva-nos muitas vezes a achar que é mais fácil dizer o sim!
Quanto à UA - e porque aqui resido - o que me "choca" verdadeiramente é o facto de as benditas praxes durarem o ano todo. Às quartas feiras, lá andam os degraçados dos caloiros... isso é para eles não se "desintegrarem"? :)

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De Carolina a 07.02.2014 às 10:16

Olá Maria C.,

Claro que essa exclusão existe! Nunca caí na ilusão de achar que ela não existe. Assim como diz, existe a pressão social para pertencer, como existe para beber álcool, experimentar drogas, fumar, ...

Não presenciei uma exclusão diferente daquele que vejo entre os que pertencem a uma equipa, por exemplo, e os que não pertencem, mas não sou inocente ao ponto de achar que é em todo o lado assim. Quando digo que lutei contra ela, é porque neste caso acho que a "equipa" é o curso e portanto, ninguém deve ser excluído das actividades que se dizem ser do mesmo.

Se vive em Aveiro, é normal que veja as praxes durante todo o ano, a do meu curso só durava até ao baptismo, que tinha de ser até ao final de Novembro, não devo ter tido mais do que uma dúzia de praxes tanto no ano de caloira como naqueles em que praxei. O nosso curso implica muito trabalho prático ao longo do semestre, o que impede que andemos todas as semanas a "perder tempo" com a praxe, tantos os do primeiro ano como os mais velhos.
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De Ana Azevedo a 05.02.2014 às 20:02

Eu sei que isto não tem nenhuma relação com a matéria em debate...mas não resisti! Se o miúdo da foto é o João tenho a dizer que não é só na personalidade que o Tomás é parecido com o pai!!! Fisicamente também me parece que são iguaizinhos!
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De João Miguel Tavares a 06.02.2014 às 10:00

Sim, o miúdo da foto sou eu, na Praia da Oura, em Albufeira. Acha então que não preciso de fazer o teste do DNA? :-)
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De Ana Azevedo a 08.02.2014 às 13:12

Sim, acho que não precisa de pensar em testes de DNA ou em "covinhas" no queixo! :)
Bom fim de semana!
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De Fernanda a 05.02.2014 às 18:13

Espero que me desculpe esta nova intervenção, João, mas depois de reler o seu post não resisto.
Eu costumo ver o Governo Sombra, sabe? E eu, que também tive uma educação católica e cujo princípio "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" sempre me guiou, tenho alguma dificuldade em perceber os argumentos que usa contra a praxe, fazendo o que faz com os seus companheiros durante o programa: gozar com outros.
Não é que, de uma maneira geral, eu ache que esteja mal o que lá fazem, até dou umas boas gargalhadas, mas... estão a gozar com outros. E não, não gozam só com políticos ou figuras públicas - que aparentemente têm de aceitar ser prax ... gozados e vilipendiados em praça pública só pelo facto de o serem - gozam com outras pessoas que nada têm de figuras públicas. (Aliás, pensando bem, figuras públicas são vocês, mas adiante.)
Passo a explicar: lembra-se das cerimónias fúnebres de Mandela? Lembra-se do falso intérprete de Língua Gestual Sul Africana? Lembra-se do programa em que falaram disso? Eu lembro-me. Para além de terem achado imensa piada ao que ali se passou, esqueceram que houve milhares de pessoas surdas que não só não tiveram acesso aos discursos como não conseguiram ter voz para denunciar a situação a tempo. Além de terem simplesmente ignorado a gravidade da situação, chamaram essas pessoas de "surdas-mudas" e referiram-se à língua deles como "linguagem gestual". (Presumo que - apesar de não ter lido a mensagem que lhe mandei na altura pelo facebook porque deve estar perdida entre alguns milhares na caixa das "outras" mensagens, pois não faço parte dos seus amigos facebookianos - já tenha sabido da ignorância que estas duas expressões contêm.) A maior parte dos surdos do nosso país não teve conhecimento disso. É que o programa não é interpretado para Língua Gestual Portuguesa nem tem legendas. E nós, intérpretes de LGP - as de verdade, com formação para tal - não achámos necessário deitar mais lenha para a fogueira que ardia então.
Voltando às praxes, mas continuando nos surdos: conheço vários surdos que frequentaram a praxe das universidades onde estiveram. Entre eles, não conheço nenhum que não tenha gostado, muito pelo contrário. Mas garanto que nenhum teria achado engraçado ao que vocês disseram sobre eles e a língua deles naquele programa. Ainda por cima, não lhes foi permitido dizer "Não aceito!", sabe?
Espero que não leve a mal este meu comentário, mas eu tenho uma espécie de reação alérgica de cada vez que vejo um novo tema de polémica debatido até à exaustão, em que há os da ala in ", a ala da maioria, e os da ala out ", apenas porque não alinham na moda da maioria. E sendo o João um homem assumidamente de direita num país "adornado à esquerda" (acho que foi assim que disse, uma vez), deve saber bem o que é que se sente quando não se faz parte da ala in ".
Há não muito tempo, li um post seu sobre a sensibilidade que os pais têm a mais ou a menos consoante os medos dos filhos sejam ou não os medos que eles tiveram quando eram crianças. Parece-me que todo este alarido em relação às praxes (alarido, sim, nunca foi debate, sequer discussão) tem a ver com os traumas de cada um. E quem não foi traumatizado e até se deu ao luxo de gostar é agora praxado pela brigada anti-praxe . Praxado em blogs, telejornais e onde quer que haja um agente da dita brigada.
Última nota: nunca fui praxada na faculdade (porque a minha vida pessoal nunca me permitiu participar, apenas por isso), mas ao longo da minha vida pessoal e profissional já tenho passado por muitas situações bem piores do que as que vejo descritas por alguns membros da brigada anti-praxe . E ninguém me perguntou se eu as aceitava. Mas posso dizer-lhe que "saber rir da minha desgraça" me tem ajudado muito ao longo da minha vida.
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De Anónimo a 05.02.2014 às 16:42

Sou uma pessoa muito rigorosa e com forte noção do ridículo. Qualquer forma de trato humilhante entre as pessoas incomoda-me. Sou contra as praxes nas suas diversas formas.

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