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A propósito do prometido post sobre o (alegado) excesso de actividades extracurriculares (vai ser hoje!, vai ser hoje! - espero eu, porque a excelentíssima esposa está em casa, e quando ela está em casa nunca se sabe), proponho para começo de conversa a longa mas muito interessante partilha da Mara. Já é a segunda vez que ela me tira as palavras da boca.

 

A sobrecarga das crianças tem várias dimensões. Umas são profundamente erradas, e têm a ver com a nossa organização social e a nossa concepção do trabalho, e deviam mudar. As outras têm a ver com as expectativas e os desejos de cada família para os seus filhos, e aqui tenho muita dificuldade em traçar uma linha entre o certo e o errado.

1. As actividades extra escola não deveriam nunca servir para ocupar o tempo dos miúdos à força porque os pais trabalham um mínimo de 8 horas por dia, o que somado ao tempo perdido a andar para cá e para lá dá, para muita gente, dias de 10/12/14 horas em que não têm possibilidade de cuidar dos filhos. Isto é errado. Não devíamos ter tanta gente desempregada e outros a trabalhar tantas horas. O trabalho é um bem público precioso, que dá dignidade, possibilita a integração social e a realização pessoal, bem como o sustento das famílias. Está tudo mal com os nossos empregos e horários de trabalho, mas isso é um problema bem mais vasto.

Tendo um emprego com horário flexível, em que trabalho a partir de casa 60% do tempo, não tenho, felizmente, o problema de ter que ocupar os meus filhos "à força". Aliás, não têm aecs, saem da escola às 16:00, e deixamos sempre duas tarde livres na semana, mais os sábados à tarde, em que me recuso a marcar seja o que for, porque o tempo de não fazer nada também é importante para qualquer ser humano. Almoços de família, torneios desportivos, cinema, passeios, são marcados, e com parcimónia, aos domingos.

Dito isto, os meus filhos têm várias actividades. Há várias razões para, independentemente do tempo de que dispõem, os pais inscreverem os filhos nas actividades.

2. Cá em casa encaramos as actividades extra como portas para o mundo, como algo que os enriquece e faz deles pessoas melhores. Não espero que sejam músicos ou desportistas no futuro. Aliás, espero deles muito pouco de concreto, quero que sejam solidários, atentos ao mundo e aos outros, e que façam todas as coisas da melhor maneira que conseguirem ("para ser grande, sê inteiro" é a frase colada em letras garrafais no quarto deles). Acho que o desporto e a música deveriam ser obrigatórios para todas as crianças e levados a sério, tal como a matemática ou o português e, infelizmente, não são. Como não são, nós procuramos compensar isto.

3. Há muitos pais (no desporto, a partir de certo nível, nota-se muito) que encaram certas actividades extra como um caminho para o sucesso (para a sua própria visão de sucesso) e se projectam de uma forma que me parece um pouco estranha nos miúdos. São estes mesmo pais que promovem uma competitividade quase doentia entre miúdos de 10 anos. Eu acho isto profundamente errado, mas, ao mesmo tempo, a verdade é que muitos se sacrificam (a nível pessoal e monetário) para proporcionar aos filhos o que não tiveram e gostariam de ter tido. São pais que estão lá, em todos os jogos, em todos os treinos.

4. Por fim, é inegável que há coisas que contribuem para o sucesso profissional e que se "compram" nas actividades extra. As línguas são o exemplo típico. Eu adoro aprender línguas e falo bem uma data delas; talvez os pudesse ensinar. Mas tenho consciência de que a melhor aprendizagem é a que se faz com os "nativos". E, de forma ainda mais aguda e cruel, tenho consciência de que não basta saber bem inglês/francês/alemão/russo, é preciso provar que se sabe. Já participei em muitos concursos, como candidata e como júri. Em todos, os certificados de línguas foram um dos elementos que fizeram a diferença entre quem ficou e quem não ficou. Não consigo, em consciência, não os inscrever, tendo possibilidades disso, num instituto, sabendo as consequências que isso pode ter mais tarde.

Tenho amigas que me dizem "só quero que eles brinquem, sejam crianças e estejam felizes". Obviamente, também eu. Mas quero que sejam pessoas felizes e realizadas em todas as fases da vida, e vamos dando as ferramentas que podemos para que isso aconteça, sabendo que grande parte dependerá apenas de cada um deles. Temos um equilíbrio sempre precário e alvo de muito questionamento. É o nosso, de agora. Vamos andando e vamos vendo, tentando sempre respeitar, mas também estimular, os nossos filhos.

 

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publicado às 12:46


7 comentários

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De Sara Carvalhal a 30.10.2014 às 18:46

Concordo em pleno com o texto publicado.

As crianças têm de brincar, de aprender, aprender de forma divertida e diversificar experiências.

Posto isto, e dado que foi mencionado no texto, qual é a vossa perspectiva sobre as Aec's?

Tenho passado bastante tempo em escolas e, do que vejo, as Aec's parecem-me... uma aula especializada em não se saber o que fazer com o tempo.

Já percebi a existência de horas infindáveis a cantar o Amor de Água Fresca da Dina (sem tirar o valor a este grande hit da música portuguesa), horas infindáveis de coreografias do Conquistador dos Da Vinci (mais uma vez, não tenho nada contra os clássicos da música portuguesa), ensaiadas por uma professora que claramente não é da área, mas vibra como se fosse a primeira vez a dançar.

A questão que coloco é... uma vez que os miúdos não podem brincar ou fazer os trabalhos de casa neste tempo, não podiam as aec's ser um espaço pra estimular a educação informal, competências como a criatividade, a iniciativa e a proactividade?
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De Paula a 04.11.2014 às 11:55

O problema parece me ser querer omeletes sem ovos. Isto é, quer - se diversificar mas com a prata da casa, que não raro nada percebe - nem tem essa obrigação obviamente- das areas criativas e artísticas.
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De Ana Isabel a 30.10.2014 às 17:48

Olá
Cá em casa com as minhas três filhas sempre funcionou assim:
Em 1o a saúde porque o desporto é saudável e faz bem á mente
Em 2o têm de gostar do que fazem e de se divertirem
Em 3o porque é uma mais valia, no caso das línguas estrangeiras
Com vários filhos é impossível pô-los todos no mesmo desporto pois o que um adora o outro detesta. Por isso mesmo é muito complicado gerir o nosso tempo para conseguirmos estar sempre presentes. Sim, eu sou dessas mães que estão lá sempre para apoiar os miúdos! Nem compreendo aqueles que não vão só porque não lhes apetece, porque muitas vezes em competições, vi muitas crianças á procura dos pais com o olhar muito triste e dececepcionado. Uma coisa é não poder ir, outra é não estar para isso e achar que eles não ligam.
Umas das melhores coisas para os filhos é sentirem sempre o nosso apoio.
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De Anónimo a 31.10.2014 às 10:24

EU também sou dessas mães e os meus filhos adoram!
Aliás foi o meu filho que me pediu mesmo para ir ver os jogos dele (geralmente quem ia era o meu marido e eu ficava nos vários afazeres domésticos de sábado...).
Depois daquele pedido passei a ir praticamente sempre. Afinal eles não nos vão pedir isso para sempre, certo?
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De marta a 30.10.2014 às 14:57

(Também concordo com o ponto 1 da Mara. Toda a sociedade contemporânea está organizada para que toda a gente esteja o mais tempo possível dentro de uma caixa - na escola, no escritório, numa actividade de enriquecimento, no centro comercial, no ginásio - e quem não o faz está desempregado ou é louco. Isto é mau, é errado, é doentio. E se não o podemos, sozinhos, mudar, podemos, pelo menos, impedir-nos de sermos levados por aí...)

Cá em casa temos um princípio inflexível. É preciso dormir bem.

O resto das nossas vidas - em especial dos nossos filhos - decorre daqui. Todo esse resto é circunstancial e vai-se adaptando às necessidades do sono.

A única e obrigatória actividade que os nossos filhos têm entre os 3 e os 10 é a natação duas vezes por semana. Pelas razões invocadas por uma outra comentadora - mais do que o simples e óptimo exercício físico que é, é uma questão de sobrevivência.

A partir do 5º ano podem escolher uma 2ª actividade - pode ser física ou não, mas tem de ser suficientemente perto de casa para poderem ir e/ou vir sozinhos. Eles são 4 e neste momento 2 já passaram do 5º ano. É impossível (e indesejável, na nossa opinião) acompanhar presencialmente todos sem prejudicar nenhum.

Conjugada a hora de deitar com a(s) actividade(s) praticada(s), e acrescentado o facto de morarmos numa zona privilegiada de Lisboa - com escolas, jardim, instalações desportivas perto umas das outras - e de eu trabalhar em casa, apercebo-me que levamos uma vida bastante tranquila.

Jantamos juntos 5 em 7 noites, os miúdos andam à vontade na rua (mesmo o de 9 anos faz alguns percursos desacompanhado), sempre brincaram imenso no jardim e d*o*r*m*e*m - consoante as idades, entre onze e nove horas e meia por noite.

O que noto é que têm muito tempo só deles. Muita brincadeira com os miúdos da zona - aprendem a conviver com TODA a gente e a ser MUITO desenrascados -; muita hora a ver séries descarregadas da net (a de 12 papa tudo quanto lhe cheire a série de época - Downton Abbey, Mr Selfridge) - aprendem inglês e história sem mestre e sem gastar um tostão -; muita experiência com fósforos, cartas e ilusionismo em geral; muita conversa e parvoíce pegada à hora do jantar...

Mesmo assim, o de 14 tem treinos de um desporto colectivo federado 4 dias por semana e jogos todos os fins de semana; a de 12 pratica 3 dias por semana uma modalidade existente em apenas dois clubes da cidade (mas entretanto aprendeu a ir de metro) com exibições ao longo do ano; o de 9 ainda só pratica as 2 vezes por semana natação, mas é federado e tem provas de dois em dois meses. Não imagino o que seria se houvesse mais actividades adicionadas.

Tudo o que aconteceu na infância fica lá para sempre. Da infinidade de caixas que havia onde os meter, escolhemos nenhuma e optámos por lhes dar Tempo.

Quando chegam à adolescência vão carregados de tempo e de vontade de fazer coisas novas. O que praticam é o que escolheram e fazem-no com concentração, esforço e muito prazer.

Quando forem adultos escolherão certamente de outra forma como ocupar o tempo.

O que importa é que tenham sempre tempo, e sempre escolha.








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De T. a 30.10.2014 às 17:21

Não sou mãe, mas sou filha, e venho aqui partilhar a minha experiência como tal.

Durante 10 anos fiz desporto, e essa foi a única actividade extra curricular que tive. Cheguei a fazer competição nos últimos quatro anos. Comecei a praticar porque quis, e deixei de o fazer também porque quis. Os meus pais sempre me apoiaram: iam levar-me e buscar-me ao treino todos os dias (que chegou a ser 5 dias por semana) e iam comigo às competições e exibições.

Sempre fui óptima aluna, sendo que, já na faculdade, optei por tirar um certificado de inglês e um de espanhol - lá está, como já foi aqui comentado, nas línguas, não basta saber, tem de se 'provar' que sabe, mesmo antes de contactar com quem recruta, e para isso um certificado é fundamental.

Hoje em dia, trabalho numa multinacional, onde lido com colegas de todas as nacionalidades. Falar e escrever em inglês é um requisito eliminatório no acesso à empresa, e quem não tinha certificado teve de fazer um teste logo na primeira ronda da candidatura.

Tudo isto para dizer que...apesar de os meus pais me terem dado toda a liberdade para escolher as minhas actividades, não me vejo a fazer o mesmo com os meus filhos. Pelo menos com Línguas. O mercado de trabalho é cada vez mais competitivo, e o que até há uns anos era uma vantagem, hoje é um requisito fundamental e factor de exclusão. Não ter um certificado será claramente um factor de penalização grave.

Não quero filhos com actividades até às orelhas, que deixem toda a família com horários loucos, mas também não os quero deixar 'para trás' em aspectos que já hoje se consideram fundamentais.

Resumindo. Línguas para toda a gente! O resto, escolham o que vos faz feliz. Se for fazer nada, também se aceita, que aqui a menina também uma boa amiga do descanso.
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De marta a 30.10.2014 às 19:48

Olá T.

Como filha, agora ;)

(Fiz vários desportos durante a infância e o início da idade adulta, ininterruptamente, mas nenhum como federada e/ou competição. Lá em casa também era obrigatória a actividade física.)

A partir do 10º ano (15 anos) também fazíamos (várias) Línguas. Sou tradutora, um dos meus irmãos trabalha fora e o outro numa empresa estrangeira. Mas não é essencial começar aos 3 ou aos 6 ou sequer aos 10. O meu marido aprendeu Inglês a sério apenas em adulto e fez uma tese de doutoramento fora, em Inglês. Trabalha diariamente em Inglês.

Para arranjar trabalho é preciso saber uma 3ª língua. Para se ser uma criança ou jovem adolescente, não me parece.

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