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Abençoada independência

por João Miguel Tavares, em 08.10.14

A propósito deste post da Carolina a ir sozinha para a escola pela primeira vez, houve quem perguntasse como é que tão badalada questão se resolveu a contento do pai. Ou melhor: a contento de todos. Pois bem, resolveu-se como é suposto: ao fim de 15 dias de aulas, a Carolina pediu finalmente para ir sozinha para a escola. Por um lado, já estaria farta de ouvir o pai resmungar; por outro, fez uma nova amiga, com a qual se encontra a meio caminho, e depois seguem juntas para as aulas.

 

A mamã da Carolina, depois de me ter humilhado em público, terá também sentido algum rebate de consciência, e é possível que tenha feito trabalho de bastidores para que a sua filhinha se resolvesse a saltar mais depressa do ninho. Não sei. Elas não me contam muita coisa. Da minha parte, tratou-se basicamente de utilizar as tácticas habituais do contra-terrorismo feminino: aparente mão de veludo, camuflada de um eficientíssimo pilão pica-miolos, que conduz nove vezes em dez à rendição do gajo.

 

Comigo, costuma resultar: no que diz respeito a discussões com a excelentíssima esposa, eu acabo quase sempre com as duas mãos levantadas e a abanar a bandeira branca. Sinto-me frequentemente a encarnação sapiens sapiens do provérbio "cão que ladra não morde". Em 100 assuntos respeitantes aos miúdos, há 99 em que eu digo "ok, leva lá a bicicleta" - só que de vez em quando aparece um que eu considero mesmo, mesmo, mesmo essencial. E a Carolina ir sozinha para a escola no quinto ano era um deles. Nesses casos, transformo-me numa gaja. E não desisto.

 

A Teresa escreveu no famoso post em que me atropelou com um rolo compressor que eu teria pregado à Carolina

 

vários sermões sobre como era inaceitável que [eu] estivesse a perder 14 minutos (7 de ida e 7 de volta) da [minha] existência atarefada para a acompanhar num trajecto ridiculamente simples e inofensivo

 

mas a crítica - posso dizê-lo agora - é altamente injusta. Foi isso que eu, por antecipação (ao fim de 22 anos já as vejo chegar à distância), quis dizer com o post "tanta fama para tão pouco proveito":

 

Eu sou egoísta e autocentrado, mas tenho praticado muito pouco. Donde, acumula-se uma dupla frustração: a de andar a praticar muito pouco o meu egoísmo e autocentramento, e a de ser acusado de uma coisa que não tenho tempo para praticar.

 

De facto, o meu desejo de a Carolina ir sozinha para a escola não tem nada a ver directamente com a minha independência. Tem a ver com a independência dela, e de como isso é importante numa família numerosa: nós não nos podemos dar ao luxo de não empurrar para a frente os filhos mais velhos. Pela simples razão de que precisamos da ajuda deles para não darmos em doidos.

 

Lembram-se de eu uma vez ter dito que a Teresa não tinha quatro filhos mas quatro vezes um filho? Ela é uma mãe de altíssimas rotações, e eu tenho manifestas dificuldades em acompanhar o seu ritmo. Ora, ao contrário dela, eu não vejo o meu - o nosso - descanso como um luxo, com o qual necessito desesperadamente de adornar a minha vida burguesa. O nosso descanso e a independência dos nossos filhos não são luxos - são peças essencias na nossa qualidade de vida e na qualidade da paternidade que praticamos junto deles.

 

Eu sou um péssimo pai quando estou esgotado e impaciente. Ter uma noção de família em que nos entregamos tanto aos filhos que quase nada sobra para nós não é só mau para marido e mulher - é mau para os próprios filhos. Porque somos piores pais e porque eles vivem excessivamente dependentes do nosso empenho. A Carolina ir sozinha para a escola melhora a nossa qualidade de vida enquanto família, com certeza. Mas não só: dá-lhe uma liberdade e uma independência que melhoram a sua própria qualidade de vida. Todos ficamos a ganhar.

 

E quanto a estar a chover no dia 1, conhecem o clássico provérbio: independência molhada, independência abençoada.

 

Ontem foi um dia muito importante.

 

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publicado às 13:18


O tempo da Carolina

por Teresa Mendonça, em 30.09.14

Depois de basicamente ter sido intitulada mamã galinhola, hiperprotectora e obcecada em manter as grilhetas nas patas dos meus elefantezinhos para que eles não corram riscos, resolvi vir pôr ordem no galinheiro.

 

Quando se trata de perceber a partir de que momento uma criança deve/pode ir sozinha para a escola há muitas questões, sobejamente já discutidas aqui no PD4, a ter em conta - a responsabilidade e capacidade de "desenrascanço" da criança, que obviamente muito dependem da educação que os pais lhe deram até essa altura; as contingências físicas e económicas do núcleo familiar (se mora longe ou perto, se tem irmãos espalhados pelas escolas públicas da terra onde vive, se os pais têm horário de trabalho compatível com o da sua escola); se o trajecto até à escola coloca a criança em situação de perigo (bem diferente de correr riscos controlados); e por aí fora.

 

A decisão, obviamente, terá que ter em conta as necessidades da família, mas deveria focar-se acima de tudo na criança. E cada criança é uma criança, pelo que penso que não existe uma data a partir da qual todas as crianças têm obrigação de acordar mais responsáveis e independentes e passar a fazer o trajecto para a escola sozinhas. Convém falar com elas, perguntar-lhes a opinião, e garantir que elas se sentem confortáveis com este importante passo na sua vida cada vez mais autónoma e independente dos pais.

 

Ora, no caso concreto da nossa família, o excelentíssimo esposo e pai cá da casa resolveu decidir que a nossa Carolina estava pronta para ir para a sua escola,  sozinha, a partir do primeiro dia do ano lectivo 2014/2015, indiferente à opinião que ela tivesse acerca do assunto. Pregou-lhe vários sermões sobre como era inaceitável que ele estivesse a perder 14 minutos (7 de ida e 7 de volta) da sua existência atarefada para a acompanhar num trajecto ridiculamente simples e inofensivo, e quando ela ousou murmurar que não se sentia preparada para o fazer sozinha, obviamente a culpa era da mamã-galinha da casa que insistia em não cortar o cordão umbilical e dar asas aos seus filhotes. 

 

Para quem é frequentador do PD4, a auto-confiança da Carolina é muito bem conhecida. Ela adora ser independente e passa os dias a dizer que é uma pré-adolescente, pedindo constantemente para aceder a patamares habitualmente só acessíveis aos mais crescidos. Falta-lhe ainda muita responsabilidade mas está mais do que apta a fazer o trajecto da escola para casa com autonomia e segurança. A primeira vez que foi fazer uma pequena tarefa (comprar pão) sozinha em Lisboa tinha 5 anos (não atravessou nenhuma estrada, mas parte do trajecto não estava no raio de visão da nossa janela onde eu fiquei à espreita), e quando está nos Montes da Senhora a passar férias anda pela aldeia (que não é nada pequena) com total autonomia. Passa a vida a pedir-me para eu não sair do carro quando vou buscar a Ritinha ao infantário, ficando muito ofendida quando alguma auxiliar se mostra receosa de a deixar descer as escadas com a Rita ao colo. Adora ser crescida, ter o seu cartão de acesso ao refeitório e não precisar dos pais para a controlar na escola. É destemida e trepa em segundos aos pontos mais altos de todas as torres de cordas e redes dos parques infantis.

 

Mas pediu um período de adaptação até passar a ir sozinha para a sua nova escola. 

 

A Carolina vê muitos filmes. E lê muitos livros. E fala com muitas pessoas. Ora, os livros e filmes que vê, especialmente os que o seu papá lhe mostra, além de muito interessantes e imaginativos, tratam de situações limite que a fazem (e bem) pensar na fragilidade da vida humana. Ultimamente tem-me falado repetidas vezes numa das primeiras sagas de banda desenhada que o João lhe mostrou - Buddy Longway - e que acaba com a morte cruel da personagem principal e da sua família, sem que eles tivessem feito alguma coisa de mal ou merecessem (se é que alguém merece) tão triste fim. Esta história que ela tanto adorou, ficou imersa na sua consciência e insiste em vir à superfície sempre que ela se sente insegura. Além disso, a zona onde vivemos tem sido muito vandalizada ultimamente e o nosso prédio já foi assaltado duas vezes este mês. Ora, a Carolina ouve os vizinhos falarem sobre esses acontecimentos e sobre a insegurança que sentem.

 

É assim tão difícil de aceitar que a Carolina se sinta ainda pouco confortável em fazer o simples trajecto de casa para a escola, sem a presença de um adulto? Será desejável obrigá-la a enfrentar os seus medos de repente quando ainda agora começou uma nova etapa da sua vida, numa nova escola, onde só conhecia uma colega, que nem sequer era da sua turma? Onde está agora o papá que me obrigou a tirar o Tomás das aulas de futebol (nas quais o Tomás me pediu para o inscrever durante 3 anos consecutivos) por causa de um simples problema de balneário? Será que o excelentíssimo papá não se reviu no filme que o seu elefantezinho estava a viver e resolveu retirá-lo daquele ambiente agressor até que ele se sentisse mais robustecido e auto-confiante?

 

Não tenho dúvidas que as inseguranças e ansiedades dos pais passam para as crianças e podem prejudicá-las irremediavelmente na sua aquisição de autonomia e auto-confiança. Não acho que seja benéfico para ninguém superproteger as crianças e escondê-las da sociedade numa redoma à prova da insanidade de algumas (poucas) pessoas que todos sabemos que vivem as suas vidas algures ao nosso lado. Devemos, sim, garantir que as nossas crianças aprendem a correr riscos evitando os perigos descontrolados. E isso custa, é claro. Mas faz parte do pacote da maternidade/ paternidade.

 

A Carolina sabe que esperaremos o tempo que for necessário para ela. Mesmo que o tempo dela não seja o nosso tempo.

 

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publicado às 10:18


Alguns comentários sobre a autonomia dos miúdos

por João Miguel Tavares, em 28.09.14

Ainda em relação ao tema da autonomia dos miúdos abordado na semana passada, fica aqui um resumo de alguns comentários muito pertinantes ou de óptimas partilhas de experiências de vida, entre os quase 150 leitores do PD4 que se deram ao trabalho de escrever sobre o assunto. O meu obrigado a todos.

 

Ana Isabel:

 

Temos três raparigas de 25, 21 e 16 anos, por isso eu já tive tempo de me habituar a soltá-las. Que é o que a Teresa precisa, de TEMPO. Tempo para conseguir gerir a preocupação constante que é ter um filho na rua sozinho. Tempo para conseguir perceber que não vai acontecer nada. Tempo para se habituar à ideia que os filhos estão a crescer e a ficarem independentes, e que afinal até se conseguem desenrascar sozinhos! Tempo para aprender a confiar neles. Garanto-lhe que à terceira (no vosso caso, à quarta), quase que já crescem sozinhos! A primeira é que é mais complicada. Mas o início da independência deles é o começo de um novo ciclo em que nunca mais vamos estar descansados. É assim a vida. Menos trabalho físico, mas psicologicamente muito complicado.

 

José Moreira:

 

A culpa é das notícias. O facto de termos acesso a tanta informação, sobre tantas catástrofes e maldades e azares, faz com que tomemos como regra, e como perigos iminentes, situações que são, no nosso país, muito raras. O mundo não está pior. Nós é que sabemos demais. Penso que será esse o principal motivo para sermos pais super protectores.

 

Ana:

 

Acho importante que se dê o tal voto de confiança, que se concedam algumas pequenas liberdades, mas, na mesma proporção, acho que devemos responsabilizar os petizes e atribuir-lhes pequenas tarefas diárias. Porque isso é que é crescer. Ter direitos e deveres, poder ir a pé, mas ter de fazer a cama, arrumar o quarto ou o que seja.

 

Marta:

 

Eu tenho uma filha de 3 anos e dou por mim constantemente a dizer: Mariana, cuidado com o degrau; Mariana, não corras... e reparo que quando a chamo a atenção ela desacelera e fica com um ar apreensivo... obviamente. vejo logo que isto não é bom para ela. A obsessão dos pais com os filhos não é de agora. Os meus avós já o tiveram com os meus pais e os meus pais tiveram comigo (tenho 42 anos). A minha mãe passou a vida a apontar-me perigos e isso tornou-me numa pessoa com pouca autoconfiança e cheia de medo de tudo. Tanto que eu não tenho uma única cicatriz da qual me possa orgulhar...

 

Mara:

 

Concordo em absoluto com o João. Autonomia, autonomia, autonomia! Podem percorrer sozinhos pequenos percursos aos 10 anos, SIM! E ficarem sozinhos em casa pequenos períodos. Podem e devem ir comprar pão à padaria da rua, trazer o jornal do quiosque da esquina, ir à papelaria.

A galinhice generalizada está a criar incapazes e não é baseada em nenhum dado racional, mas em medos não fundamentados. Os pais tendem a achar que os filhos nunca estão preparados para crescer. Acabam nas filas de matrículas nas faculdades, porque os seus marmanjos, coitadinhos, não se podem matricular sozinhos, nem arrendar um quarto sozinhos, nem fazer um contrato de água e luz. 

Tenho 4 filhos, como o João. Tenho lutas épicas com o mais velho, que não é nada fã de autonomia. O seguinte, curiosamente, e só com 7 anos, preza muito a independência e o voto de confiança que lhe damos quando o deixamos ir ao pão sozinho ou brincar sozinho na praceta. Os outros ainda são muito pequenos. A autonomia é uma coisa boa, útil, indispensável. Nem sempre é fácil, crescer às vezes é chato, outras dói. O mundo NÃO está mais perigoso do que há 30 anos, nós é que estamos mais paranóicos, mas não fazemos favor nenhum aos miúdos mantendo-os numa redoma.

 

Teresa A:

 

A minha filha é um "crash test dummy", passa a vida a cair e a ferir-se. Por minha vontade andava sempre a protegê-la mas acho melhor ser a mãe a sofrer do que a pequena, que adora correr, saltar, trepar. Magoa-se? Sim. Mas não tem medo e é uma crianca mexida e feliz. Se a meter numa redoma talvez evite as nódoas negras, os arranhões, os galos, os ossos e os dentes partidos (sim, já tivemos tudo isto nos 4 anos de vida da garota, várias vezes) mas crio uma miúda medrosa e dependente. Concordo com a pessoas que dizem que se a Carolina quer, deve ir. Se a Carolina acha que ainda é cedo, aí é melhor ver...

 

Susana Mendes:

 

Para que as mamãs se habituem aos filhos irem sozinhos para a escola posso aconselhar a minha estratégia, testada por mim no 5.º ano (há dois anos) e que resultou. Na primeira semana - levar à escola. Na segunda semana - ficar a meio da rua, com o portão da escola à vista e vê-la entrar. Na terceira semana - ficar no princípio da rua da escola sem avistar o portão, e ficar a vê-la até se perder de vista... e por aí fora, encolhendo sempre o nosso caminho. Rapidamente conseguimos que ele saísse da paragem do autocarro, e eu seguisse. Eu... sozinha. Nota: Adaptem o número de semanas de estágio em cada etapa conforme a vossa angústia.

 

JP:

 

Lembro-me de uma vez ter visto aquela que considero a mãe mais histérico-protectora de todas as mães que vi até hoje: além de andar sempre atrás da filha [no parque], levava-a ao cimo do escorrega, dizia-lhe para esperar por ela antes de descer. A miúda só podia descer quando a mãe estava em baixo à espera dela. A melhor foi quando a menina começou a correr e aquela mãe desatou aos berros: "Não corras que podes cair!" Que freak!!! Mas como se pode pedir a uma criança para não correr?!

 

Joana:

 

Concordo com a Teresa. A Carolina só mudou de escola este ano, ir já sozinha para a escola parece-me precipitado. Muitas mudanças ao mesmo tempo. Talvez para o ano, quando ela já conheça colegas que possam fazer o mesmo caminho que ela, para não ir completamente sozinha, por exemplo. Deve haver uma transição das coisas. Ir já já, escola nova, 10 anos, muito cedo.

 

Isabel Prata:

 

Na minha cabeça todas as tragédias são possíveis, mas tenho vindo a aprender a lidar com isso, porque é assim que tem que ser. Tenho 3 filhos, 21, 20 e 10, e não há volta a dar, viveremos sempre angustiados, que eles sejam atropelados, que tenham um acidente, que andem em más companhias (por acaso o cenário do rapto nunca me atormentou). Mas os filhos não são nossos são do mundo e a nossa obrigação é dar-lhes asas, procurando que as calças sejam à medida das pernas. Só assim eles ganham autonomia e só assim eles podem aprender a lidar com as situações e a evitar os perigos. E ir estando atentos aos sinais que eles dão.

 

Hoje há uma ajuda muito grande, os telemóveis. Mas mesmo assim é só uma ajuda, e que até se pode tornar contraproducente: no dia em que por alguma razão eles não atendem, entramos em pânico. Quando os mais velhos começaram a sair à noite, iam cheios de recomendações, sobretudo em relação ao álcool. De início íamos buscá-los, depois começaram a vir de táxi, depois com amigos, depois tiram carta... De início não adormecia antes de chegarem, agora, sossegada por os saber ajuizados, apenas quando acordo de manhã vou ver se eles estão nos quartos. É assim, o irem sozinhos para a escola aos 10 anos é só uma pequena etapa. Como dizem os antigos a solução é "alma até almeida".

 

Patrícia C.:

 

Uma vez numa reunião no ATL alguns pais (de miudos de 5.º e 6.º ano) disseram que não permitiam que os filhos fossem de autocarro da Carris fazer uma visita de estudo acompanhados por 3 monitores porque iam muitas pessoas estranhas dentro do referido autocarro!
E ainda hoje tenho amigas cujos filhos de 13/14 anos não têm autorização para irem sozinhos para a escola que fica a 10 minutos de distância a pé nem sequer à padaria que é ainda mais perto!

 

Teresa Power:

 

No ano passado, o David fez sete anos. Convidou cinco amiguinhos para lanchar connosco e brincaram a tarde inteira entre o nosso jardim e o descampado por detrás da casa. No fim do dia, os pais vieram buscar os filhos, e qual não foi o seu espanto ao vê-los à distância, empoleirados sobre várias árvores... E comentaram comigo: "Não sabia que o meu filho era capaz de subir às árvores!" Ou: "O meu filho passa o tempo todo com os jogos de computador... Não imaginei que lhe soubesse tão bem estar sobre uma árvore!" E todos, todos falaram da saudade da sua infância, quando também eles subiam às árvores... Cá em casa vive-se uma "negligência benigna" muito natural, que as pessoas atribuem ao facto de serem muitos, mas que é muito mais do que isso: é propositada!

 

Dr. Mário Cordeiro:

 

Como pediatra, pai de crianças de 11 e 12 anos que vão sozinhas para a escola, e como fundador da APSI, acho que tem toda a razão. Aliás, já que refere o caso Maddie, só houve um, mas foi repetido "ad nauseum" de modo a parecer que todos os dias desapareciam dezenas de crianças no Algarve... e resta a saber o que realmente aconteceu, ou se o "o pecado não morava afinal ao lado". Ainda com esta claustrofobia em que colocamos as crianças (nós em relação a elas, entenda-se), não se esqueçam, leitores do PD4, que 95% dos abusos sexuais de menores são cometidos por familiares e conhecidos da criança... leram bem. 95%.


E também estou de acordo com o Luís Januário, meu colega e amigo, que uma coisa é correr riscos de forma controlada, outra é estar em situações de perigo. Risco é probabilidade de acontecer alguma coisa. Perigo é uma situação que, por si, tem tudo para acabar mal. Uma diferença que pode parecer meramente semântica, mas que é fundamental neste contexto. Claro que é preciso ensinar as crianças, mostrar-lhe os caminhos melhores, debater com eles e rever os riscos e perigos, no fundo, gastar tempo nessa missão que é educar e ensinar/aprender.

 

Não sou adepto do "antigamente" - se não, não tinha dedicado 30 anos da minha vida à prevenção de acidentes e promoção da segurança infantil... - mas o excesso de protecção dá uma falsa sensação de segurança. para lá disso, como alguém bem comenta, os pais mais restritivos esquecem-se depois de coisas como a segurança rodoviária e outras coisas assim. Não há situação mais letal que a vida... mas tem de ser vivida sob pena de morrermos, quando mais não seja, de tédio e espartilhos...

 

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publicado às 18:57


A receita do crescimento segundo Eduardo Sá

por João Miguel Tavares, em 28.09.14

 

Em tempos idos (há um ano e meio, tempo comum; há uma década e meia, tempo familiar) escrevi neste blogue um texto bastante mauzinho - mas sincero - sobre Eduardo Sá, intitulado "A Associação dos Pais Alérgicos a Eduardo Sá". E eis que este domingo Eduardo Sá voltou à minha companhia via Observador, onde ele dá uma entrevista a propósito do seu novo livro, Hoje Não Vou à Escola!.

 

 

E como a entrevista é das que se lê e não das que se ouve, dei por mim a concordar com Eduardo Sá mais vezes do que é habitual, até porque o seu costumeiro tom cutchi-cutchi aparece aqui bastante suavizado.

 

É claro que a visão da criança "criativa" e a defesa de que "crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos" é muito cor-de-rosa e altamente discutível. Mas, de um modo geral, concordo com o retrato que Eduardo Sá traça da escola actual.

 

E para aquele tema que nos ocupou tanto na semana passada, há uma frase sua que me parece bastante pertinente, e que me fez escrever este post:

 

Crescer é uma receita razoavelmente simples: dar o mais possível de colo, um q.b. de autoridade e o mais possível de autonomia.

 

É verdade. Ensinar a crescer é mesmo isso. Sobretudo aquela parte de "o mais possível de autonomia" que, vá lá saber-se porquê, foi a que mais gostei de ler.

 

Ora, se até o psicólogo mais cutchi-cutchi da nossa praça o diz, quem, de entre as pessoas que escrevem neste blogue, terá coragem para o desmentir?

 

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publicado às 18:14


Quando é que eles podem ir sozinhos para a escola? #3

por João Miguel Tavares, em 24.09.14

No Facebook, o Duarte Araújo Mata deixou este link para uma notícia de há um ano do jornal italiano La Stampa. São muito curiosas - e significativas - as diferentes percentagens de filhos que vão sozinhos para a escola em Itália, na Inglaterra e na Alemanha. Título e pós-título do artigo: 

 

Scuola: “Bambini privi di autonomia” Appena l’8% torna a casa da solo

 

In Germania il 76%, in Inghilterra il 25%: i bambini italiani, a differenza dei coetanei europei, sono sempre scortati dagli adulti: secondo esperti e pediatri è molto negativo

 

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publicado às 12:06


Dia de exame

por João Miguel Tavares, em 19.05.14

Hoje é um dia muito importante para a Carolina: a esta hora, ela está a fazer o primeiro grande exame académico da sua carreira - a prova de aferição de Português do 4.º ano. Na próxima quarta-feira será a vez da prova de Matemática.

 

Eu sempre fui a favor deste tipo de exames. O final do ensino básico é uma altura muito importante na vida deles, e acho muito bem que os seus conhecimentos sejam avaliados. Mas há um "mas", que tem mais a ver com os adultos do que com as crianças. Acho óptimo que os miúdos sejam examinados; acho péssimo, estando a falar de putos com 10 anos de idade, que os pais e os professores coloquem em cima dos seus ombros uma pressão excessiva.

 

Ou seja, acredito que as crianças estão preparadas para fazerem testes e devem fazê-los - afinal, elas levam com provas de avaliação ao longo de toda a escolaridade. Mas tenho dúvidas acerca da sua preparação para lidar com pais stressados e professores de escolas demasiado competitivas, que interrompem as lições curriculares com um mês de antecedência só para preparar as crianças para os exames.

 

Como ninguém quer fazer má figura - e como a avaliação da performance das escolas é um critério cada vez mais relevante para pais e ministério da Educação -, tenho a sensação de que nalgumas escolas e em algumas famílias a pressão pela performance de excelência possa ser contraproducente. O Público trazia ontem um belo trabalho sobre o tema, onde se alertava para os perigos da transformação das escolas em "centros de treino" para exames.

 

Sei do que falo. A coisa, antes de começar a enervar os filhos começa a enervar os pais, e já tive algumas discussões com a excelentíssima esposa sobre o tema, onde me vejo no triste papel de molengas doméstico - logo eu, que sou adepto de uma educação austera e expurgada de mariquices.

 

A minha posição sobre o estudo caseiro acompanhado já foi exposta aqui e aqui, mas quando os exames apertam há certas filosofias mais difíceis de pôr em prática, sobretudo porque a Teresa insiste em que eles trabalhem mais em casa e combatam as suas dificuldades - até porque há sempre novas dificuldades que vão surgindo, à medida que as matérias se complexificam.

 

Mas eu mantenho-me na minha enquanto eles tiverem boas notas - estudar é, em primeiro lugar, responsabilidade deles, não dos pais. No mundo perfeito, e a partir da idade da Carolina (aos seis ou sete anos eles ainda são muito pequenos e falta-lhes sentido de responsabilidade), os pais só deveriam intervir a pedido dos próprios. Género: "Papá, há aqui uma matéria que não percebo. Importas-te de me explicar?"

 

A verdade - se calhar sou eu que sou ingénuo - é que acho que a Carolina faz isso. Ela em casa parece às vezes um pouco baldas, mas não acredito que seja assim na escola - é demasiado competitiva, e tem demasiado prazer em ser a melhor, para que se deixe levar pelo desinteresse académico. Além de que teve cinco a Português e a Matemárica no segundo período - ou seja, provou a sua competência e deu mostras de merecer a minha confiança.

 

E tendo ela provado até ao momento ser uma óptima aluna, eu entendo não ter o direito de lhe impor três ou quatro horas de estudo num fim-de-semana sobre matérias que ela diz dominar - e, sobretudo, depois de andar a fazer essa mesma preparação durante cinco dias por semana na escola.

 

A Teresa, claro, é mais desconfiada, e quer ver com os seus próprios olhos - via testes e trabalho a sério - essa competência. E, portanto, acusa-me de, com a minha atitude "ela é que sabe e não a chateies excessivamente", estar a demitir-me das minhas responsabilidades e a fazer o joguinho da minha filha mais velha. E como a Carolina escuta certas conversas atrás das portas, já percebeu a existência dessas divergências e, esperta que nem um cuco, utiliza-as nas suas actividadezinhas de manipulação parental.

 

Mas lá está: visto a uma certa distância, ou seja, visto daqui mesmo, frente a um ecrã de computador que me ajuda a pensar, eu mantenho-me fiel à minha filosofia da autonomia e da responsabilidade. Enquanto a Carolina provar e cumprir, ela tem direito a definir os seus métodos de trabalho e de estudo. Até porque tenho, de facto, imenso medo em pressionar demasiado miúdos desta idade - facilmente transferimos para eles os nosso nervos e, depois, estão uma pilha na hora de fazer o exame.

 

Ainda há pouco, só de estar a entrar numa escola nova onde não conhecia a sala e não via os colegas, parecia uma barata tonta. Em vez de perguntar calmamente a uma auxiliar onde deveria dirgir-se, desceu a correr as escadas da escola para me vir apanhar à porta de entrada (os pais não podiam entrar na escola), para eu a ajudar. Lá tive eu de explicar ao senhor da porta que tinha mesmo de me deixar subir, porque ela estava já toda tremeliquenta e à beira da choraminguice. Ele deixou - e é por isso que gosto tanto de Portugal.

 

A Carolina sempre teve a enorme qualidade não se enervar, de ser super-optimista, de achar que é capaz de tudo e um par de botas na hora de ser avaliada. Isso são enormes virtudes quando se entra numa sala de exame, e saber na ponta da língua a diferença entre determinantes possessivos e determinantes demonstrativos não compensa a perda da sua postura zen.

 

Claro que uma coisa não impede necessariamente a outra, mas no caso da Carolina prefiro não arriscar. E se eu sempre lhe disse "confio em ti desde que tenhas boas notas" não vou mudar de filosofia só porque se aproxima a GRANDE PROVA DE AFERIÇÃO. Eu sou totalmente pela exigência, não desculpo más notas, acho que estudar é o trabalho deles e o devem levar muito a sério. Mas também não exageremos, caraças. São putos de dez anos. Estão na quarta classe, por amor de Deus. Querer transformá-los já em mini-adultos à beira de entrar na universidade é uma homérica palermice.

 

E sabem porque é que, no fundo, no fundo, essa homérica palermice acontece? Porque hoje em dia damos demasiada atenção aos nossos filhos. Essa é que é essa. Se às vezes pensássemos mais em nós e menos neles, tudo seria muito menos complicado. Infelizmente, estamos tão habituados a que os filhinhos sejam o centro das nossas vidas, que às tantas já não conseguimos fugir à força da sua gravidade e deixar de orbitar em seu redor.

 

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publicado às 09:55



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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