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Sobre bater (ou não bater) nas crianças #12

por João Miguel Tavares, em 25.06.14

Lamento, lamento, lamento. A culpa não é minha, mas da Paula N., que deixou a seguinte pergunta:

 

E lá voltámos ao tema da palmada!! Daqui a pouco o blog muda de nome para "palmadas a quatro"... eheh, estou a brincar! Mas já que estamos novamente a falar sobre esse assunto, gostaria de lhe pedir a sua opinião sobre um assunto: a palmada em público!! Deve ser dada? Devemos de esperar até chegar a casa? Nesses casos, NUNCA aplicamos a palmada e temos apenas uma conversa com a criança?

 

No outro dia, quando fui ao Continente, vi uma rapariga talvez nos seus 10/11 anos a ser um pouco mal educada e a ter uma discussão com a mãe que acabou com duas palmadas bem dadas no rabo. Se no início estava com raiva da miúda e até a mim me apetecia ir lá aplicar-lhe um par de estalos, assim que a miúda apanhou até me deu pena a forma como ela se sentiu envergonhada e humilhada. O que faria nesta situação? Um ralhete? Uma palmada? Ignorar?

 

Devo dizer-lhe, cara Paula, que uma das maiores humilhações da minha vida aconteceu no Centro Comercial Colombo, quando a Carolina tinha para aí três ou quatro anos. Ele começou a fazer uma birra louca, já não sei porquê, e eu decidi agir tipo árbitro de futebol: isolá-la das outras pessoas e puxá-la para um canto, só para ver se ela se acalmava. Não lhe toquei com um dedo, mas só por causa do gesto de agarrar nela e tirá-la dali a espernar, houve uma senhora de idade que começou aos gritos comigo de "pai mau!, pai mau!" e a dizer que ia chamar a polícia.

 

Visto à distância a coisa tem uma certa graça, mas na altura não teve piada nenhuma, porque um pai que está numa situação dessas não tem forma de se sair bem. Ou começa a chamar nomes à senhora e a manda para o raio que a parta e lhe diz para se meter na sua vida, coisa que a mim me custaria sempre fazer porque acho que há casos em que temos mesmo a obrigação de nos meter na vida dos outros, ou então convida a senhora a chamar a polícia, e ficamos a conversar com a autoridade sobre González vs Estivill, ou então sai rapidamente dali para fora com a família. Seja como for, nenhuma solução é boa. Felizmente, a Teresa estava lá e acabou por pegar ela na Carolina e a situação acalmou. Mas nós acabamos sempre humilhados em público.

 

Tudo isto para dizer o quê? Em primeiro lugar, que ser pai é estar preparado para passar vergonhas. Ou seja, se tiver que ser, se tivermos mesmo de corrigir um filho naquele momento, se não pudermos deixar passar, se ele estiver mesmo a ultrapassar todos os limites, eu acho que devemos estar preparados para o fazer em público e arcar com as consequências de uma má interpretação social. A conveniência de manter as aparências só pode ir até um determinado limite - porque se cedermos a tudo por estarmos rodeados de desconhecidos, um filho mais dado à chantagem será sempre rei e ditador assim que colocar um pé fora de casa. Não pode ser.

 

Só mais um acrescento: no meu livro de pediatria mental, palmadas no rabo é só para aí dos dois/três aos quatro/cinco anos, quando eles começam a testar os limites, por vezes exageram nas birras, e ainda não é possível ter uma conversa decente com eles, ou aplicar-lhes um castigo (perdão, um reforço positivo) eficaz. A partir daí, há uma compreensão do certo e do errado e instrumentos que dispensam, em princípio, a nalgada. E tudo isto varia, como é óbvio, em função da personalidade dos filhos. Há alguns a quem basta dizer que estamos tristes com eles para se porem na linha.

 

Por isso, muito sinceramente, não me imagino a enfiar um estalo - até porque nunca dei estalos - ou uma palmada numa filha de 10 ou 11 anos. A não ser, claro, que ela passasse todos os limites - mas aí não seria um estalo educativo, mas uma punição por um enorme desrespeito, que tanto poderia dar a uma criança como a um adulto. Claro está que isto sou eu a falar agora. A minha filha mais velha tem 10 anos, portanto ainda não sei o que a adolescência me reserva. Se calhar daqui a três ou quatro anos ando por aqui de cabeça perdida a defender as virtudes da palmada até aos 18, para grande horror da Maria e da Helena Araújo.

 

 

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publicado às 15:26


Os putos suecos andam mimados

por João Miguel Tavares, em 30.10.13

Com um grande obrigado ao Luís Aguiar-Conraria, que me enviou o link deste texto, aqui fica esta notícia da AFP (versão brasileira) sobre o excesso de mimo por terras escandinavas. É só mesmo para chatear a Helena Araújo e a Teresa Muge. Tomem lá esta contra-ataque sueco, minhas senhoras:

 

A Suécia, primeira nação do mundo a proibir as palmadas na educação das crianças, se pergunta agora se não foi longe demais e criou uma geração de pequenos tiranos.

 

"De uma certa forma, as crianças na Suécia são extremamente mal educadas", afirma à AFP David Eberhard, psiquiatra e pai de seis filhos. "Eles gritam quando adultos conversam à mesa, interrompem as conversas sem parar e exigem o mesmo tratamento que os adultos", ressalta.

 

O livro "Como as crianças chegaram ao poder", escrito por Eberhard, explica porque a proibição das punições físicas - incorporada de forma pioneira ao código penal da Suécia em 1979 - levou, pouco a pouco, a uma interdição de qualquer forma de correção das crianças.

 

"É óbvio que é preciso escutar as crianças, mas na Suécia isso já foi longe demais. São elas que decidem tudo nas famílias: quando ir para a cama, o que comer, para onde ir nas férias, até qual canal de televisão assistir", avalia ele, considerando que as crianças suecas são mal preparadas para a vida adulta.

 

"Nós vemos muitos jovens que estão decepcionados com a vida: suas expectativas são muito altas e a vida se mostra mais difícil do que o esperado por eles. Isso se manifesta em distúrbios de ansiedade e gestos de autodestruição, que aumentaram de maneira espetacular na Suécia", diz o psiquiatra.

 

Suas teses são contestadas por outros especialistas, como o terapeuta familiar Martin Forster, que sustenta que, numa escala mundial, as crianças suecas estão entre as mais felizes. "A Suécia se inspirou sobretudo na ideia de que as crianças deveriam ser ouvidas e colocadas no centro das preocupações", afirma Forster. Segundo ele, "o fato de as crianças decidirem muitas coisas é uma questão de valores. Pontos de vista diferentes sobre a educação e a infância geram culturas diferentes".

 

O debate sobre o mau comportamento das crianças surge regularmente nas discussões sobre a escola, onde os problemas de socialização ficam mais evidentes. 

 

No início de outubro, o jornalista Ola Olofsson relatou seu espanto após ter ido à sala de aula de sua filha. "Dois garotos se xingavam, e eu não fazia ideia de que com apenas 7 anos de idade era possível conhecer aquelas palavras. Quando eu tentei intervir, eles me insultaram e me disseram para eu ir cuidar da minha vida", conta à AFP.

 

Quase 800 internautas comentaram a crônica de Olofsson. Entre os leitores, um professor de escola primária relatou sua rotina ao passar tarefas a alunos de 4 e 5 anos: "Você acha que eu quero fazer isso?", disse um dos alunos. "Outro dia uma criança de quatro anos cuspiu na minha cara quando eu pedi para que ela parasse de subir nas prateleiras".

 

Após um estudo de 2010 sobre o bem estar das crianças, o governo sueco ofereceu aos pais em dificuldade um curso de educação chamado "Todas as crianças no centro". Sua filosofia: "laços sólidos entre pais e filhos são a base de uma educação harmoniosa de indivíduos confiantes e independentes na idade adulta".

 

Um de seus principais ensinamentos é que a punição não garante um bom comportamento a longo prazo, e que estabelecer limites que não devem ser ultrapassados, sob pena de punição, nem sempre é uma panaceia.

 

"Os pais são instruídos a adotar o ponto de vista da criança. Se nós queremos que ela coopere, a melhor forma de se obter isso é ter uma relação estreita", afirma a psicóloga Kajsa Lönn-Rhodin, uma das criadoras do curso governamental. "Eu acredito que é muito mais grave quando as crianças são mal-tratadas (...), quando elas recebem uma educação brutal", avalia.

 

Marie Märestad e o marido, pais de duas meninas, fizeram o curso em 2012, num momento em que eles não conseguiam mais controlar as crianças à mesa. "Nós descobrimos que provocávamos nelas muitas incertezas, que elas brigavam muito (...) Nós tínhamos muitas brigas pela manhã, na hora de colocar a roupa para sair", relembra essa mãe de 39 anos. "Nossa filha caçula fazia um escândalo e nada dava certo (...) Nós passamos por momentos muito difíceis, até decidirmos que seria bom se ouvíssemos especialistas, conselheiros", conta Märestad, que é personal trainer em Estocolmo.

 

O curso a ajudou a "não lutar em todas as frentes de batalha" e a dialogar melhor. Mas para ela, as crianças dominam a maior parte dos lares suecos. "Nós observamos muito isso nas famílias de nossos amigos, onde são as crianças que comandam".

 

Segundo Hugo Lagercrantz, professor de pediatria na universidade Karolinska, de Estocolmo, a forte adesão dos suecos aos valores de democracia e igualdade levou muitos a almejarem uma relação de igual para igual com seus filhos. "Os pais tentam ser muito democráticos (...) Eles deveriam se comportar como pais e tomar decisões, e não tentarem ser simpáticos o tempo todo", diz Lagercrantz.

 

Ele vê, contudo, algumas vantagens nesse estilo de educação. "As crianças suecas são muito francas e sabem expressar seu ponto de vista", afirma. "A Suécia não valoriza a hierarquia e, de uma certa forma, isso é bom. Sem dúvida, esta é uma das razões pelas quais o país está relativamente bem do ponto de vista econômico".



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publicado às 14:36


Sobre bater (ou não bater) nas crianças #5

por João Miguel Tavares, em 15.10.13

O André do blogue À Paisana, escreveu um longo post, que vale muito a pena ler, sobre o tema das palmadas, respondendo aos meus argumentos. Eis o início do seu texto:

 

O João Miguel Tavares (JMT) resolveu voltar ao tema de bater (ou não bater) nas crianças, um clássico de audiências (imagino eu) e polarização de opiniões. Um daqueles temas recorrentes na web parental, que, infelizmente, resvala quase sempre para a opinião defensiva do “estás a dizer que sou mau pai?” (não), e argumentos do género “eu levei quando era pequeno e estou óptimo” (tens a certeza?).

 

O problema está muitas vezes relacionado com a forma de enquadrar a questão. E, embora tenha o JMT como um tipo culto, bem-humorado e inteligente, se há questão que ele gosta de desenquadrar é esta questão do bater nos filhos. Não me interessa saber se o JMT é bom ou mau pai, mas sim questionar o modo como defende que “[bater é] uma ferramenta educativa essencial”, um argumento que baseia numa mistura de experiência própria com uma série de postulados questionáveis sobre o facto do homem ser um animal “em processo de domesticação”.

 

Como disse, leiam por favor o post todo, que está argumentado de forma inteligente. Eu queria apenas comentar dois aspectos da sua argumentação.

 

Um aspecto é aquilo que o André classifica como "postulados questionáveis" sobre o facto de uma criança ser um "animal em processo de domesticação". De facto, eu referi que educar é também domesticar, um verbo propositadamente forte, para tentar sublinhar o quanto daquilo a que chamamos educação é um processo não-natural de imposição de regras. Tirando o peso próprio da palavra, não vejo o que seja questionável nisto: não há nada de natural em comer com um garfo na mão esquerda e uma faca na mão direita, em estar à mesa de costas direitas ou em dizer "bom dia" ao vizinho da frente. Quem não lhe quiser chamar "domesticação", que é uma provocação assumida, chame-lhe "socialização". Mas, por favor, não nos façamos de sonsos: toda a educação é uma forma de violência, no sentido em que impõe regras às crianças. Aprender o alfabeto é uma violência. Aprender a tabuada é uma violência. A maior parte das vezes é irritante, eles não gostam, lutam contra isso, gostavam de passar o dia inteiro a jogar à bola ou ao computador. Nós obrigamos os nossos filhos a fazer um milhão de coisas contra a sua vontade. E é nesse sentido que uma palmada no rabo me parece estar longe de ser a maior violência que lhes infligimos ao longo de uma vida.

 

Então se eu for tão picuinhas no uso da palavra "violência" como aqueles que usam a palavra "violência" para classificar uma palmada, então a violência não acaba. Se eu tiver uma discussão com a mãe à frente deles (às vezes acontece), é uma violência. Cada vez que eu digo "desaparece daqui que eu estou a trabalhar", é uma violência. Quando eu lhes tiro o canal dos desenhos animados para ver a bola, é uma violência. E se eu me divorciasse e saísse de casa, parece-vos que isso seria uma violência? Eis uma pergunta para os fundamentalistas que acham que toda a violência física sobre crianças deveria ser proibida por lei: será que existindo filhos o divórcio também deveria ser punido por lei, ou parece-vos que é menos violento do que uma palmada no rabo?

 

Moral da história: nós não vivemos no universo do Ruca e dos filmes da Disney, e querer transformar os nossos filhos em pequenas flores de estufa, esquecendo que a vida é feita de frustrações, erros e falhanços, é um tremendo erro. E, sobretudo, é uma hipocrisia fingir que as maiores violências não são a nível físico mas sim a nível psicológico, e que certos castigos muito friamente elaborados podem ser infinitamente mais violentos do que uma palmada na hora certa.

 

O segundo aspecto da argumentação do André que eu queria comentar tem a ver com esta frase sua: 

 

O texto acaba em tom conciliatório, a apelar ao ecumenismo punitivo, dizendo que haverá tantas perspectivas válidas como o tipo de crianças diferentes. Crianças que crescem bem sem palmadas, crianças que precisam de palmadas. E, imaginamos, que nesse campo nada bate a infinita sabedoria dos pais. Há um dia em que o progenitor descobre – aliás, sabe – que este só lá vai à palmada. O outro não precisa, que é calminho. É a infabilidade do Papá.

 

É exactamente isso, André: é a infabilidade do Papá. Gosto muito do conceito. Não porque ele corresponda a uma realidade efectiva, porque não há obviamente papás infalíveis, mas porque é um bom conceito operativo, na medida em que as crianças têm de sentir que os pais são a coisa mais infalível que têm por perto - é exactamente isso que lhes dá segurança. Num mundo tão relativizado, o que os miúdos certamente não precisam é de papás inseguros, a vigiar cada um dos seus gestos, ou a consultar manuais de psicologia de cada vez que têm de tomar uma decisão difícil em relação aos filhos: "Aguenta só aí um bocadinho essa birra que eu vou ali à biblioteca consultar o manual do doutor Spock para saber o que devo fazer e volto já."

 

Significa isto que devamos ignorar o que se aprendeu ao longo dos séculos? Claro que não. Mas convém modestamente recordar o quão recente é essa coisa da pediatria e dos cuidados infantis, e o quanto as ciências educativas têm mudado ao longo dos anos. E, no entanto, há milhões e milhões de crianças sapiens sapiens a serem criadas há 200 mil anos - sem manuais por perto. É evidente que não estou aqui a fazer a apologia da ignorância. Estou apenas a tentar dar algum conforto a tantos pais que fazem da educação dos filhos um bicho de sete cabeças.

 

Portanto, André, é mesmo isso, com as devidas excepções (porque há sempre excepções), "nada bate a infinita sabedoria dos pais". Esse parece-me, aliás, um excelente lema para todos nós. 



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publicado às 11:54


Sobre bater (ou não bater) nas crianças #4

por João Miguel Tavares, em 15.10.13

Não há dúvida que o tema do bater/não bater é um daqueles que anima qualquer debate, e podemos ir voltando a ele de três em três meses só para saber como param as modas. Ainda assim, numerosas reacções ao meu post anterior obrigam-me a voltar ao tema, só para esclarecer alguns pontos.

 

1. Definição de bater: quando eu falo em bater, refiro-me a uma nalgada, ok? Uma palmada no rabo, cujos efeitos costumam ser piores na minha mão do que nos seus glúteos. Cá em casa não há tareias à moda antiga, nem cintos, nem colheres de pau. A ideia não é magoá-los e recuso a equivalência entre punição e agressão. A agressão tem por objetivo molestar ou neutralizar alguém. A palmada tem por objectivo educar através do estabelecimento de limites que são ultrapassados por uma criança que sabe perfeitamente que não se pode comportar assim. Um dos leitores do blogue (ver comentário de Rui a 14.10.2013 às 22:43) comentou que o seu pai lhe bateu tanto que ficou com uma lesão na retina para sempre. Por amor de Deus - não é disso que estamos a falar.

 

2. Esta parte do "não é disso que estamos a falar" é extremamente importante, porque em quase nenhum assunto, e certamente que não quando se fala de educação, é prudente estabelecer fronteiras fundamentalistas que dizem assim: bater é bater, uma palmada é uma palmada, e é sempre uma forma de violência física, e traduz sempre um descontrolo dos pais. Não é verdade. Este síndroma de índio e cowboy, chamemos-lhe assim, insiste em ver o mundo a preto e branco, quando ele é composto por uma infinita gama de cinzentos. Ver o mundo a preto e branco pode ser muito cómodo, porque é mais fácil termos soluções imediatas e respostas automáticas para todos os problemas da nossa existência (não se bate e pronto), mas simplesmente não me parece que seja assim que as coisas funcionam.

 

3. Eu já disse isto uma vez, mas repito: quem consegue educar exemplarmente uma criança sem nunca levantar a mão tem a minha mais profunda admiração. Obtendo exactamente os mesmos efeitos, claro que é preferível não bater a bater. Curiosamente, não tanto por causa do filho, mas sobretudo por causa do pai, que se for uma pessoa equilibrada não tem certamente prazer nenhum em distribuir palmadas. O que eu digo, da minha experiência, é que uma palmada na hora certa (e isto dependendo do filho, atenção, há quem não precise) sempre me pareceu um método eficaz e, a maior parte das vezes, inevitável para resolver certos conflitos que de outra forma se eternizariam.

 

4. Ontem, no Facebook, alguém argumentava comigo: "Não sei como é que ainda se defende isto! Também bate nos seus colegas no trabalho? Na recepcionista dos CTT?" Eu respondi: "A educação dos meus colegas de trabalho e da recepcionista dos CTT não é responsabilidade minha. E também não 'bato em crianças'. Bato de vez em quando nos meus filhos, o que é um bocadinho diferente, geralmente ali entre os 3 e os 6 anos, mais coisa menos coisa, quando estão mais rebeldes e ainda não percebem a racionalidade de certos argumentos. A partir daí, não digo que não ao tau-tau, mas só entre adultos responsáveis e com consentimento mútuo." Esta questão é importante, porque convém lembrar que há um tempo para tudo. A minha filha Carolina tem nove anos e anda a ficar super-chata. Mas ponham super-chata nisso - é a adolescência a chegar em força. Desafia os pais, é irritante para com os irmãos, tem a mania que é esperta. Enfim, um clássico. Vontade de lhe bater, às vezes, é coisa que não me falta. Simplesmente, passou a idade. Já percebe argumentos racionais. Compreende o efeito de certos castigos. Bater-lhe para quê?

 

5. Sobre os pais passarem-se da cabeça: sim, é verdade, às vezes os pais passam-se da cabeça. Eu passei-me demasiadas vezes, sobretudo há uns anos, quando levava dias e dias sem dormir. Passarmo-nos da cabeça nunca é bom. Mas é humano. E também é extremamente humano que os nossos filhos vejam isso. Essa ideia de que o super-pai ou a super-mãe é aquele que mantém uma postura esfíngica e nunca perde a paciência é uma bela treta. É por isso que todos os pais odeiam os pais do Ruca - porque ninguém é assim. Aquilo é uma fraude. Em vez de fingir falsas perfeições, podemos sempre pedir-lhes desculpas se perdermos a cabeça injustamente. Ou então, quando são eles os responsáveis directos pelo nosso passanço, podemos sempre explicar-lhes a seguir que as suas acções têm consequências e que ninguém é de ferro. O papá ou a mamã não são Mr. e Mrs. Perfect - são apenas pessoas que os amam mas que nem sempre aguentam toda a m**** que lhes atiram para cima.

 

6. Ainda há mais para dizer sobre este assunto. Mas fica para o próximo post.


 

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publicado às 11:00


Sobre bater (ou não bater) nas crianças #3

por João Miguel Tavares, em 14.10.13

Fazendo eu parte do grupo de pais que não tem qualquer problema em sacudir o pó a um filho se ele passar dos limites e que, ainda por cima, não sente quaisquer problemas de consciência por causa disso, queria apenas comentar o comentário da Helena Araújo, em dois pontos.

 

O primeiro ponto é uma resposta a esta pergunta: "Agradeço que me expliquem como dizer a uma criança, de modo que ela possa compreender, que os pais podem bater, mas as crianças não." Essa para mim é muito fácil: basta dizer-lhe simplesmente "eu sou teu pai, tu és meu filho, nós não estamos no mesmo plano, não somos iguais, a nossa casa não é uma democracia, eu mando em ti, tu não mandas em mim, eu posso bater-te se passares das marcas, tu não me podes levantar a mão em circunstância alguma, e vai ser assim até tu seres maior de idade, independente, tomares conta de ti próprio e teres liberdade para deixares esta casa." Simples. Até porque nós, pais, chegamos a velhos mais depressa do que eles, e depois terão inúmeras oportunidades para se vingarem de nós.

 

Quem me conhece sabe que eu odeio profundamente argumentos de autoridade - mas odeio argumentos de autoridade entre dois adultos, não entre um adulto e uma criança. Numa relação pai-filho parece-me óbvio que a relação de autoridade tem de estar bem estabelecida. É evidente que sempre que pudermos explicar a um filho as razões das nossas acções devemos fazê-lo, e eu faço-o com certeza. Mas chegado a certo ponto de desentendimento, não vou estar a conversar com ele como se eu fosse o primeiro-ministro e ele a Heloísa Apolónia. Uma família não é um Parlamento. Claro que também não deve ser uma ditadura, mas se cá em casa votássemos em relação a tudo (na verdade, até votamos bastante), e colocássemos as crianças no mesmo plano que nós, a barbárie tomaria conta da civilização.

 

O segundo ponto tem a ver com o comentário final da Helena: "Ao ler o testemunho da Sofia Silva perguntei-me várias vezes 'mas porquê?' 
Porque é que a Sofia Silva precisava de fazer tantas asneiras? Porque é que precisava de ser respondona? Parece-me que perguntar-se 'porque é que a criança precisa de fazer isto' é meio caminho andado para encontrar uma solução que a ajude a crescer bem, em vez do pequeno descarrilamento que é a palmada."

 

Ora bem, aqui eu acho que a Helena entra naquele ardil meio psicoanalítico, meio fé no bom selvagem, que consiste em acreditar que por detrás de cada gesto desregrado existe um trauma escondido, que se for encontrado e devidamente eliminado elevará a criança ao esplendor dos altares. Detecta-se o mal interior, corrige-se com muito amor, e a partir temos um santinho, que levará o resto da sua vida a espalhar o bem pela Terra.

 

Vai-me desculpar, cara Helena, mas eu acho esta visão extremamente errada - ainda que ela me impressione pela tremenda fé na bondade interior e na racionalidade do homem. A verdade é que eu estou como o Po, a personagem principal do Panda do Kung Fu: não existe ingrediente secreto.

 

 

Que é outra forma de dizer: não existe uma determinada forma absolutamente correcta de educar uma criança, um caminho das pedras que conduza à felcidade eterna, uma fórmula geral que possa ser aplicada a todos os miúdos do planeta. E isso por uma razão muito simples: os seres humanos são demasiado complexos para que a sua educação siga uma determina matriz, universalizável, extensível a qualquer alma, independentemente dos seus genes, das suas sinapses, do cocktail químico que corre nas nossas veias, e que é diferente para cada um de nós.

 

Claro que existem caminhos, soluções partilháveis, aprendizagens que se vão acumulando - de outra forma não precisaríamos de pediatras para nada. Não estou a dizer que não temos nada a ver uns com os outros - estou a dizer que não podemos ser reduzidos a uma solução única, uma pedra filosofal capaz de transformar uma criança problemática num adulto exemplar.

 

É por isso que a questão da palmada não tem, na minha opinião, uma resposta única e definitiva, aplicável a todo o universo de miúdos. Para alguns, calmos e compreensivos, não é certamente a melhor forma de os educar. Para muitos outros, será um instrumento essencial de disciplina, que os ajudará a crescer mais articulados e com uma noção mais precisa dos seus limites. E por isso, parece-me tão fundamentalista (e não estou a dizer que seja o caso da Helena) aquele que acha que sem umas boas chineladas não há criança que se faça homem, como aquele que acha que uma palmada na hora certa é uma forma de violência doméstica que deve ser punida por lei.

 

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publicado às 11:02


Sobre bater (ou não bater) nas crianças #2

por João Miguel Tavares, em 14.10.13

Depois de ter colocado aqui o testemunho de uma filha sobre a possibilidade de bater nas crianças (ela apanhou algumas vezes quando era miúda e defende que foi justo e merecido), a leitora Helena Araújo respondeu com o seguinte comentário, que eu pretendo recomentar já de seguida, num outro post.

 

Se é para ouvir o que as crianças dizem, aqui vai o meu contributo, de casos a que assisti pessoalmente (mas nem todos são meus filhos):
1. Aos dois ou três anos: "Que é que fizeste? Magoaste-me! Tu não me podes magoar!"
2. Aos cinco anos: "Se me podes bater, também te posso bater." 
(agradeço que me expliquem como dizer a uma criança, de modo que ela possa compreender, que os pais podem bater, mas as crianças não.)
3. Aos seis anos, ao ver um filme sobre violência doméstica em que a câmara filma à altura dos olhos de uma criança, mostrando um adulto enorme e com ar zangado que se inclina ameaçadoramente para nós, já a descer a mão para dar a palmada: "isto é como cá em casa."
4. Aos treze anos, uma excelente aluna de judo, quando a mãe lhe deu uma bofetada, agarrou os pulsos da mãe e disse-lhe nos olhos: "De hoje em diante, só me bates se eu deixar."
5. Quem nunca viu uma criança a encolher-se toda quando o pai ou a mãe fazem inadvertidamente um movimento mais brusco com a mão?

Ao ler o testemunho da Sofia Silva perguntei-me várias vezes "mas porquê?" 
Porque é que a Sofia Silva precisava de fazer tantas asneiras? Porque é que precisava de ser respondona? 
Parece-me que perguntar-se "porque é que a criança precisa de fazer isto" é meio caminho andado para encontrar uma solução que a ajude a crescer bem, em vez do pequeno descarrilamento que é a palmada.



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publicado às 10:46


Ainda sobre bater (ou não bater) nas crianças

por João Miguel Tavares, em 11.10.13

Este post foi o mais comentado de sempre na história do Pais de Quatro, e ele continua a dar que falar. Esta tarde a Sofia Silva deixou um comentário muito giro, visto da perspectiva de uma filha, que eu resgato à caixa de comentários para todos poderem ler no corpo do blogue. Aqui vai ele:

 

Já vi aqui muitas opiniões de pais, e muito bem, mas ainda não vi nenhuma opinião de filhos. Eu não sou mãe mas sou filha. Até à adolescência sempre fui uma miúda difícil, com a mania de que sabia tudo, respondona, muito desobediente (porque achava sempre que sabia melhor) e, segundo os meus pais, com muita imaginação para fazer asneiras. Apanhei muitas sapatadas e todas merecidas. Umas dadas no momento certo, outras num momento em que a minha mãe ou o meu pais (que estavam divorciados e portanto em casas diferentes) já estavam "cegos". Sim, porque alguns míudos tiram-nos do sério! Eu já passei por isso sem ser mãe, por isso posso simplesmente virar as costas e os pais que resolvam. Mas não é fácil para os pais. Vejo isso até nos filhos da minha melhor amiga, que são uns amores, bem educados, mas às vezes "passam-se".


Agora olho para trás (não passou assim tanto tempo) e entendo perfeitamente as atitudes da minha mãe e do meu pai. É graças às chineladas no rabo e algumas com colher de pau, porque os tirava mesmo do sério, que sou aquilo que sou hoje. Uma adulta responsável, com valores, bem formada. Em pequena era mesmo muito mazinha. A verdade é que os miúdos não são todos os iguais e acho que isso é um ponto fundamental também. Estou muito grata aos meus pais por aquilo que sou hoje, sapatadas incluídas. Se eles podiam ter agido de outra forma mais pedagógica? Se calhar podiam, mas os pais também não são perfeitos e claro que uma asneira a um sábado não tinha as mesmas consequências que uma asneira à terça à noite, por exemplo. O cansaço e o stress também condicionam as reacções dos pais.


E acho que TODAS as crianças que forem bem educadas vão entender TODAS as sapatadas que levaram, como eu as entendo. E concordo totalmente com o autor, se houver quem consiga educar bem um filho com outros recursos, melhor, mas nenhuma criança fica traumatizada por apanhar de vez quando. (Claro que não me refiro a situações de violência doméstica, isso é um caso à parte.) E já agora, no Verão costumava passar longas temporadas na aldeia com os meus tios e avó enquanto os meus pais trabalhavam. Estes nunca me bateram mas castigavam, e recordo uma sensação de injustiça muito grande relativamente à dimensão de certos castigos (uma semana sem desenhos animados, uma semana sem gelados, não ir a festas com os meus primos...) que nunca senti relativamente às palmadas.



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publicado às 17:55



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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