Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




E agora é a vez de Eduard Estivill

por João Miguel Tavares, em 18.06.14

O jornal online Observador, depois de ter efectuado uma polémica entrevista ao pediatra catalão Carlos González, que muito deu que falar neste blogue, regressa agora com uma nova entrevista, desta feita à nemésis de González, o igualmente pediatra e igualmente catalão Eduard Estivill.

 

Que os senhores devem gostar muito um do outro fica bastante claro pela resposta de Estivill à seguinte pergunta:

 

Para Carlos González, todos os castigos são inúteis. Que opinião tem dele e das suas teorias – porque acha que é um sucesso de vendas?
Não conheço esse senhor, pelo que não posso comentar.

 

Não sei porquê, fiquei desconfiado de que não se frequentam.

 

Ainda assim, nesta batalha de gigantes da pediatria catalã, desconfio que não me seja lá muito difícil escolher o lado. Reparem como até no campeonato da foto-foleira-com-a-mão-na-bochecha (juro que não sei como é que alguém continua a tirar fotos deste género em 2014), González e Estivill têm posturas inteiramente diferentes.

 

 

Carlos González nunca perde o ar beatífico. Ele sorri, sim, mas é um sorriso de quem já atingiu um patamar superior de sapiênca pediátrica. A mão direita apenas faz o favor de amparar uma cabeça que já não é deste mundo. Ele paira acima de nós.

 

 

 

Eduardo Estivill segura a bochecha esquerda de uma forma completamente diferente. Está com o dedo apontado, provavelmente para mais depressa o virar na direcção de um puto irritante, se for preciso colocá-lo no seu lugar. Além disso, não há nada de beatífico no seu sorriso. É um sorriso de um gajo normal, que está ao nosso nível, e os dentinhos de coelho ajudam a acreditar no que ele diz. Se ele tivesse pinta de ariano, a gente tinha mais receio da sua paixão pelas regras e pela autoridade. Num tipo com dentes de coelho, é sempre muito mais fácil acreditar.

 

Como se vê por esta minha equilibradíssima e justíssima apreciação dos dois pediatras só com base em fotografias, eu acho que sou mais Estivill. E, na verdade, não é só por causa das fotos. É mesmo por causa de respostas como estas:

 

Acha que as crianças devem ser castigadas?
O castigo é um acto negativo que a criança pode entender com ansiedade. Ao invés, regras firmes em todos os hábitos dão segurança às crianças. O importante é que os pais comuniquem as regras e os limites como uma coisa natural e não como um castigo.

 

Quais as consequências da culpabilização dos pais no desenvolvimento dos filhos?
Os pais inseguros, com baixa autoestima e problemas pessoais têm uma maior tendência a proteger em demasia os filhos. Assim, passam-lhe as suas carências, o que os torna mais inseguros. O contrário acontece com os pais que são seguros de si mesmos.

 

Acha que tem um discurso centrado nos pais?
Todos os estudos científicos mostram-nos que, na questão dos hábitos de ensino, os responsáveis são os pais. As crianças não aprendem sozinhas, mas sim aquilo que lhes ensinamos. De pais seguros saem crianças seguras. De pais inseguros saem crianças sem bons hábitos. Quando uma criança come bem, dorme bem e está bem educada, o mérito é dos pais. O mesmo acontece no sentido contrário.

 

Mas leiam toda a entrevista, porque vale a pena.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:51

3. O meu último ponto é muito melhor justificado pelo longo texto que ontem foi publicado na revista de domingo do Público (o texto encontra-se online, aqui), e portanto quem gosta de argumentações mais elaboradas é ir lá ler. Mas o ponto central é este: eu entendo que no último par de décadas aconteceu uma revolução copernicana no que diz respeito à relação pais-filhos. Ou seja, entendo que os filhos deixaram de orbitar em torno dos pais e os pais passaram a orbitar em torno dos filhos. Isso muda tudo, incluindo aquilo que me parece dever ser o discurso mais adequado de um pediatra em relação aos pais.

 

Há 40 anos, o discurso de González seria altamente pertinente. Se eu vivesse num mundo onde as crianças apanhavam reguadas na escola, levavam sovas de cinto e nunca eram beijadas pelos pais, então o discurso do amor e do bésame mucho não só seria útil como indispensável. Em 1974, eu votaria González. Só que nós já não vivemos nesse mundo - e por isso o aconselhamento pediátrico, naquilo que é a relação pai/filho, tem necessariamente de evoluir.

 

Ora, quando eu leio uma entrevista onde a obsessão pelo filho e o amor ao filho e as necessidades do filho e o crescimento do filho são o único tema abordado, isso custa-me muito engolir. Não é só pela questão do mimo, embora eu ache, de facto, que a ter de eleger um problema das crianças de 2014 não será a falta de mimo mas sim o seu excesso. Mas não é isso que me incomoda mais: é, sobretudo, a falta de questionamento do equilíbrio familiar, que me parece muito afectado pela tal revolução copernicana; é a não valorização da forma como os pais estão a ser sugados pelas exigências das crianças, ao mesmo tempo que González nos aconselha a aumentar a potência do aspirador.

 

Para quem, como eu, acredita muito numa ideia de família; para quem, como eu, acredita que a família tradicional, com pai e mãe e filhos e avós, é o maior bem que podemos legar aos nossos filhos; para quem, como eu, acha isso infinitamente mais importante do que saber se um puto dorme ou não na cama dos pais; para quem sente que, à sua volta, essa equilíbrio está muito afectado; então Carlos González leva todo o seu tempo a mandar tiros ao lado.

 

São tiros que, pelo que se vê das reacções ao meu texto, acertam ainda no alvo de muita gente. E assim sendo, os gonzalistas que façam bom proveito dos seus conselhos. Mas da minha - provavelmente egoísta - perspectiva, o que vejo é pais de língua de fora e miúdos speedados. Dizer aos primeiros "vocês ainda deviam estar mais atentos e amar mais e amar infinitamente" é a mensagem errada, é colocar mais peso na parte do barco que já está a adornar.

 

Há muito pai egoísta, há muitas crianças que sofrem e que precisam de mais amor e de mais carinho. Mas essa não é a regra. Essa é a excepção. A regra - pelo menos a regra à minha volta - é muito pai perdido e esmagado pela responsabilidade de criar um filho. O combate que me interessa, portanto, é pela independência dos filhos em relação aos pais e dos pais em relação aos filhos. É como amar dando-lhes mais independência e não "bebeficando-os".

 

Talvez valha a pena concluir isto com uma citação de C.S. Lewis que coloquei no tal texto do Público:

 

Nós alimentamos as crianças para que em breve elas sejam capazes de se alimentar sozinhas; nós ensinamo-las para que em breve não necessitem dos nossos ensinamentos. Uma grande exigência é colocada sobre o Amor-Dádiva [“Gift-Love”, no original, segundo Lewis, o tipo de amor característico da relação pai-filho]. Ele tem de trabalhar no sentido da sua própria abdicação.

 

Gosto imenso deste conceito de "Amor-Dádiva". O amor de um pai por um filho é um amor gratuito - e para ser verdadeiramente gratuito, é necessário todos os dias combater os excessos de dependência dos dois lados. É amar sem se ser sugado - nem nós por eles, nem eles por nós.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:26

Depois das questões da forma, três esclarecimentos sobre o conteúdo da entrevista de Carlos González, onde procuro esclarecer os meus pontos de discordância com ele e com numerosos leitores que espalharam o seu desagrado pelas caixas de comentário, e que não me parece que estejam dependentes da leitura das obras completas do leitor espanhol:

 

1. Em primeiro lugar, a questão dos castigos, e o facto de ele dizer - era o próprio título da entrevista - que "todos os castigos são inúteis". Houve quem argumentasse que aquilo que González está a fazer não é uma defesa da permissividade total, mas sim a expor uma diferença entre "castigo" e aquilo a que se pode chamar "reforço positivo". Exemplo: se a criança atirar o prato de sopa para o chão, castigo seria bater-lhe na mão ou pô-la sentada a um canto, reforço positivo seria obrigá-la a limpar o chão connosco; se uma criança tem más notas, castigo seria impedi-la de ver televisão durante uma semana, reforço positivo seria impedi-la de ver televisão para poder estudar.

 

Eu admito que a distinção entre "castigo" e "reforço positivo" seja útil, mas assim sendo, o título "todos os castigos são inúteis" é apenas puro sensacionalismo - porque, como é óbvio, na linguagem comum tanto é castigo bater na mão como mandar limpar. E assim, corremos o risco de estarmos todos a indignar-nos quando estamos a falar do mesmo. Porque, como é óbvio, qualquer pai ou mãe sabe que mandar limpar, mandar arrumar o quarto ou mandar estudar são modo eficazes de os pôr na ordem. Felizmente, para os Gonzalistas, isto é permitido - só que não é castigo.

 

Há, contudo, um detalhe que não me explicaram, mas que eu gostaria muito de entender, sem ironias: e se eu mandar a criança limpar a sopa ou ir estudar para o quarto e ela disser: "não vou!"? E se ela disser "não vou!" dez vezes? Desiste-se ou arrasta-se pelos cabelos? Que reforço positivo podemos utilizar nesses casos? Se me puderem informar, ficaria muito grato.  

 

Para conluir este primeiro ponto, talvez convenha então iniciar uma futura discussão com uma clarificação vocabular, porque existe aqui muita subtileza linguística. Não é só a questão do castigo versus reforço positivo - basta acompanhar as discussões, na caixa de comentários deste post, entre o Anacleto e Carlos Duarte acerca do significado da palavra "chantagem emocional", com o Anacleto a fazer questão de distinguir entre "chantagem", "extorsão" e "birra". Conhecendo o Anacleto tão bem a língua inglesa, arrisco-me a dizer que é aquilo a que os ingleses chamam "splitting hairs" - ninguém está verdadeiramente a discordar, apenas se está a atribuir nomes diferentes às mesmas coisas. Acontece muito.

 

2. Este ponto é rápido: ninguém poderá desmentir que Carlos González utiliza comparações entre crianças e adultos para fundamentar as suas posições. Fá-lo várias vezes ao longo da entrevista. Faz-me uma certa confusão que os subtilistas da linguagem se atrevam depois a esta extraordinária simplificação argumentativa. Lamento, mas eu não consigo levar a sério pediatras, ou outro homo sapiens qualquer, que para defender certas teses educativas se põe a comparar o incomparável, sejam adultos, crianças ou animais.

 

Nós temos muito de animal, claro, e as crianças também têm muitos pontos de contacto com os adultos, mas a educação é o modo como nós ajudamos a que as crianças se transformem em adultos decentes, portanto não faz qualquer sentido utilizar comparações envolvendo relações entre adultos para justificar determinados processos educativos de quem ainda não é adulto. É uma certa derivação da máxima os fins justificam os meios, quando aquilo que nós procuramos são os meios que nos permitam chegar aos fins.

 

Não há outra forma de colocar isto: utilizar o argumento "você não bate no seu colega de trabalho quando está descontente com ele - porque é que faz isso a uma criança?" não tem pés nem cabeça. A Brigada Anti-Palmada tem muitíssimos melhores argumentos do seu lado, da desprotecção dos mais fracos à replicação da violência. Use-os. Este é simplesmente parvo.

 

Ponto 3 - e último - já a seguir, que eu ando a ficar demasiado verborreico.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:05

Cá estou eu, como prometido, a regressar ao tema da entrevista do Carlos González, que tanto tem animado este blogue. Prometi um tom mais sério porque queria clarificar duas questões formais, que tanto servem para este caso como para enquadrar futuras polémicas, e ainda três questões de conteúdo, a propósito da entrevista do pediatra espanhol. Vou dividir isso em dois posts, um sobre forma, outro sobre conteúdo.

 

Começando pelas questões formais:

 

1. Várias pessoas acusaram-me de estar irresponsavelmente a tirar conclusões sobre o que diz Carlos González apenas com base numa entrevista, e sem ter lido quaisquer um dos seus livros, como eu próprio admitia num dos posts sobre o tema. Houve até quem perguntasse como é que eu, enquanto jornalista, fazia uma coisa dessas. Eu respondi que da mesma forma que a Teresa, apesar de ser médica, não estava sempre a exercer medicina, também eu, apesar de jornalista, não estou sempre a exercer o jornalismo. E este blogue não é, definitivamente, jornalismo.

 

Esta confusão acerca de jornalismo e géneros jornalísticos é recorrente na minha vida, mas penso nunca ter falado nela aqui. Vale a pena fazê-lo, contudo, até para memória futura. Essa acusação é bastante comum a propósito dos meus textos de opinião política. As pessoas lêem-me a bater em António José Seguro e perguntam: "Mas onde é que está a sua objectividade, senhor jornalista?"

 

Não está, claro, porque os artigos de opinião não são jornalismo - escrevo o que me apeteço, não tenho de ouvir a outra parte, não necessito de fazer investigação própria. A opinião tem regras próprias, que nada têm a ver com as regras do jornalismo - existe um investimento estilístico muito diferente, uma componente retórica muito forte, uma grande carga ideológica. A objectividade não é um objectivo.

 

No meu entender, os posts de um blogue estão mais perto da opinião do que do jornalismo tout court, com uma diferença significativa: são "gratuitos", no duplo significado da palavra. Gratuitos porque não existe uma remuneração directa associada (no meu caso, existe uma remuneração indirecta, já que o Pais de Quatro é explorado comercialmente através dos banners laterais e da publicidade dos vídeos). E gratuitos porque têm uma leveza própria, uma escrita ao correr da pena, não se lhes exige a responsabilidade própria de um artigo de opinião, estão mais próximos da conversa de café - sem qualquer desprimor para a conversa de café, até porque eu participo num programa de rádio e televisão (Governo Sombra) cuja filosofia é exactamente essa. A conversa de café tem o problema de ser pouco fundamentada, e a grande qualidade de ser muitíssimo livre e bem humorada.

 

Claro que tanto num artigo para o Público como num post eu tento ser minimamente responsável e intelectualmente honesto. Mas o investimento que faço num e noutro texto é bastante diferente. Não me passaria pela cabeça escrever um artigo de opinião ou uma crítica a Carlos González no Público sem primeiro consultar a sua obra. Mas permito-me perfeitamente fazer isso neste blogue, onde existe uma liberdade muito maior de dizer asneiras, contradizer-me, arrepender-me e até emendar o que foi escrito.

 

Essa é a leveza própria das redes sociais - que só é perigosa se quem estiver do outro lado não perceber a diferença entre uma coisa e outra. Mas eu já fiz várias vezes aqui, e com muito orgulho, o elogio dos leitores do Pais de Quatro. Sei que este blogue tem óptimos leitores, que percebem perfeitamente a diferença de registos. Para os que não percebem, aqui fica este esclarecimento. Aliás, convém ter consciência daquilo que exigimos aos outros: se cada vez que eu escrevo um post precisasse de passar um dia ou dois dias a ler para fundamentar o que escrevo, o blogue acabava já amanhã. É tão simples quanto isso, e não quero estar aqui a enganar ninguém.

 

2. Agora, façam-me o favor de não interpretarem o que atrás ficou dito como qualquer espécie de arrependimento encapotado em relação ao que escrevi sobre Carlos González. E isto porque entendo como perfeitamente legítimo o registo de utilizar a entrevista de uma pessoa e criticá-la a partir do que ela diz, e não do que não diz, ou do que diz efectivamente a sua obra, mas ele não soube explicar. Quer dizer: eu percebo que haja simplificações numa entrevista, mas não ao ponto de depois os seus defensores virem argumentar que aquilo que ele quis dizer não é nada daquilo que lá está dito.

 

Desenvolverei este ponto a seguir, a propósito das questões de conteúdo. O que me interessa agora sublinhar é que se um autor acha que dar entrevistas a jornais atroiça a complexidade do seu pensamento, então o meu conselho é: cale-se. Eu também já publiquei livros e já dei entrevistas a propósito deles. É verdade que existem simplificações, desvios de sentido e até más transcrições do que foi dito, mas não a um ponto de eu não me identificar com o que foi publicado.

 

Portanto, embora eu concorde que é absolutamente indispensável conhecer as obras de Carlos González para fazer uma reflexão sofisticada ou uma reflexão crítica sobre o seu pensamento, continuarei alegremente a comentar neste blogue entrevistas de autores que me são desconhecidos com base naquilo que está escrito. Isto não é um blogue académico, nem um blogue jornalístico, é um espaço despretensioso de partilha de ideias que me vão ocorrendo diariamente. Nunca prometi outra coisa, nem quero dar mais do que isso.

 

As tais três questões de conteúdo virão já a seguir.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:01

O González affaire regressou ao jornal online Observador, que depois de ter publicado originalmente a entrevista do pediatra espanhol, faz hoje um follow up do que se passou na semana passada neste blogue. Eu ainda penso regressar ao tema na segunda-feira, em tom mais sério, que é para não pensarem que eu sou apenas um tipo totalmente gratuito, mas até lá fica o texto da Vera Novais como aperitivo. Está bastante bem feito.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:33


Comentários super-fixes #1

por João Miguel Tavares, em 30.05.14

Bom, isto anda animadíssimo por aqui. Antes de eu entrar em modo "vamos então falar muito a sério que há gente a ficar irritada", por causa dos posts anteriores (é ir aqui e seguir os links), queria destacar alguns comentários, conforme prometido, porque há coisas bastante boas por ali e pode haver quem esteja receoso de frequentar as caixas de comentários, não leve com alguma das garrafas que andam a voar de um lado para o outro.

 

Em primeiro lugar, queria destacar este comentário da Mãe Sabichona, que faz jus ao seu nome com uma análise deveras pertinente:

 

Bateu num ponto com o qual concordo muito. Essa ideia de exigência interna extremada, de que apenas o filho tem necessidades e vontades. Os filhos também precisam de crescer sabendo que as outras pessoas com quem (con)vivem têm desejos, nomeadamente os pais. Embora eles sejam menores e caiba-nos a nós a maior responsabilidade de os entender e não vice-versa, faz parte da vida não serem sempre totalmente compreendidos. Penso que temos de nos adaptar aos filhos tal como eles têm de se adaptar a nós e o González foca uma relação unidireccional em que o foco é sempre o dos filhos.

 

Agora, se tem uma visão extremada e idílica, isso não retira um fundo de verdade. Para mim, não é demais reflectir sobre momentos em que as nossas reacções são fruto das nossas próprias frustrações. Os pais descarregam mesmo muito nos filhos e esse é um dos motivos para se sentirem tão culpados. Porque sabem que agiram mal. Sabem que chegaram a casa e lhes deram uma palmada porque vinham massacrados com o trânsito e com o patrão. Claro que têm o direito de agir mal, não são perfeitos, e os filhos hão-de também crescer a perceber isso, ou seja, que os pais também são injustos. Mas daí a dizer que o filho levou a palmada porque realmente mereceu vai uma grande distância. É só isto que a meu ver falha no seu discurso: não conceber que, em parte, ele mexe nalgumas feridas da parentalidade. Ele foca-se demasiado nos filhos e o JMT nos pais :)

 

É uma bela lição da Mãe Sabichona, incluindo na parte em que me critica. Ela tem toda a razão: eu centro-me mesmo muito nos pais. Um princípio de justificação é este: acho que nos dias de hoje é preciso contrabalançar o barco. Tentaria explicar porquê num próximo post.

 

Queria também chamar a atenção para este comentário da Polliejean, que vai numa direcção semelhante:

 

Às vezes dá-me a sensação que o JMT se foca demasiado no papel do pai mártir que cria os filhos ali no limite da paciência porque já lhe estão a estragar o dia e berram muito ao jantar. No entanto, acredito que não é o tipo de pai que passa o tempo a bufar de cada vez que os filhos se aproximam de si. É só um certo show-off para o blogue, que tem a sua piada. Claro que sempre tem a Teresa para contrabalançar alguma falta de paciência ou momentos cutchi-cutchi com os seus filhos... :)

Mas agora ao que interessa: estas teorias do Sr. González, por muito estapafúrdias que pareçam, podem servir para encontrarmos ali um meio termo entre o estaladão e a permissividade total. Também é importante sabermos ver com olhos críticos as teorias "irrefutáveis" com que crescemos e moldá-las à nossa situação específica. Não acredito na permissividade total, mas, por exemplo, também cada vez acredito menos que o castigo seja a solução...

 

É uma posição perfeitamente aceitável - e uma excelente análise da minha pessoa. Deixo apenas esta questão: o que é que precisamos mais hoje em dia? De um pediatra que nos ensine a mimar mais os nossos filhos ou de um pediatra que nos ensine a ser mais exigentes com eles?

 

E por falar nisso, deixem-me recuperar um dos muitos comentários do Dr. Mário Cordeiro, que em boa parte por minha culpa anda para aqui a sujeitar-se a levar pancada com fartura. Ele tem cabedal para isso e não precisa de advogado de defesa, mas não ficaria de bem com a minha consciência se não fizesse duas breves notas pessoais. Em primeiro lugar, quem sugere que o Dr. Mário não respeita as opiniões dos pais só pode estar a ir às consultas de um qualquer terrível sósia ou do seu malévolo irmão gémeo - confirmem isso. Esse tipo impositivo não é, de certeza, o mesmo pediatra que atura a minha quádrupla descendência há dez anos.

 

Em segundo lugar, e exactamente porque o Dr. Mário respeita as opiniões dos outros, ele de certeza que não concorda com imensa coisa que eu escrevo neste blogue. Incluindo a história da palmada correctiva. Portanto, não confundam as coisas, por favor. Nós somos duas pessoas que pensamos pelas respectivas cabeças, e apreciamos muito essa actividade, ok?

 

Dito isto, cá vai o prometido comentário, que, ao contrário do que alguns querem fazer crer, me parece uma posição perfeitamente equilibrada em relação à educação das crianças:

 

Porquê esta coisa de gerir afectos, de dar ordens sobre ensino/ aprendizagem, de regulamentar a relação pais/ filhos? (e instilar culpa, doses imensas de culpa, nos pais?). E porquê colocar sempre amor e educação como coisas antagónicas? As crianças NÃO são adultos em miniatura e estão num processo de aquisição de autonomia, de liberdade, responsabilidade, direitos e deveres. Sem modelos, faróis, guias, não irão a parte alguma. Um rio com margens muito estreitas evolui em turbulência, mas se as margens são demasiado largas e pequenas, espraia-se na lezíria e não chega à foz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:25


Agarrem-me senão eu mordo-o! #4

por João Miguel Tavares, em 29.05.14

Vamos então ver se é hoje que consigo terminar a análise hermenêutica da entrevista do pediatra espanhol Carlos González ao Observador (posts anteriores aqui, aqui e aqui). Há alguns comentários dos leitores que merecem, também eles, comentário, mas deixo isso para mais tarde. Voltemos ao texto original - as citações da entrevista do senhor estão a itálico bold, os meus comentários a redondo normal. 

 

O autocontrolo ensina-se com o exemplo. Eu não bato nos meus filhos porque tenho disciplina, autocontrolo. Não digo ao meu filho para se calar porque não me deixa ouvir televisão, ao invés desligo o televisor para ouvi-lo melhor. Isso é a disciplina.

 

Ora aqui está um bom exemplo daquilo a que eu chamo a paternidade cutchi-cutchi, e que consiste em fingir que estamos constantemente num filme de Hollywood, onde há sempre lugar para os carros estacionarem e tempo para uma conversa bonita e profunda.

 

Então não é verdade que entre ouvir a televisão ou ouvir um filho, devemos desligar a televisão e escutar o filho? É, sim senhor. E posso desde já garantir que se, daqui a uns anos, a minha filha me disser à hora da refeição "papá, estou grávida", a minha reacção não vai ser "já me contas, querida, agora deixa-me só ouvir o que o Marcelo está a dizer".

 

Essa parte está prometida. Mas... e se, por mero acaso, o miúdo só estiver a berrar porque quer que lhe cortemos o bife? Ou que lhe passemos a água? Ou que não gosta de cenouras, argumentando que a literatura do doutor Carlos González é clara em dizer que ele não deve ser obrigado a comer o que não gosta? E se o pai, por mero acaso, for jornalista? E precisar mesmo de ouvir o Marcelo naquele momento porque a seguir tem de ir escrever um texto qualquer? Como é que se faz?

 

O que me irrita nesta entrevista de Carlos González é transformar as decisões óbvias que seriam tomadas num mundo perfeito em regra absoluta. É claro que devemos mimar os nossos filhos. É claro que é preferível não lhes bater se tivermos alternativas. É claro que é melhor desligar a TV à hora das refeições. Quem é que não sabe isso, caraças? Isso é o óbvio ululante! Não é preciso estudar muito para chegar a estas brilhantes conclusões.

 

Só que o problema da paternidade actual não é esse - é exactamente o contrário desse. É como aprender a gerir os momentos de desaspero, como sair de becos aparentemente sem saída, como manter a felicidade doméstica apesar de todos os escolhos, como manter o equilíbrio apesar das nossas falhas, como fazer para que eles não consumam toda a nossa vida, como conseguir que os nossos filhos sejam felizes ao máximo sem que, para isso, nós tenhamos de ser felizes ao mínimo. E isso não se consegue com a tal pediatria hippie, toda ela flower power.

 

Isto é a filosofia New Age aplicada aos conselhos pediátricos - pode consolar as almas zen, que andam pelo mundo levitando meio metro acima do chão, mas eu sou dos que afocinha mais do que levita. O que eu quero é que me ajudem a gerir as minhas faltas de paciência, que um pediatra enfente os problemas práticos do dia-a-dia, e não que parta de situações em que tudo está no seu lugar, da paciência dos pais à racionalidade dos filhos. Não acontece. Ou, se acontece, então é muito fácil de gerir, obrigadinho. Não preciso de Bésame Muchos.

 

Muitas vezes castigamos ou repreendemos as crianças por coisas que nunca puniríamos num adulto. Se vejo a minha esposa ou um amigo a chorar, pergunto o que se passa e tento consolá-los. Para os meus filhos é igual. Se estou a comer com um amigo e vejo que este deixa metade da comida no prato, não o obrigo a acabar tudo. Com os meus filhos também não faço isso. Jamais bateria na minha mulher, no meu pai ou em companheiros de trabalho. Muito menos nos meus filhos.

 

Bom, aqui, a conselho do meu cardiologista, limito-me a remeter para o post anterior, e para aquela parte em que grito AS CRIANÇAS NÃO SÃO ADULTOS!!! É possível arranjar um argumento menos parvo para defender que não se bata nem castigue? É que há argumentos muito melhores, que até eu posso fornecer. Isto é, mais um vez, uma visão extremada do mito do bom selvagem, que Jean-Jacques Rousseau colocou nos píncaros. Mas a verdade é que Rousseau teve cinco filhos e entregou-os todos à nascença para adopção, para que não lhe atrapalhassem a escrita e o seu profundo dever de iluminar a humanidade. Cheio de boas intenções está o Inferno cheio. Por que não admitir antes que não vivemos no Paraíso?

 

Os pais (bem, as mães) tendem a sentir-se culpados por tudo.

 

Sim, é verdade, e boa parte dessa culpa deve-se à pediatria cutchi-cutchi, que coloca as exigências dos pais em patamares tão difíceis de atingir que eles se sentem sempre aquém de tudo, e uns desgraçados de cada vez que perdem a paciência e gritam com um filho. Mas, já agora, devo informar o doutor Carlos González de que não são só as mães. Os pais também se sentem bastante culpados, e não vislumbrar isso é perceber muito pouco daquilo que neste momento se passa à nossa volta, desde o peso em cima dos ombros dos novos pais ao mega-sucesso das piadas do Louis C.K..

 

Estou convencido que as crianças pequenas, até aos três anos, mais ou menos, estão melhor com os seus pais do que em qualquer outro lugar.

 

Eu também. Vamos propor licenças de maternidade e paternidade simultâneas, com três anos de duração cada uma? Parece-me excelente. E altamente praticável. Mas, já agora, com retroactivos, se faz favor, que é para ver se eu me consigo reformar 12 anos antes da data prevista.

 

O instinto permitiu aos nossos antepassados criar os seus filhos durante milhões de anos, antes de existir qualquer civilização ou cultura. O instinto não é perfeito, mas, geralmente, é muito bom.

 

É isso mesmo. É muito bom. E o instinto diz-me que toda esta conversa é uma enormíssima treta, que pode até servir a quem só está a dois passos do nirvana e tem heranças de família que lhe permitam nada fazer na vida além de contemplar os filhos, mas que lixa a existência de todos aqueles que têm de lutar diariamente por ganhar um ordenado enquanto criam as crianças. Gente, sobretudo, que não vive dentro de um filme romântico, daqueles onde se acorda milagrosamente com um penteado cheio de estilo, as mamãs e os papás são sempre super-apetecíveis, e todos putos são louros, têm olhos azuis e dizem coisas extremamente inteligentes. São situações bonitas, claro. Até invejáveis. Mas só existem durante hora e meia, e com a luz apagada.

 

Dr. Carlos González e uma das suas belas máximas, só possíveis a quem nunca na vida foi emocionalmente chantageado por um filho. É um homem, e um pai, cheio de sorte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:49


Agarrem-me senão eu mordo-o! #3

por João Miguel Tavares, em 28.05.14

Vamos então à entrevista do doutor Carlos González, mas não sem antes fazer um aviso prévio: eu nunca li nenhum dos seus livros, e é possível que nunca venha a ler, até porque o mais famoso tem nome de bolero mexicano - Bésame Mucho -, inclusivamente em Portugal. Confesso que tenho alguns preconceitos acerca de livros de pediatras com títulos de boleros mexicanos. Por isso, limito-me a comentar o que está escrito na entrevista, que eu consigo perceber que seja uma simplificação do seu sofisticadíssimo pensamento.

 

Aliás, para não acharem que isto é só má-vontade, devo dizer que concordo com algumas coisas do que ali é dito. Por exemplo (palavras dele a itálico negro, palavras minhas a redondo):

 

Defendo que devemos tratar os nossos filhos com carinho e respeito. O que se passa é que alguns pensam que podem amar os filhos sem ter de lhes pegar ao colo ou consolá-los quando choram.

 

Ainda existe alguém em 2014 que não pega filhos ao colo ou recusa consolá-los quando choram? Pelos vistos, sim. E aí, não há como discordar de González: sim, por favor, peguem nas crianças ao colo e mimem-nas, ok? Isso é importante.

 

As crianças pequenas despertam várias vezes durante a noite, quase a cada hora e meia ou duas horas, sobretudo entre os quatro meses e os dois ou três anos. Para os pais é muito incómodo terem de se levantar três ou cinco vezes por noite para cuidar do filho. Por isso, muitas famílias descobrem que é mais cómodo dormirem todos juntos.

 

Sim, também me acontece muito: há alturas que estamos tão cansados que lá temos de aturar o puto na nossa cama. E também há alturas em que um dos miúdos tem um pesadelo tão assustador que eu tenho de ir dormir para a cama dele. Mas isso são excepções. Excepções. Acontece. Mas, quando falamos da cama do casal, o filho ir lá parar deve ser, em primeiro lugar, uma resposta à necessidade do casal, e não da criança. É um "anda para aqui que eu estou morto", nunca um "anda para aqui que isto é tão fofinho e eu gosto muito de agarrar o meu novo peluche de carne e osso". As crianças não são peluches nem Nenucos. Têm vida própria.

 

E isto até por questões técnicas e por causa de actividades frutuosas, que certamente o senhor González achará desinteressantes, como, por exemplo, pinar. Pinar, estão a ver? Truca-truca? Aí está uma coisa que, apesar de estar casado há muitos anos, me continua a divertir, e de vez em quando apetece. E apetecendo, se seguirmos os conselhos do Dr. González, de repente olhamos para o lado e está um a mais na cama. É verdade que podemos enveredar por uma abordagem kinky, do género, "querida, vamos tentar fazer isto sem que ele acorde", o que até pode ser um desafio interessante. Mas, por amor de Deus, a regra tem de ser "putos fora da cama". Sempre. Quanto mais cedo, melhor. Eles que vão à vida deles. Eu não existo para os servir. Repetir 100 vezes: "O sentido da minha vida não é servir os meus filhos." Mais: comecem a dormir com eles todas as noites e depois perguntem-se porque é que o vosso casamento já viu melhores dias.

 

Os vegetais são muito saudáveis, mas o importante não é quantos vegetais comemos aos nove meses, mas sim durante toda a vida. Obrigar um bebé a comer muita verdura, fazer com que este a odeie e, de seguida, deixar de tentar é um desastre. Se o deixarmos estar, comerá pouco na infância e, uma vez crescido, comerá mais.

 

Eh pá, esta vou deixar para a excelentíssima esposa responder, ok? Das duas, uma: ou o González tem razão e a minha mulher anda a enganar-me há 10 anos, ou então ele está a querer implodir tudo o que é aconselhado por respeitáveis nutricionistas. Mais: a minha experiência pessoal desmente-o completamente. Os meus filhos não gostam de todos os vegetais, mas cada um deles gosta muito de certos vegetais. E isso é simplesmente porque se habituaram a comê-los. Se o menino não gosta não come, é? A sério: o homem frequenta mesmo crianças à hora das refeições? Os putos, como princípio de vida, não gostam de nada do que é novo. Têm zero curiosidade nesse aspecto. Temos quase sempre de os obrigar a provar. E depois provam e - voilà - muitas vezes passam a gostar.

 

O que fazemos com os maridos ou esposas que são desobedientes ou manipuladores? Com os namorados, amigos, parentes ou empregados? Será que os adultos nunca fazem nada de mal? Claro que sim, mas não os punimos (a não ser que cometam um delito que apenas os juízes podem punir). Eu não castigo a minha esposa ou os meus amigos, vizinhos, taxistas… Como médico não castigo os meus pacientes nem a minha enfermeira. Porquê castigar apenas os meus filhos? Que terão feito eles de tão terrível para merecerem um castigo? É absurdo.

 

OK, aqui entramos na parte dos castigos, mas antes de discutir os castigos propriamente ditos (se calhar é melhor deixar isso para outro post, que este também já vai longo), quero discutir a comparação, que é daquelas que me deixa doido: AS CRIANÇAS NÃO SÃO ADULTOS!!! Por isso é que umas se chamam crianças e as outras se chamam adultos. Por isso é que nós somos legalmente obrigados a cuidar dos nossos filhos, mas não somos legalmente obrigados a cuidar dos nossos pais. Por isso é que eles não podem votar, nem casar, nem conduzir um carro - e nós podemos. Que raio de comparação é esta?

 

Como é que este grande defensor do poder da "intuição", do "não é preciso ler livros para aprender a ser pai" (concordo com ambas as afirmações), depois dinamita com estas comparações absurdas aquilo que a mais pura intuição nos diz - que existe uma caminhada de 16, 18, 20, 22 anos (depende muita das personalidades) até o homo sapiens se tornar um adulto independente, capaz de cuidar da sua própria vida? E até chegar a esse ponto, ele está ao nosso cuidado. A sua formação é responsabilidade nossa. E educar e socializar é um processo que implica retirar a criancinha do seu estado puro e selvagem, de forma a que aprenda a segurar nos talheres e a cumprimentar os vizinhos. 

 

Aliás, até entre adultos a sua comparação é estúpida. Porque, de facto, nas relações profissionais, existe uma hierarquia que manda, pune e castiga. Portanto, nem entre adultos a sua afirmação é verdadeira. Sempre que há hierarquia há poder e violência (é ler o Foucault), e a não ser que o doutor González queira também acabar com a hierarquia entre pais e filhos, eu francamente não sei como se educa sem se castigar. Admito perfeitamente que não se bata. Mas não castigar de maneira nenhuma? Só pode estar a gozar comigo.

 

"Ah, espera", dizem os seus admiradores: ele não diz que não devemos impor limites. Diz apenas que não devemos castigar. Peço então encarecidamente a quem leu o livro com nome de bolero mexicano que me explique como é que isso se faz: como é que se impõem limites sem recorrer ao castigo? Agradeço por antecipação. E a prosa continua amanhã, que o González é um poço sem fundo.

 

 O beatífico Carlos González, numa foto onde já parece ter transposto as portas do Paraíso

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:34


Agarrem-me senão eu mordo-o! #2

por João Miguel Tavares, em 28.05.14

O Dr. Mário Cordeiro, que é o pediatra dos nossos filhos, aconselhou-me a gastar vela com melhor defunto do que Carlos González nos comentários ao meu post de ontem. Escreveu ele:

 

Não perca tempo... felizmente há a liberdade de se dizer o que se pensa, incluindo bacoradas. Ainda bem... serve para ver que, mesmo com os nossos erros, inconsistências e incoerências, ainda somos bons pais porque estabelecemos regras, limites, mimo e afecto, prémios e castigos proporcionados, justos e adequados. A entrevista é, toda ela, um show-off de "anti-sistema", mas não há uma referência científica que ele invoque para suportar o que tão peremptoriamente afirma. Deve pensar que é um "Marinho e Pinto da pediatria"... Abraços e gaste as suas energias com guerras mais dignas...

 

Tendo em conta o respeito e a admiração que o Dr. Mário me merece, e o saudável hábito que ele tem de não virar as costas às polémicas, talvez convenha então começar por explicar porque é que esta guerra contra a visão cutchi-cutchi da paternidade me parece tão importante. No próximo domingo - passe a publicidade - vai sair na revista do Público um longuíssimo texto meu sobre este tema, onde tento sistematizar de forma mais estruturada muitas dessas preocupações. Para os interessados, é ler, e depois, se quiserem, regressar aqui para mandar vir comigo.

 

Parte desse texto do Público está apoiado em dois livros americanos que me parecem muito importantes para discutir o tema - infelizmente, nenhum deles está traduzido em Portugal. Um chama-se Raising America, é da autoria de Ann Hulbert, e acompanha mais de 100 anos de conselhos sobre como educar as crianças. O outro é muito recente e foi um merecidíssimo sucesso nos Estados Unidos: chama-se All Joy and No Fun, é da autoria de Jennifer Senior, e tem a vantagem de mudar a direcção do holofote - em vez de averiguar, como habitualmente, o impacto que os pais têm nos filhos, foi analisar o impacto que os filhos têm nos pais.

 

O primeiro livro demonstra que a velha questão do "mais amor e compreensão" versus "mais rigor e disciplina" é um tema que já tem barbas e o debate mais recorrente no campo da educação infantil - sem que haja qualquer resposta definitiva para ele. A minha amiga Inês Castel-Branco, que vive e cria os seus filhos em Barcelona, deixou um resumo disso mesmo no meu Facebook, mas em versão catalã: 

 

Cá em Barcelona o tema está muito polarizado entre os que são a favor do pediatra Carlos González e os que são a favor do Doctor Estivill (ambos de Barcelona), e os dois grupos odeiam-se a matar. Os primeiros defendem a educação livre (há cada vez mais escolas "livres" onde não se obriga os miúdos a fazer nada), dormir juntos na cama, amamentação até aos 4 ou 5 anos, etc.; os do doutor Estivill são os que "ensinam" os bebés a dormir à custa de deixá-los chorar, os que marcam os limites... Os extremos nunca são bons, e possivelmente as duas linhas podem dar-nos que pensar!

 

Ora nem mais.

 

Já o segundo livro que citei, "All Joy and No Fun", demonstra algo que me parece ainda mais importante, até porque me toca directamente: estamos a criar uma geração de pais esmagados pelo peso da responsabilidade de criar os seus filhos de perfeitíssima maneira. Daí o magnífico título de Jennifer Senior, que numa tradução atabalhoada podemos frasear assim: "Só felicidade e nenhum divertimento." O livro de Senior tem como subtítulo "o paradoxo da paternidade moderna", e o paradoxo é este: todos adoramos os nossos filhos, mas uma altíssima percentagem de nós tem muito pouco prazer em ser pai (ou mãe).

 

É por isso que morder em González me parece tão importante: à boleia do discurso fofinho sobre a paternidade, do "nunca castigar", do "não comam salada se não quiserem", do "são crianças e é naturalíssimo que se portem mal", do "eles têm tempo para ser grandes", aquilo que se está a fazer é uma dupla asneira:

 

1) criar crianças que serão socializadas não pelos seus pais mas, muito mais à bruta, nos recintos das escolas e pelos professores que o conseguirem fazer, empurrando para a sociedade responsabilidades educativas que são da família, em primeiro lugar (e quem nunca levou, numa escola, com os resultados espectaculares dos paizinhos super-tolerantes, na forma de crianças intratáveis, que levante a mão);

 

2) produzir pais falsamente zen, para os quais tudo deveria ser paz e amor - só que tudo "paz e amor" é um projecto de vida impraticável para 99% das pessoas; todos nós perdemos a paciência, achamos obviamente que tem de haver regras, somos incapazes de ver a mesma colher de sopa ir 27 vezes para o chão sem castigar um puto; e se levarmos a sério o que o Dr. González diz ainda nos vamos culpabilizar mais do que já o fazemos nos dias de hoje por sermos incapazes de seguir a linha hippie da pediatria. 

 

Acho graça a que alguns leitores tenham dito, na caixa de comentários, que mal leram a entrevista de Carlos González pensaram logo em mim e que eu não iria resistir a responder. É porque me conhecem bastante bem - e tomo isso como um elogio. Claro que, como este tema me irrita bastante, já gastei demasiados caracteres só nos preliminares. A análise da entrevista do fofinho González vai ter de ficar para depois. 

 

De qualquer forma, antes que a Brigada Anti-Palmada me venha acusar de eu ser um bárbaro que tiro imenso prazer do espancamento dos meus filhos, deixem-me despedir recordando uma frase que resume a minha posição sobre este tema, da qual já falei várias vezes, mas que não me canso de repetir: não há ingrediente secreto. Ou seja, é impossível, na minha modesta opinião, reduzir a educação de uma criança a uma fórmula fechada - ela tem de ser adequada às características próprias de cada filho. A algumas crianças não vale a pena sequer bater com uma flor. Outras precisam de uma palmada no rabo na hora certa.

 

Mais disto em breve.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:31


Agarrem-me senão eu mordo-o!

por João Miguel Tavares, em 27.05.14

Eu agora não tenho tempo para estar a escrever sobre isto, mas amanhã não falha. De qualquer forma, se puderem, e se quiserem antecipar-se ao verter do meu ódio, não percam esta entrevista com o pediatra espanhol Carlos González publicada no Observador. Logo o título é todo um programa:

 

"Todos os castigos são inúteis"

 

Todos? Todos mesmo? A sério?!? Eu juro que fico maluco com o discurso cutchi-cutchi acerca da paternidade e dos filhinhos. M-A-L-U-C-O! Parece que se está a ser queriducho quando, na verdade, só se está a dar cabo do equilíbrio mental das famílias. Acabem-me com o mito do bom selvagem de uma vez por todas, por amor de Deus.

 

Mas calma. Respirar fundo. Para já, vou fazer a posição lótus, que não tenho tempo para isto. Deixo só um enorme GRRRRRRR!!! ao Carlos González e fica prometido para mais tarde a expensão da minha bílis.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:02



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D