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Olhem eu a ver a minha vida andar para trás

por João Miguel Tavares, em 11.11.14

Por causa deste texto da Helena Matos, fui ter a esta notícia do Observador, baseada neste trabalho do El País (bem-vindos ao maravilhoso mundo da world wide web).

 

E subitamente dei por mim embasbacado face à notícia em causa, que pode por antecipação dar cabo de toda a minha velhice, se tiver tido o azar de me saírem uns filhos calões na rifa. Ora leiam bem:

 

Há tribunais espanhóis que estão a obrigar os pais a pagar pensões de alimentos a filhos com 30 anos sob o argumento de que estes, com a crise económica, não conseguem encontrar trabalho e emanciparem-se.

 

Note-se que estamos a falar de... 

 

...adultos de 28/30 anos a quem os pais são obrigados a pagar pensões de alimentos – porque a crise económica os impede de serem independentes.

 

E isto é porque os espanhóis têm leis malucas?

 

Não, não é:

 

Nem a lei espanhola, nem a portuguesa, estabelecem um limite de idade para a pensão de alimentos. (...) A advogada Teresa Apolónia lembra que, depois dos 18 anos, cabe ao próprio filho pedir ao tribunal que o pai lhe pague a prestação de alimentos. Mas a lei exige que haja aproveitamento escolar, caso contrário o pai ou a mãe podem alegar que ele não está a cumprir a obrigação.

 

Ou seja, se o gajo quiser fazer licenciatura, mestrado, pós-graduação, doutoramento e pós-doc, tudo de seguida e com aproveitamento, eu posso ser obrigado por um tribunal, já septuagenário e caquético, a sustentar um quarentão. What the fuck?

 

E não, não é ficção científica espanhola. Também já há filmes idênticos em português: o artigo do Observador cita um acórdão da Relação de Lisboa que obrigou um pai divorciado a pagar a pensão de alimentos a uma filha de 22 anos que não lhe falava há anos. Diz o acórdão:

 

Cremos que melhor representa os sentimentos dominantes da nossa sociedade a ideia, que é a nossa, de que o amor incondicional dos pais pelos filhos exige que os primeiros lhes proporcionem os meios necessários para singrarem na vida, mesmo quando os filhos não têm o comportamento que deles é esperado.

 

E agora, a parte snif, snif:

 

Resta, igualmente, esperar que a filha do Recorrente, apesar de eventualmente ninguém a ter ensinado a amar e respeitar o pai, como este gostaria, o venha a aprender, por si própria, com a maturidade da idade adulta. Para tanto, ajudará observar que o pai, embora sem retorno afetivo, sempre a apoiou, pelo menos em termos materiais.

 

Amor incondicional mas é o caraças. Ou melhor: amor incondicional, sim, com certeza, mas por decisão dos progenitores - não "amor incondicional" imposto por um juiz a um pai quando a filha é maior de idade e não lhe liga patavina. Afinal, isto é um acórdão ou um excerto de um livro de Nicholas Sparks?

 

Nesta cada vez mais assolapada civilização cutchi-cutchi, acho que anda tudo a ficar doido. Então com 18 anos um filho é livre para sair de casa mas um pai não é livre de o pôr fora? Que sentido é que isto faz?

SpoiledChineseKids.png

 

 

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publicado às 10:35


O tempo da Carolina

por Teresa Mendonça, em 30.09.14

Depois de basicamente ter sido intitulada mamã galinhola, hiperprotectora e obcecada em manter as grilhetas nas patas dos meus elefantezinhos para que eles não corram riscos, resolvi vir pôr ordem no galinheiro.

 

Quando se trata de perceber a partir de que momento uma criança deve/pode ir sozinha para a escola há muitas questões, sobejamente já discutidas aqui no PD4, a ter em conta - a responsabilidade e capacidade de "desenrascanço" da criança, que obviamente muito dependem da educação que os pais lhe deram até essa altura; as contingências físicas e económicas do núcleo familiar (se mora longe ou perto, se tem irmãos espalhados pelas escolas públicas da terra onde vive, se os pais têm horário de trabalho compatível com o da sua escola); se o trajecto até à escola coloca a criança em situação de perigo (bem diferente de correr riscos controlados); e por aí fora.

 

A decisão, obviamente, terá que ter em conta as necessidades da família, mas deveria focar-se acima de tudo na criança. E cada criança é uma criança, pelo que penso que não existe uma data a partir da qual todas as crianças têm obrigação de acordar mais responsáveis e independentes e passar a fazer o trajecto para a escola sozinhas. Convém falar com elas, perguntar-lhes a opinião, e garantir que elas se sentem confortáveis com este importante passo na sua vida cada vez mais autónoma e independente dos pais.

 

Ora, no caso concreto da nossa família, o excelentíssimo esposo e pai cá da casa resolveu decidir que a nossa Carolina estava pronta para ir para a sua escola,  sozinha, a partir do primeiro dia do ano lectivo 2014/2015, indiferente à opinião que ela tivesse acerca do assunto. Pregou-lhe vários sermões sobre como era inaceitável que ele estivesse a perder 14 minutos (7 de ida e 7 de volta) da sua existência atarefada para a acompanhar num trajecto ridiculamente simples e inofensivo, e quando ela ousou murmurar que não se sentia preparada para o fazer sozinha, obviamente a culpa era da mamã-galinha da casa que insistia em não cortar o cordão umbilical e dar asas aos seus filhotes. 

 

Para quem é frequentador do PD4, a auto-confiança da Carolina é muito bem conhecida. Ela adora ser independente e passa os dias a dizer que é uma pré-adolescente, pedindo constantemente para aceder a patamares habitualmente só acessíveis aos mais crescidos. Falta-lhe ainda muita responsabilidade mas está mais do que apta a fazer o trajecto da escola para casa com autonomia e segurança. A primeira vez que foi fazer uma pequena tarefa (comprar pão) sozinha em Lisboa tinha 5 anos (não atravessou nenhuma estrada, mas parte do trajecto não estava no raio de visão da nossa janela onde eu fiquei à espreita), e quando está nos Montes da Senhora a passar férias anda pela aldeia (que não é nada pequena) com total autonomia. Passa a vida a pedir-me para eu não sair do carro quando vou buscar a Ritinha ao infantário, ficando muito ofendida quando alguma auxiliar se mostra receosa de a deixar descer as escadas com a Rita ao colo. Adora ser crescida, ter o seu cartão de acesso ao refeitório e não precisar dos pais para a controlar na escola. É destemida e trepa em segundos aos pontos mais altos de todas as torres de cordas e redes dos parques infantis.

 

Mas pediu um período de adaptação até passar a ir sozinha para a sua nova escola. 

 

A Carolina vê muitos filmes. E lê muitos livros. E fala com muitas pessoas. Ora, os livros e filmes que vê, especialmente os que o seu papá lhe mostra, além de muito interessantes e imaginativos, tratam de situações limite que a fazem (e bem) pensar na fragilidade da vida humana. Ultimamente tem-me falado repetidas vezes numa das primeiras sagas de banda desenhada que o João lhe mostrou - Buddy Longway - e que acaba com a morte cruel da personagem principal e da sua família, sem que eles tivessem feito alguma coisa de mal ou merecessem (se é que alguém merece) tão triste fim. Esta história que ela tanto adorou, ficou imersa na sua consciência e insiste em vir à superfície sempre que ela se sente insegura. Além disso, a zona onde vivemos tem sido muito vandalizada ultimamente e o nosso prédio já foi assaltado duas vezes este mês. Ora, a Carolina ouve os vizinhos falarem sobre esses acontecimentos e sobre a insegurança que sentem.

 

É assim tão difícil de aceitar que a Carolina se sinta ainda pouco confortável em fazer o simples trajecto de casa para a escola, sem a presença de um adulto? Será desejável obrigá-la a enfrentar os seus medos de repente quando ainda agora começou uma nova etapa da sua vida, numa nova escola, onde só conhecia uma colega, que nem sequer era da sua turma? Onde está agora o papá que me obrigou a tirar o Tomás das aulas de futebol (nas quais o Tomás me pediu para o inscrever durante 3 anos consecutivos) por causa de um simples problema de balneário? Será que o excelentíssimo papá não se reviu no filme que o seu elefantezinho estava a viver e resolveu retirá-lo daquele ambiente agressor até que ele se sentisse mais robustecido e auto-confiante?

 

Não tenho dúvidas que as inseguranças e ansiedades dos pais passam para as crianças e podem prejudicá-las irremediavelmente na sua aquisição de autonomia e auto-confiança. Não acho que seja benéfico para ninguém superproteger as crianças e escondê-las da sociedade numa redoma à prova da insanidade de algumas (poucas) pessoas que todos sabemos que vivem as suas vidas algures ao nosso lado. Devemos, sim, garantir que as nossas crianças aprendem a correr riscos evitando os perigos descontrolados. E isso custa, é claro. Mas faz parte do pacote da maternidade/ paternidade.

 

A Carolina sabe que esperaremos o tempo que for necessário para ela. Mesmo que o tempo dela não seja o nosso tempo.

 

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publicado às 10:18


O medo (e os elefantes no circo)

por João Miguel Tavares, em 29.09.14

Eu não queria voltar ao tema da autonomia, mas a leitora Ana Isabel escreveu nos comentários a este post uma coisa que me parece muito importante:

 

Já se sabe que é perigoso [os miúdos] fazerem uma data de coisas sozinhos, mas realmente tem de ser porque não existe outra maneira de aprenderem a defender-se. Garanto que é pior [os pais] andarem sempre em cima deles, pois correm o risco de os superprotegerem e isso pode ter consequências muito graves para toda a vida.


Eu, infelizmente, sei [do que estou a falar], pois tenho um caso na família, em que tenho acompanhado, sem poder fazer nada, uma mãe a estragar dois filhos. Como ela não consegue lidar com os seus medos, resolveu prender completamente as crianças, e além disso ainda as "informa", assustando-as, das consequências que os seus actos podem ter. Tanto [assim é] que nunca tinha visto uma criança de três anos que, quando dá um passo fora da porta, pede para pôr o chapéu, pois o sol faz mal. Tudo o que é exagero [é que] faz mal.

 

Esta partilha da Ana Isabel fez-me recordar uma história recente que eu próprio vivi, num jogo de bola com outras crianças. A certa altura, a bola saltou para trás de uns arbustos que davam pelo joelho de um miúdo que teria talvez 11 ou 12 anos. Era um puto enorme. Qualquer criança normal pularia por cima daquilo para agarrar a bola, e depois voltaria rapidamente para o jogo. Não custava nada. Mas ele ficou a meditar um pouco, "consigo ou não consigo?", e depois achou que não era capaz. E decidiu ir dar uma volta de 20 metros para circundar o mini-arbusto e apanhar a bola.

 

Fiquei muito impressionado com aquilo. Era claramente um miúdo super-protegido, filho daquilo a que chamamos pais-colchão - ainda as crianças não estão a cair e eles já estão a agarrá-las. O exagero nessa obsessão securitária está nisto: de tanto serem marteladas com "tem cuidado!" e "não podes!", às tantas os miúdos já acham que não são capaz de fazer as coisas mais básicas, que estão completamente ao seu alcance. O arbusto é como o outro - o problema, mais tarde, pode vir a ser o emprego, as relações amorosas, tudo aquilo que na vida é realmente difícil.

 

Conhecem a história dos elefantes no circo? Diz-se - não sei se é mito - que desde pequenos lhes colocam grilhetas nas patas, presas por uma corrente, da qual não se conseguem libertar, porque ainda não têm força. E depois, quando são elefantes adultos, continuam a estar presos à mesma corrente, embora nessa altura já tenham força mais do que suficiente para rebentar com ela - simplesmente, nem sequer tentam, porque acham que não conseguem. Foram educados assim.

 

Dizer que andamos a criar pequenos elefantes de circo nas nossas casas seria um manifesto exagero. Há imensos pais que se esforçam por empurrar as crias para fora do ninho. Agora, que quase todos temos, nalguma altura das nossas vidas, de fazer um esforço genuíno para não acorrentar os filhos às pernas dos sofás, isso temos.

 

 

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publicado às 10:40


Alguns comentários sobre a autonomia dos miúdos

por João Miguel Tavares, em 28.09.14

Ainda em relação ao tema da autonomia dos miúdos abordado na semana passada, fica aqui um resumo de alguns comentários muito pertinantes ou de óptimas partilhas de experiências de vida, entre os quase 150 leitores do PD4 que se deram ao trabalho de escrever sobre o assunto. O meu obrigado a todos.

 

Ana Isabel:

 

Temos três raparigas de 25, 21 e 16 anos, por isso eu já tive tempo de me habituar a soltá-las. Que é o que a Teresa precisa, de TEMPO. Tempo para conseguir gerir a preocupação constante que é ter um filho na rua sozinho. Tempo para conseguir perceber que não vai acontecer nada. Tempo para se habituar à ideia que os filhos estão a crescer e a ficarem independentes, e que afinal até se conseguem desenrascar sozinhos! Tempo para aprender a confiar neles. Garanto-lhe que à terceira (no vosso caso, à quarta), quase que já crescem sozinhos! A primeira é que é mais complicada. Mas o início da independência deles é o começo de um novo ciclo em que nunca mais vamos estar descansados. É assim a vida. Menos trabalho físico, mas psicologicamente muito complicado.

 

José Moreira:

 

A culpa é das notícias. O facto de termos acesso a tanta informação, sobre tantas catástrofes e maldades e azares, faz com que tomemos como regra, e como perigos iminentes, situações que são, no nosso país, muito raras. O mundo não está pior. Nós é que sabemos demais. Penso que será esse o principal motivo para sermos pais super protectores.

 

Ana:

 

Acho importante que se dê o tal voto de confiança, que se concedam algumas pequenas liberdades, mas, na mesma proporção, acho que devemos responsabilizar os petizes e atribuir-lhes pequenas tarefas diárias. Porque isso é que é crescer. Ter direitos e deveres, poder ir a pé, mas ter de fazer a cama, arrumar o quarto ou o que seja.

 

Marta:

 

Eu tenho uma filha de 3 anos e dou por mim constantemente a dizer: Mariana, cuidado com o degrau; Mariana, não corras... e reparo que quando a chamo a atenção ela desacelera e fica com um ar apreensivo... obviamente. vejo logo que isto não é bom para ela. A obsessão dos pais com os filhos não é de agora. Os meus avós já o tiveram com os meus pais e os meus pais tiveram comigo (tenho 42 anos). A minha mãe passou a vida a apontar-me perigos e isso tornou-me numa pessoa com pouca autoconfiança e cheia de medo de tudo. Tanto que eu não tenho uma única cicatriz da qual me possa orgulhar...

 

Mara:

 

Concordo em absoluto com o João. Autonomia, autonomia, autonomia! Podem percorrer sozinhos pequenos percursos aos 10 anos, SIM! E ficarem sozinhos em casa pequenos períodos. Podem e devem ir comprar pão à padaria da rua, trazer o jornal do quiosque da esquina, ir à papelaria.

A galinhice generalizada está a criar incapazes e não é baseada em nenhum dado racional, mas em medos não fundamentados. Os pais tendem a achar que os filhos nunca estão preparados para crescer. Acabam nas filas de matrículas nas faculdades, porque os seus marmanjos, coitadinhos, não se podem matricular sozinhos, nem arrendar um quarto sozinhos, nem fazer um contrato de água e luz. 

Tenho 4 filhos, como o João. Tenho lutas épicas com o mais velho, que não é nada fã de autonomia. O seguinte, curiosamente, e só com 7 anos, preza muito a independência e o voto de confiança que lhe damos quando o deixamos ir ao pão sozinho ou brincar sozinho na praceta. Os outros ainda são muito pequenos. A autonomia é uma coisa boa, útil, indispensável. Nem sempre é fácil, crescer às vezes é chato, outras dói. O mundo NÃO está mais perigoso do que há 30 anos, nós é que estamos mais paranóicos, mas não fazemos favor nenhum aos miúdos mantendo-os numa redoma.

 

Teresa A:

 

A minha filha é um "crash test dummy", passa a vida a cair e a ferir-se. Por minha vontade andava sempre a protegê-la mas acho melhor ser a mãe a sofrer do que a pequena, que adora correr, saltar, trepar. Magoa-se? Sim. Mas não tem medo e é uma crianca mexida e feliz. Se a meter numa redoma talvez evite as nódoas negras, os arranhões, os galos, os ossos e os dentes partidos (sim, já tivemos tudo isto nos 4 anos de vida da garota, várias vezes) mas crio uma miúda medrosa e dependente. Concordo com a pessoas que dizem que se a Carolina quer, deve ir. Se a Carolina acha que ainda é cedo, aí é melhor ver...

 

Susana Mendes:

 

Para que as mamãs se habituem aos filhos irem sozinhos para a escola posso aconselhar a minha estratégia, testada por mim no 5.º ano (há dois anos) e que resultou. Na primeira semana - levar à escola. Na segunda semana - ficar a meio da rua, com o portão da escola à vista e vê-la entrar. Na terceira semana - ficar no princípio da rua da escola sem avistar o portão, e ficar a vê-la até se perder de vista... e por aí fora, encolhendo sempre o nosso caminho. Rapidamente conseguimos que ele saísse da paragem do autocarro, e eu seguisse. Eu... sozinha. Nota: Adaptem o número de semanas de estágio em cada etapa conforme a vossa angústia.

 

JP:

 

Lembro-me de uma vez ter visto aquela que considero a mãe mais histérico-protectora de todas as mães que vi até hoje: além de andar sempre atrás da filha [no parque], levava-a ao cimo do escorrega, dizia-lhe para esperar por ela antes de descer. A miúda só podia descer quando a mãe estava em baixo à espera dela. A melhor foi quando a menina começou a correr e aquela mãe desatou aos berros: "Não corras que podes cair!" Que freak!!! Mas como se pode pedir a uma criança para não correr?!

 

Joana:

 

Concordo com a Teresa. A Carolina só mudou de escola este ano, ir já sozinha para a escola parece-me precipitado. Muitas mudanças ao mesmo tempo. Talvez para o ano, quando ela já conheça colegas que possam fazer o mesmo caminho que ela, para não ir completamente sozinha, por exemplo. Deve haver uma transição das coisas. Ir já já, escola nova, 10 anos, muito cedo.

 

Isabel Prata:

 

Na minha cabeça todas as tragédias são possíveis, mas tenho vindo a aprender a lidar com isso, porque é assim que tem que ser. Tenho 3 filhos, 21, 20 e 10, e não há volta a dar, viveremos sempre angustiados, que eles sejam atropelados, que tenham um acidente, que andem em más companhias (por acaso o cenário do rapto nunca me atormentou). Mas os filhos não são nossos são do mundo e a nossa obrigação é dar-lhes asas, procurando que as calças sejam à medida das pernas. Só assim eles ganham autonomia e só assim eles podem aprender a lidar com as situações e a evitar os perigos. E ir estando atentos aos sinais que eles dão.

 

Hoje há uma ajuda muito grande, os telemóveis. Mas mesmo assim é só uma ajuda, e que até se pode tornar contraproducente: no dia em que por alguma razão eles não atendem, entramos em pânico. Quando os mais velhos começaram a sair à noite, iam cheios de recomendações, sobretudo em relação ao álcool. De início íamos buscá-los, depois começaram a vir de táxi, depois com amigos, depois tiram carta... De início não adormecia antes de chegarem, agora, sossegada por os saber ajuizados, apenas quando acordo de manhã vou ver se eles estão nos quartos. É assim, o irem sozinhos para a escola aos 10 anos é só uma pequena etapa. Como dizem os antigos a solução é "alma até almeida".

 

Patrícia C.:

 

Uma vez numa reunião no ATL alguns pais (de miudos de 5.º e 6.º ano) disseram que não permitiam que os filhos fossem de autocarro da Carris fazer uma visita de estudo acompanhados por 3 monitores porque iam muitas pessoas estranhas dentro do referido autocarro!
E ainda hoje tenho amigas cujos filhos de 13/14 anos não têm autorização para irem sozinhos para a escola que fica a 10 minutos de distância a pé nem sequer à padaria que é ainda mais perto!

 

Teresa Power:

 

No ano passado, o David fez sete anos. Convidou cinco amiguinhos para lanchar connosco e brincaram a tarde inteira entre o nosso jardim e o descampado por detrás da casa. No fim do dia, os pais vieram buscar os filhos, e qual não foi o seu espanto ao vê-los à distância, empoleirados sobre várias árvores... E comentaram comigo: "Não sabia que o meu filho era capaz de subir às árvores!" Ou: "O meu filho passa o tempo todo com os jogos de computador... Não imaginei que lhe soubesse tão bem estar sobre uma árvore!" E todos, todos falaram da saudade da sua infância, quando também eles subiam às árvores... Cá em casa vive-se uma "negligência benigna" muito natural, que as pessoas atribuem ao facto de serem muitos, mas que é muito mais do que isso: é propositada!

 

Dr. Mário Cordeiro:

 

Como pediatra, pai de crianças de 11 e 12 anos que vão sozinhas para a escola, e como fundador da APSI, acho que tem toda a razão. Aliás, já que refere o caso Maddie, só houve um, mas foi repetido "ad nauseum" de modo a parecer que todos os dias desapareciam dezenas de crianças no Algarve... e resta a saber o que realmente aconteceu, ou se o "o pecado não morava afinal ao lado". Ainda com esta claustrofobia em que colocamos as crianças (nós em relação a elas, entenda-se), não se esqueçam, leitores do PD4, que 95% dos abusos sexuais de menores são cometidos por familiares e conhecidos da criança... leram bem. 95%.


E também estou de acordo com o Luís Januário, meu colega e amigo, que uma coisa é correr riscos de forma controlada, outra é estar em situações de perigo. Risco é probabilidade de acontecer alguma coisa. Perigo é uma situação que, por si, tem tudo para acabar mal. Uma diferença que pode parecer meramente semântica, mas que é fundamental neste contexto. Claro que é preciso ensinar as crianças, mostrar-lhe os caminhos melhores, debater com eles e rever os riscos e perigos, no fundo, gastar tempo nessa missão que é educar e ensinar/aprender.

 

Não sou adepto do "antigamente" - se não, não tinha dedicado 30 anos da minha vida à prevenção de acidentes e promoção da segurança infantil... - mas o excesso de protecção dá uma falsa sensação de segurança. para lá disso, como alguém bem comenta, os pais mais restritivos esquecem-se depois de coisas como a segurança rodoviária e outras coisas assim. Não há situação mais letal que a vida... mas tem de ser vivida sob pena de morrermos, quando mais não seja, de tédio e espartilhos...

 

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publicado às 18:57


A receita do crescimento segundo Eduardo Sá

por João Miguel Tavares, em 28.09.14

 

Em tempos idos (há um ano e meio, tempo comum; há uma década e meia, tempo familiar) escrevi neste blogue um texto bastante mauzinho - mas sincero - sobre Eduardo Sá, intitulado "A Associação dos Pais Alérgicos a Eduardo Sá". E eis que este domingo Eduardo Sá voltou à minha companhia via Observador, onde ele dá uma entrevista a propósito do seu novo livro, Hoje Não Vou à Escola!.

 

 

E como a entrevista é das que se lê e não das que se ouve, dei por mim a concordar com Eduardo Sá mais vezes do que é habitual, até porque o seu costumeiro tom cutchi-cutchi aparece aqui bastante suavizado.

 

É claro que a visão da criança "criativa" e a defesa de que "crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos" é muito cor-de-rosa e altamente discutível. Mas, de um modo geral, concordo com o retrato que Eduardo Sá traça da escola actual.

 

E para aquele tema que nos ocupou tanto na semana passada, há uma frase sua que me parece bastante pertinente, e que me fez escrever este post:

 

Crescer é uma receita razoavelmente simples: dar o mais possível de colo, um q.b. de autoridade e o mais possível de autonomia.

 

É verdade. Ensinar a crescer é mesmo isso. Sobretudo aquela parte de "o mais possível de autonomia" que, vá lá saber-se porquê, foi a que mais gostei de ler.

 

Ora, se até o psicólogo mais cutchi-cutchi da nossa praça o diz, quem, de entre as pessoas que escrevem neste blogue, terá coragem para o desmentir?

 

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publicado às 18:14


A infância de risco zero e a negligência benigna

por João Miguel Tavares, em 25.09.14

Na sequências dos posts desta semana, tenho recebido algumas sugestões de artigos e vídeos que debatem o assunto da obsessão securitária no mundo actual, no que às crianças diz respeito. Uma das sugestões mais proveitosas (obrigado, Miguel Barroso), e que aconselho a todos, é uma conferência de Tim Gill, intitulada Risk and Childhood.

 

Tim Gill 

 

A sua intervenção tem cerca de 25 minutos (seguem-se outras intervenções igualmente interessantes), e o inquérito inicial com que provoca a audiência é extraordinariamente esclarecedor. Tim Gill começa por pedir ao público que tente recordar a melhor memória da sua infância. De seguida, pede para se levantarem aqueles cuja memória feliz foi vivida fora de casa, ao ar livre. Praticamente toda a gente se levanta. Finalmente, pede para se levantarem aqueles cuja memória feliz foi vivida fora da vista de adultos. De novo, praticamente toda a gente se levanta.

 

Eu também pensei nas minhas mais felizes memórias de infância. E sim, foram ao ar livre. E sim, foram longe da vista de adultos. Infelizmente, as crianças que estamos a criar não vão ter tantas oportunidades para poder responder o mesmo no futuro.

 

Gill aborda - e desmonta - os medos mais comuns dos pais, centrando-se nos parques infantis e no abuso de crianças. E a conferência, curiosamente, vem na sequência de um trabalho seu que foi publicado pela secção inglesa da Fundação Gulbenkian. Existe um pdf da sua obra, No Fear: Growing up in a risk averse society, totalmente gratuito aqui.

 

 

Não quero estar a chatear-vos novamente com isto, porque acaba por ser uma forma cientificamente fundamentada daquilo que já defendi nos dois textos anteriores. Contudo, não posso estar mais de acordo com Tim Gill quando ele afirma, ao concluir a sua intervenção, que a questão que merece ser mais discutida actualmente talvez não seja a do mimo, a do carinho ou a da disciplina, mas sim aquilo a que Gill chama "benign neglect" - uma muito útil "negligência benigna", sem a qual nos transformamos não só em pais obcecados, como abafamos os nossos filhos com tanto aperto e preocupação.

 

Só mais um ponto: na parte final do vídeo da conferência, já da boca de um outro interveniente (Tom Malarkey, da Royal Society for the Prevention of Accidents), sai uma magnífica frase, que eu estou a pensar transformar em mantra pessoal, e procurarei repetir muitas vezes: "try to make children lives as safe as necessary, not as safe of possible".

 

"Tentemos que as vidas das crianças sejam tão seguras quanto necessário, não tão seguras quanto possível."

 

A diferença entre uma coisa e outra é, de facto, gigantesca.

 

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publicado às 10:52


Quando é que eles podem ir sozinhos para a escola? #3

por João Miguel Tavares, em 24.09.14

No Facebook, o Duarte Araújo Mata deixou este link para uma notícia de há um ano do jornal italiano La Stampa. São muito curiosas - e significativas - as diferentes percentagens de filhos que vão sozinhos para a escola em Itália, na Inglaterra e na Alemanha. Título e pós-título do artigo: 

 

Scuola: “Bambini privi di autonomia” Appena l’8% torna a casa da solo

 

In Germania il 76%, in Inghilterra il 25%: i bambini italiani, a differenza dei coetanei europei, sono sempre scortati dagli adulti: secondo esperti e pediatri è molto negativo

 

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publicado às 12:06


Quando é que eles podem ir sozinhos para a escola? #2

por João Miguel Tavares, em 24.09.14

Escreveram duas leitoras na caixa de comentários, a propósito do meu post anterior:

 

João, peço desculpa mas este assunto deveria ter ficado na esfera privada. Se fosse a sua esposa não gostaria de ler este post. Como mãe de um adolescente de 17 anos, digo-lhe que, ainda hoje, fico à espera do sms a dizer que já chegou a casa...

 

Isto disse a Isis. A MP defendeu uma posição muito semelhante:

 

A Teresa sabe que escreveu este post? Se ela estava muito reticente com esta ideia, agora não sei se será mesmo contra. Então vem dizer para um blog público, com fotografias dos seus filhos, que um deles pode passar a ir/vir sozinho da escola, e ainda dá a localização aproximada?

 

Ora bem. Faço notar que no meu post anterior eu remetia para um texto onde um pediatra português denunciava aquilo a que chamou a "cultura de segurança fóbica". Donde, embora as preocupações da Isis e da MP sejam perfeitamente legítimas e compreensíveis, elas vêm de encontro precisamente àquilo que eu criticava no meu texto de ontem.

 

É muito natural que a Teresa não tenha gostado do que escrevi, no sentido em que eu acho que ela também partilha um bocadinho dessa fobia securitária, e estamos todos a precisar de trabalhar cá em casa as questões da autonomia e da independência. No artigo do Público referido acima, Helena Sacadura, da Associação Portuguesa de Segurança Infantil (APSI), diz algo com que também concordo muito:

 

"A APSI anda há 21 anos a chamar a atenção para o facto de não podermos pôr as crianças dentro de redomas. Uma criança que não corre riscos não aprende os riscos que pode correr [mais tarde]. Hoje, temos crianças superprotegidas na área do brincar, não têm autonomia e não são responsáveis. São analfabetos do corpo."

 

São analfabetos do corpo quando andamos a correr atrás deles nos parques infantis, e são analfabetos do corpo e da mente, na minha opinião, quando não os deixamos andar sozinhos ao lado de casa aos 10 anos de idade.

 

Eu ando a picar a Teresa a ver se ela vem dizer de sua justiça aqui para o blogue. O PD4 tem apenas um décimo da graça que pode ter quando sou só eu a escrever posts. O PD4 nasceu como um projecto a dois, e não tem graça ser só eu a amamentar a criança. Este filho é claramente desprezado em relação aos outros quatro. De qualquer forma - e antecipando a sua intervenção -, a excelentíssima esposa dirá que é a nossa filha mais velha que ainda não se acha preparada para dar esse passo de ir sozinha. Eu acho que somos nós que não estamos a fazer o suficiente para a preparar.

 

Mas deixem-me dizer só mais uma coisa em relação à "vida privada" e ao facto de eu não dever estar a contar isto num blogue. Este blogue nasceu por várias razões, e uma das principais - digamos que está no top 3 das razões decisivas - tem a ver com um combate, chamem-lhe missionário, se quiserem, contra o desaparecimento das crianças - e, por arrasto, da família - do espaço público. Não gosto de viver num mundo de crianças com caras pixelizadas, a não ser por razões óbvias (se foram abusadas, por exemplo). Esse desaparecimento faz parte de uma mesma cultura securitária que, paradoxalmente, empurra os mais pequenos para a sombra na civilização de todos os holofotes.

 

A Teresa não partilha totalmente desta minha opinião, e portanto eu acabo por ter algum cuidado com a exposição dos nossos filhos. Mas recuso-me - e recuso-me mesmo, apesar dos medos que todos temos, e eu também - a esconder os filhos só porque apareço na televisão, escrevo nos jornais, e alguém pode querer fazer-lhes mal por eu ser mais de direita do que de esquerda. Como dizem os americanos, "shit happens", mas eu não vou viver a minha vida atemorizado por isso.

 

Eu não sou diferente dos outros pais: da primeira vez que a Carolina for para a escola sozinha também vou querer receber um sms quando ela chegar à porta. Mas não deixo que os meus medos se sobreponham à convicção - que quaisquer estatísticas demonstram com facilidade - de que vivo num mundo muito mais seguro do que há 100 anos, ainda por cima sendo eu um optimista que acredita que 98% das pessoas é gente decente, que tenta agir correctamente no dia-a-dia - e que estaria pronta a ajudar os meus filhos se eles precisassem, mesmo não os conhecendo.

 

Eu sou jornalista. Eu vejo as notícias. Eu fui editor da secção de Sociedade do Diário de Notícias durante boa parte do caso Maddie McCann. Mas o impacto destes casos é proporcional à sua raridade. Estatisticamente, a minha filha mais velha corre mais perigo de vida quando se enfia no carro comigo para ir para Portalegre do que quando vai sozinha a pé para a escola.

 

Os nossos filhos têm medo do escuro. Nós temos medo que qualquer coisa de terrível aconteça aos nossos filhos. Acham mesmo que só os medos deles é que são irracionais? 

 

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publicado às 09:53


Quando é que eles podem ir sozinhos para a escola?

por João Miguel Tavares, em 23.09.14

Os inícios de ano lectivo - e a respectiva dose cavalar de stress injectada no nosso lombo paternal - são sempre fertéis em discussões domésticas. Uma das minhas discussões favoritas das últimas semanas tem a ver com a autonomia da Carolina: eu quero que ela comece a ir sozinha para a escola, a Teresa não quer.

 

A Carolina tem 10 anos e está no quinto ano. Para ir para a sua nova escola não tem ultrapassar campos de minas, território controlado por jahidistas que decapitam pessoas ou lezírias apinhadas de touros bravos. Aliás, ela nem sequer tem de apanhar transportes públicos - tem, basicamente, de andar sete minutos a pé na zona das Avenidas Novas, de dia e com montes de gente à volta, incluindo crianças que vão para a mesma escola. E que, curiosamente, vão sozinhas.

 

Só que a Teresa declara: "A Carolina ainda não está preparada." E eu não sei porque é que a Carolina não está preparada. Olho para ela e acho-a perfeitamente capaz de se locomover em cima de duas pernas sem cair. Também posso garantir que compreende na perfeição o funcionamento dos únicos semáforos que encontra pelo caminho: bonequinho vermelho significa "parar", bonequinho verde significa "avançar". É uma coisa difícil de entender, não digo que não, mas ela já conseguiu há vários anos.

 

Então porque raio é que ela não está preparada? Eu diria que a Carolina está mais do que preparada. Quem está a ter manifestas dificuldades de preparação é a mãe da Carolina. E isso chateia-me, porque é evidente que a nossa filha mais velha já tem mais do que idade para ir para a escola sozinha. Aliás, se vivesse na Idade Média, até já tinha idade para casar. Não me parece mal que em 2014 ela não possa ainda casar. Mas parece-me muito mal que em 2014 não possa andar sete minutos sozinha até à escola. Hoje em dia até telemóvel os miúdos têm para avisar no caso de surgir o lobo mau.

 

Pode sempre acontecer alguma coisa? Pode, com certeza. Mas eu também posso estar a andar na rua e morrer com um bocado de varanda que me cai em cima da mona. Podem sempre acontecer coisas. É por isso que o verbo "acontecer" é tão popular. Só que chega uma altura em que nós não temos outro remédio se não correr esse risco - e deixá-los ganhar mais um pedaço de liberdade. 

 

Porque o contrário disso é um excesso de protecção das crianças que não faz bem a ninguém. Veja-se, por exemplo, este artigo que saiu há uns tempos no Público sobre uma certa "cultura de segurança fóbica" que se anda a formar. O artigo chama-se "Crianças precisam de correr riscos para se desenvolverem", e deixo aqui uma frase para abrir o apetite, da autoria do pediatra Luís Januário:

 

"O espaço de liberdade das crianças da geração actual em relação à geração dos meus filhos mudou completamente. Contraiu-se o espaço de circulação das crianças de uma maneira incrível."

 

Recomendo a sua leitura sobretudo a uma certa excelentíssima esposa, cujo nome vou omitir por piedade, porque não quero estar aqui a acusar ninguém de super-mariquismo em relação aos seus filhinhos fofinhos.

 

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publicado às 11:04

Regressado ao lar doce lar e às maravilhas do wi-fi a preços comportáveis, queria deixar aqui algumas meditações sobre a nossa experiência na Disneyland de Paris. Nós já tínhamos ido com a Carolina e com o Tomás há quatro anos, mas ir com dois miúdos de quatro e de seis não tem nada a ver com ir com quatro miúdos de seis, oito, 10 e 11. Aliás, a própria Disney me pareceu diferente (não sei se sou eu que estou mais velho), e para pior: o merchandising tomou conta de tudo, os próprios funcionários parecem estar mais desleixados naquela sua alegria encenada e, pelo menos na minha cabeça, havia mais animação nas filas de espera.

 

A bem dizer, para quem já se libertou do imaginário do Rato Mickey e já é mais adolescente do que criança, diria que uma viagem até Port Aventura é bem mais proveitosa do que uma ida à Disney. Claro que nós fomos no Verão a Barcelona e à Disney no Inverno (não é bem a mesma coisa), mas a verdade é que enquanto parque de diversões puro e duro, o Port Aventura é melhor.

 

Mas uma das coisas que desta vez me fez mais impressão foi a falta de civismo generalizada, que eu não atribuo propriamente à decadência da civilização ocidental mas ao galinhismo crescente de papás e mamãs - o que faz com que tudo pareça permitido desde que se arraste uma criança pela mão. Eu já tinha sentido isso da única vez que me apanharam num Festival Panda - há progenitores que se tormam verdadeiros selvagens quando se trata de circular com a sua prole no meio de uma multidão.

 

Nós, pais, estamos mal habituados. Como a maior parte das vezes andamos com os nossos filhos por lugares onde as crianças não estão em maioria, as pessoas tendem a ser simpáticas, seja no metro ou no meio da rua. Mas a Disney é o império das crianças, há putos por todo o lado, e atrás dos putos um par de pais ciosos das suas crias, da mesma forma que uma mamã urso capricha na protecção do seu bebé.

 

Foi por pouco que não assiti a batatada nas filas de espera, ou na luta por um melhor lugar para ver a parada, ou simplesmente para sair de um autocarro. Ter o cuidado de deixar passar toda a gente de uma família antes de entrar onde quer que seja? Ah, ah, ah, boa piada. Os miúdos até se podem divertir muito, mas escola de bons valores é que a Disney não é. A gentileza não circula por ali, e o espírito é de competição assolapada pelo melhor pedaço de felicidade.

 

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publicado às 09:37



Os livros do pai


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