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Conversas com mães bloggers em Oeiras

por João Miguel Tavares, em 13.05.15

No próximo sábado, vou matar saudades de conversar sobre putos ranhosos em particular, e sobre a família em geral. Vai ser na Biblioteca Municipal de Oeiras, pelas 17 horas, com a minha amiga Sónia Morais Santos e com a Marta Moncacha. Apareçam, minhas senhoras e meus senhores - e tragam os putos, que a malta não se importa com barulheiras.

 

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publicado às 19:19


Primeiro comem as crianças, depois comem os pais #3

por João Miguel Tavares, em 22.10.14

E depois da partilha da Inês Teotónio Pereira, aqui fica a opinião do Dr. Mário Cordeiro. (Em relação à sugestão final, declino respeitosamente - e, se quiser, também tenho para troca):

 

Acho que depende muito da idade. E os seus [filhos] são ainda pequenos (uns... outros não). Creio que é de estimular as refeições em família, a conversa sobre o dia que passou em vez do "come-não come", etc, mas é preciso, mesmo sendo mais velhos, pôr ordem na freguesia, e para isso é que os pais existem...

 

É muito maçador (leia-se "chato") ter de estar a viver um kafarnaum no final do dia, quando apetece emigrar para uma ilha deserta. Todavia, se não os for ensinando eles não aprenderão, ou dito de outra forma, uma coisa são as "aulas teóricas", que é estar a dizer-lhes as boas maneiras, as prioridades, quem fala primeiro, etc, outra as "práticas" que é vivenciarem - pais e filhos - esses momentos.


Custa, João, mas dentro de 15 anos, entre Erasmus, estudos no estrangeiro e emigrações, terão mesmo de arranjar um cão para poder arengar com alguém à hora do jantar. Vai sentir saudades (não estou a ser cínico!). E um berro bem berrado de vez em quando, faz eco e testa a solidez do betão das paredes... (se precisar de mais três, de 12, 11 e 11 anos, disponha, por favor...)

 

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publicado às 11:54


Primeiro comem as crianças, depois comem os pais #2

por João Miguel Tavares, em 22.10.14

Deixem-me, em primeiro lugar, agradecer a todos a partilha das descrições dos vossos jantares em família. Devo dizer que a maior parte delas são suaves quadros de horror - que eu li com aquela sensação de consolo própria de nos sabermos acompanhados nas pequenas desgraças quotidianas. Como afirma a leitora Ana, "os jantares caóticos são uma epidemia dos tempos modernos". Pelos vistos, são mesmo. Mas não tinha consciência da sua dimensão.

 

Vale a pena trazer para aqui a partilha da Inês Teotónio Pereira, que já vai em seis filhos. Ou seja, em casa dela tem tudo para ser o caos agravado, mas a sua experiência acaba com final feliz:

 

Pois eu tenho mesmo problema. Só o bebé é que janta primeiro, os outros cinco - que vão dos 14 aos 6 anos - jantam todos connosco à mesa. Há um ano inaugurámos esta nova rotina mas desistimos passadas duas semanas porque passávamos o jantar aos gritos com os miúdos para não deixarem cair comida para o chão, para não comerem de boca aberta, para não darem cotoveladas uns nos outros, para não entornarem água, etc. Além disso, quando acabávamos de servir o último, de cortar a carne, etc., o primeiro já estava a acabar e nós acabávamos por comer o nosso jantar frio. Sim, era um inferno.

 

Há três meses voltámos ao ataque com outro espírito e partindo de dois princípios: claro que não vai ser como nos filmes e temos de ser mais tolerantes. Passados estes três meses já conseguimos jantar em paz e sossego e todos fazem um esforço. Cada dia é melhor que o anterior: é uma questão de treino. Porque é que insistimos? Porque esta é a única altura do dia em que estamos quase uma hora centrados uns nos outros, em conjunto, e não focados na televisão, nos TPC, nos telemóveis, no trabalho ou noutra coisa qualquer. É a única altura do dia em que estamos mesmo em família.

 

O jantar é já uma rotina em que eles têm a função de levantar e de pôr a mesa, têm aprendido a falar um de cada vez e - o mais importante - a ouvirem o que os outros têm para dizer. No fundo, nós pais somos apenas moderadores e vamos em cada jantar monitorizando o estado da arte da família... Dá trabalho, exige paciência e exige tolerância. Só o fazemos porque é um pretexto para estarmos em família, sendo que muitas das vezes não apetece nada. Mas compensa: passados três meses acho que cada um de nós conhece melhor a nossa família. Como em tudo na educação é preciso persistência e paciência. Boa sorte!

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publicado às 10:39


Primeiro comem as crianças, depois comem os pais

por João Miguel Tavares, em 21.10.14

Embora eu já tenha tido épocas com jantares agradáveis, a actual fase dos miúdos tem transformado as nossas refeições nocturnas num compêndio de resmungos, gritos e birras, que me anda a irritar sobremaneira. Não só tem sido altamente complicado conversarmos uns com os outros, como eu passo a refeição inteira a dizer "come!", "cala-te!", "fala um de cada vez!", "estás-te a sujar!", "como é possível que a colher tenha caído outra vez para o chão?!?", "sim, tens de comer as ervilhas!", "não, não podes comer gelado!", num tal frenesim de berraria que me apetece passar directamente da mesa para a cama.

 

Então, dei por mim a pensar no saudoso tempo em que os miúdos comiam primeiro e os pais jantavam depois - pensamento que desconfio ser muito politicamente incorrecto, mais típico de um tempo em que eram as criadas que alimentavam as crianças na cozinha para depois servirem os patrões na sala. Não é a esse tempo que quero voltar, obviamente, mas tenho conversado com a Teresa (sem sucesso) acerca da hipótese de durante a semana eles comerem antes de nós, para tudo ser mais rápido e para que consigamos ter ali cerca de uma hora, uma hora e meia, antes de os miúdos irem para a cama, de algum tempo de qualidade. A ideia era conseguirmos conversar sobre outra coisa que não regras para estar à mesa, ou para simplesmente vermos um filme em família.

 

Talheres misturados com a conversa não está a resultar, porque eles são muitos e estão em idades muito diferentes. O ritmo de chegar a casa, dar banho, ter um jantar aos gritos e enfiá-los na cama é um concentrado de stress que não se aconselha a ninguém. Claro que eu conheço toda a bela mitologia do jantar em família, só que as refeições na minha casa não andam nada parecidas com as dos filmes de Hollywood. Em vez de tempo de qualidade, andamos a ter tempo de irritabilidade.

 

Daí me ter lembrado de vir para aqui perguntar: há alguém por aí que jante, por opção, separado dos miúdos? E resulta? E aquelas famílias que jantam juntas durante a semana, estão na posse de algum segredo para terem uma refeição calma, sem que nunca vos apeteça enfiar um garfo na língua do puto de seis anos?

 

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publicado às 10:32


O amor seria menos intenso se não tivéssemos filhos? #3

por João Miguel Tavares, em 20.10.14

E depois de um longo intervalo para falar de métodos naturais, preservativos e , eis a prometida conclusão da resposta à leitora Ines (partes anteriores aqui e aqui), acerca da minha relação com a paternidade. A última questão por ela colocada era esta:

 

Teve filhos só porque a Teresa queria? E vive uma vida completamente contrariado? Vezes quatro?

 

E, de certa maneira, quase não precisava de responder, porque a Mara se encarregou de o fazer num dos comentários, contando a sua própria história de vida:

 

Quando conheci o meu marido disse-lhe logo que queria ter filhos cedo (bem antes dos 30) e que queria ter "muitos" (sendo que muitos era, no mínimo, três). Ele nunca quis especialmente ter filhos. Sempre disse, como o João, que é muito feliz apenas com livros, música e internet. Curiosamente, eu também, mas sempre senti que viveria uma vida incompleta se não tivesse filhos.

 

Por isso, na realidade, ele teve filhos porque eu quis. E teve quatro! Adora-os de paixão, mas sei que concordou com tê-los, antes de mais nada, para me fazer feliz a mim. Por isso, cada um deles é uma prova de amor.


Não percebo a dificuldade em compreender isto, que acho que é o que o João também tem dito nos últimos posts. Quando se ama, faz-se cedências em nome do outro. Da vida do outro, da sua felicidade. Eu também não vivo na cidade que escolheria sozinha, nem na casa com quintal nos arredores que adoraria, porque sei que ele é mais feliz num apartamento central, com café e quiosque ao virar da esquina. A vida que construímos a dois não pode ser igual à que teríamos sozinhos. Por isso agora somos 6, e somos muito felizes. Daqui a uns anos seremos outra vez só dois, e ainda teremos várias décadas para gozar isso.

 

É muito isso, e fico feliz por alguém o perceber. Embora eu e a Teresa sempre tevéssemos dito, deste o princípio da nossa relação, que queríamos ter três filhos, eu sempre achei que não era uma daquelas conversas para levar demasiado a sério. Eu, porque se não os tivesse não os tinha; ela, porque se não fossem três eram quatro. Já perceberam quem ganhou, claro.

 

Eu não tive filhos só porque a Teresa os queria. Mas acabei por os ir tendo porque a Teresa os foi querendo e eu nunca quis não os ter. É uma daquelas atitudes de passividade activa muito típicas dos homens. Não estava contra. Nem a favor. Votava em branco - e fui acatando as decisões do governo caseiro, mesmo que o governo caseiro argumente que nunca quis decidir nada e que as coisas foram simplesmente acontecendo.

 

Quanto a levar uma vida completamente contrariado, questão sempre sensível e complexa, isso é capaz de ter um certo fundo de verdade, desde que retiremos o "completamente". Eu sou um grande fã do "Estou Além" do António Variações:

 

 

Isto sou eu. Na verdade, somos quase todos nós:

 

Esta insatisfação

Não consigo compreender

Sempre esta sensação

Que estou a perder

Tenho pressa de sair

Quero sentir ao chegar

Vontade de partir

P'ra outro lugar

 

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar

Porque até aqui eu só

 

Estou bem

Aonde não estou

Porque eu só quero ir

Aonde eu não vou

Porque eu só estou bem

Aonde não estou

 

E já que estamos em maré musical, levem também com uma das mais belas canções da história da música portuguesa. Chama-se "Inquietação", é de José Mário Branco, e também me parece perfeita neste contexto:

 

 

Isto sou eu. Na verdade, somos quase todos nós:

 

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda

 

Cá dentro inquietação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Mas sei

É que não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer

Qualquer coisa que eu devia resolver

Porquê, não sei

Mas sei

Que essa coisa é que é linda.

 

O facto de eu me considerar uma pessoa muito feliz e com imensa sorte não significa que seja uma pessoa satisfeita ou completamente realizada. Tenho a certeza que a excelentíssima esposa sente o mesmo, ainda que possa ter mais dificuldades em admiti-lo. E por isso, quando os filhos ocupam uma fatia tão grande das nossas vidas, é normal que sintamos que a inquietação e a vontade de estar além esteja intimamente ligada a eles.

 

Eu acho que vivemos tempos desequilibrados, em que estamos todos a viver demasiado em função dos miúdos - o que potencia a angústia nos momentos de cansaço. Mas, para voltar à questão inicial que deu origem a esta sequência de posts, os meus filhos são o fruto de um amor, e não os consigo conceber sem a Teresa. Sinto de tal forma essa comunhão que detesto quando na escola lhes chamam Carolina Tavares ou Tomás Tavares. Não, não, não. É Carolina Mendonça Tavares e Tomás Mendonça Tavares. Sem nós - eu, ela, os dois - eles não existiam. E sem a Teresa nada disto faria sentido.

 

E para não acabar em tom demasiado melancólico, aqui vai uma samba de Zeca Pagodinho, num resumo perfeito da atitude que desejo ter perante a vida. No final do dia, quero acreditar que tudo se resume a isto, até porque o sotaque brasileiro vem sempre com um suplemento festivo que nos faz muito bem à alma. Chama-se "Deixa a Vida Me Levar":

 

 

Nisto acredito eu. Na verdade, nisto acreditamos quase todos nós:

 

Só posso levantar as mãos pro céu

Agradecer e ser fiel

Ao destino que Deus me deu

Se não tenho tudo que preciso

Com o que tenho, vivo

De mansinho lá vou eu

 

Se a coisa não sai do jeito que eu quero

Também não me desespero

O negócio é deixar rolar

E aos trancos e barrancos, lá vou eu!

E sou feliz e agradeço

Por tudo que Deus me deu

 

E deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Deixa a vida me levar (vida leva eu!)

Sou feliz e agradeço

Por tudo que Deus me deu

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publicado às 10:30


Sobre os métodos naturais #2

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

Bom, vamos cá ver se me despacho com este post, porque eu não consigo escrever tão depressa quanto as novas questões que vão surgindo e me dão vontade de contra-argumentar.

 

Os argumentos da Teresa, já citados aqui, vão a itálico e a negro, e aquilo que eu tenho para dizer vai a redondo.

 

Podes usar as pílulas e os preservativos que quiseres, desde que não estejas a chamar à tua relação um espelho da relação entre Cristo e a Igreja, ou seja, um sacramento.

 

Esta é uma entrada da Teresa a pé juntos, mas eu não sou queixinhas. A única coisa que posso garantir é que tenho infinitas falhas no meu casamento, bem mais graves do que o uso de preservativos, até porque nem os uso. Se o espelho está partido, e muitas vezes cai, parte-se, e volta-se a colar, duvido que seja por causa das minhas actividades entre lençóis. Esse é o primeiro problema grave desta questão, que marcou estupidamente a história da Igreja durante toda a metade do século XX: uma obsessão com a moral sexual que a desviou de tanta, mas tanta, coisa mais importante. O papa Francisco parece estar finalmente a corrigir isso e a recentrar prioridades. Abençoado seja ele.

 

Na sua belíssima encíclica, que classificaste de infeliz, a Igreja condena a contraceção porque ela afasta o amor humano da "imagem e semelhança" do amor divino, que é um amor sem limite, abundante, aberto à vida, verdadeiro. Um católico, ao "casar pela Igreja", isto é, ao receber o sacramento, recebe também a responsabilidade de tornar a sua relação semelhante à relação esponsal entre Cristo e a Igreja. O amor de Cristo não é nunca um amor contraceptivo. Não há volta a dar!

 

Segundo problema: eu não quero entrar nas questões teológicas acerca da "relação semelhante à relação esponsal entre Cristo e a Igreja" porque se trata, no meu entender, da mera construção de uma arquitectura argumentativa em cima de um preconceito. Pecado, aliás, que atravessa a Igreja ao longo de séculos. Tipo: "eu acho mal o uso de contraceptivos (até porque o sexo nunca foi coisa bem vista, como é óbvio), agora deixa-me cá encontrar um argumentação que justifique isto".

 

Aos meus olhos, a Humanae Vitae tem essa atitude, do princípio ao fim, daí a ter considerado um momento muito infeliz na história da Igreja - é uma encíclica que tenta justificar um preconceito com uma argumentação com base na Lei Natural, que é aquela coisa que dá absolutamente para tudo. Desde que espremas um bocado a Lei Natural, ela confessa o que quiseres. Afinal, os contraceptivos são uma consequência dessa maravilha natural que é o cérebro humano, que Deus Nosso Senhor nos convida a usar. E os preservativos, quando eram feitos de pele de carneiro, eram super-naturais. Na verdade, não tem fim o cortejo de barbaridades que ao longo da História se apoiou em cima do argumento da "Lei Natural".

 

Mas olhemos mais em detalhe para a encíclica. A Humanae Vitae deriva do velho ensinamento que "qualquer acto matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida", não cabendo ao homem separar o "significado unitivo" do "significado criador". E quando nós perguntamos: porquê? A resposta é: "porque está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da Vida". Que é uma espécide de "porque sim". Porque Deus assim ordena. Mas eu, que sou teimoso, gosto de compreender aquilo que Deus me ordena. Porque, em geral, não tenho quaisquer problemas de compreensão com aquilo que me é ensinado nos Evangelhos. Apenas como algumas coisas que me são ensinadas no Catecismo.

 

O resultado deste posicionamento unitivo-criador é que a Igreja não se limitou a condenar os contraceptivos na encíclica. As notas pastorais dela derivadas condenam também a fecundação in vitro, e não só por se desperdiçarem potencialmente vidas já geradas (uma preocupação legítima). Tal como condena a laqueação de trompas em qualquer caso, mesmo que uma mulher tenha feito várias cesarianas e uma próxima a coloque em risco de vida. Porque Deus lá sabe o que é melhor para nós.

 

Só que, ao mesmo tempo, como nenhuma espécie de planeamento era impensável em 1968, permite os "métodos naturais", aos quais o Carlos Duarte já chamou nos comentários, e muito bem, uma "batota canonicamente legalizada". Porque a única diferença entre uns métodos e outros é, precisamente, serem "naturais" e convidarem à "castidade". Ora, se há coisa a que um pai de quatro (já para não falar de seis ou sete) não precisa de ser convidado é a praticar a castidade - com a falta de tempo, o stress e o cansaço não fazemos nós outra coisa, não é?   

 

E deixa-me dizer-te, para encerrar o comentário - não comentarei mais sobre este tema - que mesmo que a Igreja dissesse outra coisa, eu nunca voltaria atrás na minha decisão de não tomar medicação para fazer amor.

 

Mas ninguém te pede para voltares atrás. Para mim, é como a castidade dos padres: deveria ser uma opção. Daí eu falar num post anterior "que a Igreja deve reduzir as suas imposições àquilo que é o centro irredutível da fé cristã". Naquilo que não é absolutamente central e não tem uma deriva óbvia dos Evangelhos, como é manifestamente o caso, a atitude da Igreja deveria ser de convite, e não de imposição. Tu podes convidar as pessoas a utilizar os métodos naturais, por entenderes que esse é um caminho mais perfeito, mas não deves condená-las por não o fazerem.

 

Ou seja, eu não tenho qualquer problema com quem utiliza os métodos naturais, se isso os faz mais feliz na sua cama e realizados na sua fé. Mas tenho tudo contra dizerem a um católico que ele não pode chamar ao seu casamento um sacramento só porque utiliza a pílula ou o preservativo. Sorry.

 

Acho triste um marido permitir à sua esposa tomar medicamentos - a pílula é um medicamento, sabias? - para que ela esteja sempre disponível para o sexo. O ciclo natural da mulher é uma das maiores maravilhas da natureza, e conhecê-lo e respeitá-lo em casal é uma das grandes graças que nós tivemos desde que nos casámos.

 

Aqui parece-me que cais no velho preconceito de colocares o marido na posição de quem quer sempre o truca-truca e a mulher na posição do "ok, se tu queres, lá tem de ser". Admito perfeitamente que possa ter sido uma formulação que te saiu mal. Só que, infelizmente, é uma formulação derivada da própria encíclica, que tem passagens como esta: "É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amanda." É esta a linguagem empoeirada que tu chamas "belíssima", Teresa?

 

Mais: penso que, 46 anos depois da Humanae Vitae, podemos dizer que o papa Paulo VI se enganou rendondamente: a pílula fez muito mais pela libertação sexual das mulheres - ou, se quiseres, pela sua "licenciosidade" - do que pela libertação sexual dos homens, que sempre estiveram, aliás, bastante libertos.

 

A fertilidade feminina não é uma doença, não precisamos de medicação para viver uma vida sexual plena e feliz. Planeando naturalmente a nossa família, os dias deixam de ser todos iguais... Graças a Deus, a minha vida sexual é plena e abundante, os meus filhos também são numerosos, mas ainda não engravidei sem o desejar.

 

O argumento farmacêutico, de que isto é tudo um complô da indústria, não vou sequer rebater. Mas noto que o preservativo não é um medicamento, e portanto se o problema fosse a medicação, ele tornar-se-ia legítimo. Não é isso que tu defendes. Quanto a nunca teres engravidado sem desejares, fico muito feliz por isso. Como bem sabes, milhões de mulheres em todo o mundo não podem dizer o mesmo. Mas também não vale a pena entrarmos aqui na questão de saber quantos abortos poderiam ter sido evitados se os ensinamentos da Igreja fossem outros.

 

Embora a Igreja ensine que há males menores que devem ser tolerados para evitar males maiores, o importante neste tema é que eu, e milhões de pessoas como eu, por mais que abram o seu coração e tentem estudar os argumentos da Igreja, não encontram a menor lógica na sua posição em relação aos métodos contraceptivos. Não se trata de ser um mal menor. Trata-se de não ser um mal. E de, muitas vezes, ser até um bem.

 

 

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publicado às 11:01


O amor seria menos intenso se não tivéssemos filhos? #2

por João Miguel Tavares, em 15.10.14

Voltemos, então, à questão que a Ines coloca nos comentários a este post:

 

O amor seria menos intenso se não houvesse crianças? Poderiam ser um casal sem filhos muito feliz!

 

Como já disse no post anterior, acho até que poderia ser mais intenso, se encararmos o conceito de "intensidade" num sentido próximo da paixão e da multiplicação de gestos de amor. Os filhos atrapalham muito as relações à filme romântico de Hollywood - e as famílias que se vêem nos anúncios de televisão nunca são parecidas com as nossas.

 

Já o disse várias vezes a amigos, e penso que também aqui no blogue: os filhos podem perfeitamente dar cabo de um casamento. Convém que estas coisas sejam verbalizadas com a devida secura, porque eu detesto discursos cor-de-rosa que não preparam as pessoas para os desafios que têm pela frente.

 

Portanto, é evidente que não só poderíamos ser um casal muito feliz sem filhos, como diz a Ines, como os filhos se fartam de atrapalhar a felicidade do casal. Essas são alturas, de esgotamento e falta de paciência, em que somos convidados a olhar para a frente e suportar a suspensão das gratificações imediatas, em nome de um futuro mais solarengo que, convenhamos, nem sempre é fácil vislumbrar, tão cinzento está o céu.

 

Já falei abundamente sobre isso há um ano e meio, num post chamado Dilema dos amantes, que até tem grande música a acompanhar. Vão lá e leiam, se vos apetecer.

 

Claro que o martelo pneumático filial tem esta vantagem: quando ele pára e se faz silêncio, parece que estamos no céu. Falei sobre isso aqui, a propósito da minha última viagem a Nova Iorque com a Teresa. Uma citação desse texto:

 

É curioso quando tanta gente opõe o amor à paixão. Vocês já ouviram de certeza essa história: a paixão é aquela coisa que se tem no início de uma relação mas que nunca mais volta, comida pelas traças do tempo. Com sorte, resta o amor, coisa saborosa mas devidamente pacificada. Pois bem, eu proponho-vos esta experiência: escolham bem o marido ou a mulher, arranjem uma catrefada de filhos, misturem tudo num quotidiano frenético, e ao fim de muitos anos tirem de repente do caminho, por poucos dias que seja, todo o frenesim, todo o trabalho, todos os filhos, todo o stress. Eu garanto-vos - vão parecer novamente adolescentes de 18 anos. Com a vantagem de terem a experiência de 40.

 

Ora, sendo tão divertido o tempo em que estou apenas com a excelentíssima esposa, e parecendo eu tantas vezes contrariado na minha paternidade sofrida, é natural que a Ines pergunte: 

 

Ou então, teve filhos só porque a Teresa queria? E vive uma vida completamente contrariado? Vezes quatro?

 

São excelentes questões. Tão boas que não tenho tempo para lhes responder agora. Voltarei a elas amanhã.

 

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publicado às 09:53


O amor seria menos intenso se não tivéssemos filhos? #1

por João Miguel Tavares, em 15.10.14

Escreveu a leitora Ines nos comentários a este post, que por sua vez comentava este post:

 

Não entendi a parte em que diz que os seus filhos são fruto do amor do casal. O amor seria menos intenso se não houvesse crianças? Poderiam ser um casal sem filhos muito feliz! Ou então, teve filhos só porque a Teresa queria? E vive uma vida completamente contrariado? Vezes quatro?

 

Eu admito que o meu post anterior era meio opaco, e estas objecções dão-me oportunidade para esclarecer a minha posição sobre o tema. Vamos, então, por partes.

 

Não entendi a parte em que diz que os seus filhos são fruto do amor do casal.

 

Estou convencido que o sociólogos e antropólogos do futuro considerarão a invenção da contracepção, e da pílula em particular, como um momento fundador na história da humanidade, em que a relação dos casais com a paternidade muda de forma radical. Por vezes nós não temos essa noção, porque estamos imersos no momento, mas a nossa geração está a viver uma revolução naquilo que são as relações familiares, e a invenção da contracepção feminina é um facto absolutamente estruturante.

 

Claro que há sempre azares e pessoas que têm filhos acidentalmente, mas mesmo os católicos ignoram olimpicamente as directrizes da Igreja em relação aos anticoncepcionais, e eu não tenho dúvidas em classificar a famosa encíclica Humanae Vitae (1968) e a sua visão da regulação da natalidade como um momento muito infeliz na história da Igreja. Espero que essa visão venha a mudar brevemente, porque nove em dez católicos não conseguem sequer perceber - porque, simplesmente, não se percebe - por que raio a utilização de um preservativo interfere na sua relação com Deus.

 

Diante destes factos, ter um filho a partir do último quartel do século XX é, sobretudo, ter o fruto de uma relação amorosa. Os "acidentes" diminuíram drasticamente, ou então são acidentes relativamente consentidos (é o meu caso e da Teresa, já que nenhum dos quatro foi planeado), e a partir daí aconteceu algo muito natural: o número de filhos por casal diminuiu e eles tornaram-se cada vez mais preciosos e desejados. Toda esta mariquice com os filhos, de que este blogue é uma belíssima prova, seria impensável antes da criação de uma cultura contraceptiva.

 

(O que não significa, atenção - antes que me apareça aí alguém que recusa a pílula e o preservativo por fidelidade à Igreja -, que quem usa os métodos naturais não adore os seus filhos tantos como os outros. Contudo, ter muitos filhos será, nesses casos, uma opção assumida, quando antigamente era uma coisa que simplesmente acontecia, e estava dependente sobretudo da fertilidade do homem e da mulher.)

 

É por isso que os filhos raramente são, nos dias de hoje, algo que não o fruto do amor do casal - donde, existe, de facto, para quem os tem, uma espécie de sentimento de completude, em que a relação a dois passa a ser a base de uma relação a três, quatro, cinco, seis (o meu caso) ou mais, que compõem aquilo a que se chama "família".

 

Retomando a questão da Ines (suponho que seja Inês, mas eu respeito o nome inscrito no comentário):

 

O amor seria menos intenso se não houvesse crianças?

 

Não, não seria. Acho até que poderia ser mais intenso (tomando "intensidade" num sentido mais próximo da paixão e da multiplicação de gestos de amor quotidianos).

 

Mas isso, se não se importam, fica para o próximo post, que este já vai longo.

 

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publicado às 08:51


Olha tão giro - uma viagem dominical ao Piódão

por João Miguel Tavares, em 22.09.14

Como por esta altura os frequentadores do PD4 já terão certamente reparado, a excelentíssima esposa é também, com assustadora frequência, uma doidíssima esposa. Tendo ela ficado embevecida com a aplicação do Tomás na composição escolar sobre o Piódão, decidiu seguir a sugestão de certos leitores e lançar-se num verdadeiro trabalho de campo:

 

- E se hoje fossêmos ao Piódão com os miúdos?

- Olha que ideia tão gira. Sabes onde fica o Piódão?

- Para os lados de Viseu. Os miúdos iam adorar.

- Olha que ideia tão gira. Deixa-me cá ir ao Google... 296 quilómetros a partir de Lisboa. Ir e vir dá 592 quilómetros, se a matemática não me falha.

- Até podíamos passar por Viseu, para dar um beijinho ao teu irmão.

- Olha que ideia tão gira. Deixa-me cá ir ao Google... 84,1 quilómetros do Piódão a Viseu. De facto, era super-fixe irmos fazer 700 quilómetros de carro este domingo por entre montes e serras. Lembro-me de poucas coisas que me apetecessem mais.

- Fazíamos uma surpresa aos miúdos e não lhes dizíamos nada.

- Olha que ideia tão gira. Eles ainda não fizeram os trabalhos de casa.

- O Tomás ia adorar.

- Ia, ia. Infelizmente, ainda não fizeram os trabalhos de casa.

- Fazem rapidamente os trabalhos de casa e depois vamos.

- Já passa das dez da manhã. O Tomás tem de treinar um ditado.

- Treinamos pelo caminho.

- Já passa das dez da manhã.

- Comemos pelo caminho, no carro. Sobraram croissants do piquenique de ontem.

- #!##$&&#%#!!!

 

E lá fomos.

 

Partimos de casa às 11.30. Regressámos a casa às 23.30. No total foram para aí sete horas de carro, duas das quais às rodas na serra do Açor. Mas fizemos tudo o que a excelentíssima esposa planeou dentro da sua energética mona - incluindo ir a Viseu dar um beijinho ao meu mano.

 

Eis a prova:

 

 

Mas sabem qual foi a coisa mais curiosa? É que o melhor do Piódão não foi o Piódão. Foi a descoberta de uma ponte suspensa e de um incrível conjunto de santuários nas encostas de xisto na Foz d'Égua, num pequeno paraíso privado escondido num vale da Serra do Açor. Só para abrir o apetite (talvez um dia destes possa contar a sua história), ficam estas fotos, tiradas num dia cinzento, mas que, graças às extraordinárias capacidades persuasivas (género pica-miolos) da doidíssima esposa, acabou por ser bem divertido:

 

 

 

 

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publicado às 10:41


A jóia da nossa família

por Teresa Mendonça, em 20.02.14

Quando era pequenina lembro-me de vibrar com a descrição feita pela minha mãe do nascimento de cada um dos seus filhos. Ela contava sempre pormenores que tornavam cada parto num momento especial e único e no qual ficava impresso desde logo a personalidade de cada um de nós, o que sublinhava quão especial e irrepetível é cada criança que nasce. 

 

Eu, por exemplo, vim ao mundo esfomeada e cheia de pressa (a minha mãe diz que parecia que vinha de patins), de tal modo que quando atravessei o canal de parto borrifei de preto o médico e as enfermeiras que o auxiliavam. Ainda hoje não sei bem se o que deu banho àquelas pessoas foi mecónio ou sangue (bleeergh!), devido ao descolamento da placenta que ocorreu antes de eu ter nascido, mas comecei desde logo a tocar a vida das pessoas que me rodeavam... com líquidos biológicos nauseabundos. Este baptismo de sangue parece ter sido premonitório, uma vez que acabei por me especializar em Hematologia Clínica.

 

Todos vibrávamos com estas descrições romanceadas e cada um de nós sabia qual tinha sido o presente que o meu pai havia oferecido à minha mãe no dia do nosso nascimento, e que eventualmente haveria de ser herdado pelo respectivo filho quando fôssemos velhinhos. Geralmente o meu pai escolhia pequenas peças em prata que eram por nós admiradas como se fossem diamantes.

 

Quando comecei a construir a minha família com o João, conhecendo ele bem esta história, transportou esta tradição para nós e a cada nascimento dos nossos filhos ofereceu-me uma peça muito bonita e que passará para cada um deles quando eu já não pertencer a este reino. Mas na sequência de um famigerado assalto, a Carolina acabou por ficar sem a sua prenda correspondente, e eu já há alguns anos que me perguntava sobre como colmatar esta falta. Não queria substituí-la por uma peça qualquer, sem qualquer sentido, e resolvi deixar o tempo passar até que a resposta surgisse. Saber esperar! Uma grande lição de vida.

 

E a resposta surgiu. No mês passado recebemos um presente muito especial e inesperado. A Omnia, uma marca portuguesa de joalharia, resolveu oferecer-nos uma peça em prata representando a nossa família.

 

 

Qual seria a probabilidade de uma joalharia se lembrar de oferecer ao Pais de Quatro uma peça personalizada em prata (como as que o meu pai oferecia à minha mãe) e representando a nossa família, quando eu esperava há anos por encontrar uma peça simbólica para substituir a que me foi roubada depois da Carolina nascer? 0,000001%? Mas assim foi.

 

Para que não haja confusões: nós não fazemos posts pagos; não usamos o blogue para fazer publicidade a marcas; e a maior parte de ofertas como esta, que nos chegam via mail, são recusadas. Mas gostamos de partilhar grandes ideias, e esta é uma delas, para mais vinda de uma marca portuguesa que dedicou à família peças cheias de simbolismo (linha Family da colecção My World).

 

Estas peças da Omnia são produzidas manualmente, e portanto podem ser personalizadas a pedido, de acordo com as características da família. Além disso, são bastante acessíveis, o que não é de todo frequente encontrar. Podem, por exemplo, representar uma família com cinco meninas e um menino representando as crianças de acordo com as suas idades; duas meninas gémeas; a mãe grávida e três rapazes; cinco raparigas e três rapazes mais um cão (vão ao pormenor de poder representar as raças dos cães, como no caso de um Teckel que lhes foi pedido); tudo o que couber no espaço de dois centímetros. E custam 39 euros (+12,5€ no caso de pedido especial).

 

 

Todas as peças que estão no site podem ser compradas online ou nos pontos de venda que estão indicados, mas para pedidos especiais deve ser usado o email info@omnia.pt, e neste caso o prazo de entrega ronda uma a duas semanas (nós acabámos de fazer uma encomenda especial para uma família amiga). Para uma ocasião que se quer rechear de simbolismo e marcar com um presente personalizado, é uma alternativa fantástica.

 

Que o digamos nós e em especial a nossa Carolina.

 

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publicado às 11:04



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