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Cá estou eu, como prometido, a regressar ao tema da entrevista do Carlos González, que tanto tem animado este blogue. Prometi um tom mais sério porque queria clarificar duas questões formais, que tanto servem para este caso como para enquadrar futuras polémicas, e ainda três questões de conteúdo, a propósito da entrevista do pediatra espanhol. Vou dividir isso em dois posts, um sobre forma, outro sobre conteúdo.

 

Começando pelas questões formais:

 

1. Várias pessoas acusaram-me de estar irresponsavelmente a tirar conclusões sobre o que diz Carlos González apenas com base numa entrevista, e sem ter lido quaisquer um dos seus livros, como eu próprio admitia num dos posts sobre o tema. Houve até quem perguntasse como é que eu, enquanto jornalista, fazia uma coisa dessas. Eu respondi que da mesma forma que a Teresa, apesar de ser médica, não estava sempre a exercer medicina, também eu, apesar de jornalista, não estou sempre a exercer o jornalismo. E este blogue não é, definitivamente, jornalismo.

 

Esta confusão acerca de jornalismo e géneros jornalísticos é recorrente na minha vida, mas penso nunca ter falado nela aqui. Vale a pena fazê-lo, contudo, até para memória futura. Essa acusação é bastante comum a propósito dos meus textos de opinião política. As pessoas lêem-me a bater em António José Seguro e perguntam: "Mas onde é que está a sua objectividade, senhor jornalista?"

 

Não está, claro, porque os artigos de opinião não são jornalismo - escrevo o que me apeteço, não tenho de ouvir a outra parte, não necessito de fazer investigação própria. A opinião tem regras próprias, que nada têm a ver com as regras do jornalismo - existe um investimento estilístico muito diferente, uma componente retórica muito forte, uma grande carga ideológica. A objectividade não é um objectivo.

 

No meu entender, os posts de um blogue estão mais perto da opinião do que do jornalismo tout court, com uma diferença significativa: são "gratuitos", no duplo significado da palavra. Gratuitos porque não existe uma remuneração directa associada (no meu caso, existe uma remuneração indirecta, já que o Pais de Quatro é explorado comercialmente através dos banners laterais e da publicidade dos vídeos). E gratuitos porque têm uma leveza própria, uma escrita ao correr da pena, não se lhes exige a responsabilidade própria de um artigo de opinião, estão mais próximos da conversa de café - sem qualquer desprimor para a conversa de café, até porque eu participo num programa de rádio e televisão (Governo Sombra) cuja filosofia é exactamente essa. A conversa de café tem o problema de ser pouco fundamentada, e a grande qualidade de ser muitíssimo livre e bem humorada.

 

Claro que tanto num artigo para o Público como num post eu tento ser minimamente responsável e intelectualmente honesto. Mas o investimento que faço num e noutro texto é bastante diferente. Não me passaria pela cabeça escrever um artigo de opinião ou uma crítica a Carlos González no Público sem primeiro consultar a sua obra. Mas permito-me perfeitamente fazer isso neste blogue, onde existe uma liberdade muito maior de dizer asneiras, contradizer-me, arrepender-me e até emendar o que foi escrito.

 

Essa é a leveza própria das redes sociais - que só é perigosa se quem estiver do outro lado não perceber a diferença entre uma coisa e outra. Mas eu já fiz várias vezes aqui, e com muito orgulho, o elogio dos leitores do Pais de Quatro. Sei que este blogue tem óptimos leitores, que percebem perfeitamente a diferença de registos. Para os que não percebem, aqui fica este esclarecimento. Aliás, convém ter consciência daquilo que exigimos aos outros: se cada vez que eu escrevo um post precisasse de passar um dia ou dois dias a ler para fundamentar o que escrevo, o blogue acabava já amanhã. É tão simples quanto isso, e não quero estar aqui a enganar ninguém.

 

2. Agora, façam-me o favor de não interpretarem o que atrás ficou dito como qualquer espécie de arrependimento encapotado em relação ao que escrevi sobre Carlos González. E isto porque entendo como perfeitamente legítimo o registo de utilizar a entrevista de uma pessoa e criticá-la a partir do que ela diz, e não do que não diz, ou do que diz efectivamente a sua obra, mas ele não soube explicar. Quer dizer: eu percebo que haja simplificações numa entrevista, mas não ao ponto de depois os seus defensores virem argumentar que aquilo que ele quis dizer não é nada daquilo que lá está dito.

 

Desenvolverei este ponto a seguir, a propósito das questões de conteúdo. O que me interessa agora sublinhar é que se um autor acha que dar entrevistas a jornais atroiça a complexidade do seu pensamento, então o meu conselho é: cale-se. Eu também já publiquei livros e já dei entrevistas a propósito deles. É verdade que existem simplificações, desvios de sentido e até más transcrições do que foi dito, mas não a um ponto de eu não me identificar com o que foi publicado.

 

Portanto, embora eu concorde que é absolutamente indispensável conhecer as obras de Carlos González para fazer uma reflexão sofisticada ou uma reflexão crítica sobre o seu pensamento, continuarei alegremente a comentar neste blogue entrevistas de autores que me são desconhecidos com base naquilo que está escrito. Isto não é um blogue académico, nem um blogue jornalístico, é um espaço despretensioso de partilha de ideias que me vão ocorrendo diariamente. Nunca prometi outra coisa, nem quero dar mais do que isso.

 

As tais três questões de conteúdo virão já a seguir.

 

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publicado às 10:01



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