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O que é que podemos mostrar dos nossos filhos?

por João Miguel Tavares, em 30.06.14

Se não viram esta notícia no jornal Público, não percam, porque ela levanta questões muito interessantes sobre a gestão da imagem das crianças na sociedade contemporânea.

 

Em tempos já escrevi sobre isso aqui, embora num sentido contrário, a propósito das produções fotográficas muito atrevidas da jovem Thylane Lena-Rose Blondeau. Ou seja, é comos se a hiper-sexualização das crianças pudesse simultaneamente conduzir ao seu aproveitamento ilegítimo (como no caso da Thylane) e a uma vigilância exacerbada (como no caso em apreço, da pequena Marlow Adamo), que pode, em última análise, levar ao desaparecimento progressivo da criança do espaço público, segregada por família obcecadas com o fantasma da pedofilia.

 

Cito brevemente a notícia do Público para que se saiba do que estou a falar:

 

A fotografia de uma criança de 19 meses a levantar o vestido e a mostrar o seu umbigo levou a que a conta no Instagram da mãe fosse retirada. O site de partilha de fotografias considerou que a imagem publicada por Courtney Adamo era “inapropriada”. (...)

 

“Pensei que era uma fotografia adorável de minha bebé e da sua linda e redonda barriga”, conta a mulher no seu blogue, onde manifestou a sua indignação pelo que aconteceu. “A não ser que a barriga de um bebé seja considerada ‘nudez’ e certamente não é! Ela é um bebé”, escreveu.

A regra sobre nudez do Instagram determina que “não se pode publicar fotografias violentas, de nudez, nudez parcial, discriminatórias, ilegais, pornográficas ou sexualmente sugestivas ou outros conteúdos”.

 

A foto em causa é esta: 

 

  

O Instagram acabou por reconhecer o erro e repor a conta da mãe da menina, mas tanto a proibição com a exibição são duas faces da mesma moda - a tal hipersexualização das crianças, que no caso em questão parece querer sugerir que uma imagem de uma bebé a mostrar a barriga (assinale-se que a minha Ritinha faz isso o tempo todo) pode ter uma qualquer conotação sexual, ou ser considerada perigosamente sugestiva.

 

É daquelas casos em que o requinte da proibição se torna preocupante. Tal como o velho padre que no escuro do confessionário exigia uma descrição detalhada dos pecados sexuais, também este rigor absurdo do Instagram nos leva a aquestionar acerca daquilo que vai na cabeça pervertida do censor.

 

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publicado às 10:12


O olhar das mulheres e o olhar dos estranhos

por João Miguel Tavares, em 05.11.13

Quem gostou deste vídeo que mostrava a enorme diferença entre o olhar que as mães têm delas próprias e a imagem que delas fazem os seus filhos, talvez ache curioso saber que a ideia já estava, com contornos semelhantes, presente num anúncio da Dove, que teve esta óptima ideia: colocar um daqueles desenhadores da polícia, especializados em traçar retratos de suspeitos a partir da descrição de testemunhas, a desenhar a imagem de uma mulher comum a partir das suas próprias palavras.

 

O método foi este: primeiro, ele fez o desenho a partir do modo como essa mulher se definia a si própria (isto sem nunca a ver, claro, havia uma cortina a separar a senhora do desenhador do FBI); depois, ele fez o desenho da mesma mulher mas com base na descrição de um estranho com quem ela havia conversado à entrada. Eis o resultado:

 

 

Claro que isto é um anúncio, e há que lhe dar o devido desconto em matéria de pôr o pessoal a sentir-se maravilhosamente e ir a seguir comprar sabonetes. Mas a experiência - que suponho que deva ser daquelas coisas que se estuda no primeiro ano de qualquer curso de Psicologia - é muito curiosa, e sempre dá algum ânimo interior. Até porque os desenhos não parecem aldrabados - não se trata de desenhar uma mulher horrorosa versus uma mulher esplendorosa, mas sim de pequenas alterações subtis, onde é perfeitamente detectável o olhar mais generoso que os outros têm sobre nós próprios.

 

E já agora, porque isto é importante: a verdade - ou seja, a real imagem da mulher - está mais próxima do retrato do estranho, como é facilmente comprovável pelo vídeo. Nós todos, de um modo geral, e as senhoras, de um modo particular, temos uma enorme tendência para amplificar os nossos defeitos. Tanto a nível físico, como a nível psicológico.

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publicado às 10:27



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