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Mulher ou esposa?

por João Miguel Tavares, em 11.04.14

Nos comentários deste post, a leitora Maria João (10.04.2014 às 12:52) coloca esta pergunta, referindo-se a uma palavra que usei no texto:

 

Por que não "mulher" em vez de "esposa", JMT?

 

Esse comentário já deu origem a outros comentários, uns a defenderem que preferem "mulher", outros "esposa", e outros questionando se deveria ser "homem" ou "marido".

 

Por acaso, em relação ao homem e marido, parece-me que a questão é bem mais pacífica. "Meu marido" é uma expressão com a qual ninguém se chateia, e o "meu homem" costuma ser dito até em tom carinhoso e de forma muito prestigiante para o macho em questão.

 

Quando se chega à "mulher/esposa" é que as teses se dividem. Como é óbvio, eu não tenho nenhuma boa resposta para isso. Posso apenas partilhar com vocês a minha sensibilidade.

 

Eu gosto da expressão "a minha mulher". Sei que há quem a ache muito crua e abrutalhada, como se a mulher fosse nossa posse e nossa subalterna. Compreendo mal isso, sobretudo porque "meu homem" tem o tal sentido de proximidade e orgulho. Ou seja, é como se uma mulher dizer "o meu homem" fosse algo não só aceitável como romântico, uma espécie de entrega consentida; enquanto um homem dizer "a minha mulher" fosse, para algumas almas mais sensíveis, inaceitavelmente machista. Tendo em conta a incoerência lógica, parece-me mais um preconceito mental (e cultural) do que outra coisa.

 

Para mais, sendo eu um apreciador do estilo bíblico, o primeiro capítulo do Génesis tem para mim uma ressonância estética muito forte: "E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." Na minha cabeça, homem e mulher hão-de remeter sempre para aqui, e por isso ser-me-á difícil não apreciar o seu uso, qualquer que seja o contexto.

 

A expressão "a minha esposa" já me parece mais pomposa, mas uso o termo, ainda assim, tanto para efeitos irónicos, como para evitar a repetição da palavra "mulher", se a tiver de usar muitas vezes num texto. Mas a verdade é que, quando comecei a escrever sobre a família, já há uns bons anos, decidi usar, nem sei bem porquê, o termo "excelentíssima esposa", e ele acabou por pegar. O "excelentíssima" está lá para sublinhar uma certa ironia, já que o uso do adjectivo no superlativo acaba por minar a pomposidade do substantivo. E a Teresa "excelentíssima esposa" ficou. Portanto, neste caso, pode já nem sequer ser bem ironia - é mais carinho, e força do hábito, no sentido positivo da palavra.

 

Enfim: mulher, esposa, excelentíssima esposa... suponho que o que mais importa não é a qualidade do nome, mas da relação.

 

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publicado às 19:40



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