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Sobre a importância da partilha

por João Miguel Tavares, em 19.08.14

A propósito do meu post sobre os maus exemplos, mais do que uma pessoa me colocou um link para um texto de uma senhora chamada Beth, intitulado "Porque não obrigo o meu filho a partilhar". O texto em inglês está aqui, a tradução em português aqui. Deixo apenas um excerto da argumentação, mas convém ler o artigo todo:

 

Há um carro encarnado [de um espaço público] com que o meu filho adora brincar e da última vez que fomos ele conduziu-o durante toda a hora e meia que lá estivemos. Enquanto a maior parte das mães que lá estão andam atrás dos filhos enquanto brincam, o meu tem idade suficiente para eu ficar a vê-lo a brincar ao longe. À distância, eu vi uma mãe a ir ter com o meu filho, vezes sem conta, e a dizer-lhe: “Pronto, é a vez de dares o carrinho a este menino.” Obviamente, ele ignorou-a, e eventualmente ela acabou por desistir. Havia imensos outros carros para o filho dela andar, inclusivamente um quase igual àquele… se não, talvez eu tivesse intervindo.

 

Eu acho contraproducente ensinar a uma criança que pode ter algo que outra criança tem, só porque ela quer. Eu percebo o desejo dos pais que os filhos consigam ter o que querem nem que seja por uns minutos para os verem felizes. Mas é uma boa lição a reter para o futuro: nem sempre temos ou alcançamos aquilo que queremos, e não é correcto passar por cima de tudo e de todos para consegui-lo. Além disso, não é assim que as coisas funcionam no mundo real. Receio que estas crianças cresçam a achar que vão ter tudo o que querem sem esforço. 

 

Acontece-nos com bastante frequência procurarmos naquilo que lemos argumentos para corroborar os nossos próprios preconceitos - e eu não me estou a excluir disso, como é óbvio. Mas como esta argumentação me dá a volta ao estômago, porque sendo aparentemente muito racional acaba por ser uma mera justificação para o egoísmo, talvez valha a pena regressar ao tema.

 

Como em tudo, convém não ser radical. Eu obviamente não advogo que se obrigue um filho a dar tudo e mais alguma coisa a quem quer que seja. Uma criança pode ter um objecto que adore e obrigar a partilhá-lo à força com quem não lhe dá um décimo do valor é uma violência imerecida. Até porque, da mesma forma que há crianças insuportavelmente egoístas, há miúdos horrivelmente pedinchões, que querem sempre aquilo que os outros têm nas mãos. A esses, sim, convém explicar que "não é assim que as coisas funcionam no mundo real".

 

Mas tanto no meu post como no texto da Beth, aquilo de que estamos a falar nem sequer é de objectos privados - é de espaços públicos. Ou seja, de espaços partilhados por uma infinidade de crianças. E não há forma de eu poder considerar legítimo o usufruto durante hora e meia, por uma única criança, de algo que é de todos e que outros também desejam. Da mesma forma que não seria legítimo ocupar um baloiço durante 90 minutos.

 

É certo que a mãe sublinha que havia outros carros semelhantes àquele disponíveis. E que, se não houvesse, "talvez tivesse intervindo" (o "talvez" é, só por si, inacreditável). Mas se outros miúdos desejavam aquele carro, e se havia outros semelhantes, o que ela deveria fazer não era ficar sentada ao longe à espera que o problema se resolvesse por si. Era ir ter com o filho e dizer: "Já estás há 20 minutos a andar nesse carro, ele também é o carro favorito deste menino, por favor troca para outro." Após um período de divertimento razoável, era o filho da Beth que devia trocar de carro - pela simples razão de que o carro não era dele. Tal como não era daquele único pai e daquele único filho a baliza que eu referi no meu post.

 

Se as questões da partilha se podem colocar, e de forma muito premente, em relação à propriedade privada das crianças - e, sim, acho que os filhos devem ser convidados (não necessariamente obrigados) pelos pais a partilhar os seus próprios brinquedos com os outros -, elas parecem-me um dever escandalosamente evidente quando estamos a falar de espaços públicos.

 

Mais: volta a ser usado no texto da Beth um argumento que me parece totalmente ilegítimo, e sobre qual já falei muitas vezes a propósito dos posts sobre bater nos filhos ou não, que é a comparação entre adultos e crianças. Volto aos argumentos da Beth:

 

Nós não passamos à frente numa fila do supermercado só porque não nos apetece esperar, e não ficamos com o iPhone de um colega só porque queríamos muito ter um…

 

São exemplos idiotas. Em primeiro lugar, porque crianças não são adultos. Em segundo lugar, porque ninguém fala em não esperar: uma criança tem todo o direito de estar cinco minutos num baloiço enquanto os outros aguardam que ela acabe de se divertir. Em terceiro lugar, porque é mentira: nós não damos o nosso iPhone a um colega, mas certamente o emprestamos se ele precisar de ligar a alguém.

 

Mas, sobretudo, recuso absolutamente que nós tenhamos de ver a partilha segundo uma perspectiva sacrificial. Embora eu sempre tenha sido uma criança com imensas dificuldades em emprestar coisas de que gostava muito (falo disso de passagem aqui), orgulho-me muito que os meus filhos não sofram do mesmo mal. Até por serem quatro, eles disponibilizam com relativa facilidade as suas coisas aos outros.

 

Ora, nos exemplos de que tenho vindo a falar, diria que são os pais que estão mais confusos do que as crianças. Nós não emprestamos para aprendermos a sacrificar-nos e a abdicar. Emprestamos para poder proporcionar alegria aos outros. Uma criança não empresta para sofrer, empresta porque tem a oportunidade de fazer outras crianças felizes. É isso que lhes devemos ensinar. Inverter este olhar não é só estúpido, é não perceber nada do significado da partilha.

 

Mais uma vez, não me quero estar aqui a armar em guru do que quer que seja. Quem escreve estas palavras - ou seja, eu - tem imensa dificuldade em partilhar muita coisa. Mas a existência dessa dificuldade (porque sou muitas vezes egoísta) não invalida o valor que reconheço a quem empresta. Uma coisa é nós termos dificuldade, outra, bem diferente, é usarmos argumentos supostamente racionais para validar o nosso próprio egoísmo.

 

Ou seja, uma coisa é não ser capaz de praticar o bem, outra, muito diferente, é não reconhecer que é um bem, e inventar argumentos para, afinal, demonstrar que é um mal. Isso, a meu ver, não é aceitável. Aliás, é até bastante indecente.

 

 

 

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publicado às 10:36



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