Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Sobre as praxes #5

por João Miguel Tavares, em 07.02.14

Bom, vamos cá ver se acabamos com o assunto das praxes, porque se isto continua são os leitores deste blogue que vão achar que estão a ser praxados.

 

Quem tem acompanhado as caixas de comentários verificará que há dois Pedros Silvas defensores das praxes. O Pedro Silva II acusa-me de parcialidade nesta matéria:

 

O argumento do João é redutor porque só dá voz a um dos lados da questão. O João só se interessa por casos de pessoas que sofreram na Praxe porque também é contra a Praxe. Eu tento mostrar ao João que nem tudo é assim. Daí ter dado a minha opinião sobre a coisa e ter dito que comigo correu bem.

 

Claro que sou parcial, caro Pedro, porque acho que a praxe é algo estruturalmente errado, e que definitivamente não se deve falar dela grafando-a em maiúsculas (a "Praxe"). Por favor, não se detenha demasiado na minha autobiografia e releia o meu primeiro texto sobre o assunto: a praxe é, no meu entender, um uso de poder ilegítimo sobre o corpo de outra pessoa.

 

E neste ponto permitam-me abordar uma crítica muito directa que me é feita pela Fernanda (a 05.02.2014 às 18:13), a partir do meu papel no programa Governo Sombra:

 

Eu costumo ver o Governo Sombra, sabe? E eu, que também tive uma educação católica e cujo princípio "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" sempre me guiou, tenho alguma dificuldade em perceber os argumentos que usa contra a praxe, fazendo o que faz com os seus companheiros durante o programa: gozar com outros. (...)

 

Passo a explicar: lembra-se das cerimónias fúnebres de Mandela? Lembra-se do falso intérprete de Língua Gestual Sul Africana? Lembra-se do programa em que falaram disso? Eu lembro-me. Para além de terem achado imensa piada ao que ali se passou, esqueceram que houve milhares de pessoas surdas que não só não tiveram acesso aos discursos como não conseguiram ter voz para denunciar a situação a tempo. Além de terem simplesmente ignorado a gravidade da situação, chamaram essas pessoas de "surdas-mudas" e referiram-se à língua deles como "linguagem gestual". (Presumo que - apesar de não ter lido a mensagem que lhe mandei na altura pelo Facebook porque deve estar perdida entre alguns milhares na caixa das "outras" mensagens, pois não faço parte dos seus amigos facebookianos - já tenha sabido da ignorância que estas duas expressões contêm.) (...)

 

Espero que não leve a mal este meu comentário, mas eu tenho uma espécie de reação alérgica de cada vez que vejo um novo tema de polémica debatido até à exaustão, em que há os da ala in, a ala da maioria, e os da ala out, apenas porque não alinham na moda da maioria. E sendo o João um homem assumidamente de direita num país "adornado à esquerda" (acho que foi assim que disse, uma vez), deve saber bem o que é que se sente quando não se faz parte da ala in.

 

Indo às arrecuas: 

1. Não se trata aqui de estar in ou out, nem eu faço questão de estar sempre do lado das opiniões minoritárias só para me sentir diferente. Os adeptos pró-praxe estão em inferioridade numérica e ainda bem - tendo em conta o que é a praxe, mal fora que a maioria da população estivesse ao lado de desfiles de universitários a fazer figuras tristes.

 

2. De facto, não devo ter lido a mensagem que refere sobre a ignorância das expressões "linguagem gestual" e "surdo-mudo". Neste segundo caso, posso imaginar que é porque um surdo não é realmente mudo. No caso da linguagem gestual, não faço mesmo ideia. Mas estou sempre disposto a aprender. Venham daí as explicações.

 

3. Em relação à comparação com o "gozar com outros". Eu, de facto, sou gozão, mas não consigo perceber o que tem isso a ver com a praxe. A praxe não é gozar, a não ser naquelas aulas inventadas com bibliografia fictícia. A praxe é humilhar (ainda que com puríssimas e integradoras intenções), faltando ao praxado aquilo a que nunca falta a quem está a ver o Governo Sombra - um comando para poder mudar de canal. É essa liberdade que faz toda a diferença.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 09:50


Sobre as praxes #4

por João Miguel Tavares, em 06.02.14

Tenho lido nas caixas de comentários - como já vai sendo felizmente habitual - excelentes textos sobre as praxes. Deixem-me salientar a honestidade do texto da Carolina (a 05.02.2014 às 21:17) e a elaboração do texto da margo (a 06.02.2014 às 20:53), que vale a pena ler integralmente, mas cujos argumentos não resisto a trazer parcialmente para aqui, até porque me farão poupar imenso latim. Ora reparem:

 

Gostei bastante desta metáfora de ser do Benfica e querer ir às Assembleias Gerais do Sporting [NR: a leitora refere-se a um comentário anterior do Pedro Silva I (convém estar atento, porque há um Pedro Silva II), que escreveu: "Porque raio é que alguém, no seu perfeito juízo, diz-se contra uma coisa (a praxe) e quer participar nas actividades dela? Isto é como eu ser do Benfica e querer ir às Assembleias Gerais do Sporting."].

 

Servindo-me das linhas gerais, imaginemos que uma pessoa se mudava para a freguesia de Alvalade. No primeiro dia, aparecia-lhe um grupo de pessoas do Sporting a exigir o pagamento da quota no clube. Se a pessoa fosse do Sporting e quisesse ser sócio do clube, ficaria toda contente por não ter de se deslocar ao estádio para se tornar sócio. O problema surgiria se a pessoa em questão não gostasse nada de desporto ou fosse um acérrimo benfiquista. Uma pessoa pode ir viver no bairro de Alvalade porque diversas razões, seja porque escolheu ou porque não conseguiu encontrar uma casa na sua primeira opção. O grupo de Sportinguistas devia apenas deixá-lo em paz (pedir desculpa pelo incómodo também seria de bom tom). 


Em todos os códigos de praxe que li pela internet fora nestas últimas semanas, assume-se à partida que todo o caloiro está sujeito à praxe, excepto se se afirmar anti-praxe. Acho que essa é a fonte do problema. Para que o estatuto anti-praxe lhe seja formalmente reconhecido tem de informar os veteranos ou, em alguns casos, formalizar o pedido junto de um conselho de veteranos. Ora, para um caloiro anti-praxe, um veterano não tem mais autoridade – nem moral, nem jurídica – sobre um caloiro do que um administrador do Sporting sobre um habitante de Alvalade.

Acho que o problema da praxe deixaria de existir (mas preservando a praxe enquanto instituição) se, ao invés de existir a possibilidade de dizer não à praxe, quem quisesse ser praxado tivesse de dizer sim à praxe. Podiam, por exemplo, montar uma banquinha junto à repartição académica nos dias das matriculas, dando a conhecer o código porque se regem e as vantagens de pertencer ao clube de praxistas. Se o caloiro, já esclarecido ao que ia, quisesse fazer parte do clube, bastar-lhe-ia inscrever-se. Até lhe podiam dar uma t-shirt no momento da inscrição para ser inequivocamente identificável pelos praxadores na primeira semana (certamente que conseguiriam o patrocínio de alguma cervejeira para fazer as t-shirts) e depois era só fazerem o que fazem agora, sabendo que toda a gente estaria a participar porque achava a experiência divertida e enriquecedora e ninguém viria argumentar que foram coagidos.

 

Se quiserem, podem continuar a ler o resto na caixa de comentários, porque vale a pena. Eu daqui a umas horas voltarei com aquele que se espera ser o último texto meu sobre o tema (sim, imagino que já estejam um bocado enjoados).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:55


Sobre as praxes #3

por João Miguel Tavares, em 06.02.14

Voltemos então ao tema das praxes, como prometido, para poder responder a alguns leitores (textos anteriores aqui e aqui).

 

Deixem-me começar pela Daniela, que afirma o seguinte (05.02.2014 às 14:35):

 

Entre 1991 e 2014 muita coisa mudou nas universidades e na praxe. O facto de não se ser obrigado a participar na praxe atualmente não é tanga nenhuma. Frequentei uma licenciatura onde apenas 25% dos alunos do 1.º ano eram praxistas: só participava e pertencia à praxe quem queria e isso não gerava problema nenhum...

 

Se isto fosse verdade para toda a gente, em todos os cursos do país, então eu não teria nada contra as praxes. Eu não sou dos que advoga a proibição da praxe (embora ache que ela não deveria ser permitida nos recintos das universidades), porque não acho que tudo o que é de mau gosto deva ser legalmente punido. Se, como diz a Daniela, as praxes em 2014 "não passam de brincadeiras de estudantes para estudantes, de adultos para adultos, quem gosta participa, quem não gosta não participa e ninguém é ostracizado por causa disso", impecável. Já cá não está quem falou. Mas eu leio certos testemunhos, e vejos muitos alunos passarem por mim durante as épocas de praxe, e tenho a sensação de que não é bem assim. Até porque, Daniela, eu desconfio que se ser praxado fosse como ir votar nas eleições europeias, a abstenção seria bastante maior.

 

Já o vidaemdidascalia (04.02.2014 às 15:51), como o próprio nome indica, prefere entrar no meu campo favorito e encontrar razões filosóficas e sociológicas para justificar a praxe:

 

A praxe serve como construção virtuosa do índíviduo, na medida em que o ensina a perseverar enquanto membro de um grupo, na medida em que o ensina a respeitar os seus pares e a fortalecer-se neles.

 

E continua:

 

Ela é democrática e inclusiva. É de livre acesso e livre abandono. É inclusiva porque reúne em si indíviduos que a priori pareceriam imiscíveis; reúne o pobre e o rico, o tímido e o extrovertido, o transmontano e o alfacinha.

 

Confesso que quando se começa a filosofar desta forma, eu sinto alguma comichão. Em primeiro lugar, porque - mais uma vez - ninguém parece admitir a dimensão compulsiva nas praxes. É mesmo de "livre acesso" e de "livre abandono"? Já ninguém impõem nenhuma coisa nos dias de hoje? É o pessoal que se oferece livremente para andar a fazer figuras de urso nas ruas e a levar com merda em cima e a beber o que lhe põem à frente? Oh, meu Deus, não sei se estudei no tempo errado ou no tempo certo: porque, apesar de tudo, eu compreendo melhor as figuras de urso se forem feitas por obrigação do que voluntariamente.

 

Mas o que me interessa mais discutir é essa ideia da "construção virtuosa do indivíduo", na medida em que a praxe "ensina a respeitar os seus pares e a fortalecer-se neles". A sério? Caros senhores que amam a praxe: eu nunca reconheci, enquanto estudante, e muito menos reconhecerei enquanto pai, que um miúdo que é um, dois ou três anos mais velho do que um caloiro, tenha o direito de se arrogar em exemplo moral ou professor de bons costumes de quem quer que seja. Mas o que é isto agora? O Padre Américo com pandeiretas?

 

Senhores: esse trabalho de "construção virtuosa do indivíduo" é competência do próprio indivíduo e da sua família. Não de uns gajos vestidos de preto, a quem, talvez pelas figuras que os vejo fazer no meio da rua, tenho algumas dificuldades em reconhecer competência nessa área. Se não se importam, vão construir virtuosamente indivíduos para outro lado. Inscrevam-se na Maçonaria, onde há rituais super-giros. Se calhar sou eu que sou esquisito, mas dispenso bem a educação, a integração e a democratização dos meus filhos pela via da farinha.

 

E para terminar esta primeira vaga de respostas, cito o Carlos Duarte (04.02.2014 às 15:49):

 

Vai-me desculpar, mas está rotundamente enganado. A noção de hierarquia (seja formal ou informal) está subjacente à organização do ser humano em Sociedade. Se Vc. rejeita liminarmente a noção de que alguém, por ter mais anos que outrem e existindo uma aceitação mútua da referida hierarquia, possa mandar ou comandar, então tem de rejeitar qualquer relação hierarquizada de trabalho (e, para continuar com o exemplo universitário ou de educação, rejeita qualquer autoridade que um professor possa ter por um aluno).

Vc. escreve "Fora de relações consensuais (sejam amorosas, sejam profissionais) e de punições legais (prisão) (...)". Como digo em cima, porquê as excepções? O que torna uma relação amorosa ou profissional assim tão especial para não se ter "direito de estar ao abrigo do exercício do poder de outro sobre ela"? Aliás, e vai-me desculpar o aparte, acho sinceramente mais grave que numa relação amorosa exista submissão de vontade individual a terceiros. É por aí que começam (muitos) casos de violência doméstica.

 

Santa confusão, Carlos Duarte. Se existe uma "aceitação mútua da referida hierarquia", então não estou "rotundamente enganado", porque o que eu disse é que a únicas hierarquias que admito são aquelas que são consensualizadas. Ou seja, se eu vou para o emprego, admito ter chefes. Se eu for mandado parar na estrada pela GNR, admito que os senhores têm o poder de me multar. Se eu entrar para a escola, sei que quem manda são os professores. Mas se eu entrar para o primeiro ano da universidade, não reconheço que um estudante mande em mim só porque lá está há mais anos. A antiguidade não é um posto. A hierarquia explica-se pelo mérito ou pela função. Ser mais velho não é um mérito. Ser mais velho não é uma função.

 

E de repente, a violência doméstica - eis um extraordinário salto epistemológico, só compreensível se o Carlos defender que uma mulher leva na cara porque gosta. Não é essa a definição de violência doméstica. Levar na cara, ou na bundinha, e gostar, chama-se masoquismo, e há uns livros muito recentes e com muito sucesso sobre o tema. É nesse sentido que falava em relações consensuais entre adultos: a violência doméstica é um crime; o sado-maso é um fetiche. E a praxe, demasiadas vezes, é mais violência do que fetiche.

 

E quem tem dúvidas do impacto que o fantasma da praxe pode ter em certas pessoas com certas personalidades, leia por favor os comentários da anónima de 04.02.2014 às 14:52 e de 05.02.2014 às 12:55.

 

Mais tarde voltarei só para mais um ou dois pequenos apontamentos. 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 10:20


Sobre as praxes #2 (com muita autobiografia)

por João Miguel Tavares, em 05.02.14

Ainda antes de responder a alguns argumentos de leitores pró-praxe, que se encontram na caixa de comentários do post anterior, permitam-me uma deriva autobiográfica, porque já estou farto de ouvir gente argumentar que quem se opõe a praxes nunca foi praxado nem sabe do que está a falar.

 

Como argumento, aliás, já vi coisas mais sofisticadas. Se eu estivesse a falar da vida na Lua, as pessoas poderiam, de facto, dizer: "Mas você nunca foi à Lua, sabe lá do que está a falar!" Aí, teriam boas possibilidades de acertar, tendo em conta que apenas 12 pessoas estiveram na Lua (só para os mais curiosos, aqui). Agora, praxes? Qual é a probabilidade de um gajo que é jornalista, como eu, e que tem 40 anos, não ter sido praxado? Hummm, eu não apostava o meu dinheiro, nem sequer os meus argumentos, nisso.

 

Sim, fui praxado. Claro que fui praxado. Aliás, ao contrário da maior parte das pessoas, assisti aos dois tipos de praxe: uma bastante humilhante, no Instituto Superior Técnico, para onde entrei em 1991 para estudar Engenharia Química; e outra bastante mais light e muito mais bem disposta, a que assisti embora já recusando participar, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, para onde entrei em 1994, para estudar Ciências da Comunicação. 

 

Nesta última já tinha 21 anos e era mais velho do que todos os gajos que me queriam praxar, e portanto mandei-os passear. Eles respeitaram isso. Mas no Técnico, não. No Técnico eu era o típico caloiro amedrontado que chega pela primeira vez a uma universidade - um mundo inteiramente diferente para a maior parte das pessoas, e definitivamente para mim.

 

Nessa época, eu tinha acabado de fazer 18 anos e era um provinciano portalegrense. Lembrem-se: em 1991 o muro de Berlim tinha caído há dois anos. Internet só havia em dois ou três computadores na universidade. O Facebook não tenha sido inventado. Não existiam telemóveis. Eu viva num minúsculo quarto alugado na Manuel da Maia, com uma casa de banho ao lado ainda mais minúscula do que o quarto (era o típico quarto-WC das empregadas de antigamente, com entrada directa para a cozinha) e que tinha um chuveiro eléctrico para aí de 1960, que aquecia a água mal e porcamente. Eu não tinha telefone, e ia dia sim, dia não, a uma cabine pública para falar com os meus pais. E também com a Teresa, que nessa altura eu já tentava convencer a namorar comigo (não foi nada fácil, mas acabou por acontecer poucos meses depois, a 2 de Março de 1992).

 

O dia em que eu cheguei a Lisboa nunca me sairá da memória: era a noite de 6 de Outubro de 1991, quando Cavaco Silva ganhou a sua segunda maioria absoluta. No dia seguinte, segunda-feira, eu iria começar as aulas no Técnico, e a festa da vitória do PSD estava a apenas 200 metros de mim, na Alameda D. Afonso Henriques. Mas eu sentia-me tão assustado e sozinho em Lisboa - cidade a que até então eu viera apenas sete ou oito vezes com os meus pais - que me enfiei na cama e fiquei a ouvir o ruído dos festejos que me entravam pela janela do quarto. Ainda hoje penso: como é possível não ter ido espreitar o que se estava a passar e participar num dia histórico? E eu até tinha votado no PSD. Mas senti-me um puto de província abandonado na capital do país, um passarito caído do ninho, que se escondeu debaixo do primeiro arbusto que encontrou.

 

Digam-me: perante este contexto, perante o puto de 18 anos que eu era, estão a ver-me a ter capacidade para enfrentar um turba de gandulos e dizer-lhes "tirem-me as patas de cima, a mim ninguém me praxa"? Aliás, na altura estava muito longe sequer de se ouvir falar em movimentos anti-praxes. Toda a gente era praxada. Ninguém escapava, a não ser que faltasse à primeira semana de aulas. Coisa que no meu espírito cumpridor era impensável. Donde, essa coisa de ninguém ser obrigado é mega, mega tanga.

 

Por isso, lá fui. Lembro-me de nas primeiras gatinhadelas ter perdido as minhas chaves e de ter ficado em pânico, por achar que não iria conseguir entrar em casa. Pedi para ir à procura das chaves. Não me deixaram, mas alguém as encontrou e deu-mas de volta. Depois, lembro-me de me terem deitado no chão, colocado uma garrafa de vidro vazia no meio das pernas e de uma miúda, como um lápis atado à cintura, ter de enfiar o lápis no gargalo da garrafa - a velha e eterna obsessão sexual e a humilhação pública das mulheres. Finalmente, recordo-me de ter sido obrigado a simular sexo com um sinal de trânsito qualquer, em que me andei a roçar por aquilo para cima e para baixo. Na altura era muito tímido, e essa parte custou-me bastante.

 

Será que graças a isso perdi a timidez? Não me lixem. Se fosse assim tão fácil ultrapassar certos bloqueios, os psicólogos e os psiquiatras estariam no desemprego - todas as pessoas seriam entregues nas mãos dos veteranos, para os seus super-tratamentos de integração de 15 minutos. E, já agora, será que me senti mais integrado na universidade depois disso? Deixem-me rir: consegui sentir-me mal no Técnico todos os dias durante os dois anos e meio que lá andei.

 

Com vêem, a minha praxe esteve longe de atingir o tal patamar de violência que tanto se critica. Não levei com bosta, nem tive de me pôr em cuecas. Mas para o miúdo que eu era naquela altura, foi algo que detestei e algo que temia muito, muito tempo antes. Ou seja, a praxe, para muitas pessoas, é uma violência psicológica ainda antes de acontecer. Sim, eu era um super-coninhas nestas matérias. Mas os super-coninhas também têm direito à existência.

 

Corte para o presente. Por causa destas notícias sobre a praxe, que estavam a dar na televisão, o Tomás perguntou-me o que era isso de "praxe". Eu expliquei-lhe. E ele não mais se calou durante toda a noite. Claramente, nele, a perspectiva de ser praxado, ainda que a dez anos de distância, já é assustadora. Porquê? Porque o Tomás sai ao pai: odeia qualquer tipo de humilhação. E é como o pai era quando tinha a idade dele: Detesta ser gozado. Lida mal com isso. Sente-se profundamente incomodado com críticas àquilo que tem vestido, por exemplo (falei sobre isso aqui). E um dia, ele irá odiar as praxes, ainda que sejam apenas para obrigá-lo a estar numa fila a cantar músicas parvas ou a ir buscar fotocópias à reprografia.

 

Mais daqui a pouco prentendo regressar a argumentos menos biográficos do que estes, para responder a leitores. Mas quem quiser fazer leituras psicanalíticas sobre as minhas opções públicas e as minhas convicções filosóficas, já tem aqui muito com que se entreter.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:40


"Temos o direito de ser humilhados"

por João Miguel Tavares, em 05.02.14

Daqui a um bocadinho já vou voltar ao tema das praxes. Mas entretanto uma leitora (e., 5 de Fevereiro de 2014 às 10.48) acabou de sugerir este vídeo na caixa de comentários, e eu não resisto:

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 10:47


Sobre as praxes

por João Miguel Tavares, em 04.02.14

Eu já escrevi um texto sério sobre as praxes no Público (podem chegar até ele por aqui), mas gostava de voltar ao assunto no Pais de Quatro, porque é um tema que está muito ligado a certos valores que eu defendo com unhas e dentes, e em relação ao qual muita gente não é tão sensível quanto eu julgo que deveria ser.

 

Há uma maneira óbvia de colocar o problema, que é dizer que toda a gente é contra as praxes violentas, que resultem em excessos e na humilhação desproporcionada de caloiros. Com certeza. Ninguém acha que deva haver gente a morrer nas faculdades. Mas aquilo que defendo é mais do que isso - é que qualquer humilhação, e qualquer relação de poder discricionária, baseada na simples antiguidade, é completamente ilegítima, por mais insignificante que possa parecer.

 

Eu recebi um mail de uma leitora indignada com o meu texto do Público, que para me provar a sua razão elencava aquilo que eram as praxes na universidade onde andara, supostamente para me demonstrar a sua inocência. E ela falava em coisas como "mandar os caloiros irem para a fila da reprografia buscar os nossos textos reproduzidos" ou "só os deixar começar a comer quando já estivéssemos sentados".

 

Nada disto tem a ver, em termos de gravidade, com o que quer que seja que se tenha passado no Meco, como é óbvio. Mas, aos meus olhos, isso não torna as praxes que a leitora retrata mais legítimas, ainda que a única coisa que ela tivesse feito fosse mandar um caloiro buscar folhas à fotocopiadora.

 

Admito que tal tenha a ver com uma maneira mais filosófica de encarar a realidade, que me leva a pensar nos princípios que antecendem a prática de certos actos, e com uma fidelidade séria àquilo que Kant definiu como imperativo categórico. Ninguém merece ser tratado como um meio, nenhum ser humano deve ser instrumentalizado. E a praxe é isso - uma instrumentalização do corpo do outro.

 

Fora de relações consensuais (sejam amorosas, sejam profissionais) e de punições legais (prisão), qualquer pessoa maior de idade tem direito de estar ao abrigo do exercício do poder de outro sobre ela. Digo maior de idade, porque, como sabem, os pais têm o direito de educar os seus filhos e exigir-lhes que façam o que não lhes apetece. Mas praxar caloiros universitários? Não há uma única boa razão para que tal aconteça.

 

Eu sou mesmo radical nisto. Se algum dia souber que um dos meus filhos, daqui a 10 ou 12 anos, anda a praxar miúdos numa universidade, eu sou gajo para ir lá e enfiar-lhe uma lambada (pedindo antecipadamente desculpa à Helena Araújo). Aí, sim, como pai e educador, valeria a pena invadir com os dedos a bochecha de um filho - porque naquele momento ele estaria a desrespeitar a sua família e a educação que ela lhe deu.

 

Independentemente da minha fé em Deus, cada ser humano é um milagre, que merece respeito absoluto sempre que as suas atitudes não desrespeitarem a comunidade. Praxar é diminuir essa certeza. Pura e simplesmente não se faz.

 

Praxe num colégio americano, 1962

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 14:11



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D