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"Tu não sabes qual o caminho do vento"

por João Miguel Tavares, em 16.10.14

Eu bem disse que haveria de chegar o dia em que falaria de Deus e de fé. A Teresa Power está justamente aborrecida por alguns comentários, que atingiram níveis de intolerância que eu não gosto de ver praticados neste blogue. O PD4 sempre se orgulhou de não ter moderação (embora já o tenha tido de moderar a espaços, porque de vez em quando passam por cá uns malucos - como em todo o lado, suponho eu) e gostaria que continuasse assim. Por isso, peço a todos que discutam com músculo e entusiasmo, mas também com moderação e bom-senso.

 

Esta discussão sobre métodos naturais versus métodos artificiais não serve para convencer a Teresa, ou o João, ou eu próprio, ou o Carlos Duarte, a mudar de opinião. Todos nós já pensámos abundamente sobre este tema. Mas as discussões fortalecem os argumentos e convidam a uma reflexão conjunta, porque se nós já pensámos sobre isto, há muita gente que nunca pensou. Também já há alguns exemplos desses nas caixas de comentários, e portanto esta troca de argumentos já serviu para alguma coisa.

 

Diz a Teresa Power:

 

Na verdade, JMT, enquanto as questões da fé não forem travadas na intimidade da oração, como referiu o João Miranda, não as iremos nunca compreender. A Deus chega-se pelo coração, e só depois de se chegar pelo coração, se "entende" pela razão. Toda esta argumentação é inútil, perfeita perda de tempo - a não ser, e é isso que me mantém aqui, que ajude alguém a abrir o coração...

 

Mais uma vez (voltamos a concordar para a semana, ok, Teresa?) não posso estar mais em desacordo. Como bem ensina a tradição, os caminhos do senhor são misteriosos, e aquilo que não falta ao longo da História são pessoas que chegaram a Deus de forma inteiramente racional. Primeiro entrou pela cabeça, e só depois foi ao coração. Eu sei, obviamente, que não é esse o carisma da Teresa, mas uma das grandes qualidades de Deus é não caber nas caixinhas que insistimos em criar para Ele. Não há um só caminho. Nunca houve um só caminho.

 

Deixem-me citar o belíssimo Eclesiastes, e rezar com Salomão, na tradução de João Ferreira de Almeida:

 

Assim com tu não sabes qual o caminho do vento,

nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida,

assim, também, não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.

 

Pela manhã, semeia a tua semente,

e à tarde, não retires a tua mão,

porque tu não sabes qual prosperará:

se esta, se aquela,

ou se ambas serão boas.

 

Eu acho que é isto que todos estamos a fazer, Teresa. Cada um está a semear a sua semente com o coração aberto, e não há porque retirar a mão só porque certos terrenos nos parecem demasiado duros.

 

A minha argumentação virá (finalmente!) a seguir.

 

farmer-sowing-seeds-2.jpg

 

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publicado às 10:20


21 comentários

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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:35

A religião só "compreende" quem tiver fé, como é óbvio. Claro que um não-seguidor de religiões, como eu, aceita como evidente que a dita entra pela mente e depois despoleta sensações que se sentem "no coração"... E o conforto que estas sensações nos provocam são tão reconfortantes, passe a redundância, que parecem de facto, "vir do coração", do centro do dito.
Eu fui baptizado por uma religião cristã, passei depois por convicção para outra, e agora não sigo nenhuma. Acho-me, pois, qualificado para debater este assunto e com toda a profundidade. Este assunto da religião, que a fé é outro assunto, como se sabe.
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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:39

Quanto a dizer-se que "a fé abre o coração", isso é no mínimo tendencioso, pois dá a entender que quem não a tem, terá o "coração fechado"... Nada de mais errado e, repito, tendencioso (sem maldade, como diz um amigo meu...).
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De João Miranda Santos a 16.10.2014 às 12:45

Bem, eu penso que não tentei convencer ninguém a usar esta ou aquela solução para planearem a sua família (ou até mesmo para não planearem família nenhuma), isso diz, sem dúvida, respeito a cada um e, no limite, ao seu parceiro sexual (também não sei em que percentagem dos casos é que isto é visto como um assunto do casal e não só da mulher, afinal, ela é que tem o "problema", ele não engravida).

Eu apenas questionei a legitimidade do JMT para pôr em causa uma encíclica. O João podia ter dito simplesmente que não concordava ou não percebia (interessante porque de facto disse só que não percebia, e nem sequer que não concordava), mas não foi isso que disse, o que disse foi que não tinha dúvidas em classificá-la como um momento muito infeliz da história da Igreja, e isto eu acho inadmissível na mesma lógica de não totalitarismo do João. (e aqui eu podia divagar mais um pouco dizendo que se o João não disse que não concordava mas sim que não percebia, pode significar que o que está em causa não é a proposta da encíclica mas eventualmente a forma de a apresentar ou o momento, e aí, mesmo que o João venha a concordar um dia, pode continuar a achar o surgimento da encíclica como um momento infeliz ;))

Já agora que aqui surgiu o problema oposto, que é o da dificuldade de concepção, aproveito para deixar também a informação de que os métodos naturais também têm aqui muito a dizer. A ciência não significa necessariamente medicamentos nem deturpação do natural (muito pelo contrário) e por isso estar a tentar opor ciência aos métodos naturais é um erro. Particularmente no que diz respeito à dificuldade na concepção, também a ciência tem dado provas de que a atenção ao natural pode ser meio caminho andado. Pesquisem sobre NaProTechnology e vejam do que falo.
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De Teresa A. a 17.10.2014 às 14:01

Tropecei numa frase incrível: "também não sei em que percentagem dos casos é que isto é visto como um assunto do casal e não só da mulher, afinal, ela é que tem o "problema", ele não engravida".
Nao pode estar a falar a sério?
Um filho é sempre assunto do casal! Se é verdade que é a mulher que engravida, ainda é mais verdade que as consequências da gravidez = filho, sao responsabilidade dos dois????
Que é isso de fugir com o traseiro à seringa?

A vida sexual de um casal é sempre coisa de dois, e a contracepcao, ou melhor, a opcao por ter (ou nao) filhos e como (ou nao) evitar uma gravidez deve ser tomada em conjunto!
E se fôr o homem a usar preservativo? Nao tem de ser sempre a mulher a, activamente agir (seja com pílula, DIU ou métodos naturais....).

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De João Miranda Santos a 17.10.2014 às 14:18

O que a frase tem de incrível é que há realmente pessoas que pensam assim!
Sabe que há mulheres no nosso país, na nossa sociedade, que têm de estar disponíveis para a vontade do homem, independentemente das consequências que isso possa trazer, e se for preciso o homem ainda culpa a mulher no fim. Sim, nem toda a gente vive com esta liberdade tão básica. Aí é que o método de Billings não funciona mesmo, em relações irregulares, e pode dizer-se tomem a pilula por amor de Deus...

Por outro lado, nem a lei acha isso quando uma mulher decide pôr fim a uma gravidez. Tem total autonomia para o fazer e o pai não tem voto na matéria.
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De Sónia Mota a 16.10.2014 às 12:06

Eu fui católica durante anos. Fiz a catequese toda, fui catequista, pertenci ao coro da igreja e ao grupo de jovens, participava activamente na Eucaristia, etc. Nunca tive fé! Hoje sou ateia e sinto-me mais tranquila. Acredito que a vida seja mais fácil para quem tem fé, para quem acredita em algo maior que nós e que deposita as esperanças num mundo melhor nesse algo, nesse alguém. Tomo a pílula desde os 14 anos por questões de saúde e vou ter que tomar o resto da minha vida (ou algo semelhante). Quis a vida que eu não pudesse ter filhos naturalmente e recorri à ciência para ter os meus 2 filhos lindos. Os meus "bebés proveta" são filhos de um amor enorme entre duas pessoas (passámos por muito para os conseguirmos), mas não foram concebidos como a igreja ordena. Possivelmente, aos olhos da igreja, somos pecadores. Respeito todas as opiniões e todas as crenças religiosas (odeio fundamentalismos), mas recuso (e posso mesmo ficar muito agressiva) caso me digam que se Deus não me destinou filhos, então eu não os poderia/deveria ter.
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De Alexandre a 16.10.2014 às 12:16

Onde Deus falha, a ciência resolve, Sónia.

Se algum dia me mostrarem um amputado que Deus curou, entao acreditarei nele.

Até lá, serei Ateu também.

Felicidades para si e sua familia.
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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:55

É seguidor de Tomé, portanto... :)
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De Alexandre a 17.10.2014 às 10:41

Não sou seguidor de figuras de fantasia que nunca existiram.

Jesus, Tomé e os apostolos estão na mesma escala do Pai Natal ou Coelhinho da Páscoa.
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De Anónimo a 16.10.2014 às 12:56

Fiquei muito feliz com o que escreveu. Aos 31 sou católica praticante e catequista. Tomo a pílula desde os 16 anos também por saúde. Deixei de tomar em Dezembro/2013 depois de ter casado em Setembro. Ao fim destes 9 meses não engravidei. Toda a gente tem conselhos a dar... Maravilha que neste mundo somos rodeados por pessoas com certezas absolutas. Quer-me parecer que se não engravido também não é porque Deus quer ou não e magoa muito quando se dá a entender que é isso! Parei de tomar a pílula e a minha saúde começou a ressentir-se mas enquanto casal e como diz o JMT em consequência desse amor, o casal decidiu que devia ter um filho. Continuo a não tomar a pílula e vou iniciar a fase 2 que eu chamo: toca de fazer um batalhão de exames... Neste caso o casal também decidiu que não vai fazer tratamentos (o que deixa incomodado o resto da família e os amigos) e decidiu que a consequência deste amor é a adopção. Uma decisão de casal, que poderia ter sido outra. No programa da TSF o JMT com o RAP, ouvi das frases mais engraçadas sobre a igreja católica: o Pedro Mexia ou o JMT estavam incrédulos como alguém podia achar que o PSD podia ganhar as próximas eleições mesmo com o Rui Rio e ele rematou que se existem milhões de pessoas que acreditam em alguém que ressuscitou ao 3º dia, se calhar esta é mais fácil de acreditar (+/- isto). A minha fé é menor, ou sou menos católica que outros só porque iniciei a minha vida sexual 10 anos antes de me casar com o homem com que casei (meu único parceiro) e o fizesse porque tinha essa necessidade básica; ou porque convivo e apoio todos os casais meus amigos sejam eles hetero ou homo; porque acompanhei uma amiga aos 16 anos para fazer um aborto; serei menos católica porque questiono muitas das interpretações feitas sobre o Evangelho; ou porque ensino apenas às minhas crianças um único mandamento: Amar a Deus, e acrescentando que se esta for a mensagem mais presente na vida deles sei que terão amor, respeito, solidariedade pelo próximo e divulgarão Deus pelos 5 continentes, ou seja, os melhores católicos que o mundo pode ter; será que acreditar nos impede de admirar e questionar Deus? Será que tenho que abandonar o catolicismo só porque sou ovelha mas não a mais ordeira do rebanho? Por vezes, acho que deixar de questionar mesmo o mais certo nas nossas vidas nos coloca em caminhos perigosos!
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De João Miguel Tavares a 16.10.2014 às 13:27

Hoje em dia, pelo menos, tem um papa que lhe diz que a Igreja serve para acolher, e não para expulsar. É impossível ler os Evangelhos e achar que a preocupação de Cristo era com os ordeiros. Há muitos protestantes que acham os católicos demasiado tolerantes e moles. Mas essa é uma das suas maiores qualidades. Não faz sentido nenhum sentir-se excluída, diria eu.
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De Guida a 16.10.2014 às 19:25

Veja estes links, pode ajudar:

http://restorative-reproductive-medicine.com/#sthash.5FknDcBb.dpbs

http://www.fertilitycare.net/

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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:48

Como a compreendo! Mas quem é um grupo de seres humanos (a "Igreja") para nos vir dizer se isto e se aquilo, em aspectos que só a nós nos dizem respeito?
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De João a 16.10.2014 às 12:00

Teresa Power, fui ler o seu blog e gostei muito (não leia o meu, que é "pouco católico" embora eu o seja :) ), assim como gosto de ler o blog do JMT. Não consigo deixar de pensar, olhando à discussão interessante que aqui se tem gerado, que no fundo no fundo, estamos (estão) a argumentar em torno de coisas que não são do foro da argumentação. Há Deus em todos nós, há Deus em caixinhas e em espaço aberto. Há maneiras de O viver, seja pelo coração, pelo intelecto, num dom ou noutro. E, de facto, quero crer que o Deus que vos une (a vós que mais vos degladiais na argumentação) é francamente superior ao que quer que seja que vos separa na opinião dos detalhes. A paz esteja com todos nós.
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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:50

Se me permite, diria que o bom clima entre humanos é a estes mesmos que se deve e a mais nada. Nós, humanos, é que temos o poder de "sermos Deus ou o diabo"... Nós, no fundo da nossa espiritualidade, que ou é grande, e aí nós também "seremos grandes", ou é ínfima, e aí vê-se a barbárie que temos podido ver ao longo de séculos, de milénios...
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De Sílvia a 16.10.2014 às 11:59

Ei lá que uma pessoa afasta-se 12 horas disto e mal chega é logo um reboliço!!

Também quero meter a minha colherada! Sou católica, o meu marido é católico, mas não permito que a Teresa (ou outra pessoa), ou a igreja me diga que métodos contraceptivos usar, ou não usar (métodos naturais). Lamento juventude, mas isso é uma coisa que apenas a mim e ao meu marido dizem respeito, e a Deus, e isso Ele vê e Ele julgará (ou não, porque eu acho que Ele tem coisas bem mais importantes com que se preocupar, com quem mata, com quem rouba, com quem faz o mal em vez do bem).
Não entendo porque há pessoas aqui a tentarem convencer as outras de que o seu método é o melhor, e as que fazem o contrário estão profundamente erradas. Nunca ouviram "cada um sabe de si, e Deus sabe de todos"?! Se as pessoas respeitassem isso, evitavam-se tantas discussões e desentendimentos!

Mas eu considero normal haverem pessoas que não confiam em métodos naturais e não se podem dar ao luxo de ter 4, 6, 8 filhos, senão eles podem passar fome. Acho (que nunca falei com Ele, mas quero acreditar nisso) que Deus entende isso e prefere que as pessoas tenham mais cuidados e não tenham miúdos para eles morrerem à fome.
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De Sílvia a 16.10.2014 às 12:06

E já agora, como católica, também não me parece correcto haverem pessoas (não me refiro a alguém específico, estou a generalizar) a julgarem-se mais católicas do que os outros, por isto ou por aquilo. Cada um tem a sua Fé e saberá a melhor forma (a sua) de se aproximar de Deus e do bem.
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De Carlos Gilbert a 16.10.2014 às 14:53

Pois, Sílvia, mas eu já ouvi o argumento que católico só o é quem segue a totalidade dos mandamentos da ICAR... Não há "melhores católicos" ou "piores católicos", é-se ou não se é... Por isso mesmo é que eu afirmo de mim mesmo que não o sou, pura e simplesmente, o que não quer dizer que rejeite todos os sacramentos e argumentos da ICAR.
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De Anónimo a 16.10.2014 às 11:54

Os caminhos são muitos. A hierarquia da Igreja não tem de fazer dogma de fé do que não é dogma de fé.

Já sem falar das dúvidas quanto à infalibilidade do Papa.

http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php/2014/10/07/idogmas-de-fe-sobre-la-familia-
http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php/2014/10/03/familia-y-matrimonio-reflexiones-ante-el
José María Castillo é sacerdote católico.
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De gralha a 16.10.2014 às 11:40

Os caminhos são muitos mas a entrada faz-se pela via afectiva, do "coração", se preferir, como em todas as relações amorosas. Afinal, é disso que se está a falar, não é?
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De Teresa Power a 16.10.2014 às 10:58

João, por favor, podes dizer-me tudo menos que eu meto Deus em caixinhas. Se me conheces minimamente e se já foste ao meu blogue, sabes bem que tenho uma abertura e um respeito enorme pelos caminhos de Deus. O que quis dizer foi que, seja pela razão, seja pela emoção, seja pelo que for, só um coração aberto entende os assuntos da fé. Vai-se a Deus pelo coração, sim. Pode-se entender pela razão, mas só se o coração o permitir. E isto não é uma caixinha.

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