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Dilema dos Amantes IV

por João Miguel Tavares, em 15.03.13
Voltando ao tema do Dilema dos Amantes, devo dizer que subscrevo boa parte dos comentários da Teresa e da Marta, e percebo quando elas sentem necessidade de sublinhar que as pessoas ainda se esforçam por sustentar as suas relações. Eu não quero de forma alguma dar a entender que as separações dos dias de hoje são feitas de ânimo leve. Não são. Continuam a ser tão dolorosas quanto sempre foram. Agora, o que não há a menor dúvida - são factos estatísticos - é que são em muito maior número. Porque são muito mais os divórcios e certamente muito mais as relações amorosas que uma pessoa estabelece ao longo da vida. Ou seja, é indesmentível que as pessoas se estão a separar mais, e mesmo certas flutuações pontuais não afectam a tendência geral.

As explicações para isso não são necessariamente negativas. Acredito que hoje em dia a exigência de honestidade numa relação seja muitíssimo superior à de antigamente, as infidelidades não são admitidas como eram e os papéis de homem e mulher estão, felizmente, muito mais equilibrados. Tudo coisas boas. Mas quando se considera a duração de uma relação amorosa como um bem em si (ainda que não a qualquer custo, como é óbvio) uma pessoa não se interroga apenas "porque é que isto está a acontecer?", mas também "o que é que eu posso fazer para o evitar?"

Diz a Marta: "Hoje em dia, as pessoas, os casais, são apenas racionais: estão juntos enquanto isso os faz felizes." Com certeza. A questão está em saber de que forma se consegue aumentar a longevidade dessa felicidade. Num dos comentários, a Ana Rute Cavaco cita o teólogo luterano alemão Dietrich Bonhoeffer, que disse a propósito do casamento: "não é o teu amor que sustenta o casamento mas, a partir de agora, o casamento que sustenta o teu amor". Para quem tem uma visão sagrada do matrimónio, isso é sem dúvida uma verdade. Mas eu nem quero entrar por aí, porque para todos os efeitos a minha fé não é grande coisa.

O que me interessa, e eu já tentei sublinhar isso anteriormente, é saber se as relações soçobram mais nos dias de hoje por nós também sermos mais egoístas, e vivermos mais centrados na satisfação das nossas necessidades individuais. Isso pode estar relacionado com coisas como casar mais tarde, o que dificulta o encaixe do outro nos nossos hábitos; ou no cultivo assolapado de uma frase que odeio de morte: "eu sou como sou", pináculo do egocentrismo idiota, como se estivéssemos impedidos de corrigir os nossos erros e tentarmos ser pessoas melhores.

Em resumo, a tese é esta: não só temos dificuldade em abdicar daquilo que nos dá prazer no imediato em nome de princípios abstractos, como nos custa colocar os desejos do outro à frente dos nossos. E isso, cá para mim, é caminho andado para que tudo numa relação venha a correr mal.


publicado às 00:49


11 comentários

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De Teresa Pinho a 15.03.2013 às 08:32

Na verdade, parece-me que afinal concordamos em quase tudo. O que me interessa é também saber se as relações soçobram mais nos dias de hoje porque nós também semos mais egoístas e vivermos mais centrados na satisfação das nossas necessidades individuais.

A diferença na nossa forma de ver é que, tendo apenas por base o mundo que me rodeia (nada me garante que seja representativo, é verdade), acho que as pessoas estão agora mais abertas para colocar os desejos do outro à frente dos próprios desejos e, por isso, em resposta ao que ambos queremos saber, eu respondo não enquanto que o João Miguel Tavares responde sim.

Há, claro, uma questão de desigualdade de género: poderiamos argumentar que no tempo dos nossos avós as mulheres colocavam os desejos do marido à frente dos seus desejos mais do que as mulheres de agora. Mas isso parece-me uma comparação limitada: não só muitas vezes o faziam a um nível além do aceitável numa relação de respeito mútuo como o faziam porque assim o eram obrigadas.

E agora é diferente: julgo que agora mulheres e homens escolhem abdicar daquilo que lhes dá prazer no imediato em nome de princípios abstractos - o Amor e o compromisso - e não em nome de pressões sociais ou porque não tenham autonomia financeira para que consigam viver se for de outra forma. Agora é por escolha, não por obrigação. E, para mim (e acredito que para o João Miguel Tavares também), 5 anos por escolha, com respeito mútuo e empenhamento de ambas as partes na relação, vale muito mais do que 50 anos por obrigação.

Em resumo, parece-me que concordamos em tudo menos na conclusão.

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