A questão da pobreza e da riqueza e da atitude que assumimos perante a vida pode ser ilustrada com a tão badalada troca de argumentos entre o Martim e a Raquel no programa
Prós & Contras de segunda-feira, que podem ver aqui:
A reposta do Martim - "quem ganha o salário mínimo pelo menos não está no desemprego" - fez rejubilar os blogues de direita. Percebe-se porquê. E a ter de escolher um dos campos - estás com o Martim, ou estás com a Raquel? - eu não teria dúvidas em dizer que estou com o Martim.
Mas isso não significa que a preocupação da Raquel não tenha razão de ser. Quando nós olhamos para estas fábricas no Bangladesh de roupa para alimentar a Europa e os Estados Unidos
que depois acabam nisto
é difícil que não exista um estremecimento de consciências. É inadmissível que as pessoas trabalhem nestas condições. Mas eis o que é tragicamente complexo: embora estas condições de trabalho sejam péssimas e inadmissíveis, elas permitiram ainda assim tirar milhões de pessoas da pobreza extrema em todo o mundo. A deslocalização de fábricas americanas ou alemãs para o terceiro mundo, em busca de maiores lucros - a ganância capitalista, como alguns lhe chamam -, possibilitou crescimentos homéricos em países como a China e a Índia. E - pior - é esse mesmo crescimento que hoje em dia está a afundar uma economia como a portuguesa, por exemplo, porque isto anda tudo ligado.
A verdade é que não é possível comprar vestidos tão giros na Zara, na H&M ou na Primark àqueles preços e depois esperar que eles sejam feitos no Vale do Ave pagando 1000 euros por mês a cada trabalhador. Ou seja, há sempre uma linha muito fina a separar o moralismo da hipocrisia. Da economia de mercado se pode dizer o mesmo que Churchill dizia da democracia: é o pior sistema com a excepção de todos os outros. O certo é que, com toda a injustiça que ele promove, a economia de mercado foi responsável, como nenhum outro sistema, pelo melhoramento da vida de biliões de pessoas.
É a chamada mão invisível que Adam Smith teorizou em
A Riqueza das Nações: cada pessoa procurando com o máximo empenho os seus interesses individuais acaba por conduzir a uma melhoria geral das condições de vida das sociedades. Nesse sentido, é mais útil à economia o rico que coloca o seu dinheiro a circular à vista de todos (a
acusação que me fizeram nos comentários deste blogue - embora, infelizmente, eu esteja muito longe de ser rico) do que o Tio Patinhas com que tenho ilustrado os meus textos, um avaro que adora mergulhar para dentro dos milhões que guarda no seu cofre-forte. Esse, sim, é um mau rico - porque é um rico inútil, que não utiliza o seu dinheiro para melhorar a vida dos outros, criando emprego.
Eu, por exemplo, odeio que me transportem as malas para o quarto de um hotel e nunca deixo as bandejas na mesa num centro comercial. Mas se todas as pessoas tivessem esta minha suposta humildade, o resultado é que alguns empregados de hotel e algumas empregadas de limpeza dos centros comerciais iriam para o olho da rua, porque não seriam necessários.
A grande questão, pois, está em conseguir o equilíbrio entre o empreendedorismo do Martim e a luta pela justiça da Raquel. Ambos são sentimentos altamente louváveis - mas vivem numa evidente tensão na forma como a nossa sociedade está organizada. O nosso eterno desafio, pois, como pessoas que procuram ser justas e contribuir para um mundo melhor, está em viver num estado de lucidez e empatia permanentes, tentando a cada momento destrinçar qual o melhor caminho para as nossas acções.
Isso prende-se, inclusivamente, com outras questões, que também são um desafio para qualquer pai: o que fazer quando alguém pede esmola na rua diante dos nossos filhos?
A minha opinião fica para um próximo post, que este, tal como o anterior, também já vai grande demais. Mas digam-me, por favor: o que é que vocês fazem quando isso acontece?