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por João Miguel Tavares, em 23.05.13
A propósito de tudo o que tem andado a ser dito sobre as dificuldades do mundo, uma leitora deixou na caixa de comentários um link para um belíssimo texto da jornalista e escritora brasileira Eliana Brum. Não é todos os dias que se lêem coisas tão boas (e certamente não por aqui), portanto, aproveitem.

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publicado às 14:49


Porque é que o mundo é uma coisa complicada 2

por João Miguel Tavares, em 23.05.13
A questão da pobreza e da riqueza e da atitude que assumimos perante a vida pode ser ilustrada com a tão badalada troca de argumentos entre o Martim e a Raquel no programa Prós & Contras de segunda-feira, que podem ver aqui:


A reposta do Martim - "quem ganha o salário mínimo pelo menos não está no desemprego" - fez rejubilar os blogues de direita. Percebe-se porquê. E a ter de escolher um dos campos - estás com o Martim, ou estás com a Raquel? - eu não teria dúvidas em dizer que estou com o Martim.

Mas isso não significa que a preocupação da Raquel não tenha razão de ser. Quando nós olhamos para estas fábricas no Bangladesh de roupa para alimentar a Europa e os Estados Unidos



que depois acabam nisto


é difícil que não exista um estremecimento de consciências. É inadmissível que as pessoas trabalhem nestas condições. Mas eis o que é tragicamente complexo: embora estas condições de trabalho sejam péssimas e inadmissíveis, elas permitiram ainda assim tirar milhões de pessoas da pobreza extrema em todo o mundo. A deslocalização de fábricas americanas ou alemãs para o terceiro mundo, em busca de maiores lucros - a ganância capitalista, como alguns lhe chamam -, possibilitou crescimentos homéricos em países como a China e a Índia. E - pior - é esse mesmo crescimento que hoje em dia está a afundar uma economia como a portuguesa, por exemplo, porque isto anda tudo ligado.

A verdade é que não é possível comprar vestidos tão giros na Zara, na H&M ou na Primark àqueles preços e depois esperar que eles sejam feitos no Vale do Ave pagando 1000 euros por mês a cada trabalhador. Ou seja, há sempre uma linha muito fina a separar o moralismo da hipocrisia. Da economia de mercado se pode dizer o mesmo que Churchill dizia da democracia: é o pior sistema com a excepção de todos os outros. O certo é que, com toda a injustiça que ele promove, a economia de mercado foi responsável, como nenhum outro sistema, pelo melhoramento da vida de biliões de pessoas.

É a chamada mão invisível que Adam Smith teorizou em A Riqueza das Nações: cada pessoa procurando com o máximo empenho os seus interesses individuais acaba por conduzir a uma melhoria geral das condições de vida das sociedades. Nesse sentido, é mais útil à economia o rico que coloca o seu dinheiro a circular à vista de todos (a acusação que me fizeram nos comentários deste blogue - embora, infelizmente, eu esteja muito longe de ser rico) do que o Tio Patinhas com que tenho ilustrado os meus textos, um avaro que adora mergulhar para dentro dos milhões que guarda no seu cofre-forte. Esse, sim, é um mau rico - porque é um rico inútil, que não utiliza o seu dinheiro para melhorar a vida dos outros, criando emprego.


Eu, por exemplo, odeio que me transportem as malas para o quarto de um hotel e nunca deixo as bandejas na mesa num centro comercial. Mas se todas as pessoas tivessem esta minha suposta humildade, o resultado é que alguns empregados de hotel e algumas empregadas de limpeza dos centros comerciais iriam para o olho da rua, porque não seriam necessários.

A grande questão, pois, está em conseguir o equilíbrio entre o empreendedorismo do Martim e a luta pela justiça da Raquel. Ambos são sentimentos altamente louváveis - mas vivem numa evidente tensão na forma como a nossa sociedade está organizada. O nosso eterno desafio, pois, como pessoas que procuram ser justas e contribuir para um mundo melhor, está em viver num estado de lucidez e empatia permanentes, tentando a cada momento destrinçar qual o melhor caminho para as nossas acções.

Isso prende-se, inclusivamente, com outras questões, que também são um desafio para qualquer pai: o que fazer quando alguém pede esmola na rua diante dos nossos filhos?

A minha opinião fica para um próximo post, que este, tal como o anterior, também já vai grande demais. Mas digam-me, por favor: o que é que vocês fazem quando isso acontece?

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publicado às 14:32


Porque é que o mundo é uma coisa complicada 1

por João Miguel Tavares, em 22.05.13
Devo dizer-vos que fiquei impressionado com a quantidade de comentários ao meu post burguês, mas suponho que quando raspamos um bocadinho o verniz social tudo se resume às velhas dicotomias medievais, porque elas são essenciais para a nossa limitada cabecinha funcionar: bom/mau, feio/bonito, verdadeiro/falso, e se calhar em tempos de economês suponho que lhe possamos acrescentar o rico/pobre.

Mas se trouxe esse assunto para aqui é porque eu também sou sensível a ele, e hoje em dia não há acusação que faça mais recorrentemente à Carolina do que ela estar a transformar-se numa menina queque, em que acha que tudo lhe cai do céu. Eu e a Teresa somos ambos filhos da típica classe média de funcionários públicos do interior de Portugal, o que significa que nunca nos faltou nada, mas também nunca tivemos nada em excesso, julgo eu. Aquilo que de mais precioso os nossos pais no deram foi a nossa educação, e felizmente eu e a Teresa saímo-nos bem. Somando isso à melhoria geral do nível de vida até à crise, isso significa que os nossos filhos têm hoje acesso a milhentas coisas que nós nunca tivemos.

Se eles entram numa livraria compram um livro. Se eles vão comigo ao quiosque comprar jornais recebem três ou quatro carteiras de cromos. Se eu passo pelo El Corte Inglés para comprar uma prenda para o aniversário de um amiguinho e vejo uma coisa de que eles também vão gostar, sou capaz de trazer uma coisinha para cada um e inventar uma razão qualquer para lhes oferecer (porque estiveram em casa com febre, porque tiveram um Satisfaz Muito Bem num teste, sei lá eu).

Isso significa que aquilo que para mim era altamente negociado com os meus pais - por exemplo, uma prenda fora da época de Natal ou de um dia de anos -, para eles é um dado adquirido. Na minha vida, só me lembro de ter completado uma caderneta de cromos (da Abelha Maia) - eles já completaram 15 ou 20, e nem sequer parecem ligar-lhes por aí além. Ou seja, tudo é mais fácil para eles, embora, paradoxalmente, isso tenha um enorme vantagem: são mais desligados das coisas do que eu era. Como tinha muito menos quando era pequeno, para mim emprestar um livro a um miúdo ou um brinquedo era assim como arrancarem-me as unhas a sangue frio. Ainda hoje me custa emprestar um livro ou um disco de que gosto muito a alguém (também porque nesta terra as pessoas, em geral, não têm o menor cuidado em devolver as coisas dos outros). As crianças cá de casa não, felizmente - estendem as coisas e está a andar.

Dito isto, assusta-me muito a facilidade com que os meus filhos se arrogam no direito de pedir isto e aquilo. E tenho medo sobretudo que a Carolina, que é mais velha e tem uma certa tendência para o show-off e para mandar nos outros, comece a ter excesso de orgulho naquilo que tem e na família mais ou menos conhecida. Se um dia eu descubro que ela usa isso como argumento para se impor socialmente, estaria capaz de a pendurar do estendal pelos cabelos. Nesse sentido, ela precisa de começar rapidamente a compreender o que são as dificuldades, a pobreza e a solidão - não no sentido de saber que existem, mas no sentido de perceber realmente o que são - para começar a dar valor àquilo que tem. Chama-se a isso acção social, e acho extremamente importante que ela o faça.

Em relação a este blogue e à crítica clássica da exibição da riqueza em tempos de pobreza, também queria acrescentar mais um par de coisas, mas este post já vai longo, e portanto, um novo post há-de surgir sobre esse assunto, entre hoje à noite e amanhã. Mas até lá espero que os leitores mais ou menos burgueses deste blogue digam coisas.


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publicado às 11:23


Um grande susto

por João Miguel Tavares, em 21.05.13
No sábado passado vinha a sair da natação descontraidamente com os três miúdos mais velhos quando o Gui decide passar sozinho a rua de São Bento. É certo que não vinha nenhum carro e que ele até olhou, mas depois de fazer aquilo fiquei com vontade de lhe arrancar a cabeça, o que era capaz de ser mais prejudicial à sua saúde do que se tivesse sido atropelado. Eu fiquei debaixo de um carro quando tinha mais ou menos a idade dele, e estou farto de contar histórias domésticas sobre a responsabilidade de andar na rua e saber parar no passeio quando a estrada se aproxima, atravessando apenas com o ok dos pais.

Quando se tem quatro filhos, não existem mãos que cheguem para agarrar todos eles, mais o material que é preciso transportar quando se sai de casa. Assim, o único remédio é começar a treiná-los desde pequeninos para caminharem de forma independente mas responsável. Como por esta altura vocês já devem saber, eu sou muito crítico do excesso de protecção paternal, pois vivemos numa sociedade em que mal os perdemos de vista 10 segundos (porque eles já viraram a esquina e nós ainda não) achamos que estão inevitavelmente fadados a encontrarem-se com Jack, o Estripador. E depois o que acontece, como um dia disse Daniel Sampaio, é que eles passam quase directamente de não poderem ir sozinhos para a escola para saírem à noite até às quatro da manhã.

Nesse sentido, dar-lhes independência é uma luta contra nós próprios: claro que eu preferia tê-los sempre pela trela quando andam na rua, mas acho genuinamente que não o devo fazer - para espanto de alguns pais que me encontram a caminho da escola e me devem achar demasiado despreocupado. Não sou, na verdade, mas tento disfarçar o melhor que posso, porque não há nada mais bonito do que um filho independente e bem comportado. Mas claro, depois acontecem coisas destas e nós reavaliamos tudo outra vez.

Desde sábado, o Gui está de castigo e vai comigo para o infantário pela mão. Eu expliquei-lhe muito bem porquê, e agora pergunta-me todos os dias: "quando é que voltas a confiar em mim?" Como costuma acontecer com todos os traídos, acho que ainda vai demorar bastante.

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publicado às 09:49


Filhos e socialismo

por João Miguel Tavares, em 20.05.13
Já agora, para quem misturava a política com este blogue, aqui fica um texto provocador publicado no jornal i há pouco mais de uma semana pela Inês Teotónio Pereira, chamado "os meus filhos são socialistas". É político. Mas tem imensa graça. Por isso partilho-o aqui:

Não sei se são só os meus filhos que são socialistas ou se são todas as crianças que sofrem do mesmo mal. Mas tenho a certeza do que falo em relação aos meus. E nada disto é deformação educacional – eles têm sido insistentemente educados no sentido inverso. Mas a natureza das criaturas resiste à benéfica influência paternal como a aldeia do Astérix resistiu culturalmente aos romanos. Os garotos são estóicos e defendem com resistência a bandeira marxista sem fazerem ideia de quem é o senhor.

Ora o primeiro sintoma desta deformação ideológica tem que ver com os direitos. Os meus filhos só têm direitos. Direitos materiais, emocionais, futuros, ambíguos e todos eles adquiridos. É tudo, absolutamente tudo, adquirido. Ele dão como adquirido o divertimento, as férias, a boleia para a escola, a escola, os ténis novos, o computador, a roupinha lavada, a televisão e até eu. Deveres, não têm nenhum. Quanto muito lavam um prato por dia e puxam o edredão da cama para cima, pouco mais. Vivem literalmente de mão estendida sem qualquer vergonha ou humildade. Na cabecinha socialista deles não existe o conceito de bem comum, só o bem deles. Muito, muito deles.

O segundo sintoma tem que ver com o aparecimento desses direitos. Como aparecem esses direitos. Não sabem. Sabem que basta abrirem a torneira que a água vem quente, que dentro do frigorífico está invariavelmente leite fresquinho, que os livros da escola aparecem forradinhos todos os anos, que o carro tem sempre gasolina e que o dinheiro nasce na parede onde estão as máquinas de multibanco. A única diferença entre eles e os socialistas com cartão de militante é que, justiça seja feita, estes últimos já não acreditam na parede – são os bancos que imprimem dinheiro e pronto, ele nunca falta. 

Outro sintoma alarmante é a visão de futuro. O futuro para os meus filhos é qualquer coisa que se vai passar logo à noite, o mais tardar. Eles não vão mais longe do que isto. Na sua cabecinha não há planeamento, só gastamento, só o imediato. Se há, come-se, gasta-se, esgota-se, e depois logo se vê. Poupar não é com eles. Um saco de gomas ou uma caixa de chocolates deixada no meio da sala da minha casa tem o mesmo destino que um crédito de milhões endereçado ao Largo do Rato: acaba tudo no esgoto. E não foi ninguém...

O quarto tique socialista das minhas crianças é estarem convictas de que nada depende delas. Como são só crianças, acham que nada do que fazem tem importância ou consequências. Ora esta visão do mundo e da vida faz com que os meus filhos achem que podem fazer todo o tipo de asneiras que alguém irá depois apanhar os cacos. Eles ficam de castigo é certo (mais ou mesmo as mesma coisa que perder eleições), mas quem apanha os cacos sou eu. Os meus filhos nasceram desresponsabilizados. A responsabilidade é sempre de outro qualquer: o outro que paga, o outro que assina, o outro que limpa. No caso dos meus filhos o outro sou eu, no caso dos socialistas encartados o outro é o governo seguinte.

Por fim, o último mas não menos aterrorizador sintoma muito socialista dos meus filhos é a inveja: eles não podem ver nada que já querem. Acham que têm de ter tudo o que o do lado tem quer mereçam quer não. São autênticos novos-ricos sem cheta. Acham que todos temos de ter o mesmo e se não dá para repartir ninguém tem. Ou comem todos ou não come nenhum. Senão vão à luta. Eu não posso dar mais dinheiro a um do que a outro ou tenho o mesmo destino que Nicolau II. Mesmo que um ajude mais que outro e tenha melhores notas, a “cultura democrática” em minha casa não permite essa diferenciação. Os meus filhos chamam a esta inveja disfarçada, justiça, os socialistas deram-lhe o nome de justiça social.

A minha sorte é que os meus filhos crescem. Já os socialistas são crianças a vida inteira.


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publicado às 00:33


Importas-te de chorar mais baixo?

por João Miguel Tavares, em 20.05.13
José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

O meu pediatra tem uma resposta darwiniana para a pergunta “porque é que os bebés choram tanto?”. Segundo ele, os bebés actuais são descendentes da linhagem que mais gritava nos tempos das cavernas: numa era em que a EDP ainda não tinha iniciado a sua actividade de exploração eléctrica e as comunidades humanas eram atacadas por tudo o que mexia, obrigando a fugas velozes, os bebés que se safavam eram aqueles que melhor se conseguiam fazer ouvir. Esta técnica teve a grande vantagem passada de ajudar à sobrevivência da espécie humana e a grande desvantagem presente de eles virem munidos das cordas vocais mais estridentes do planeta, mesmo numa época em que já existem interruptores e os bichos perigosos estão a dormitar no zoo.

O problema principal reside na incompatibilidade estrutural entre os meus tímpanos quinta geração e as cordas vocais primeira geração dos bebés. Enquanto eu tenho um pavilhão auricular século XXI, frequentado por toda uma bonita história melódica da música ocidental pós-Bach, a Ritinha tem uma garganta de há 300 mil anos, emissora de sons neanderthais. Na verdade, eu desconheço a existência de estudos que confirmem a teoria do meu pediatra, mas de uma coisa estou certo: nós, pais, estamos programados para reagir pavlovianamente ao choro dos bebés, porque não há nada que nos dê mais cabo da moleirinha do que um miúdo de meia-dúzia de meses aos berros. Quando a Rita chora muito, é como se o interior do meu ouvido fosse vítima de um terramoto de 8,5 na escala de Richter – só me apetece fugir dali e gritar por ajuda.


O resto do texto pode ser encontrado aqui.

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publicado às 00:23


Saiu uma mesa para quatro

por João Miguel Tavares, em 18.05.13
E para quem ficou curioso sobre a mesa que se vê no vídeo, aqui está ela:
É de uma empresa americana chamada Toddler Tables. Eles dizem que dá para crianças dos cinco aos 24 meses.

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publicado às 14:33


As quadrigémeas, muitos anos depois

por João Miguel Tavares, em 18.05.13
Já agora, ainda em relação a este post, se alguém tiver curiosidade como estão hoje as quadrigémeas Mathias, 13 anos após o seu nascimento, ei-las:



A família tem um site próprio, aqui.

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publicado às 14:25


(Mais) risota pegada

por João Miguel Tavares, em 17.05.13
Lembram-se deste vídeo? Na altura em que o postou, a Teresa não o disse, mas ele é realmente antigo, de 2000, e venceu um concurso americano de vídeos caseiros. Mas um dia depois, a mãe dos quadrigémeos Grace, Emily, Mary Claire e Anna filmou o pai deles em mais um grande momento de divertimento colectivo. O que faz destas miúdas as quadrigémeas mais castiças do hemisfério norte (pelo menos). Ora vejam:


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publicado às 21:41


Eu, burguês, me confesso

por João Miguel Tavares, em 16.05.13
Dois leitores decidiram apimentar este blogue com comentários sobre temas que me são caros. Cada um à sua maneira, fizeram críticas a mim, à minha família e ao Pais de Quatro de um ponto de vista que poderemos considerar marxista: nós somos um bando de burgueses insensíveis, que andamos por aqui a exibir a nossa vida luxuosa, indiferentes ao sofrimento dos mais pobres. O primeiro comentário surgiu já há uns tempos num post sobre o Balotelli e a ex-namorada. E rezava assim:

Boa, João. Fica-te por estas mexeriquices, porque de política e de sociedade não vês um canudo. Só não percebo uma coisa: se achas que tens piada para aparecer na TV com piadinhas sobre situações que, se analisares um pouquinho mais fundo, verás que são graves para muitas famílias, porque é que não fazes antes stand-up sobre assuntos triviais? 

O outro comentário foi feito há um par de dias a partir deste post:

A banalidade dos posts deste blogue e a exaltação das alegrias da vida familiar preenchida por uma ranchada de crianças lindas, roça, por vezes, a obscenidade. Então e se em vez de "a mamã é médica" e "o papá é um jornalista famoso e ilustre membro da elite intelectual lisboeta", que passam fins-de-semana idílicos na casa das Penhas Douradas e outros poisos afins, fosse "a mamã é administrativa" e "o papá é polícia", e em vez das Ritas, das Carolinas, das Pilar e das Assunção fossem o Fábio e a Sandra, seria assim tudo tão cor-de-rosa? De onde provém o sustento destes dois jovens universitários? Um pouco mais de pudor seria prudente.

Este segundo comentário é bastante mais interessante do que o primeiro, mas todos eles são um convite ao silenciamento - ou, pelo menos, a um certo nível de decoro - por alegada falta de sensibilidade social. Vamos por partes.

Em relação à questão da televisão e das minhas posições políticas, eu nunca as trouxe para este blogue porque tenho outros sítios onde as manifestar - e assim continuará a ser. Quem detesta o que eu escrevo no Público ou aquilo que defendo no Governo Sombra está no seu inteiro direito, embora seja altamente irritante esta mania de achar que quem não concorda com os nossos pontos de vista ou é imbecil ou mal-intencionado. O tique nacional de pessoalizar qualquer divergência ideológica mais acentuada é um absurdo (tal como a eterna superioridade moral da esquerda, que se acha sempre do lado dos pobres, enquanto a direita só quer o bem dos ricos), e se eu coloco tanto empenho em escrever sobre a minha família é porque sou um adepto da transparência da vida como forma de revelar a sua complexidade e os vários mundos que temos dentro de nós. O nosso posicionamento político ou as nossas convicções sobre assuntos económicos são uma ínfima parte daquilo que nós somos, e nem de perto, nem de longe, aquilo que mais conta nas nossas vidas.

E este é, de facto, o ponto, sobretudo quando o autor do segundo comentário entende que a "exaltação das alegrias da vida familiar" neste blogue "roça a obscenidade". Porquê? Porque a minha mulher é médica e eu sou "membro da elite intelectual lisboeta", o que supõe que nós sejamos particularmente abastados e convidaria a um prudente silêncio. A parte do "membro da elite intelectual lisboeta" é muitíssimo divertida, porque se o leitor conhecesse realmente algum membro desse grupo saberia que jamais me deixariam entrar no clube. O facto de eu aparecer na televisão e de escrever em jornais não esconde nunca o facto de eu ser um pobre labrego alentejano, como aliás já dei testemunho em posts como este.

Mas a ideia de que alguém tem de se conter no testemunho que dá da sua vida porque hoje em dia tem possibilidade de pagar uma noite em família na Serra da Estrela, pode ir comer fora quando lhe apetece ou de repente decide ir passar um dia na Kidzânia é não só bizarra, como vive na tal obsessão de que é o dinheiro que faz girar tudo no mundo. Ora, aquilo de que este blogue fala é essencialmente de duas coisas: de educação e de amor, e receio bem que o dinheiro não compre nem uma coisa, nem outra. Ajuda? Com certeza. Mas reduzir o ser humano à dimensão da sua carteira é, isso sim, uma tremenda pobreza.

E depois, deixem-me só puxar dos galões num aspecto: é que, ainda para mais, o fruto do nosso trabalho está ao serviço de uma família que hoje em dia tem seis membros. Não foi estourado em viagens anuais a Bora Bora ou em malas Louis Vuitton. Ele é devolvido à sociedade na forma mais nobre que me parece que existe: crianças com os valores certos (quero eu acreditar), que têm tudo para poder vir a deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraram, tal como o pai e a mãe deles tentam fazer todos os dias - e independentemente do dinheiro que em cada momento têm na sua conta bancária (e posso garantir-vos que varia muito). O facto de isso, só por si, não ser merecedor de respeito, diz muito do país em que vivemos e da selecção das nossas prioridades. 


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publicado às 14:04




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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